quarta-feira, 23 de julho de 2008

Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz (IV)

Carlos Nougué
4) Faltou-nos verificar no artigo anterior a possibilidade, no âmbito da pura naturalidade humana, da “contemplação da sabedoria que versa sobre as coisas divinas” (e que consiste na “suprema felicidade do homem”). Vimos naquele artigo a impossibilidade, no mesmo âmbito, da total incolumidade do corpo; a impossibilidade do apaziguamento total das perturbações das paixões internas por meio das virtudes e da prudência que adquirimos naturalmente; e a impossibilidade de total apaziguamento das paixões externas mesmo pelo melhor dos regimes ou governos.

Sucede porém que a “contemplação da sabedoria que versa sobre as coisas divinas” é, sim, possível naturalmente. Para todo e qualquer católico, aliás, isso é também um dado de fé, dogmaticamente estabelecido pelo Concílio Vaticano I da seguinte maneira:

• “Se alguém disser que Deus vivo e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas que foram criadas, seja anátema” (cf. Dz. 1806);

• “A mesma Santa Madre Igreja sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana partindo das coisas criadas” (cf. Dz. 1785).

Não fazia o Concílio senão confirmar, com sua autoridade, o que sempre haviam dito as Escrituras, como nas seguintes passagens:

• “Quão numerosas são as vossas obras, ó Senhor! Fizestes com sabedoria todas as coisas: a terra está cheia das vossas criaturas” (Sl., CIII, 24);

• “Porque pela grandeza e beleza da criatura se pode chegar visivelmente ao conhecimento do seu Criador” (Sab., XIII, 5);

• “Com efeito, a ira de Deus manifesta-se do céu contra toda a impiedade e injustiça daqueles homens que retêm na injustiça a verdade de Deus; porque o que se pode conhecer de Deus lhes é manifesto, pois Deus lho manifestou. Porque as coisas invisíveis d’Ele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; e assim o seu poder eterno e a sua divindade; de modo que [aqueles homens] são inescusáveis” (Rom., I, 18-20).

Mas, além de confirmar ainda nesta questão os dados de fé das Escrituras, confirmava o Concílio Vaticano I também o que haviam dito filosófica e teologicamente muitos doutores da Igreja, entre os quais, obviamente, o Doutor Comum, Santo Tomás de Aquino.

Como dizia o Aquinate, “Há [...] três conhecimentos do homem referentes às coisas divinas: o primeiro [dá-se] na medida em que o homem, mediante a luz natural da razão e por meio das criaturas, se eleva até o conhecimento de Deus [...]” (Suma contra os Gentios, IV, I, 5 [3343]). Os outros dois conhecimentos são o da fé e o da visão beatífica, e neles é Deus mesmo quem se dá a conhecer ao homem. Não é destes dois últimos conhecimentos, certamente, que estamos tratando aqui; mas retenha-se desde já a seguinte série de distinções.

• Se há identidade quanto ao objeto material nos diversos conhecimentos de Deus, não assim quanto ao aspecto formal: no conhecimento natural de Deus, é o homem, unicamente através das suas faculdades, quem chega a conhecer certas verdades de Deus por via demonstrativa ou, mais precisamente, indutiva (dos efeitos para a causa), enquanto nos demais conhecimentos o homem é antes de tudo um receptor. (Cf. Santo Tomás de Aquino, ibid., IV, I, 9 [3349].)

• A mesma Verdade total, Deus, divide-se em duas ordens de verdades segundo o modo de conhecê-La. Assim, há a ordem das verdades referentes a Deus que a razão pode inteligir por si mesma (como, por exemplo, Deus ser e ser uno); e há a ordem das verdades divinas que excedem toda a capacidade da razão humana (como, por exemplo, Deus ser uno e trino). No primeiro caso, estão as verdades da ordem do conhecimento humano natural; no segundo, as da ordem da fé. Mas note-se: trata-se de ordens indissoluvelmente complementares e não-contraditórias entre si. (Cf. idem, ibid., I, III, 2 [13].)

• Dessas duas ordens de verdades a respeito de Deus derivam duas teologias: a primeira é a teologia natural, e a segunda é a teologia revelada, as quais, assim como as duas ordens de verdades de que derivam, são complementares e não-contraditórias entre si. Mas registre-se que a teologia natural, como ápice do conhecimento humano, é o coroamento da filosofia: “[...] o grau supremo do conhecimento humano [...] consiste no conhecimento de Deus” (Idem, ibid., I, IV, 3 [23]).

P.S.1: Em seguida ao que se lê mais acima, diz ainda São Paulo na Epístola aos Romanos: “Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como a Deus, nem lhe deram graças, mas desvaneceram-se nos seus pensamentos, e obscureceu-se o seu coração insensato; porque, dizendo-se sábios, tornaram-se estultos [...]” (I, 21-22).

P.S.2: Retenha-se também desde já: o princípio subjetivo do conhecimento de Deus por parte do homem é a razão natural em estado de natureza caída — e é também por sabê-lo e aceitá-lo que forçosamente os católicos tomam a senda oposta à do liberalismo.

(Prossegue)