segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Analogia, instrumento do saber


Sidney Silveira

Dado o modo propriamente humano de conhecer  abstrativo e, por sua natureza, precário, pois nunca esgotamos a inteligibilidade do real , a analogia é o procedimento por excelência das ciências e da filosofia, ainda quando cientistas e filósofos não tenham a menor noção do que venha a ser a analogia, a qual era conhecidíssima de matemáticos e de geômetras desde os tempos dos pitagóricos e de Euclides.

Para o que nos interessa destacar, basta referir o seguinte: para aqueles geniais perscrutadores da natureza das coisas, "logos" era termo designativo de qualquer relação de comensurabilidade entre duas partes homogêneas, ao passo que "analogia" era um "logos" composto, ou seja, a relação de comensurabilidade de duas relações. Portanto, se "logos" implicava uma relação entre apenas dois termos, por sua vez "analogia" exigia pelo menos quatro termos.

Diz o seguinte o filósofo José Miguel Gambra em notável estudo sobre a analogia. Se lembrarmos que a palavra grega "logos" foi traduzida pelos latinos por "ratio", do verbo "reor" (calcular, computar, etc.), assim como por "portio" (que significa "quasi pars", "mensura"), e se também considerarmos que o prefixo latino "pro" pode traduzir o grego "ana", chegaremos a "proportio" para traduzir "analogia". Estamos a falar, pois, de proporções e, portanto, de relações entre semelhanças e dessemelhanças.

Isto é, digamos de maneira sumariíssima, a analogia.

Conhecemos comparando, e comparar não é outra coisa senão mensurar graus de similitudes entre coisas distintas. Em síntese, raciocinar é o modo próprio de o homem investigar a realidade medindo-a em diferentes níveis, por comparação entre termos e conceitos implicados em princípios, premissas e evidências; nas palavras do Aquinate, "compondo e dividindo"  até chegar a conclusões mais ou menos certeiras.

Isto posto, assinala Gambra, aludindo ao neotomista Santiago Ramírez, maior estudioso do tema no século XX, que as ciências e a filosofia não têm como escapar à analogia.

Nós a encontramos em todos os tipos de conhecimento:

> NA FÍSICA, basta pensarmos na lei newtoniana segundo a qual dois corpos se atraem na razão direta de sua massa e na razão inversa ao quadrado da distância entre eles. Temos aqui uma perfeita analogia!

> NO DIREITO, a regra segundo a qual de duas ou mais coisas similares há de fazer-se o mesmo juízo, e não juízos diversos, é uma perfeita analogia!

> NA LÓGICA, se estabelecemos com Santo Tomás que o silogismo dialético está para a opinião assim como o silogismo apodítico está para a ciência, temos uma perfeita analogia.

Gambra enumera outras analogias na arquitetura, na filologia, na biologia, na sociologia, na história, na psicologia, na teologia, na poética e em incontáveis ciências, as mais díspares entre si, para deixar consignado tratar-se de um instrumento inescapável tanto para cientistas como para filósofos.

Pena que a modernidade e a pós-modernidade quase inteiras mataram a aula sobre esta ferramenta tão cara aos escolásticos...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DO BRASIL SEM MÁSCARAS

AULA 5 no ar!

"O 'esquecimento' do Brasil no começo do século XVI":

http://cursos.contraimpugnantes.com.br/curso/historia-do-brasil-sem-mascaras-aula-5/


As quatro exposições anteriores do curso "HISTÓRIA DO BRASIL SEM MÁSCARAS" podem ser adquiridas em:  

http://cursos.contraimpugnantes.com.br/categoria/historia-do-brasil/

P.S. As aulas são vendidas em separado, a R$ 35 cada. Assim, as pessoas podem ter acesso – se lhes aprouver – apenas àquelas cujo tema for do seu interesse.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Muita irreverência, nenhuma piedade


Sidney Silveira

Quando a irreverência transforma-se em hábito é sinal de que a devoção a Deus e a piedade são impossíveis para uma pessoa.

Leia-se com atenção o Capítulo XX da Regra de São Bento, intitulado "De reverentia orationis", para que se entenda o seguinte: OS IRREVERENTES SÃO DEVOTOS DO PRÓPRIO UMBIGO, no melhor dos casos, porque lhes falta o abandono de si e a circunspecção, duas características das almas contemplativas, únicas capazes de real devoção.

Muita galhofa para com os homens descamba num coração impuro para relacionar-se com Deus da maneira devida, a saber, reverente e devotamente.

"Humilitas", "reverentia" e "puritatis devotio", que segundo São Bento perfazem a atitude interior da verdadeira oração, são realidades muito distantes dos escarnecedores.

Se estivesse nos desígnios de Deus recivilizar o mundo, bastava, sim, a essência da pedagogia beneditina.

domingo, 31 de julho de 2016

Jacques Hamel, mártir? Não sabemos!


Sidney Silveira

Ensina a teologia católica que o martírio é um ato de fortaleza sobrenatural, ou seja, infundida por Deus, por meio do qual alguém aceita PACIFICAMENTE ser morto para dar testemunho da fé em Cristo custodiada pela Igreja.

Sendo uma graça especialíssima, o martírio implica duas circunstâncias, entre outras:

> um ódio específico à fé católica ("odium fidei"), da parte do assassino;
> a aceitação da morte de maneira absolutamente pacífica, sem reação, da parte do mártir (por amor a Cristo).

Para termos idéia do rigor canônico nos processos eclesiásticos de antanho, todos levados a cabo com admirável prudência, houve quem não fosse considerado mártir só porque esboçou uma leve reação em defesa da própria vida, no momento da morte.

Outros tempos...

Em suma, o mártir PREFERE SER MORTO a negar a Cristo, e o faz com a alegria de saber tratar-se duma coroa espiritual gloriosa, concedida a poucos. Tal preferência deve manifestar-se por sinais exteriores inequívocos. Podemos dar como exemplos — distantes um do outro, no tempo — a atitude de São Pedro e a das carmelitas francesas de Compiègne, na hora de suas respectivas mortes.

Valhamo-nos agora duma linguagem metafísica para dizer que a morte violenta infligida pelo carrasco ao cristão é causa material do martírio. A causa formal é a caridosa oblação interior que o mártir faz a Deus na hora de sua morte, não raro também rezando pela salvação de quem o mata. Em síntese, não basta uma pessoa ser morta violentamente para a Igreja considerá-la mártir, pois o ato especificador do martírio é uma entrega caridosa, daí dizer Santo Tomás: "(...) ad actum martyrii inclinat quidem caritas sicut primum et PRINCIPALE motivum".

A propósito, a catequização do Brasil acelerou-se quando índios antropófagos perceberam que alguns portugueses por eles assassinados — e depois comidos com infame volúpia — se punham de joelhos antes de morrer não por covardia, mas por uma coragem de ordem muitíssimo superior, feita de perdão aos homens e amor a Deus.

Quem leu com atenção a "História Geral do Brasil", de Varnhagen, cuja ilustração desta postagem fotografei para mostrar neste breve texto aos amigos, percebeu o seguinte: os índios passaram do desprezo àquilo que consideravam tibieza ao estupor de descobrir uma forma supina de coragem. Até então, segundo relato de diferentes cronistas, o prisioneiro da tribo inimiga a ser comido passava por um regime de engorda, e até lhe era oferecida uma jovem para que tivesse algum recreio venéreo antes de morrer. Esta concubina pré-funerária tinha de derramar algumas lágrimas, depois da morte do seu amante circunstancial, para mostrar-se digna de comer o primeiro bocado do banquete: o pênis do defunto.

Oh, elevada civilização dos bons selvagens!

Quanto ao padre Jacques Hamel, degolado por desgraçados muçulmanos na última semana, senti-me envergonhado ao ver uma garotada católica afirmar com certeza tratar-se de um MÁRTIR QUE JÁ É NOSSO INTERCESSOR NO CÉU. Santo Deus! Comentei isso ontem com um excelente canonista amigo meu, e ele não apenas concordou comigo, como também citou estudiosos que estão a sublinhar o tamanho da imprudência desta afirmação, assim como a total inocuidade teológica e magisterial dela.

Não conhecemos todas as circunstâncias deste crime bárbaro, simples prenúncio do que está por vir no continente europeu espiritualmente prostrado, moralmente emasculado e politicamente ferido de morte pelo pluralismo.

Seja como for, nunca é demais estudar, um pouco que seja, antes de opinar em matéria tão complexa.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Duas novidades: revista "Verbum" e Coleção Neotomismo



Sidney Silveira

Em breve darei notícias detalhadas de duas iniciativas nas quais estarei envolvido: escrever artigos para a revista "Verbum", cujo primeiro número logo será anunciado, e coordenar a COLEÇÃO NEOTOMISMO, que editará obras de autores verdadeiramente fabulosos.

O primeiro livro da referida coleção será do filósofo e teólogo belga Pierre Mandonnet (em destaque na foto desta postagem), no qual é abordado o problema do averroísmo latino do século XIII.

A maior parte dos autores da Escola Neotomista iniciada no último quartel do século XIX, diga-se sem constrangimentos de nenhuma espécie, está muito acima de tudo o que ainda hoje é louvado como alta filosofia do século XX.

Precisaremos do apoio dos amigos para levar o projeto COLEÇÃO NEOTOMISMO em frente, aviso desde logo.

Ele virá a luz pela editora Primus, também responsável pela revista "Verbum".

sexta-feira, 24 de junho de 2016

História do Brasil sem Máscaras




Sidney Silveira

HISTÓRIA DO BRASIL SEM MÁSCARAS — a pátria além da ideologia

Começo com o amigo Sergio Pachá uma atividade em molde muito diferente de tudo o que já fizemos juntos: um curso de História do Brasil que poderá ser adquirido pelos interessados aula a aula, ou seja, de acordo com o tópico que lhes aprouver.

Sem qualquer nódoa de falsa modéstia, digo o seguinte: atualmente, nem nas faculdades de História nem fora delas se tem acesso a um conteúdo como o que apresentaremos, sobretudo da maneira como o apresentaremos.

Cada aula custará R$ 35.

Iremos do Descobrimento à Era PT, montando quadros sinópticos.

Em poucas palavras, tratar-se-á duma História do Brasil sintética e comentada. 

CLIQUE NESTE LINK (http://goo.gl/6jWLvo) e adquira a primeira aula.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Pai


Sidney Silveira

Pai,

Só sabe que a inocência existe quem a perdeu de olhos abertos.

A minha época de verdadeiro idílio foi quando — menininho ainda — eu não via nada à frente além de você, pai. Quando nada mais me importava além da sua anuência às minhas incontáveis travessuras.

O tempo passou e os nossos caminhos se foram afastando aos poucos, mas tenho confiança em Deus que eles voltarão a se cruzar. Sim, numa realidade em que perdão e amor serão apenas dois nomes a designar um só movimento d'alma.

Quem sabe lá conseguirei ser um filho melhor?

Esta foto, relativamente recente, foi-me enviada por minha irmãzinha a seu pedido, pai, para que eu o visse sem barbas após longo tempo em que você as manteve longas.

Descanse em paz, meu velho.

Se algum dia tive pureza de espírito, foi na época em que dormia somente depois de ouvi-lo entrar em casa, às vezes tarde da noite. Era a senha para o sono vir.

Já vai muito longe o tempo em que o meu coração foi bom. E só o foi por causa do amor incondicional que você me fez sentir, naqueles anos. Um amor cheio de momentos inesquecíveis, como quando, orgulhoso, eu saía do Maracanã nos seus ombros após uma vitória do nosso tricolor.

Se algo de bom em mim ainda vive, é essa infância que não morreu.

Nela, você foi o rei.