Espaço destinado a combater a insidiosa e multiforme cultura liberal, que tem entre as suas raízes mais daninhas: uma falaciosa noção de liberdade humana; a idolatria — implícita ou explícita — da consciência individual; a separação entre natureza e moral; a contraposição entre Estado e indivíduo; a dissolução da Religião em categorias morais sem fundamento metafísico; a perda da noção de bem comum político.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Pequeno trecho do livro "O Êxtase da Intimidade", editado pela Sétimo Selo e já à venda
quarta-feira, 4 de maio de 2011
A Boa Música: um blog do Prof. Nougué
terça-feira, 3 de maio de 2011
Sobre demônios e endemoniados (II)
Sidney Silveira
A existência dos demônios é, antes de tudo, uma verdade de fé. Ou seja, ela é atestada pela Sagrada Escritura, razão pela qual o teólogo católico — em suas especulações acerca do ser e das operações dessas criaturas espirituais — deve sempre partir da certeza absoluta de que os demônios (assim como os Anjos) existem, se não quiser perder a fé. As passagens tanto no Antigo Testamento como no Evangelho são várias, com a diferença marcante de que, no Antigo Testamento, a ação dos demônios é sempre exterior, com tentações, infestações locais e pessoais, enquanto no Evangelho ela chega ao interior, à possessão propriamente dita. Como afirma o exorcista Corrado Balducci, no livro que tomamos como linha-mestra para estes textos, não existe um só caso de possessão no Antigo Testamento. Isto quer dizer o seguinte: na Lei Antiga há demônios, sim, mas não endemoniados; noutro texto veremos as razões teológicas que explicam isto.
Os textos evangélicos por sua vez nos remetem a sete casos concretos de possessão diabólica:
1- o endemoniado mudo (Mt. IX, 32-33);
2- o endemoniado cego e mudo (Mt. XII, 22-32);
3- Maria Madalena, que estava possuída por sete demônios (Mc. XVI, 9; Lc. VIII, 2);
4- o endemoniado de Carfanaum (Mc. I, 21-28; Lc. IV, 31-37)
5- os endemoniados de Gerasa (Mt. VIII, 28-34; Mc. V, 1-20; Lc. VIII, 26-39);
6- a filha da Cananéia (Mt. XV, 21-28; Mc. VII, 24-30);
7- o rapaz lunático (Mt. XVII, 14-20; Mc. IX, 13-28; Lc. IX, 37-43).
Além desses casos de possessão, o Evangelho descreve os outros três tipos de ação diabólica apontados anteriormente, a começar pela tentação de Cristo — arquétipo da atividade luciferina e também modelo da vitória sobre Satanás que Deus quer que todos nós tenhamos. A propósito da tentação do Senhor, diz Santo Tomás na Suma Teológica (III, . q. 41, art. 1, resp):
“Cristo quis ser tentado. Primeiro, para proporcionar-nos auxílio contra as tentações. Por isso diz Gregório em uma homilia: “Não era indigno de nosso Redentor querer ser tentado — ele que veio ao mundo para ser morto —, para que assim vencesse as nossas tentações com as suas, da mesma forma como aniquilou a nossa morte com a própria [imolação]”. Segundo, para precaver-nos, a fim de que ninguém, por santo que seja, acredite estar seguro e imune à tentação. Também por isso ele quis ser tentado depois do batismo, porque, como diz Santo Hilário, “as tentações do diabo voltam-se especialissimamente contra os santos, porque não há vitória que mais apeteça [ao demônio] que a lograda contra os santos. Daí também que no Livro do Eclesiástico (II, 1) se diga: “Filho, se vens servir ao Senhor, mantém-te firme na justiça e no temor, e prepara tua alma para a tentação”. Terceiro, pelo exemplo, isto é, para ensinar-nos o modo de vencer as tentações do diabo. (...). Quarto, para infundir em nós a confiança na misericórdia de Deus. Por isso se diz em Heb (IV, 15): “Não temos um sumo sacerdote incapaz de compadecer-se de nossas fraquezas, pois como nós Ele mesmo foi tentado em tudo, menos no pecado”.
A tentação de Cristo é um modelo para nós no sentido de que nos ensina como espiritualmente agir nestes momentos, mas também diz muito do modus operandi satânico. Antes de tudo, o demônio precisa vislumbrar o sinal de fraqueza a partir do qual iniciará a sua ação. No caso de Nosso Senhor, embora Lúcifer soubesse conjecturalmente que se tratava do Cristo (cf. Lc. IV, 41, onde se lê que os demônios sabiam que ele era o Messias), ele não estava na posse formal perfeita desta verdade, pois, desconhecendo os desígnios da Divina Providência e vendo em Cristo algumas humanas debilidades, não poderia ter certeza absoluta de que ele era mesmo o Filho de Deus. Daí Santo Tomás afirmar que, por este motivo, quis Satanás tentá-lo (Suma Teológica, III, q. 41., art. 1, ad. 1). No parecer do Aquinate, é o que dão a entender as seguintes palavras da Sagrada Escritura: “Depois que teve fome, se aproximou dele o tentador” (Mt. IV, 2-3). Ora, a primeira tentação foi justamente direcionada a um aspecto materialmente identificável pelo diabo, a fome que sentiu Cristo após prolongado jejum: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães” (Mt. IV, 3).
A própria formulação da frase diabólica, expressa na tentação de Cristo, aponta para a incerteza de Lúcifer acerca da condição do Nosso Senhor: “Se tu és” (...).
Retenhamos bem isto, pois nos será útil nos textos que se seguirão: o demônio sempre começa a sua ação tendo em vista a debilidade humana pela qual começará o seu ataque, pois não joga para perder. Embora seja o maior derrotado de todos...
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Livro "O Êxtase da Intimidade": promoção para os leitores do blog

terça-feira, 26 de abril de 2011
Sobre demônios e endemoniados (I)
Sidney Silveira
Estava eu por estes dias lendo a última questão do De Malo, de Santo Tomás — que trata dos demônios — juntamente com o livro Os endemoniados, hoje, do exorcista Corrado Balducci, e me pareceu útil trazer aos nossos leitores um pouco da doutrina católica sobre estas criaturas espirituais cuja excelência ontológica excede incomensuravelmente à humana.
Noutras ocasiões, lembramos no Contra Impugnantes que, de acordo com o Aquinate, a pecabilidade no Anjo provém de uma espécie de ignorância metafísica, ou seja, do fato de os Anjos (que não são Ato Puro, mas compostos de essência e ser) não terem a intelecção de todos os inteligíveis num só ato de sua elevada inteligência, sendo o seu conhecimento, portanto sucessivo — por ter um antes e um depois — e não instantâneo. Só Deus conhece instantaneamente todas as coisas num só ato, daí ser Ele omnisciente, por isso não há trânsito entre o que Ele pensa e o que cria (ou entende). Em resumo, em Deus não é possível haver ignorância, pois Ele já está na suma posse de todos os inteligíveis, que se identificam em absoluto com o seu Próprio Ser Subsistente. Nos Anjos, diferentemente, não há essa intelecção perfeitíssima e englobante de tudo o que há num só ato, razão pela qual eles não podem ter o conhecimento da ordem da Divina Providência, etc.
Santo Tomás encontra, pois, na própria natureza criatural angélica a ratio da pecabilidade, ou seja: a radical possibilidade de o Anjo pecar, como de fato pecaram Lúcifer e os que se seguiram a ele. E o fato de os Anjos que não caíram não poderem mais pecar se dá não em virtude de sua natureza, e sim porque eles foram sobrenaturalmente confirmados na luz da glória, sob cujo influxo nenhuma criatura é capaz de pecado. Mas por que essa necessidade de encontrar na inteligência do Anjo a raiz da possibilidade de pecar? Simplesmente porque, embora o pecado tenha sede na vontade, esta é apetite intelectivo do bem, e, portanto, a inteligência possui um papel-chave em todo ato pecaminoso, seja humano ou angélico. Noutras palavras, só uma inteligência absolutamente inerrante poderia não pecar. E este não era o caso dos Anjos, apesar da sua notável excelência.
Depois do pecado, há uma situação mais ou menos simétrica entre os Anjos e demônios: uns confirmaram-se na glória e não podem mais pecar, enquanto outros caíram e não podem mais ver-se livres do pecado. Estes últimos estão, pois, irremediavelmente perdidos, ao passo que os seus antípodas angélicos estão invencivelmente salvos. Para uns, amor, luz, glória; para outros, o ódio espiritual mais hediondo, trevas, desgraça. Ora, neste estado deplorável de confirmação no mal de culpa e de pena, uma criatura espiritual (como são os demônios, que com o pecado não perderam sua excelência ontológica) não pode senão voltar-se necessariamente ao pecado, aumentando a sua culpa ajuntando malefícios sobre malefícios, até o Dia do Juízo. Mas eles podem voltar-se contra quem? Como?
Pois bem. Digam-se em primeiro lugar três coisas:
a) o ódio satânico a Deus é impotente para feri-Lo, pois Deus é o Ato Puro que não pode sofrer qualquer alteração proveniente de nenhuma criatura.
b) Esse ódio é também impotente para ferir os Anjos confirmados na luz da glória, mesmo no caso eventual de o demônio ser de uma hierarquia superior à do Anjo, pois, como se disse acima, os Anjos que não pecaram foram confirmados na glória.
c) Resta, pois, ao demônio voltar-se contra o homem, que ainda é pecável no atual estado e possui uma dignidade ontológica muitíssimo inferior à das criaturas espirituais, nesta escala que vai da potência da matéria prima ao Ato Puro do espírito divino. Enquanto pode, portanto, o demônio vinga-se de Deus ferindo o homem, perdendo-o quando lhe é permitido chegar a tanto. Mas sempre como instrumento (em geral, de santificação) da Divina Providência, como se verá adiante.
Os teólogos identificam quatro modos de ação diabólica contra o homem: a tentação, a infestação local, a infestação pessoal e a possessão. Balducci convenceu-me de que o termo obsessão já não é o ideal, pois se confunde com algumas linhas da psicologia e da psiquiatria contemporâneas. Vejamos cada um desses casos, seguindo de perto o nosso exorcista.
A tentação diabólica é um estímulo, uma incitação ao pecado. Noutras palavras, tentar é por à prova induzindo ao mal, experimentando (tentare est proprie experimentum sumere de aliquo, conforme diz Santo Tomás na Suma Teológica, I, q. 144, a. 2). Aqui é conveniente dizer que nem todas as tentações provêm do diabo, pois muitas são advindas da nossa natureza corrompida pelo pecado, da concupiscência desgovernada. Mas como exercita o demônio esse poder de tentar o homem? Resposta: agindo sobre os sentidos internos e externos, principalmente sobre a memória, a imaginação, o tato e a visão. Desta forma, ele procurar atuar, ainda que indiretamente, sobre a vontade, induzindo-a a querer pecar.
A infestação local é a atividade diabólica exercida sobre a natureza inanimada ou, também, sobre a animada inferior, para perturbar o homem — sempre com intuitos espirituais maléficos.
A infestação pessoal ocorre quando o demônio comete contra uma pessoa uma série de tentações violentíssimas e reiteradas vezes. Aqui, em boa parte dos casos ele incita a pecados mais graves, tanto da carne como do espírito. Aparições monstruosas, blasfemas, imagens lúbricas e palavras malditas acossam o homem sob o influxo da infestação pessoal.
A possessão caracteriza-se pelo completo domínio de Satanás sobre uma pessoa, da seguinte forma a) diretamente sobre o corpo, pois a sua atuação sobre a matéria é perfeita, na medida em que a criatura espiritual tem o poder de submetê-la totalmente; b) indiretamente sobre alma, já que esta se serve do corpo para as suas operações próprias. Pois bem, nesta situação o homem é instrumento dócil do poder despótico e maléfico do diabo, como diz Balducci.
Nos próximos textos desta série veremos alguns aspectos dessa ação diabólica, dada a natureza de tais criaturas, a começar pelo fato de que os demônios têm total domínio sobre o lugar, pois eles estão onde operam, nas palavras de Santo Tomás. Eles não podem estar contidos num lugar, como nós, senão que o contêm. Veremos também se o possesso, a partir do momento em que passa a sê-lo, comete atos pecaminosos ou se está isento de culpa ao agir como instrumento do demônio.
(continua)
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Pequeno aviso
terça-feira, 19 de abril de 2011
Potência e Omnipotência (II): a participação no Ser
Sidney Silveira
Em se tratando de Santo Tomás de Aquino, não há como falar em potência sem fazer referência ao fato de que a sua obra filosófica nos legou a chamada metafísica da participação em graus intensivos no Ser, como afirma o filósofo Jorge Barrera no começo desta palestra de apresentação de um livro da Sétimo Selo, numa alusão indireta ao teólogo italiano Cornelio Fabro. Tendo isto em vista, abriremos um parêntese nesta série para tratar do conceito de participação que o Aquinate aproveita de Platão, livrando-o não obstante da aporia da separação absoluta entre os mundos sensível e inteligível, entre a Idéia pura e a sua realização/imitação nas coisas compostas de matéria e forma, a metexis. Para tanto, o gênio medieval realizou uma síntese única na história da filosofia, entre o conceito de platônico de participação e a metafísica aristotélica do ato e da potência.
Recorramos a alguns axiomas, para começar:
Ø Ente é o que tem ser (habet esse), mas não é o Próprio Ser, o Ser absoluto.
Ø Todo ente possui, pois, um limite metafísico (seja formal, material, quanto ao ser, etc.).
Ø Portanto, ente é o que tem o ser participado (recebido) por outro.
Ø Por ser limitado, nenhum ente possui, em si, todas as possíveis perfeições da ordem do ser.
Ø Toda perfeição implica um modo de ser.
Ø Participar uma perfeição na ordem do ser é, em sentido próprio, causar.
Ø Em toda participação, o participante está para o participado assim como o ato está para a potência. Por ex.: esquentar um líquido pressupõe algo quente em ato (um bule, etc.), que participa o calor a algo que está em potência para recebê-lo (a água, etc.). Neste caso, a água passa a adquirir uma perfeição participada, o calor.
Ø Toda perfeição encontra-se no participante de modo mais pleno do que no participado; assim, por exemplo, o calor está de modo mais eminente no Sol do que nos planetas por ele aquecidos.
Ø Toda participação é um trânsito da potência ao ato.
Ø Todo ente participado depende de um participante, pois está para ele assim como o efeito está para a sua causa eficiente.
Ø Há certa proporcionalidade (semelhança formal) entre o participante e o participado. No exemplo acima citado, um ente quente em ato participa o calor a outro, e obviamente não o frio (o que seria desproporcional); esse calor passa a ser um modo de semelhança entre os dois.
Ø Todo ente por participação depende de algo que é por si, no que tange à perfeição participada.
A prioridade radical do ato em relação à potência — um princípio aristotélico — está pressuposta em todas estas máximas, e não expressa outra coisa senão a prioridade do mais perfeito com relação ao menos perfeito, na ordem do ser. Para Aristóteles, lembremos, o ato identificava-se com a perfeição formal ou operativa, enquanto a potência dizia respeito ao aspecto material (à matéria passível de assumir novas perfeições formais entitativas e de operar a partir delas), sendo ato e potêntia dois coprincípios inerentes a todas as coisas. Santo Tomás vai muito além: identifica o ato não com a forma, mas com o ser, e com este ajuste aparentemente simples resolve uma série incomensurável de aporias.
A emergência metafísica do ser (esse) sobre todas as formas e sobre todos os atos significa o seguinte: o ser é o ato por excelência, a atualidade de qualquer forma ou realidade, de sorte que qualquer perfeição formal está, com relação ao esse, em potência. E o ser dos entes é, literalmente falando, participado pelo Próprio Ser Subsistente, que é Deus. Diz o Aquinate:
“Nada possui atualidade senão enquanto é; logo, o próprio ser é a atualidade de todas as coisas e de todas as formas” (Suma Teológica, I, a. IV, a.1, ad 3).
Essa emergência absoluta do ser Santo Tomás buscou-a no neoplatônico Pseudo Dionísio Aeropagita, e é sobre ela que se articula a dialética da participação, de acordo com Cornelio Fabro — o tomista que, no século XX, resgatou brilhantemente o conceito de “ato de ser” (actus essendi). Em resumo, esta noção de ser é intensiva, na medida em que, quanto melhor for a participação de um ente na ordem do ser, mais ele será perfeito, mais terá potências ativas para atuar. Há, portanto, graus de ser que vão desde Deus (ato puríssimo e, portanto, omnipotente) até a mais ínfima parcela da matéria comum. O ser, neste sentido, subordina a si todas as formas entitativas, que em relação a ele são meramente potenciais. Como se disse no texto anterior, potência é um possível no Ser (aqui com maiúscula, porque a referência é o Próprio Ser, ao qual, normalmente, chamamos Deus).
Assim, em todo ente podemos dizer que:
a) a matéria participa (enquanto potência) da forma;
b) a forma participa (enquanto potência) do ato de ser.
c) e o ato de ser, por sua vez, é participado pelo Próprio Ser, sendo este o imparticipado, o absolutamente separado da matéria e de todas as formas.
Em todos os entes, pois, o ato de ser (participação no Próprio Ser) é o mais perfeito, o mais íntimo, o ato radical, o substrato metafísico fundamental absolutamente intocável pela nossa mão. Nós só podemos alterar a matéria e a forma dos entes, mas jamais lhes maculamos o ser. Só Deus, o Próprio Ser, participa o ato de ser dos entes e só Ele pode aniquilá-lo, tocá-lo, alterá-lo. Nenhum ente tem potência para tanto, pois o seu limite de atuação é a forma (principiis operationis). Assim, posso dizer que meus pais me participaram a forma humana, mas eles não me deram o ser, pois este quem dá é somente Deus. O ser era o suposto daquela operação formal específica, algo anterior (e superior, transcendente) aos meus pais. Da mesma forma eles não me podem retirar o ser; podem até matar-me, ou seja, destruir a minha forma entitativa humana, mas o ser que a subjaz permanecerá, no cadáver. Assim, podemos pulverizar um ente e transformá-lo em partículas infinitesimais de matéria, mas não o podemos metafisicamente aniquilar (ou seja: destruir-lhe o ser em sentido absoluto). O ser é, pois, indestrutível, pois participa da absoluta indestrutibilidade de Deus, o Próprio Ser.
Todas as coisas que não são o Próprio Ser — ou seja, Deus mesmo, que é o Ser por essência, enquanto elas o são por participação — têm perfeições formais específicas, porém limitadas. São, portanto, entes. Têm o ser mas não são o Próprio Ser.
De tudo isto pode-se extrair um corolário: dado que existem os entes (por participação), é necessário haver o Ser (por essência), sem o qual os entes seriam não menos que absurdos, sob qualquer aspecto que os contemplássemos.
Nesta ordem do ser, o homem é a interseção entre o finito (pois participa das coisas corpóreas) e o infinito (pois participa das coisas incorpóreas, dada as suas potências superiores: a inteligência que conhece a verdade e a vontade que quer o bem). Ora, isto é de uma beleza sem par, sublime! Daí Santo Tomás dizer lindamente que, quando entendemos algo, acontece o seguinte milagre*: o ínfimo do Supremo (que é Deus) toca o supremo das coisas ínfimas (que somos nós).
* Uso aqui o termo "milagre" com analogia de proporcionalidade metafórica.