terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Teologia Moral, ciência das ciências práticas

Santo Afonso de Ligório e a Theologia Moralis

Sidney Silveira
Santo Alberto Magno, em sua Suma Teológica, dizia com muito acerto que o nome não é outra coisa senão uma implícita definição; e a definição é, essencialmente, a explicação detalhada do nome. Nome e definição são, portanto, a matéria prima do filósofo, o insumo que lhe permite fazer as distinções necessárias por meio das quais entrará na posse imaterial da essência dos entes — posse esta a que, sem medo de errar, podemos chamar de verdade.

Ocorre que as pessoas não versadas em filosofia lidam com essa mesma matéria prima das palavras, pois também se vêem na contingência de dar mínimo sustentáculo racional às suas idéias, ou ao menos uma justificativa plausível, ainda que em aparência. Na prática, quanto mais precisas forem as definições que explicitam o sentido dos nomes (os quais — lembremos! — se referem direta ou indiretamente às coisas reais), maior será a clareza da inteligência para palmilhar os caminhos que levam às verdades fundamentais norteadoras da nossa vida prática.

A propósito, com relação à vida prática, a mais importante matéria a ser estudada é, sem dúvida, a Teologia Moral (por razões que veremos adiante). Trata-se da parte da Teologia que estuda os atos humanos em ordem ao fim sobrenatural de todas as criaturas: Deus. Em síntese, muito mais do que uma simples casuística dos pecados, como alguns liberais desencaminhadores de almas querem nos fazer crer, a Teologia Moral é o estudo dos modos pelos quais a criatura racional pode fazer o seu movimento ascensional a Deus. Sendo assim, a Teologia Moral é, antes de tudo, uma ciência das virtudes, um receituário dos costumes cristãos, com a indicação de remédios naturais e sobrenaturais para os desvios de curso que aviltam a inteligência e a vontade humanas.

Repito: não se trata de simples casuística, mas dos princípios universais balizadores da vida ética em seu sentido mais elevado, daí o fato de grandes Doutores da Igreja dizerem que o conhecimento desta matéria é absolutamente necessário para os sacerdotes, e utilíssimo para os fiéis. Portanto, quando ouço um liberalzão dizer que Santo Afonso de Ligório é rigorista, dando a entender que a Teologia Moral, em sentido lato, é uma desnecessidade (não sem antes, espertamente, tê-la reduzido a uma mera casuística), o sangue me queima nas veias, pois vejo o quanto um sujeito desses é capaz de afastar de Deus as pessoas que lhe dão trela. E afasta mesmo! Sobretudo aquelas almas que, de alguma forma, estão na Igreja ou aproximando-se dela, por um efeito narcótico que entorpece a inteligência e desvirtua os seus fins superiores — ao inocular nelas, por meio de ardis sofísticos, conceitos errôneos sobre temas de capital importância. Olha, pessoal, o que já li e ouvi desses liberais (alguns católicos, outros “evangélicos”) é de arrepiar. Por exemplo? Que castidade é apenas evitar o incesto. Que o ideal seria cada homem refazer, individualmente, por sua conta e risco, toda a moral. E por aí vamos, por Malebolge...

A importância extraordinária da Teologia Moral torna-se clara pela simples consideração do objeto desta ciência: os atos humanos em ordem ao fim último de todas as criaturas. E é neste sentido que acima se afirmou que ela é a mais importante matéria a ser estudada. Sim, pois se a verdadeira razão de ser de toda a nossa vida nesta Cidade dos Homens é nos encaminharmos à Cidade de Deus, à Pátria eterna, nenhuma ciência prática poderá ser mais importante do que a Teologia Moral.

Esta ciência tem como fontes principais a Sagrada Escritura, o Magistério da Igreja, a Tradição, os Santos Padres e o sensus fidei do povo cristão. E, de uma forma subsidiária, a segunda parte da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino — Doutor Universal da Igreja. Ali estão condensados todos os principais problemas de que trata a Teologia Moral. E, para termos idéia da importância do Aquinate, não custa remeter-nos ao que dizia Pio XI na Encíclica Studorum ducem, de 29 de junho de 1923: “E Nós, ao fazermos eco a este coro de elogios tributados àquele sublime gênio [de Santo Tomás], aprovamos não apenas que ele seja chamado de Angélico, mas também que se lhe dê o título de Doutor Universal, posto que a Igreja fez sua a doutrina dele (grifo nosso!), como se confirma por muitíssimos documentos”.

Os melhores tratados de Teologia Moral seguem, pois, aquela parte da Suma Teológica, abordando os temas na seguinte ordem:

O fim último do homem
Os atos humanos
A lei
A graça
As virtudes em geral
Os pecados em geral
Os deveres do homem para com Deus
(virtudes teologais infusas; religião; Decálogo; Mandamentos da Igreja)
Os deveres do homem consigo mesmo (virtudes cardeais)
Os deveres do homem para com o próximo (individuais, familiares e sociais)

A quem não tem acesso à maravilhosa Teologia Moral de Santo Afonso, indico a leitura da segunda parte da Suma Teológica, que está à mão de todos, em várias edições. Em certo sentido, essa parte é a mais importante da obra do Angélico, razão pela qual me entristece deveras ver tomistas que só se dedicam aos temas metafísicos desta grandiosa catedral da inteligência humana canonizada pela Igreja, que, como disse o mesmo Pio XI, em alocução ao Instituto Internacional Angelicum, em 1925, "é como o Céu visto da terra".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um Natal no mundo de hoje


Carlos Nougué
Como não só dou aula numa pós-graduação de tradução em sete capitais do país, mas comecei há pouco tempo a dar cursos via Internet ou pessoalmente sobre diversos temas (um “Trivium”, a alma humana, a história da filosofia, etc.), acabei por deixar, nos últimos meses deste ano, de escrever para o nosso blog. Com isso deixei inconclusas algumas séries, entre as quais uma, creio, acompanhada com algum interesse: a sobre o sedevacantismo.

Mas retomarei em 2010, com certo ritmo, a escrita para o “Contra Impugnantes”. Qual será precisamente esse ritmo, ainda não o sei. Sei apenas que, a par de terminar a série sobre o sedevacantismo, centrarei ainda meus esforços no tema a cidade e a história, no qual se inclui a arte; sem nunca deixar de estudá-lo com fundamento no metafísico. Mas especialmente não podemos Sidney e eu deixar de escrever para o “Contra Impugnantes” porque, em modesta escala e alcance, nosso blog se tornou em seu pouco tempo de existência uma referência na luta contra o liberalismo. Luta principalmente no terreno da doutrina, onde tentamos mostrar que decorre do liberalismo ― que não é senão uma manifestação do humanismo e do antropocentrismo ― grande parte dos males do mundo moderno: a redução da inteligência ao relativismo; o esmagamento do realismo aristotélico-tomista e o império de uma “filosofia” que não é senão uma espécie de psicopatologia; em termos sociais, um mundo em que de maneira complexa, e por vezes conflituosa, se mesclam a democracia liberal, o comunismo e o “é proibido proibir”, tendo por base as megacorporações internacionais, por meio o ataque à lei natural e a perversão dos costumes, e por escopo um governo mundial, que não pode ser senão a ante-sala do reino do Anticristo; e, no âmbito do religioso, o modernismo e o ecumenismo vaticano-segundo.

Pois bem, é neste mundo terrível, tenebroso, criminoso, apóstata e, por essência, satanista que passaremos o próximo Natal. Que, portanto, este dia em que se comemora algo tão especial e único ― o nascimento de Jesus Cristo ―, em torno do qual, de algum modo, giram os tempos passados e futuros, nos sirva também para reafirmar a convicção de que fora do reinado social de Nosso Senhor não há na cidade humana senão ruína e caminho para a morte perpétua ― assim como fora da Igreja não há salvação. A convicção de que é sobretudo neste momento, quando mais parece “impraticável” a realeza social de Cristo, que mais devemos arvorá-la, brandi-la, defendê-la, explicá-la ― não seja que de tanto a omitirmos acabemos nós mesmos por negá-la. A convicção inquebrantável de que ou se é livre sob as bandeiras do Rei do universo, ou se é servo sob o pavilhão de Satanás. Nihil est tertium.

Um santo e feliz Natal a todos, e um novo ano repleto de progressos espirituais, é o que lhes desejamos Sidney e eu.

Adendo do Sidney: Há uma frase num livro do Pde. Calderón que particularmente aprecio, e vem a propósito do que disse o Carlos: ou a Cidade está sob a sombra da lei do Evangelho, ou será pasto de demônios santarrões. Em suma: ou o poder público se dobra ao reinado de Cristo, ou será sempre o promotor, em diferentes níveis, do reinado sociopático do Anticristo. Recentemente, apenas para dar um exemplo, dentre inúmeros que eu poderia trazer à luz, o governo francês patrocinou a Hellfest (isto mesmo, senhores, a festa do inferno!), com apoio financeiro da vice-presidente do Conselho da Cultura da cidade de Loire. Em suma, com dinheiro público, alguns roqueiros — tendo à frente o satanista Marlyn Manson, autoproclamado "reverendo de Satanás" — produziram 15 horas de música de louvor ao inimigo do gênero humano. Cerca de 60 mil pessoas participaram do "festival". Enquanto isso, aqui no Brasil, o filme "Do começo ao fim" está sendo rodado e tem o seguinte enredo, de acordo com os seus produtores em entrevista à imprensa nesta semana: um menino de 6 anos (6 anos!!!!!) se sente fortemente atraído (sexualmente!) pelo irmão de 4. A relação homossexual incestuosa "do começo ao fim" se inicia na mais tenra infância e se concretiza na idade adulta. Possivelmente, a produção (como acontece em quase 100% de nossa "arte" cinematográfica tupiniquim) deve ter algum patrocínio da lei Rouanet. Ou seja: do dinheiro público proveniente dos impostos que pagamos. Nos próximos anos, amigos, o que veremos será simplesmente inominável; é dedução lógica, que parte da simples visão do atual estado de coisas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pode agora alguém ser anglicano e católico ao mesmo tempo?


Pe. Peter Scott, da FSSPX (tradução de Carlos Nougué)

A Constituição Apostólica de 4 de novembro do Papa Bento XVI abriu uma nova via para os anglicanos “serem recebidos, também corporativamente, na plena comunhão católica” (Anglicanorum coetibus). Trata-se de novo e revolucionário tratamento do problema dos “irmãos separados”, tratamento considerado por alguns o lance mais ousado da Igreja desde a Reforma.

A novidade aqui é que os anglicanos passam a ser tratados da mesma forma que os cismáticos ortodoxos orientais quando estes retornam à verdadeira Igreja. Ser-lhes-á permitido manter a identidade anglicana ao mesmo tempo que se tornam católicos. Serão canônica e liturgicamente diferentes do restante da Igreja Católica, e por conseguinte lhes será permitido ter suas próprias paróquias, bispos, padres casados, costumes litúrgicos e espirituais. Isso é normal para os cristãos de rito oriental que voltam do cisma para o seio da Igreja, pois sua liturgia, espiritualidade e tradições são antigas como as do rito latino. Além disso, são essencialmente cismáticos, e não hereges, sendo suas poucas heresias de origem recente e fáceis de corrigir (como a negação do purgatório, da Imaculada Conceição ou da infalibilidade papal).

Tal analogia é correta e justa? Um exame detido patenteia uma série de diferenças:

1) Há, antes de tudo, a motivação. A maioria dos que pedem entrada na Igreja Católica já se separou da “comunhão” anglicana, tal como ela é. E o faz não tanto por sua rejeição do mesmo anglicanismo, mas devido à nova orientação da igreja anglicana a partir de 1991, a qual abriu o sacerdócio e o episcopado a mulheres e homossexuais praticantes e abençoou uniões do mesmo sexo, coisas evidentemente opostas à Bíblia, princípio basilar do protestantismo.

2) A segunda e maior diferença é que o anglicanismo tem ordens inválidas e, por conseguinte, nenhum outro sacramento além do batismo e do matrimônio, diferentemente dos ortodoxos, cujos sete sacramentos são válidos.

3) Uma terceira diferença é que o anglicanismo, desde sua origem mesma, é de todo herético e protestante. Desde a época de Thomas Cranmer até os dias de hoje, todos os ministros anglicanos sempre adotaram as teorias de Lutero e outros reformadores protestantes. O anglicanismo é verdadeiramente uma forma de protestantismo, razão por que sempre aceitou a intercomunhão com todas as seitas protestantes. Se por um lado é verdade que o movimento de Oxford, em meados do século XIX, levou a um retorno a uma forma mais tradicional de espiritualidade, culto e piedade, isso porém não significou um renascimento do interesse pelos aspectos católicos do anglicanismo, pois estes nunca existiram. Foi uma descoberta de alguns dos tesouros da Igreja Católica. Não obstante, tais anglicanos da alta igreja, como passaram a ser conhecidos, não seguiram a conversão do Cardeal Newman, de 1845, mas optaram por permanecer anglicanos. Os anglicanos da alta igreja, assim, não tiveram coragem de se converter à verdadeira Igreja, precisamente como agora.

4) Uma quarta diferença e conseqüência do fato de o anglicanismo ser uma seita protestante é ele não ter nenhuma unidade nem autoridade doutrinal. Há tantos ramos do anglicanismo quantos anglicanos há. É larga a liberdade de ter as opiniões e condutas que mais lhes aprazam, de modo que cada um pode escolher sua prática religiosa por si mesmo.

5) Uma quinta diferença é o fato de o anglicanismo não ter a tradição espiritual e monástica dos ritos orientais. Foi o próprio fundador do anglicanismo, Henrique VIII, o responsável pela destruição de mil mosteiros na Inglaterra. Se no século passado se fez um pequeno esforço para formar algumas poucas comunidades religiosas, foi apenas por seguir o exemplo de alguma espiritualidade católica; não por se tratar de tradição anglicana.

6) Uma sexta diferença é que no anglicanismo não há uniformidade litúrgica alguma. Os livros de orações, completamente protestantes, pretenderam de 1549 e 1661 propiciar essa uniformidade, mas foram suplantados em anos recentes, e os anglicanos da alta igreja em grande parte os rejeitaram ou adaptaram, conforme uma variedade de combinações da nova liturgia anglicana com certos usos tomados de empréstimo, como o antigo e ressuscitado rito Sarum, em uso na Inglaterra antes da Reforma, ou o rito tridentino em inglês, ou a missa nova. Não há nenhuma tradição litúrgica anglicana além do livro de preces de 1661.

Por que, então, estaria tão determinado o Papa a tratá-los do mesmo modo que aos ortodoxos orientais? Ele o explica muito claramente nesta mesma Constituição Apostólica; explicitamente pela nova definição da Igreja de Cristo dada pelo Vaticano II. Diz-se que ela “subsiste” na Igreja Católica, sem ser idêntica a ela. É por essa razão que as divisões entre os batizados devem considerar-se como divisões internas da Igreja e como danificadoras da nota de unidade que caracteriza a verdadeira Igreja. Donde Bento XVI afirmar na Anglicanorum coetibus que “toda e qualquer divisão entre os batizados em Jesus Cristo fere aquilo que a Igreja é e aquilo para o qual ela existe”. Daí que a unidade entre os batizados se transforme em algo absoluto, por buscar a qualquer preço, sendo agora a “unidade na diversidade”, portanto, o objetivo por alcançar. O ensinamento católico tradicional faz da Fé, do culto e dos sacramentos o absoluto e determinante da unidade da verdadeira Igreja Católica, como se pode ver pela definição de Igreja dada pelo catecismo. A separação de hereges e cismáticos, por deplorável e triste que possa ser, absolutamente não fere a Fé, o culto, os sacramentos e a autoridade hierárquica, porque a Igreja de Cristo é idêntica à Igreja Católica Romana.

As conseqüências de tal urgente necessidade de falsa unidade com parca base real não são aceitáveis para o espírito católico. Eis algumas delas:

● Não haverá conversão alguma propriamente dita, com abjuração de heresia, profissão pública da Fé católica e absolvição da censura de excomunhão. Declara-se simplesmente que os fiéis leigos “originariamente pertencentes à Comunhão Anglicana que desejam pertencer ao Ordinariato Pessoal devem manifestar essa vontade por escrito” (IX). Não há nenhuma admissão de erro por estarem fora da única verdadeira Igreja, nem pedido de admissão na única Igreja verdadeira.

● Não há nenhuma profissão de Fé em nenhum dos artigos de Fé que foram negados pela igreja anglicana por 450 anos. Tudo quanto se exige é a aceitação implícita desta afirmação: “O Catecismo da Igreja Católica é a expressão autêntica da fé católica professada pelos membros do Ordinariato” (I, §5). Mas este catecismo do Vaticano II, de 1993, é bastante ambíguo, particularmente nos pontos de doutrina em que os protestantes discordam da Igreja Católica, e a aceitação implícita de tal declaração é algo muito distinto do juramento condenatório de todas as heresias protestantes que se encontra na Profissão de Fé tridentina de Pio IV.

● Permite-se aos anglicanos manter os livros litúrgicos e as preces anglicanos, a espiritualidade e os costumes pastorais anglicanos: “O Ordinariato tem a faculdade de celebrar a Eucaristia e os demais Sacramentos, a Liturgia das Horas e as demais celebrações litúrgicas de acordo com os livros litúrgicos próprios da tradição anglicana que foram aprovados pela Santa Sé, de modo que se mantenham as tradições espirituais, litúrgicas e pastorais da Comunhão Anglicana dentro da Igreja Católica” (III). A breve cláusula restritiva de aprovação pela Santa Sé nada tira do caráter profundamente inovador dessa disposição, que considera o protestantismo anticatólico e sua liturgia como uma tradição que se deve manter no interior da Igreja Católica. O documento declara ainda que tudo isso é um “dom precioso” e um “tesouro por partilhar”. Que insulto a católicos como São Tomás Morus, São João Fisher e Santo Edmundo Campion, que deram a vida por recusar-se a se tornar anglicanos, e a autênticos convertidos como o Cardeal Newman, que espontânea, mas necessariamente, deixaram as inválidas, heréticas e protestantes cerimônias anglicanas para tornar-se autênticos católicos!

● Padres casados continuarão a ser um modo de vida neste ordinariato, como na igreja anglicana. Ministros casados que entrem no ordinariato podem ser ordenados, e futuros padres que já sejam casados podem ser ordenados. Essa é uma forma bem eficiente de minar o tesouro do celibato clerical, um dos grandes sinais externos da santidade da Igreja. Se não podem ser aceitos bispos casados, homens casados, de qualquer modo, podem tornar-se padres com a jurisdição de um ordinário (cf. Nota publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 20 de outubro), contornando-se assim o “problema” do celibato clerical, que tais anglicanos não estão dispostos a abraçar.

A tragédia de tudo isso é que esses anglicanos serão considerados católicos e anglicanos ao mesmo tempo, apagando-se grandemente, desse modo, a distinção entre verdade e erro, Fé e infidelidade, submissão e independência. O próprio Cardeal Levada o admite, quando descreve a vaga e tênue base dessa unidade: “Eles declararam compartilhar a Fé Católica comum tal como expressa no catecismo da Igreja Católica e aceitar o ministério petrino como querido por Cristo para a Igreja. [O que significa isso? Infalibilidade papal? Verdadeiro poder de governo, ou apenas um posto honorífico?] Para eles chegou o momento de exprimir essa unidade implícita na forma visível da plena comunhão.” (Ib. in zenit.org).

Se certamente devemos recear que tal aceitação confunda os católicos e apenas confirme ainda mais esses anglicanos em seus falsos princípios e tradições, devemos porém rezar para que eles um dia se convertam verdadeiramente à prática plena e integral da Fé católica, fora da qual não há salvação.

Original inglês:
“Can one be now Anglican and Catholic at the same time?”, http://angelqueen.org/forum/viewtopic.php?t=29092 .

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Credo e suas maravilhas



Sidney Silveira
Na introdução de sua Exposição sobre o Credo, diz Santo Tomás que quatro são os bens que a fé produz:
  • : Pela fé a alma se une a Deus;
  • : Pela fé é iniciada em nós a vida eterna;
  • : Pela fé passamos a orientar toda a nossa vida;
  • : Pela fé vencem-se as tentações.
Sem a fé, portanto, não é possível a alma unir-se a Deus nesta vida, daí dizer Santo Agostino que “onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é falsa até mesmo nas pessoas retas” (em De Fide et Symbolo). Referem-se os dois Santos Doutores, obviamente, à fé sobrenatural infusa por Deus na alma, e não a uma crença subjetiva em qualquer coisa acerca da natureza divina — ainda que acertada. É essa fé sobrenatural que impele a alma a dizer “sim” às verdades reveladas na Sagrada Escritura, aceitando-as integralmente e sem o mais ínfimo questionamento, pois Deus assim as revelou, para que crêssemos e nos salvássemos.

A vida eterna começa, aqui e agora, pela fé, ainda que na forma de uma semente que promete germinar esplendidamente. Como dizia uma estupenda máxima latina, gratia, inchoatio gloriæ (a Graça é o começo da Glória). Sem a graça, portanto, é impossível sequer termos uma pálida noção do que seja a verdadeira felicidade preparada para nós por Deus, desde a eternidade.

Também é fato que a fé, depois de assumida pelo cristão, passa a ser a balizadora de toda a sua vida. Essa orientação se dá no sentido de dizermos “não” a tudo o que, direta ou indiretamente, nos afaste da fé e, portanto, de Deus. Todos os bens assumem, pela fé, o seu real valor numa escala perfeita que culmina em Deus mesmo. E se muitas vezes caímos na tentação de escolher bens menores em detrimento daqueles que Deus quer que escolhamos, o fato de estarmos no horizonte da fé nos propicia a clara visão do erro — e, portanto, a oportunidade de o corrigirmos pelo arrependimento, que é precondição para o sacramento da Penitência.

Por fim, só a fé pode fazer-nos vencer as tentações que advêm da carne, do mundo e do demônio, e que muitas vezes têm como instrumentos os nossos hábitos viciosos. Se Aristóteles dizia que o homem, depois de depravar-se, cai num abismo do qual não há saída, decerto é porque não conhecia a fé — cuja fonte sobrenatural nos possibilita a emenda dos piores hábitos que tenhamos adquirido, seduzidos pelo gozo na prosperidade ou atemorizados por adversidades que, sem a fé, não podem ser aquilatadas em seu real valor. Ah, quantas vezes deixamos alguns medos tolos desviar toda a nossa vida!

Neste tempo do Advento, recomendo firmemente a leitura da Exposição sobre o Credo, de Santo Tomás. Os tesouros espirituais contidos nos símbolos da fé têm ali uma maravilhosa ponderação do Doutor Comum. Há duas edições em português facilmente encontráveis.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes — outro trecho da palestra de lançamento de uma obra-prima de Santo Tomás: o tratado "De Substantiis Separatis"

Adão e Eva expulsos do Paraíso pelo Anjo (Gustave Doré)

Sidney Silveira
Veja-se aqui mais um trecho da palestra de lançamento do livro "Sobre os Anjos", um denso tratado de metafísica tomista.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A autoridade doutrinal do Doutor Comum (I)


Santos Dominicanos, de Fra Angelico


Sidney Silveira
Todos os que estudamos Santo Tomás de Aquino sabemos muito bem que, para ele, o chamado argumento de autoridade não valia de nada, ou seja, o sestro — infelizmente tão comum nos dias atuais — de aduzir como prova “filosófica” de algo o seguinte: “Quem disse foi fulano ou sicrano, uma autoridade no assunto”. Em resumo, a única autoridade válida para o Aquinate, em sentido prático, é a da verdade, seja a Verdade revelada na Sacra Pagina, seja qualquer outra de que o nosso intelecto se aposse.

No entanto, é certíssimo que a autoridade doutrinal desse excelso Doutor da Igreja é inconteste, e se Mestre Tomás disse (magister dixit), o mínimo que devemos fazer é suspender o juízo antes mesmo de sequer pensar em discordar; e somente depois de longa meditação e estudo, arriscarmos o nosso parecer. Afinal, trata-se do maior teólogo da Igreja acolhido pelo Magistério infalível de forma solene. E, como veremos, isto não é pouco.

Falar da autoridade de um Doutor da Igreja nos remete a uma distinção importante: entre autoridade científica e autoridade dogmática. A autoridade científica depende do valor intrínseco do saber e das obras de um homem; a autoridade dogmática depende da conformidade de tais obras com a Divina Revelação e de sua aprovação pelo Magistério da Igreja, mestra da Verdade revelada. O próprio Aquinate nos dá a fórmula: em doutrina católica, mesmo os grandes Doutores recebem da Igreja o peso de sua autoridade, e por esta razão devemos ater-nos mais à autoridade da Igreja do que à de Agostinho, Jerônimo ou a de quaisquer outros Doutores (ipsa doctrina catholicorum Doctorum ab Ecclesia auctoritatem habet; unde magis standum est auctoritati Ecclesiæ quam auctoritati vel Augustini vel Hieronymi vel cuiuscumque Doctoris)*.

Ocorre que a autoridade científica (teológica) de Santo Tomás é simplesmente máxima na Igreja, pois ele é o Doctor Communis e foi referendado por vários Papas, Concílios e teólogos de saber notório ao longo de sete séculos. E a sua autoridade dogmática pode ser medida pelo fato de a própria Igreja ter adotado — em tantos e tantos casos — as fórmulas de Santo Tomás para expressar uma série de dogmas. A partir de então chegou-se a uma espécie de cume magisterial. Para dimensionar isto aos leitores do blog, farei um resumo que segue de perto a introdução do volume I da Suma Teológica publicada pela Biblioteca de Autores Cristianos – BAC em 1947, sob a coordenação de alguns dos mais geniais dominicamos que houve em Salamanca, na Espanha. Tal resumo será muito útil, por dar a exata medida da importância desse gigante que foi Tomás de Aquino.

Comecemos com o que nos conta o Chartularium universitatis parisiensis acerca do reconhecimento que o Aquinate teve ainda em vida. Quando Tomás contava apenas trinta anos, o Papa Alexandre IV chamou-o de tesouro da ciência, pela graça de Deus (vir morum honestate conspicuus ac thesaurum litteralis scientiæ per Dei gratiam assecutus). O adversário Siger de Brabant o equiparou a Santo Alberto Magno, que era tido então como o maior teólogo da Igreja (præcipui viri in Philosophia Albertus et Thomas)**; Roger Bacon chama a Tomás e a Alberto de modeni gloriosi.

A Faculdade de Filosofia de Paris, ao ter notícia da morte de Tomás, escreveu um panegírico em que chamava o Aquinate de luzeiro da manhã, luz e esplendor do mundo, sol do universo (stellam matutinam, præminentem in mundo, iubar et lucem sæculi), com cujo desaparecimento sofreu a Igreja uma perda incomensurável. O antigo mestre Alberto Magno escreve que Tomás foi a flor e honra do mundo (flos et decus mundi) e o homem mais sábio depois do seu tempo até o fim dos séculos, sem temor de ser superado por ninguém.

E o mesmo fazem os seus discípulos. De acordo com Pedro Calo em sua obra Fontes vitae S. Thomae Aquinatis, Remígio Girolami chama Tomás de “luz dos nossos olhos e coroa de nossa cabeça”; Bombolônio de Bolonha aquilata-o como Doctor venerabilis, e o mesmo faz Roberto dei Primadizzi, que considera frei Tomás como Doctor egregius. Guilhermo de Tocco, discípulo e talvez o primeiro biógrafo do Santo, o exalta como Doutor admirável, órgão da divina sabedoria (Doctor mirabilis; erat enim divinæ sapientiæ organum).

Este é apenas o reflexo do primeiro momento após a morte de Santo Tomás. Como veremos nos textos seguintes, a obra do Aquinate passou por uma prova de fogo durante os primeiros 50 anos posteriores ao seu falecimento, atacada por inimigos poderosos. E saiu incólume, para depois ser acolhida pela Igreja como sua.

(continua)


* Suma Teológica, II-II, q. 10, a. 12., resp.
** Pierre Mandonnet, no livro Siger de Brabant.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A fecundidade dos Santos


Sidney Silveira
Como sabemos, Cristo amaldiçoou a figueira que não deu frutos (Mt. XXI, 18-19). E, conforme acentua o Magistério da Igreja e uma incomensurável gama de teólogos, Doutores e Santos, ai de nós se não dermos os frutos que Deus espera e para os quais nos criou — pois seremos como o sal que não salga e, por isso, será lançado fora e pisado pelos homens (Mt. V, 13).

A abundância de frutos, por sua vez, é o sinal seguro da árvore boa. Hoje, quantos talentos se perdem em razão da inércia hedonística que freia as suas boas obras! Isto é particularmente claro quando o assunto é estudo. Deus do céu! Quantos jovens deixam de lograr as suas reais possibilidades porque se perdem em minudências desimportantes, fomentadas por doutrinas errônas que, muitas vezes, são apenas a justificação intelectual para uma vida devotada ao pecado e à difusão de erros! Uma vida vivida a esmo, sem qualquer dilema de ordem superior. Uma vida de meias tintas, de acomodação, de covardia.

Ao pensar nisto, vem-me à mente o quanto produzem os Santos, quando se põem a trabalhar para a glória de Deus e o bem das almas. Olhemos, por exemplo, para o nosso amado Tomás de Aquino. Entre 1252 e 1274, o Aquinate escreveu nada menos do que o seguinte, conforme nos informa Santiago Ramírez num dos seus livros:

891 lições sobre obras de Aristóteles
803 lições sobre a Sagrada Escritura
850 capítulos sobre o Evangelho na Catena Aurea
463 capítulos na Suma Contra os Gentios
2.931 artigos sobre o Mestre das Sentenças, Pedro Lombardo
1.200 capítulos espalhados por opúsculos de índole diversa
510 artigos copiosos em Questões Disputadas
260 questões de Quodlibet
2.652 artigos da Suma Teológica (com solução para mais de 10 mil argumentos!)

São volumes e mais volumes de uma produção não menos que miraculosa — não apenas pela quantidade incomensurável de escritos, mas sobretudo se considerarmos a resolução filosófica a que chegou o Doutor Comum em todas essas obras, que versavam sobre os assuntos mais variados: teodicéia, gramática, metafísica, política, psicologia, moral, homilética, exegese, liturgia, mística, casuística dogmática, composição de orações, etc.

Fecundidade extraordinária e labor incansável unidos a uma inteligência poderosa e uma memória de cair o queixo, de acordo com os seus primeiros biógrafos — que privaram da intimidade de frei Tomás. Muito talento somado a muito esforço: Guilhermo de Tocco, por exemplo, nos informa que a rotina de trabalho do Santo chegava a 16 horas.

Decerto muito poucos são chamados a realizar uma obra de tal magnitude, mas, se formos observar a vida daqueles que a Igreja nos propõe como modelos, ou seja, os veneráveis Santos, veremos que isto é bastante comum: frutuosas obras e muito, muito trabalho. Pensemos numa Teresa de Ávila, num Santo Antônio de Lisboa, num São Francisco de Sales, num São Francisco de Assis, num Santo Afonso de Ligório, num São Bento, num São Gregório Magno, num São João Crisóstomo, num Santo Agostinho, num Santo Alberto Magno, etc. E, para dimensionar tais obras, vale lembrar que, em boa parte desses casos, elas foram levadas a cabo em meio a uma vida de tribulações, de perseguições (não raro pela própria Igreja ou por alguns de seus membros), de luta do início ao fim, às vezes coroada pelo martírio.

Esses exemplos nos servem para meditar sobre o que um homem é capaz de fazer quando se abre ao influxo da Graça. Quando se deixa guiar pela vontade de Deus, justamente porque medita sobre ela e busca-a.

Quem ousaria acusar esses homens de trabalhar vaidosamente para a sua própria glória pessoal propondo-se esforços quase desumanos, se os seus frutos são tantos e tão excelentes?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes: Ética e Política Santo Tomás, Aristóteles e Maquiavel

Sidney Silveira
Veja-se aqui mais um trecho de aula do Nougué, em que se afirma, entre outras coisas, que a perda da harmonia entre ética e política (que culmina na esquizofrenia liberal em que vivemos) tem como fonte distante o rompimento da harmonia que havia entre a vontade e a inteligência, a partir de Duns Scot.

As relações entre fé e razão (IV)


Sidney Silveira
(
continuação)

A posição de Tomás de Aquino com relação à origem da fé tem como fundamento a sua gnosiologia realista, segundo a qual o conhecimento — a posse da verdade — provém, in primis, de um processo de abstração das qüididades materiais dos entes, pela inteligência humana. Ou seja: não há atalhos intuitivos que nos permitam chegar ao conceito (à forma entis); que nos permitam, ao menos, ter um vislumbre da essência dos entes. Esta última só nos é acessível a partir da observação do modo de operação de cada ente, na ordem do ser. E, mesmo assim, a aquisição desse conhecimento é imperfeita, incompleta, pois a verdade é em si inesgotável, razão pela qual, com certa dose de ironia, diz o Doutor Comum em sua Exposição sobre o Credo que “nenhum filósofo jamais chegou a esgotar sequer a essência de uma mosca”.

Essa posição, como sabemos, ocasionou várias inimizades a Santo Tomás de Aquino no seio da própria Igreja, conforme confessara o bispo John Peckham, um dos seus algozes, no Chartularium universitatis parisiensis, obra de referência para os biógrafos de Santo Tomás. Foi um duro golpe desferido na noção de “iluminação divina” defendida por teólogos agostinianos (muitos pertencentes, no século XIII, à ordem franciscana), segundo a qual chegamos à verdade a respeito de qualquer coisa graças a um influxo imediato de Deus na inteligência humana.

DISTINÇÃO TOMISTA COM RELAÇÃO AOS CONCEITOS DA FÉ E DA RAZÃO

Depois que entrou em cena a gnosiologia aristotélico-tomista, a Igreja pôde fazer uma distinção precisa entre essas duas ordens complementares: a fé tem a sua fonte na iluminação da graça divina (lumem gratiæ); a razão, unicamente na abstração da inteligência (devida fundamentalmente à lumen rationis naturalis). Para o homem, portanto, dá-se o desenvolvimento da fé em um único sentido: artigos que noutro tempo eram cridos implicitamente (por estar contidos em outros, mas não de forma evidente) chegam, mais tarde, a ser expressos de forma explícita. Não se trata, aqui, de evolução dos dogmas, como imaginam os péssimos teólogos modernistas, mas do esclarecimento de alguns pontos da fé — na medida em que a fé supõe, como objeto material, uma obscuridade interna daquilo em que se crê (cfme. Suma Teológica, II-II, q.1., a. 5).

Sendo assim, se a verdade da fé não é internamente evidente (nem direta nem indiretamente), a inteligência não pode nada mais do que lhe prestar assentimento (ou não). Mas nunca, jamais, pode ela demonstrar o conteúdo da fé, que está além de suas possibilidades de escrutínio intelectual. No entanto, a razão desse assentimento da fé é muito diversa da do saber: a autoridade divina, que é o autêntico objeto formal da fé — seja para doutos teólogos, seja para velhinhas analfabetas. Em ambos os casos, assente-se a algo não evidente. A fé é, pois, daquilo que não se vê (non visum), enquanto a razão parte daquilo que se vê com os olhos da inteligência (visum).

Como não é nosso propósito aprofundar este tema, mas apenas expressar alguns princípios, vale dizer que a ciência (adquirida pela inteligência) e a fé se distinguem com relação a seus conceitos da seguinte forma:

Por seu objeto material: razão (visum); fé (non visum)
Por seu objeto formal: razão (
evidência); fé (autoridade divina)
Por seus efeitos: razão (assentimento por necessidade racional); fé (assentimento livre)

É justamente esse assentimento livre a uma verdade não evidente para a inteligência que faz com que a fé seja meritória. Ela é, em síntese, o “sim” da inteligência humana ao influxo da graça divina. Em contrapartida, não se pode dizer que haja propriamente mérito em assentir a algo por necessidade racional (como para concluir que 2+2=4).

A maior descoberta científica de todos os tempos, neste sentido, por ser de ordem inferior, é de valor infinitamente menor do que o “sim” de Maria ao Anjo da Anunciação.

Infinitamente inferior ao nosso “sim” a qualquer dos artigos da fé que salva.

(continua)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Trecho da palestra de lançamento do livro sobre as Cruzadas



Sidney Silveira
Veja-se um trecho da palestra de lançamento do livro "Raimundo Lúlio e As Cruzadas", na Livraria Leonardo Da Vinci, em novembro deste ano. Dela participamos eu, o Prof. Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) — meu querido irmão! —, e o nobre amigo Carlos Nougué.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

As relações entre fé razão (III)

"A tua fé te salvou; vai em paz" (Lc. VIII, 48-49)

Sidney Silveira


Um erro é tão mais daninho quanto mais excelsa e importante é a matéria em que se dá. Ora, em última instância nada pode ser mais importante, para a nossa vida prática, do que a fé que salva. Logo, um erro relacionado à fé é, em certo sentido, o que de pior pode haver.

Ademais, parvus error in principio magnus est in fine. Essa máxima de Santo Tomás no opúsculo De Ente et Essentia aplica-se perfeitamente ao problema das relações entre a fé e a razão, e as conseqüências dos erros nesta matéria são, de fato, funestas: pietismo/fideísmo, naturalismo, racionalismo — e, como efeito remoto, em todos estes casos devém um dramático enfraquecimento da fé; não raro a sua perda.

A solução tomista para este magno problema é suficiente, convincente e, em suma, definitiva. E o primeiro princípio de que parte o Aquinate é o seguinte: as verdades da fé cristã não contrariam as verdades da razão (“quoad veritati fidei christianæ non contrariatur veritas rationis”, Suma Contra os Gentios, I, 7). Em síntese, tanto a fé como a razão nos foram dadas por Deus e ambas são, em si, fontes da verdade, a qual em Deus mesmo é una, mas não assim em nossa maneira de conhecê-la, que é compondo e dividindo raciocínios. A propósito, a integralidade da verdade só a teremos na visão beatífica; por enquanto, a verdade chega-nos sempre em pedaços que, com muito esforço, vamos juntando e abrangendo a nossa visão de conjunto — desse conjunto extraordinário da ordem do ser.

Outro princípio fundamental, e tão esquecido pelos neoteólogos modernistas, é o seguinte: a fé está acima da razão e, portanto, não pode ser demonstrada por esta última. Assim, que Maria é sempre Virgem, que Cristo desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia, etc., não são dados científicos, mas verdades da fé às quais anuímos simplesmente porque Deus as revelou (“non enim fides (...) assentit alicui, nisi quia est a Deo revelatum”. Suma Teológica, II-II, q.1, a.1). Na prática, tudo o que cremos (obiectum materiale) é verdade, e a verdade eterna e primeira é aquilo pelo qual cremos (obiectum formale).

Neste contexto, sendo a verdade o objeto tanto da fé como da razão, como distinguir com proficiência estas duas? Aqui, o gênio do Aquinate resolve o problema apelando a uma tríplice distinção, exatamente nos pontos em que, como dissemos no primeiro artigo desta série, havia confusão: a) com relação à origem; b) com relação aos conceitos implicados numa e noutra; c) com relação aos domínios que cada uma possui.

DISTINÇÃO TOMISTA COM RELAÇÃO À ORIGEM DA FÉ
A fé é dom gratuito de Deus, e sem a moção divina o crente não daria o seu assentimento a nenhuma das verdades da fé. Como se vê, não se trata, em absoluto, de uma conquista humana proveniente ou de alguma ascese, ou de algum conhecimento, ou de alguma prática moral positiva. Há pessoas ascéticas, conhecedoras de muitas coisas e moralmente boas que não estão na fé (algumas delas inclusive trabalham contra a fé). Por outro lado, há pessoas ignorantes, nada ascéticas e cheias de problemas de ordem moral que crêem verdadeiramente, lutam o bom combate, se arrependem dos seus pecados, freqüentam os sacramentos e não tentam moldar as verdades de fé às suas próprias conveniências. Aceitam o depósito da fé em sua totalidade.

A fé tem, pois, origem divina (Suma Teológica, II-II, q. 6 a.1), e não humana, mesmo quando colocamos na balança os motivos de credibilidade subministrados pela razão à fé. Pois a razão, para compor juízos e dar o seu assentimento a alguma verdade, parte fundamentalmente de evidências, enquanto a fé parte da pura e simples anuência à autoridade divina.*

(continua)
* Vale abrir um pequeno parêntese para dizer que uma longa tradição agostiniana — incluindo nela, neste tópico, Alberto Magno — creditava todo e qualquer conhecimento humano a um influxo de Deus imediato (a tese iluminação divina). Este erro acarretou uma série de aporias ao longo de séculos, as quais só se resolveram com Santo Tomás.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

As Grandes Heresias, de Belloc


Sidney Silveira
Um livro importante acaba de sair pela editora Permanência: As Grandes Heresias, de Hilaire Belloc. Ao que me consta, esta é a primeira tradução de Belloc para o português, e da lavra do meu amigo Antônio Emílio Angueth de Araújo, bom mineiro de Belo Horizonte. Um tradutor de truz, como se dizia antigamente.

A obra pode ser adquirida diretamente na loja virtual do site da Permanência, e trata das conseqüências nefastas que as grandes heresias tiveram para a civilização ocidental, a qual começa a perder-se, a esboroar-se, justamente em função delas.

É a história viva de uma lenta e dolorosa decomposição dos valores perenes, que, a meu ver, deságua na neobarbárie liberal que acabou de dissolver no seu caldeirão pluriforme qualquer resquício de valores genuinamente cristãos.

O livro (escrito na primeira metade do século XX) é indicadíssimo para nós, habitantes desta época plúmbea em que as sociedades parecem fechar-se decisivamente para qualquer influxo da Graça. E indicadíssimo sobretudo para católicos liberais cujos olhos e ouvidos parecem contaminados por uma triste cegueira mental.
P.S. Não tenho respondido a emails e nem escrito para o blog por absoluta falta de tempo, devido a compromissos de trabalho. Portanto, aos que me mandaram mensagens indagando a respeito da queda de produtividade do Contra Impugnantes, eis a resposta. Assim que as coisas melhorarem, voltaremos, se Deus quiser, ao ritmo normal.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Opúsculos de Santo Tómás



Sidney Silveira
Além dos dois livros do Prof. Sergio Salles que noticiamos ontem, outra publicação tomista vem a lume — e não nos cabe senão divulgá-la: trata-se do compêndio Opúsculos Filosóficos – Volume 1, que reúne nove pequenos escritos filosóficos de Santo Tomás, em edição bilíngüe. São os seguintes:

O Modo de Estudar
A Mescla dos Elementos
Os Princípios da Natureza
As Operações Ocultas da Natureza
A Natureza da Matéria
O Princípio de Individuação
Os Instantes (De Instantibus)
A Eternidade do Mundo
A Consulta aos Astros


A tradução é do Prof. Paulo Faitanin, da UFF, e a edição sai com o selo da Società Internazionale Tommaso d’Aquino – S.I.T.A., seção Brasil.

Vale registrar que alguns desses opúsculos (como por exemplo o De Instantibus, o De Natura Materiæ e o De Principio Individuationis) são de autoria dúbia — de acordo com alguns dos principais catálogos, desde a época imediatamente posterior à morte do Aquinate até os dias atuais. Mas isto não lhes tira, em absoluto, o interesse filosófico.

Quem quiser adquirir a obra pode entrar em contato com o Prof. Paulo Faitanin, do Instituto Aquinate, pelo email pfaitanin@aquinate.net

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Análise e Síntese em Tomás de Aquino



Sidney Silveira
Alvíssaras! Foram apresentados recentemente, pela editora da Universidade Católica de Petrópolis – UCP, dois trabalhos do Prof. Sergio de Souza Salles, meu querido amigo, sobre o espinhoso tema da resolutio em Santo Tomás — tão importante para a compreensão de sua metafísica. São eles: Análise e Síntese em Tomás de Aquino e As Resoluções Metafísicas de Tomás de Aquino.

Para mim, particularmente, mesmo ainda sem ter tido tempo de ler as duas obras (o que farei em breve), é uma alegria divulgar a sua publicação, pois conheço a seriedade e o talento de Sergio Salles como professor.

Parabéns ao Sergio pela publicação dos livros!!! E também ao Prof. Carlos Frederico Calvet da Silveira, que está com ele neste projeto.

Que sejam os primeiros de muitos trabalhos a ser publicados.

Quem quiser adquirir o seu exemplar dessas obras pode entrar em contato com o próprio Sergio Salles, pelo email sergio.salles@ucp.br, ou com a UCP. A propósito, resolvi fazer também uma pequena divulgação da obra na “TV Contra Impugnantes”.

sábado, 21 de novembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes: ainda o "De Substantiis Separatis"

Sidney Silveira
Um novo trecho da palestra de lançamento do livro Sobre os Anjos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Missal francês de 2010


Sidney Silveira
O democratismo que invadiu a Igreja com a colegialidade instaurada a partir do Concílio Vaticano II continua dando os seus frutos podres. Hoje, é fato insofismável que as conferências episcopais desobedecem a várias determinações papais, na medida em que fazem e desfazem ao seu bel-prazer um conjunto de coisas que, noutra época, seriam motivo de gravíssimas advertências por parte da Suprema Autoridade. Um exemplo? O pro multis consacratório, que foi criminosamente traduzido pelas palavras “por todos”, quando na verdade o texto diz que Cristo derramou o seu sangue “por vós e por muitos” (pro vobis et pro multis). O que um dia foi considerado heresia apocatástica origenista, hoje está no texto da Missa.

Agora, o episcopado francês aprontou uma dessas que a gente ouve por aí. O Arcebispo de Toulouse, Mons. Robert Le Gall, presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, na França, acaba de dar o imprimatur para o Missal 2010, que traz as seguintes novidades:

1- A supressão dos santos padroeiros da França (Nossa Senhora da Assunção, Santa Joana D’Arc e Santa Teresinha do Menino Jesus). Simplesmente isto!
2- A inclusão de novas festas no calendário “litúrgico”. Festas muçulmanas e judaicas!!!! Por exemplo (retirado do blog Oblatvs):

29 de novembro de 2009: “Na comunidade muçulmana, Aid al Kabir, festa do sacrifício do carneiro que Abraão imolou no lugar de seu filho”.
12 a 19 de novembro: “Festa judaica de Hanucá que comemora a vitória dos Macabeus e a nova dedicação do altar do templo de Jerusalém depois de sua profanação no ano 160 antes de nossa era”.
18 de dezembro: “Festa de ano-novo para a comunidade muçulmana”.
27 de fevereiro de 2010: “Festa judaica de Purim em que a comunidade faz memória do jejum de Ester, quando o povo foi libertado do projeto de extermínio dos hebreus no exílio na Pérsia”.
21 de março: “Coleta para a CCFD” [o bastante politizado Comitê Católico contra a Fome e para o Desenvolvimento].
19 de maio: “Festa judaica de Shavuot, festa das colheitas e do dom da Lei”.
12 de agosto: “começa para os muçulmanos o mês de jejum do Ramadã”.
18 de setembro: “a comunidade judaica celebra o grande perdão, Yom Kippur, o dia mais solene do ano consagrado à expiação dos pecados”.
23 de setembro a 1º de outubro: “na comunidade judaica, festa de Sucot ou dos Tabernáculos que comemora a estada no deserto durante o Êxodo”.
Último domingo de outubro: “Festa da Reforma” [reforma protestante, naturellement].

Agora o mais incrível, que consta da página 192 do referido Missal Francês: “Faz catorze séculos, em 610, Maomé, então simples mercador, começou a pregar a fim de reconduzir o povo de Meca à religião do único Deus e ensiná-los a submissão à vontade divina”.

Caros leitores, a autodemolição da Igreja continuará até o dia em que Cristo decidir pôr fim a essa farra dos infernos — cujas portas não prevalecerão sobre a doutrina do Evangelho. Vinde, Senhor! É o que nos resta implorar...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

As relações entre a inteligência e a vontade (II)

Sidney Silveira
A vontade é livre para querer ou não querer, e essa liberdade é exercida a partir de um juízo prático pelo qual o homem se torna capaz de escolher determinadas coisas em detrimento das outras. A eleição de um bem pela vontade implica a indiferença em relação a outros bens que a ela se apresentavam. Em resumo, na concepção de Santo Tomás os bens particulares (bona particularia) não determinam a vontade necessariamente, e essa radical indeterminação manifesta a indifferentia objectiva da vontade, enquanto o ato de escolha, em si, manifesta a sua indifferentia subjectiva. Mas frise-se bem: essa “liberdade de indiferença” se dá tão-somente em relação aos bens particulares, mas não em relação ao bem sumo, que é Deus — por isso os bem-aventurados no Céu não podem não querê-Lo, não podem não amá-Lo, pois aderem a algo irresistivelmente poderoso e apetecível.

A liberdade de eleição — conhecida por nós como livre-arbítrio — é a faculdade conjunta da inteligência e da vontade — como diz o Aquinate numa famosa passagem (libero arbitrium dicitur esse facultas voluntatis et rationis)*. Essa simples frase, além de mostrar o quão equidistante está Santo Tomás tanto do intelectualismo como do voluntarismo, revela uma verdade fundamental da antropologia tomista, a saber: não há nenhum ato propriamente humano que não proceda da inteligência e da vontade, do entendimento e da volição. Os atos involuntários, embora possam ser praticados por um homem, não são próprios do homem, pois outros animais também os realizam. Portanto, atualizada por nossas duas potências máximas, a liberdade é algo que distingue radicalmente o homem. Somos naturalmente livres, e o somos graças ao influxo benfazejo da inteligência e da vontade — um influxo harmonioso desses dois co-princípios superiores, com prevalência radical (simpliciter) da inteligência, que, como dissemos no artigo anterior, fornece à vontade o seu objeto próprio.

Mas será essa liberdade humana absoluta? Uma simples aproximação ao problema pode conduzir-nos a evidências que serão muito úteis na perseguição da resposta. Para o voluntarismo medieval, encarnado com particular ênfase em Duns Scot, a vontade é autodeterminante (autodeterminans) e, em sua íntima essência, livre (potentia libera per essentiam)**. Ora, como diz o já mencionado G. Manser, a quem seguimos de perto nesta série de textos, Duns Scot atribui essa autonomia absoluta da vontade não apenas a Deus, mas também ao homem, e isto num duplo sentido:

a) A vontade humana é livre com relação a qualquer objeto. Nenhum bem, nem o bonum in communi aqui na terra, nem Deus como objeto da bem-aventurança eterna, no além, é capaz de mover a vontade necessariamente. Todo ato da vontade, assim na terra como no Céu, é absolutamente livre (voluntas respectu cuiuslibet actus est libera et a nullo objecto necessitatur***). Um dos gravíssimos problemas teológicos e heresias a que conduz essa premissa, se a levarmos às últimas conseqüências, é que a alma de Cristo pode pecar, assim como a dos bem-aventurados****. Ela também nos leva a concluir que o demônio seria “livre” para querer o bem em comum e, por conseguinte, desejar o bem das almas humanas. A esta questão voltaremos noutra oportunidade.
b) Com relação ao entendimento, Scot também manteve o principal da premissa voluntarista. Em sua opinião, decerto a inteligência apresenta à vontade diversos bens, e, neste sentido estrito, o frade franciscano considera-a uma conditio da ação livre — embora apenas como causa per accidens, não necessária. Em suma, como o conhecimento apresenta diversos bens como indiferentes, ele não exerce nenhum influxo causal necessário sobre a vontade. Esta última seria, na visão scotista, a única causa próxima do ato livre. Aqui, um dos problemas da opinião de Scot é considerar todos os bens como indiferentes, independentemente de sua excelência ontológica; e, entre as várias conseqüências dessa tese, está a de o mundo e todas as coisas que há nele perderem fundamentalmente a sua ratio, pois tudo passa a depender in primis da vontade. Assim, as nossas escolhas passarão a ser a resultante de um impulso cego da vontade, e, no tocante a Deus, todas as coisas criadas só serão conhecidas pelo espírito divino porque dependem da Sua soberana vontade. A lei, neste cenário, jamais poderá ser a ordenação da reta razão ao bem comum, mas algo cujo fundamento último está na vontade divina. Não à-toa, para Duns Scot todos os sete últimos mandamentos do Decálogo são, em si mesmos, dispensáveis, pois só são bons na medida em que Deus, arbitrariamente, assim o quis. Honrar pai e mãe, não furtar, não dar falso testemunho, não cobiçar a mulher do próximo, etc., não são bens em si mesmos. Incrível!

Tanto o intelectualismo como o voluntarismo falsificam a idéia do que seja, efetivamente, o ente humano, porque acentuam de forma unilateral uma de suas duas principais faculdades, em detrimento da outra. No caso de que nos ocupamos, o erro voluntarista abarca a noção de lei, a de moral, a de religião e até mesmo as bases da metafísica. Tal erro perpassa a história da filosofia a partir de século XIV, de forma extraordinária.
(continua)
* Santo Tomás. Suma Teológica, I, q. 83, a. 3-4
** Duns Scot. Opus Oxon., I, d. 1, q.4.
*** Duns Scot. Opus Oxon., IV, d. 49, q.10.
**** “Por ser a bem-aventurança a posse do bem perfeito e suficiente, é necessário que aquiete o desejo do homem e exclua todo o mal (...). A bem-aventurança perfeita do homem consiste na visão da essência divina. Mas é impossível que quem vê a essência divina queira não vê-la. Porque alguém deseja privar-se de um bem que já tem ou quando é insuficiente, e busca pôr outro mais perfeito em seu lugar, ou quando [esse bem] está associado a algum incômodo que provoca fastio. Pois bem: a visão da essência divina preenche a alma de todos os bens, pois a une à fonte de toda bondade”. Santo Tomás. Suma Teológica, IªIIª, q. 5, art. 4. Resp.

domingo, 15 de novembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes: ainda o "De Substantiis Separatis".

Sidney Silveira
Mais um trecho da palestra de lançamento do livro Sobre os Anjos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

É hoje!


Sidney Silveira
Acontece hoje (12/11), a partir das 18h, o debate "A Idade Média e o Espírito das Cruzadas", na Livraria Leonardo da Vinci (Av. Rio Branco, 185, subsolo, Centro, Rio de Janeiro), em que se falará sobre o livro da Sétimo Selo "Raimundo Lúlio e As Cruzadas". Todos os amigos (ou adversários bem dispostos) estão convidados. Seremos eu, o Nougué e o Prof. Ricardo da Costa, da UFES.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Relações Igreja-Estado (VII): Thomas More, a teoria negada na prática


Sidney Silveira
No final do texto em que fazíamos alusão à utopia laica de Thomas More, afirmávamos haver duas coisas inconciliáveis: o seu ecumenismo* teórico e a morte em odium fidei com que Deus o premiou — pois esta última representa, na prática, uma veementíssima negação daquele. Em resumo: se, como diz More num dos capítulos de sua Utopia, cabe a cada um escolher a religião que lhe aprouver, e o Estado não deve meter-se nestas questões (pois uma das leis fundamentais de sua Ilha utópica garante a liberdade religiosa para todos os indivíduos, sem nenhuma exceção), por que diabos não aceitar que o rei Henrique VIII abandonasse a Igreja e fundasse uma nova religião? Para ser coerente com os princípios de que partia em seu mau livro, condenado por séculos pelo Magistério eclesiástico — até o momento em que a Igreja aboliu o Index, com Paulo VI —, More deveria simplesmente dar de ombros e aceitar a “reorientação” religiosa do rei que fez a Inglaterra apostatar. Mesmo tendo Henrique VIII como motivação, pura e simplesmente, a luxúria**.

Muitas vezes, é verdade, as pessoas só têm a dimensão das idéias errôneas que defendem quando deparam com uma situação limítrofe. Quando deparam com uma urgência inarredável. Com uma situação existencial dolorosa. Então sim, elas conseguem extrair os corolários acertados das premissas de que partiam, pois são fulminadas pelas evidências. Nestes casos, de duas uma: ou permanecem cegamente obstinadas e se perdem para o bem e para a verdade, ou, purgando os seus erros, revêem (não sem sofrimento) os falsos princípios em que haviam atolado a própria vida, muitas vezes por causa de conveniências ou favores. Thomas More, embora não tivesse tido tempo para abjurar da Utopia que escreveu, deu em seu julgamento um exemplo de que o bem espiritual comum deve prevalecer — e o poder do Papa está acima de quaisquer potestades políticas, em matéria de fé e costumes. Mas também em matéria política, quando esta se afasta da lei evangélica custodiada pela Igreja e da lei natural. Caso evidente de Henrique VIII.

Considerar Thomas More, como querem os católicos liberais, uma espécie de modelo de defesa da consciência individual contra o poder tirânico é um absurdo. É de uma má-fé sem tamanho! Em primeiro lugar porque as idéias pelas quais ele foi condenado e martirizado não eram propriamente suas, mas doutrinas proclamadas solenemente pela Igreja desde, no mínimo, Bonifácio VIII. Não foi, portanto, a liberdade individual o que ele defendeu, mas a primazia das leis da Igreja sobre todas as consciências individuais. Não se tratava de uma defesa da liberdade da pessoa frente ao poder político, como afirmou o Papa João Paulo II no Motu Proprio pelo qual proclamou More como “patrono dos governantes e políticos”***, mas de uma defesa da verdade cristã, católica e apostólica, contra os abusos de um tirano maníaco — ensandecido pelos próprios pecados e crimes.

Nenhuma lei iníqua pode alcançar cidadania. Mas se numa situação maléfica isto vem a acontecer, como na época de Henrique VIII, devemos dizer o mesmo que São Pedro e São João no Sinédrio, quando lhes pediram que se calassem e não pregassem o Evangelho. Non possumus. “Não podemos” (At. IV, 19-20). E devemos dizê-lo mesmo sob o risco de o poder tirânico massacrar-nos, o que na atual condição de natureza caída só é possível com a Graça — que superabundou na alma do jurista inglês na hora de dizer a verdade contra tudo e contra todos. Superabundou na hora de ele mostrar ao mundo o seguinte: os poderes material e espiritual, embora distintos, não são estanques e incomunicáveis entre si, pois o espiritual superior pode e deve julgar o material inferior.

A tese da separação entre estas duas ordens, condenada com toda a solenidade pela Igreja, esperaria muitos séculos, depois da Utopia de Thomas More, para ganhar definitivamente a Igreja, a partir do Concílio Vaticano II. E esperaria dois teóricos, particularmente: Jacques Maritain, com o seu Humanisme Intégral, e o seu amigo e Cardeal Charles Journet, autor de La Jurisdiction de l’Eglise sur La Cité. As teses de ambos os livros passaram a ser assumidas pela Igreja como suas, mesmo contrariando dois milênios de Magistério. Mas esta é uma conversa para outro dia.

* Ecumenismo e liberdade religiosa são irmãos siameses, duas faces de uma mesma realidade. Em suma, se a todos deve ser declarada como "direito fundamental" a liberdade de consciência (expressão equívoca, como mostramos em vários textos do blog), obviamente uma religião proselitista, excludente, parecerá a mais absurda das tiranias. Algo inconcebível. Não existe, num ambiente desses, nenhuma religião melhor, nenhuma religião verdadeira com exclusão das demais — mas todas devem ser toleradas, até mesmo para não ferir susceptibilidades. É paradigmático o trecho da Utopia ("Livro Segundo. Das Religiões da Utopia") em que More adverte o pobre cristão que defendera publicamente a sua religião. Lê-se ali: "Apenas um dos nossos neófitos foi preso em minha presença. Recém-batizado, pregava em público, não obstante os meus conselhos, com mais zelo do que prudência. Arrebatado por seu ardente fervor, não se contentava em elevar ao primeiro plano o Cristianismo, e condenava todas as outras religiões (...). Tal neófito, depois de ter deblaterado neste tom durante muito tempo, foi preso, não sob prevenção de ultraje ao culto, mas por ter provocado tumulto junto ao povo. Foi a julgamento e condenado ao exílio". Aqui, dirijo uma pergunta aos católicos liberais que acham isso bom: será que vocês não vêem que defender isto é jogar no lixo toda a História da Igreja? Jogar no lixo os anátemas? Jogar no lixo o dogma extra ecclesiam nulla salus?
** Na IIª-IIª da Suma Teológica (questão 153), Santo Tomás trata do vício da luxúria. Não é aqui o lugar de aprofundar o tema, mas apenas sumariar o que conclui o Santo Doutor naquele trecho de sua magnífica obra. No artigo I, mostra ele que os prazeres venéreos são a matéria própria da luxúria; no II e no III, que pode haver pecado neles, mas não necessariamente, pois eles podem ordenar-se pela recta ratio e não excluir nenhum dos fins implicados em sua atualização, por parte do homem; no IV, que a luxúria é vício capital, pois acarreta uma série de outros vícios e hábitos maus; no V, que as filhas da luxúria são a) a cegueira mental; b) a inconsideração; c) a inconstância; d) a precipitação; e) o egoísmo; f) o ódio a Deus; g) o amor exagerado à vida presente; e h) o horror e desespero pela vida futura. Na questão 154 dessa mesma parte da Suma, o Aquinate aborda as espécies de luxúria — entre as quais classifica as seguintes: a simples fornicação, o adultério, o incesto, o estupro, o rapto e os vícios contra naturam.
*** Não se escandalizem aqui as almas cândidas, pois não se trata de um documento pertencente ao Magistério infalível, pois nele não se cumprem todas as quatro condições estabelecidas no Concílio Vaticano I, e, por isso, não exige uma adesão irrestrita por parte dos fiéis. E o mesmo se pode dizer da última Encíclica do Papa Bento XVI, Caritas in Veritate, em que se propõe um poder político mundial ao modo do De Monarchia de Dante.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Convite da livraria Leonardo Da Vinci


Sidney Silveira
Será nesta quinta (12/11) o evento "A Idade Média e o Espírito das Cruzadas", na Livraria Leonardo Da Vinci, que compôs o convite virtual que reproduzimos acima. Todos os amigos residentes no Rio estão convidado.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes: a aula inaugural do curso de História da Filosofia

Sidney Silveira
Veja-se aqui um trecho da aula inaugural do curso que já está sendo ministrado pelo Nougué, cujas inscrições podem ser feitas no site www.santotomas.com.br/cursos.

No ar as primeiras aulas do Curso de História da Filosofia

Carlos Nougué
Caríssimos,
É com alí­vio e gosto que lhes escrevemos para dizer que, enfim, superadas certas dificuldades técnicas imprevistas, está no ar a Aula Inaugural de nosso Curso de História da Filosofia.

Para ter acesso a ela, que está dividida em duas partes, basta clicar sobre os links que se encontram à esquerda na primeira página do site de Cursos da Associação Cultural Santo Tomás. Dependendo da conexão do usuário, pode ser preciso esperar cerca de cinco minutos até que se abram os vídeos. Após se abrirem pela primeira vez, porém, já não se repetirá tal tempo de espera.

Quanto à Primeira Aula propriamente dita do Curso (a Aula Inaugural é de acesso universal e gratuito), estará no ar até no máximo o meio-dia de hoje, sexta-feira 6 de novembro. Também estará dividida em duas partes, e vale para o acesso a ela o mesmo que se disse sobre a Aula Inaugural. Lembramos apenas que, para ela, não é preciso entrar com o login e senha já fornecidos individualmente aos inscritos.

Sejam bem-vindos, pois, ao mundo das ciências filosóficas vistas do ângulo aristotélico-tomista. Que estes quatro anos em que estaremos em contato sejam para todos nós um tempo de progresso intelectual e espiritual, pois não visa a outra coisa, com efeito, todo o nosso empenho.

Saudações cordiais e agradecidas.
Carlos
P.S. Logo anunciaremos outras novidades.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As relações entre fé e razão (II)


Sidney Silveira

c) Com relação ao domínio da fé

Como corolário das duas confusões anteriores está a perda da visão de qual seja o verdadeiro domínio da fé. Sim, pois se a fé e a ciência se reduzem a uma mesma origem (o saber humano), e se os conceitos de cada uma se identificam na raiz — na exata medida em que a razão passa a atribuir-se a possibilidade de provar a fé —, obviamente a fé sai de sua fonte sobrenatural e, por assim dizer, se naturaliza.

Na imensa maioria dos casos, tal naturalismo acaba colocando a fé num mesmo plano do conhecimento “científico”, o que é absurdo. Soube eu de um teólogo brasileiro, por exemplo, para quem o mar vermelho se abriu graças a um fenômeno natural — o que é muito mais difícil de crer. Ou seja: no exato instante em que Moisés rogou a Deus, um fenômeno natural (não explicado) dividiu as águas para o povo hebreu passar, fenômeno esse interrompido exatamente na hora em que os egípcios passavam. Papa-léguas!! E as teorias loucas se multiplicam.

Vale dizer que isto não é prerrogativa do nosso tempo. Já na Idade Média, vários erros decorrentes da má-resolução dada ao problema das relações entre fé e razão grassavam, com a diferença específica de que, então, o Magistério se pronunciava solenemente, condenando as heresias e chamando os fautores do erro ao arrependimento e à retratação ou, então, impondo-lhes o silêncio com relação às suas doutrinas — caso não quisessem ser excomungados.

A título de exemplo, vejamos algumas dessas heresias conseqüentes à confusão entre fé e razão, com as quais, a propósito, Santo Tomás teve brilhantemente de se confrontar:

1- Negação da Trindade;
2- necessitarismo da ação de Deus na criação do mundo;
3- eternidade do mundo;
4- negação do primeiro homem;
5- negação da potencialidade na atividade dos anjos;
6- negação da Providência divina em relação a cada coisa do mundo;
7- proposição de um único intelecto possível para todos os homens;
8- pluralidade das formas substanciais no homem individual;
9- influxo necessário e determinante dos astros sobre as potências superiores da alma humana (inteligência e vontade);
10- tese de que o homem conhece as coisas particulares por iluminação divina, e não por abstração de suas qüididades materiais, etc.

Todas essas opiniões, direta ou indiretamente, partem da confusão acerca de quais sejam os objetos da fé e os da razão, e os limites e direitos de cada uma.

Assim, se Maria é sempre Virgem, se Adão foi o primeiro homem, se Deus criou o mundo e todas as espécies de animais ex nihilo, se Maria disse “sim” ao Anjo da Anunciação, se o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, etc., são verdades de fé que não cabe à razão provar, embora a ciência teológica possa extrair alguns corolários dessas verdades, com o auxílio luxuoso da filosofia, ancilla theologiæ.

Veremos, no próximo texto, a posição de Santo Tomás no tocante a este tema de importância capital, a partir das distinções entre fé e razão e entre teologia e filosofia, que em sua teoria são complementares. E veremos também que o Aquinate jamais admite o Credo ut intelligam anselmiano como se representasse uma transformação do conteúdo da fé em algo científico.

Deixemos consignados, desde logo, que de acordo com o Doutor Comum há as seguintes distinções:

a) Quanto ao objeto material: a razão parte do visum, e a fé, do non visum (explicaremos a ambos);
b) Com relação ao objeto formal: a razão parte de evidências, e a fé da autoridade divina;
c) Com relação a seus efeitos: a razão anui às conclusões por uma espécie de necessidade intrínseca, graças às conclusões que a ela se impõem a partir de princípios e evidências, e a fé chega a suas conclusões livremente, pois não parte de nenhuma evidência, não obstante tenha a ser favor os elementos de credibilidade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Idade Média e o espírito das Cruzadas



Sidney Silveira
Na próxima quinta-feira (12/11), a partir das 18h, a Livraria Leonardo da Vinci será palco da palestra “A Idade Média e o espírito das Cruzadas”, a propósito do livro Raimundo Lúlio e As Cruzadas, uma edição trilíngüe (latim/catalão/português) recém-apresentada ao público brasileiro pela Sétimo Selo. O evento se enquadra na série "Encontros no Subsolo", organizada pela Da Vinci, e a entrada é franca. A livraria fica na Av. Rio Branco, 185, subsolo, Centro, Rio de Janeiro. Todos os amigos residentes no Rio e adjacências estão convidados. E também os adversários de espírito valente, dispostos a consignar todas as objeções aos encômios que serão feitos às Cruzadas.

O encontro será mediado por mim, na qualidade de editor, e terá a participação do Prof. Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES e da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona (meu querido irmão) , e do Nougué.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As relações entre fé e razão (I)

São Paulo fala da fé aos aturdidos gregos,
que lhe pediam "razões" suficientes
Sidney Silveira
Um amigo apresentou-me noutro dia o vídeo de uma aula de filosofia que muito bem poderia integrar a coleção Primeiros e Últimos Passos (ou Definitivos Tropeços), na qual o professor, referindo-se a Santo Tomás, minimizava a problemática das relações entre fé e razão como se fora coisa de somenos importância. Na verdade, trata-se de um dos mais espinhosos problemas filosóficos e teológicos, que somente alcançou uma solução satisfatória — e definitiva — com Tomás de Aquino, como veremos.

Algumas posições equívocas foram esboçadas, antes e depois do Aquinate. Destaquemos as principais:

a) Oposição irredutível entre fé e razão. Aqui se incluem duas correntes extremadas, ambas condenadas pela Igreja: 1- a do fideísmo, em que a razão é vista como um perigo para a fé, na medida em que os mistérios são de todo inescrutáveis; 2- e a do racionalismo, que defende um duplo horizonte de verdades (as de fé e as de razão) que nada têm de comum entre si.

b) Harmonia entre fé e razão. Aqui, também vemos duas posições: 1- a que se baseia na distinção e complementaridade entre ambas, 2- e a que se baseia na separação entre as duas. Para defensores dessa última idéia, haveria uma espécie de harmonia acidental (e não essencial) entre a razão e a fé. Esta posição problemática acabou desterrando a fé de seu habitat, levando-a ao âmbito do mero sentimentalismo ou, então, transformando-a numa pura e simples moral. Ou ainda — em uma terceira vertente — chegou-se a defender a possibilidade de provar os artigos da fé por meios racionais.

Como diz M. G. Manser, O.P, no já mencionado livro A Essência do Tomismo, obra magistral que nos orienta no presente texto, a má-interpretação da fórmula Credo ut intelligam de Santo Anselmo — que, em verdade, já havia sido formulada por São Pascácio Radberto — levou a que muitos considerassem se tratar de um “avanço” da fé em direção ao conhecimento. Em suma, essa visão levou ao perigo de imaginar que o católico deveria passar da fé ao saber demonstrativo sobre a fé. Isto gerou uma confusão tríplice.


1- Com relação à origem da fé;
2- Com relação ao conceito de fé;
3- Com relação ao domínio da fé.

Vejamo-las, tendo como base o precioso trabalho de Manser:

1- Com relação à origem da fé

Em primeiro lugar, deve-se frisar que a razão e a Revelação partem de distintas fontes de verdade. Quem submete uma à outra ou amplia o campo de uma em detrimento do da outra não faz a distinção correta. Estes casos extremos podem ser ilustrados, na Primeira Escolástica, pelo monge inglês beneditino Alcuíno (735-804), que gostaria de provar até mesmo as questões filosóficas por meio da Sagrada Escritura; e, em seus antípodas, por Rábano Mauro (776-856), que pretendia reduzir toda a Sagrada Escritura às sete artes liberais.

Escoto Erígena (810-877), por sua vez, leva o Credo ut intelligam a uma interpretação rigorosíssima — confusamente influenciada pelo racionalismo. Para ele, todo e qualquer conhecimento da verdade pressupõe a fé. Lê-se num trecho do seu De Divisione Naturæ: “Ex ea enim omnem veritatis inquisitionem initium sumere necessarium est”. No século seguinte, seguem esta posição Roger Bacon e Raimundo Lúlio.

Hugo de São Vítor (1096-1141), outro autor importante, não possui uma só definição de filosofia (dentre as muitas que nos legou) que a distinguisse corretamente da fé. E a mesma confusão é compartilhada por John de Salisbury (1120-1180), que mistura os âmbitos da fé e da filosofia ao dizer que a origem da filosofia é... a Graça!

2- Com relação ao conceito de fé

Quando a inteligência conhece uma coisa, pode-se dizer que tem dela uma espécie de visão (visum) intelectiva, pois a inteligência assente ao objeto do saber porque tem diante de si uma verdade evidente. O objeto da fé, por sua vez, não parte de nenhuma evidência (e sim de uma non visum), pois se apóia na autoridade divina, na Revelação. Para os adeptos do Credo ut intelligam que pretendiam transformar a fé [não me refiro aqui à teologia!] em ciência, era uma pedra de tropeço a passagem de São Paulo (em Hb. XI, 1) na qual o Apóstolo diz que a fé é uma “certeza daquilo que não se vê”. Em suma, se se considera como objeto da fé o que é por si evidente ou demonstrável, a coisa se complica enormemente. Nem mesmo o prudente Pedro Lombardo (1100-1160) passa por este problema sem alguma confusão, pois admite uma espécie de conhecimento interno da fé (em III, Sent., 24, 3).

O já mencionado Hugo de São Vítor simplesmente considera a frase paulina “incompleta” (em De Sacram. Christ. Fidei, I) e distingue três classes de crentes: a) as pessoas simplórias que crêem piedosamente, mas sem conhecimento (sola pietate credere eligunt); b) outros que fundamentam racionalmente o conteúdo daquilo em que crêem (alii ratione approbant quod fide credunt); c) e os que têm a certeza da fé a partir da pureza da inteligência (puritas intelligentiæ apprehendit certitudinem)*. Veja-se que estamos aí perigosamente próximos da gnose, ou seja, de uma espécie de salvação pelo conhecimento.

Ricardo de São Vítor (? – 1173), discípulo de Hugo, chega a lamentar — em seu De Trinitate — que, em favor da divina Trindade, se aduzam apenas provas de autoridade, e não de razão.

O erro não escapou nem mesmo a autores proclamados santos, como o próprio Anselmo de Cantuária, que no proêmio do seu Monologium afirma a necessidade de provar as verdades da fé. Tal intento não se limita à Trindade, mas a tudo o que cremos de Cristo (omnia quæ de Christo credimus), e sem apelar à Sagrada Escritura (sine Scripturæ auctoritate), mas com razões necessárias (necessariis rationibus ex necessitate). Com isto, Anselmo comete um erro grave: simplesmente exclui o verdadeiro objeto formal da fé, que é a autoridade divina, e o identifica com o saber humano. E o mesmo faz Abelardo** (1079-1142), que compôs o tratado De Unitate et Trinitate por insistência de discípulos que pediam razões filosóficas para sustentar as doutrinas da fé.

Em suma, a tentativa de comprovar os artigos da fé com razões filosóficas permeia a obra de quase todos os pensadores de escol, durante um largo período histórico. Alguns, para aduzir um argumento corroborante às suas teses, chegaram a afirmar que os pagãos tinham conhecido racionalmente a Trindade — tese a que nos dedicaremos no próximo texto sobre o tema.

Veremos como todos esses erros ou heresias, sem nenhuma exceção, foram refutados por Santo Tomás — cuja doutrina teológica foi depois consagrada pelo Magistério da Igreja e acolhida por inúmeros Papas em série. A começar pelo seguinte princípio do Aquinate. “As verdades da fé cristã não podem ser contrariadas pelas verdades [adquiridas] pela razão” (quod veritati fidei christianæ non contrariatur veritas rationis)***. Caminhemos aos poucos, que o tema assim o exige.

(continua)
* Cfme. De Sacram. Christ. Fidei, c. 4.
** Se Deus quiser, ainda antes do Natal deste ano, a Sétimo Selo apresentará uma obra magna de São Bernardo que eu recomendo a todos: As Heresias de Pedro Abelardo, em edição bilíngüe. Veremos, na Apresentação ao livro, a verdadeira face teológica, filosófica e moral de Abelardo — autor tão incensado por historiadores e filósofos que hoje parasitam a Igreja, seja em universidades católicas, seja em grupos de intelectuais ligados a ordens religiosas ou até mesmo em Seminários...
*** Suma Contra os Gentios, I, 9.