segunda-feira, 31 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"TV" Contra Impugnantes: 1º trecho de vídeo do evento "Santo Tomás, médico da alma"

Sidney Silveira
Está no ar o
primeiro trecho de minha palestra no evento "Santo Tomás, médico da alma", realizado há cerca de um mês, no Rio de Janeiro. Aos poucos, todas as quatro palestras serão colocadas na íntegra no Youtube.

"Alma Humana. Ser e Operações": segundo trecho da palestra

Sidney Silveira

Veja-se a segunda parte da palestra "Alma humana: ser e operações", no evento "Santo Tomás, médico da alma". Aos poucos, como se disse, disponibilizaremos os vídeos de todas as palestras.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prévia do evento "Santo Tomás, médico da alma"

Sidney Silveira

Somente hoje comecei a passar para o computador os pesados vídeos das palestras do evento "Santo Tomás, médico da alma", que aconteceu há um mês. Em virtude do formato desse material e da minha falta de tempo, presumo que o processo demorará alguns dias (depois porei os vídeos no Youtube). Enquanto isto não acontece, indico o link de uma breve sinopse que o Prof. Nougué fez, no dia seguinte ao evento, no Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo (RJ).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Recusa da beleza, negação do ser: reflexos do mundo sem Deus


(“Só existe beleza onde a inteligência adensa-se na apreensão do real”.)


Sidney Silveira


O verdadeiro êxtase pressupõe o encontro da inteligência com uma beleza real, no plano ontológico — o êxodo do amante na direção do objeto ou da pessoa amada realizado pelas potências superiores da alma, quando estas vencem os obstáculos de ordem espiritual para a fruição da excelência das coisas. Pressupõe, pois, uma espécie de subida mística do plano sensível ao inteligível, um aprofundamento do olhar sobre a realidade sem o qual não é possível dar a cada coisa o seu valor devido, proporcional ao grau de ser e de beleza que possui. Quando, portanto, observamos pessoas embebidas numa espécie de gozo estético ao contemplar algo feio, desarmônico, pobre quanto às formas, incompleto, ininteligível, degradante, sem finalidade, etc., tenhamos a certeza de que se trata de almas profundamente doentes.


Tal doença é caracterizada por um irracional e doloroso confronto com as coisas, pois, como dizia Julián Marías, a realidade não é somente o que existe, mas também o que resiste invencivelmente aos desacertos do espírito humano. Ora, na medida em que a nossa inteligência haure da realidade dos entes a verdade[1], pois as formas inteligíveis são por nós abstraídas das coisas, um erro no tocante à natureza destas será reitor de enganos sem fim. Isto numa escala que pode ir da pura e simples inépcia intelectual à mais dramática inversão do sentido do real, própria de personalidades esquizóides, anti-sociais, megalômanas — que se tornaram incapazes de remorso mesmo após a prática dos delitos mais maldosos; incapazes também de alegria, se considerarmos esta como o deleite proveniente do encontro objetivo da inteligência e da vontade com o verdadeiro, o bom e o belo, aspectos transcendentais do ser.


Pois bem. O fato de hoje a incapacidade de prazer estético com as coisas em si boas ter-se transformado numa espécie de patologia coletiva, em nível mundial, não lhe tira o caráter de doença do espírito, pois a essência de qualquer ente — e a fortiori do ente humano — é medida pela operação de suas potências distintivas, e não por níveis de déficit que acidentamente apresente no conjunto da sociedade. Assim, "extasiar-se" com o disforme, com o absurdo, com o grotesco, com o patético, com o fantasmagórico (situações típicas da pós-modernidade, em particular do tempo presente, que nem a mais fértil mente surrealista chegou perto de conceber) é em certo sentido tão antinatural quanto abrir os olhos e não ver, mastigar um alimento e não sentir sabor. Ocorre o seguinte: em qualquer ente composto de ato e potência, matéria e forma, substância e acidentes, essência e ser, as deficiências nas potências superiores são mais corruptoras da natureza do que as que atingem as potências inferiores, razão pela qual não nos desumanizamos ao perder uma perna, um braço ou os dentes, mas sim ao recusar a verdade, ao apetecer a indignidade e a feiúra em si mesmas, ao querer o mal, ainda que sob a aparência de bem.


Como se pode deduzir das premissas acima, a apreciação da beleza é instrumento da educação para a verdade e para o bem. Mas para o homem realmente saborear a beleza, enquadrá-la em suas reais dimensões, assimilá-la nos graus relativos às suas formas entitativas, aos seus modos de ser, é preciso ir limpando a inteligência tanto quanto possível dos falsos princípios, das premissas equivocadas — pois só existe beleza onde a inteligência adensa-se na apreensão do real. Daí dizer com muito acerto o tomista argentino Octavio Derisi que toda atividade noética nasce do ser e tem o ser como fim.


Sendo assim, quanto mais uma inteligência antinaturalmente se afaste do ser, quanto mais se afaste do real, menos será capaz de beleza, de verdade, de bondade — casos patentes de Descartes e Kant, por exemplo. E mais estará sujeita à tristeza, à indolência espiritual, à depressão psicológica, ao amargor ou, nos casos mais dramáticos, à pura e simples negação dos bens integrantes da vida humana em sua relação com o mundo exterior e, também, com a interioridade da alma que, indo às coisas, se volta reflexivamente sobre si mesma e descobre um extraordinário universo de beleza e de bem que culmina em Deus — como tão lindamente demonstrara Santo Agostinho ao exclamar o seguinte, partindo da premissa de que “no interior do homem habita a verdade”[2]: Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova (“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!”[3]).


Mas será de fato possível estimular a apreciação da beleza das coisas numa sociedade midiática regida pela propaganda — ao modo do aterrador 1984 de George Orwell? Será possível isto numa sociedade regida pela opinião da maioria teleguiada, tão característica do democratismo que, sob as mais variadas formas (não raro tendo o apoio do Estado opressor[4]), invade todas as esferas, da família às empresas, passando pela política e pela arte, isto para não falar da religião? Será possível isto numa sociedade pluralista que não possua um símbolo unitário que a oriente e conforme? Será possível isto, enfim, numa sociedade liberal?


A resposta é um veemente “não”. O liberalismo — que dá as cartas na aldeia global — gera e alimenta uma beleza totalmente avessa à excelência espiritual a que o homem é por natureza vocacionado. Gera e alimenta um tipo de humanidade sem acesso ao sublime e, portanto, contrária a Deus e à Igreja. Uma humanidade que recusa a beleza e nega o ser; contrária à ordem natural e alheia à sobrenatural. Para desgraça sua.


Liberalismo esse que, a propósito, há cinqüenta anos tem a hierarquia da Igreja (prevaricadora do seu múnus espiritual) como uma de suas maiores cúmplices e parceiras.


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1- De acordo com a gnosiologia tomista, a verdade tem como fonte os entes e se dá, formalmente, na inteligência, na medida em que esta apreende imaterialmente a forma das coisas tendo como insumo os seus aspectos materiais individuantes captados pelas potências sensitivas, os quais são abstraídos pelo intelecto que alcança, assim, o conceito universal.

2- “In interior homini habitat veritas”. Santo Agostinho, De Vera Religione, XXXIX, 72.


3- Santo Agostinho, Confessiones, X, 27, 38.


4- Como brilhantemente mostrou o Prof. Nougué no artigo intitulado “Breves palavras sobre o PT”, é preciso abandonar a anacrônica dicotomia direita-esquerda, capitalismo-comunismo, se se quer ter a clara noção do que seja realmente o mundo da política liberal (do ponto de vista católico) — o qual abarca e absorve em si os contrários e lhes dá livre curso, fomentando o caos e exacerbando os conflitos sociais. Neste contexto, apenas a título de exemplo, o fato de o Estado monstruosamente invadir cada vez mais a vida privada das pessoas nada tem a ver com uma suposta pauta da esquerda comunista internacional, pois o comunismo clássico se derruiu e se mesclou com o capitalismo e com a democracia liberal, se mesclou com o “é proibido proibir” do Maio de 68 francês, com o abortismo, o populismo e o gayzismo, tornou-se ecumenista (ele que era ateu), e, ao fim e ao cabo, a esquerda por ele gerada contribuiu para plasmar o mundo relativista “sem fé, nem lei, nem rei”, governado por um poder global e sustentado e por uma economia igualmente global, os quais necessitam do controle sobre as consciências para permanecer no poder indefinidamente. Uma esquerda que, nas pautas fundamentais, coincide com a direita, seja na defesa da democracia liberal, e conseqüente "liberdade" dos agentes econômicos (embora neste ponto caiba um texto inteiro para especificar o que se quer dizer), seja na defesa do “sagrado” direito à liberdade de expressão, do ecumenismo, do Estado laico (ou laicista, sendo a diferença entre ambos de grau, mas não de espécie), etc. Em suma, esquerda e direita hoje diferem apenas em alguns tópicos relativos à lei natural, ou em questões atinentes à gestão da política econômica. Na prática, representam aquilo que os escolásticos chamavam de coincidentia oppositorum, ou seja: são opostos que coincidem numa mesma política alheia a Deus e a Suas leis, política que, nos últimos 200 anos, gerou um mundo sem fé e, portanto, anticatólico por excelência. Coincidem nele e o retroalimentam na constante tensão entre as suas facções, as suas ideologias. A propósito, não custa lembrar que o católico não pode ser de esquerda nem de direita, por obediência ao Magistério solene que condenou tanto o liberalismo como o comunismo.

sábado, 15 de outubro de 2011

A virtude da modéstia: humildade no vestir e no falar

Feliz comportamento aquele em que os inimigos não encontram outra culpa além da observância da lei”.


(“Glossa – Interlin.”)


Sidney Silveira


A humildade é uma virtude moral, e não intelectual ou teologal. Ora, como toda virtude moral — embora radique no interior da alma — traz consigo reflexos exteriores, com a humildade não poderia ser diferente: o seu signo visível é a modéstia, tanto no vestir, como no falar. Assim, no que diz respeito ao vestir, o ornato demasiado elegante, chamativo, indecoroso, ostensivo ou frívolo é sinal da imodéstia que vem sempre acompanhada do orgulho, o qual faz uma pessoa querer atrair para si as atenções; no tocante ao falar, as palavras chulas, detratórias, ociosas, excessivamente pomposas, fora de lugar, jactanciosas ou ofensivas são a mostra evidente da soberba, fonte de todos os pecados, amor excessivo, desmesurado, da própria excelência, o qual leva uma pessoa a invejar e a desprezar as demais.


Desde o pecado original até o fim dos tempos, a modéstia sempre terá inimigos, pois a humildade de que é reflexo os têm em grande quantidade (sendo, como é, o primeiro degrau da sabedoria e o movimento inicial da alma a Deus). Pois bem: uma das formas mais antigas, enfadonhas e torpes de criticar a modéstia — seja no vestir ou no falar — é simplesmente acusá-la de hipocrisia, de verniz superficial, de falsa simplicidade. Ocorre que, como salienta muito bem a Glosa, não se conhecem os falsos profetas pelos vestidos, e sim pelas obras, razão pela qual as ovelhas não estão obrigadas a despir-se de suas peles pelo fato de os lobos [ocasionalmente] as usarem.[1] Assim, a ninguém é lícito envergonhar-se de se vestir ou de falar modestamente, pois isto não é possível sem algum grau de consciência culpável; não é lícito fazer isto por respeitos humanos, ou seja, pela preocupação com o olhar do mundo.


Comentando aquela passagem da Glosa, Santo Tomás de Aquino afirma duas coisas preciosas na primeira parte do opúsculo Contra Impugnantes Dei Cultum et Religionem (obra que dá título a este blog):


Ø Os hipócritas não tentariam ocultar sua malícia sob a modéstia, se esta não tivesse aparência de bem;


Ø O demônio não tentaria ocultar seus ministros sob o hábito religioso, se com isto não buscasse fazê-los parecer bons para obrar mais livremente o mal.


Como se pode deduzir do que está dito acima, até mesmo a hipocrisia é uma espécie de reverência — canhestra, decerto — ao bem, pois os hipócritas, sendo maus, buscam ter aparência de bons. Mas a este respeito indaga São Jerônimo, com clareza e precisão, o seguinte: “Porventura devemos culpar a virgindade do crime cometido por quem finge praticá-la?”[2] Ora, muita razão tinha o grande Jerônimo ao fazer a necessária distinção entre a louvável prática de uma virtude e o vicioso uso de deturpá-la, macaqueando-a de forma caricata ao ponto de fazer o virtuoso parecer vicioso, de se tomar o joio pelo trigo. É, portanto, assaz corriqueiro as almas maliciosas chamarem a humildade de hipocrisia, e a modéstia de falsidade. Não encontrando sinais dessas virtudes em si, não as suportam ver nos outros. Precisam, pois, negá-las em gênero, número e grau.


Na verdade, a coisa é bastante evidente no tocante ao vestir, dado que a vestimenta indecorosa ou ostentadora exacerba o apetite concupiscível e desvia a inteligência das coisas verdadeiramente importantes a considerar nas pessoas, mas nem tanto no que tange ao falar, pois neste caso a verdade é mais sutil e sujeita a enganos. Seja como for, ao abordar o problema das palavras que se devem usar no ensino da verdade — tanto a filosófica, como a de fé —, assim como se cabe aos religiosos vestir roupas humildes, o Aquinate pulveriza no citado Contra Impugnantes os argumentos dos malvados que, julgando mal das coisas e das pessoas (male iudicando de rebus et male iudicando de personis), diziam o seguinte:


a) é sinal de imodéstia usar de beleza oratória, dos ornatos da eloqüência humana para falar das coisas divinas;


b) é mais repreensível querer exceder-se em modéstia e pobreza no vestir do que em elegância e garbo.


À primeira dessas impugnações, partindo da premissa de que a perversidade de juízo sobre as coisas é perniciosa (vero perversitas iuidicii de rebus perniciosior est), responde o Doutor Comum citando a São Jerônimo (Epístola 70, endereçada a Magno, orador de Roma) e a Santo Agostinho (tratado De Doctrina Christiana). De Jerônimo lembra que, desde os Apóstolos, passando pelos escritores canônicos e por seus expositores, os cristãos souberam unir a sabedoria divina à oratória humana, souberam com santa moderação imiscuir a retórica secular na sagrada doutrina (...sacrae doctrinae immiscuisse sapientiam et eloquentiam saecularem). Daí que, segundo o Aquinate, seja digno de elogio, e não de detração, quem com modéstia põe a eloqüência humana a serviço das verdades da fé. De Agostinho menciona ele a passagem em que se diz: “Requer-se a eloqüência quando se aconselha algo que deve ser feito, de maneira que se ensine para instruir e se deleite para atrair[3].


Obviamente não se trata, nestes dois exemplos acima, de linguagem demasiado elegante — como fim em si mesma, ao modo dos sofistas —, mas da elegância diácona da verdade. Não se trata de imodéstia, mas do humilde ato de revestir a verdade com a beleza [4], para torná-la palatável aos homens.


À segunda dessas impugnações o Angélico responde dizendo, entre várias outras coisas, o seguinte: o que é merecedor da misericórdia divina não pode ser mau (illud quod divinam misericordiam promeretur non potest esse malum). E recorre à autoridade da Sagrada Escritura para lembrar que até mesmo grandes pecadores alcançaram a misericórdia de Deus por humilhar-se com vestes pobres, modestas. Frisa o Aquinate: “Assim, por exemplo, em 1 Reis, XXI, 27, se diz do perverso Acab que, ao ouvir as palavras de Elias, ‘rasgou suas vestes, cobriu-se com um saco e jejuou’. Por isso disse dele o Senhor a Elias: ‘Viste como Acab humilhou-se diante de Mim? Pois, por ter procedido assim, não lhe enviarei o castigo durante os dias de sua vida’”[5]. Os demais argumentos desse trecho do opúsculo abordaremos noutra ocasião.


A propósito do bem falar que revela ciência (ou seja, do discurso não vanglorioso), Santo Tomás cita novamente o Bispo de Hipona, que no mesmo De Doctrina Christiana afirma: “Perante os pagãos, o Apóstolo não vacilou um segundo sequer em proclamar a sua ciência, sem a qual não poderia ser chamado de Doutor dos Gentios”. Ora — advirtamos nós —, ao contrário dos que põem no ornato verbal o fim do discurso, o Apóstolo punha-o na conversão e no ensino da verdade. Daí Santo Agostinho, no mesmo trecho da citada obra, apontar o seguinte: “O Apóstolo, quando fala de si como tosco de palavras mas não de conhecimento (2 Cor XI, 6), está fazendo uma concessão a seus detratores, e não falando como quem assumisse um ato mau e o confessasse”. Isto porque a sabedoria está acima da eloqüência, razão pela qual esta deve ser usada em função daquela, e não o contrário — o que, ademais, seria enorme estultice.


Assim, o fato de que a hipocrisia disfarçada de modéstia no vestir seja pecado grave não implica que a modéstia no vestir seja vil como a elegância excessiva (pretiositas).[6] E o mesmo podemos dizer, com total segurança, da hipocrisia oculta por trás da modéstia no falar. Como porém os entes são especificados pela forma que possuem, e não pela corrupção dela, a modéstia não pode ser medida por uma hipocrisia pressuposta, e sim pela humildade de que é reflexo — até porque não nos cabe julgar ou adivinhar o coração dos homens, pois só Deus vê o oculto. E se agregue a isto um fator relevante: a simplicidade do homem modesto é visível a olho nu, razão pela qual o primeiro critério para julgar a modéstia são os seus sinais exteriores: falar e vestir-se com simplicidade e decoro. Até porque o falso modesto, o verdadeiro hipócrita, por mais que encha de encômios esta virtude sempre deixará escapar aos olhares atentos a sua verdadeira situação espiritual, análoga à do fariseu que, ao rezar no templo, se achara melhor que o publicano (Lc. XVIII, 10-14). Vejamos o que diz o Aquinate:


A modéstia no vestir (vilitas vestium) não se ordena por si à hipocrisia, pois esta é certo abuso daquela. (...) E dado que o abuso é tanto mais digno de vitupério quanto mais a coisa [de que se abusa] é santa, sendo a hipocrisia tão grande pecado compreende-se que a modéstia no vestir seja coisa manifestamente recomendável, como o são também as obras exteriores de penitência das quais também abusa a hipocrisia”.[7]


Do que foi dito acima se segue, necessariamente, um corolário: ao imodesto está formalmente vedada a sabedoria, pois, agindo tão contrariamente à humildade, a sua ciência servirá apenas para inflar-lhe o ego de forma grotesca. E, como afirma o Aquinate neste tesouro espiritual que é o Contra Impugnantes, “a ciência infla quando não está acompanhada da caridade”; ou, na concisão da Glosa: “A ciência sozinha infla”[8]. Ora, é justamente a essa ciência sem a mais ínfima sombra de espírito caritativo que se refere São Gregório Magno — tão lido por Tomás de Aquino! — ao afirmar o seguinte em sua Moral:


“O perverso censura nos bons as obras retas que se nega a praticar”.[9]


Assim, ainda quando chamados de "hipócritas" por gente manifestamente maliciosa, aos cristãos é aconselhado não se envergonhar jamais de sua humildade a qual é uma participação na humildade de Cristo, o modelo perfeito a imitar. A sã doutrina nos ensina a reconhecê-la como uma dádiva de Deus, pois Nosso Senhor mesmo nos exortou a isto:


“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt. XI, 29). [10]


P.S. Como se frisou alhures, o blog entrou em nova fase, em que as atualizações serão bem menos freqüentes. O que já se está cumprindo; basta ver o número de postagens. E, quanto aos vídeos das palestras do evento Santo Tomás, médico da alma, continuo a devê-los, pois ainda não tive tempo de converter o formato da filmagem para adaptá-la ao Youtube.


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1. Glossa Margin.


2. São Jerônimo, Adversus Helvid. nº 21.


3. De Doc. Christ. , XIII, nº. 29


4. Ora, sendo o verdadeiro (verum) e o belo (pulchrum) dois transcendentais do ser, é conveniente estarem unidos no discurso humano, pois tudo o que é verdadeiro é, de alguma forma, belo.


5. Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q.8, nº 3.


6. (...) ex hoc quod hypocrisis quae latet sub vilitate vestium est magnum peccatum, non potest haberi quod vilitas vestium sit deterior quam pretiositas. Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 8, ad 7.


7. Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q.8, ad. 6.


8.“Scientia inflat si sola est”. Glossa Petri Lombardi, a.1 Cor. VIII, 1.


9. São Gregório, Moral, VI, c. 22, nº 39.


10. Obviamente não se trata de gabar-se da humildade, o que (além de ridículo) implicaria perdê-la no ato. Não se trata de fazer como um famoso personagem de Dickens que vivia batendo no próprio peito e gritando aos quatro ventos: “Sou o sujeito mais humilde do mundo”. Não, o cristão reconhece-se humilde, sim, mas em Cristo, o que significa dizer que a sua humildade é toda ela advinda de instância superior. Negá-la seria negar um dom de Deus. A atitude correta, então, é exercitá-la enxergando a própria pequenez e a assombrosa misericórdia divina que, malgrado os nossos pecados, quer nos levar ao céu.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Igreja de Laodicéia: o apocalipse interpretado pelo Pe. J.M. Mestre, da FSSPX


Sidney Silveira

O blog do SPES veicula hoje um texto do Padre J. M. Mestre (da FSSPX) sobre o Apocalipse. A sua congruente interpretação é contrária tanto ao milenarismo material (condenado pela Igreja) como ao milenarismo espiritual (cujo ensino é problematicíssimo e, ademais, perigoso, pois em geral conduz ao milenarismo material). Vale muito a pena ler este texto, em tradução do Nougué.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As seitas e a Igreja no Ocidente pós-católico


Sidney Silveira


Juntem-se, numa fórmula doutrinal, idéias fantasiosas as mais contrárias ao senso comum (se possível, numa mescla de sutis contradições entre os princípios que as regem, para desorientar as mentes), inserindo-as num simbolismo que lhes dê a verossímil aparência de sistema coerente. Crie-se então uma rigorosa hierarquia que contemple práticas iniciáticas e ritos de passagem, a começar por algum “batismo” ou prova de fogo à guisa de promessa solene, de pacto de lealdade entre pessoas a ser cooptadas, a princípio, para um grupo restrito — o núcleo duro. Remeta-se tudo isso à autoridade de um guru, de um “santo”, de um presumível mestre espiritual iluminado, de um filosófo profeticamente “inspirado” em torno do qual orbitará a camarilha dos iniciados, a tropa de elite que não apenas buscará novos adeptos, como também defenderá o grupo de quaisquer perigos externos, não raro recorrendo a expedientes como calúnia e detração sistemáticas, ou, nos casos mais graves, ameaças e assassinatos. Teremos, então, uma seita.


Seja uma seita política, seja uma seita religiosa, o que dá forma a todo grupo sectário teleguiado por intelectuais testa-de-ferro é a mentira quanto aos princípios e aos fins que servem de causa final, ou seja, que são a alegada razão de sua existência e atuação. A propósito, para a seita realmente prosperar a mentira não pode ser isolada; tratar-se-á, na prática, de um sofisticado sistema de mentiras misturadas a nobres verdades, pois sem essa capa, sem essa aparência de virtude ou bondade não se conseguem arregimentar prosélitos. E mais: nem todos no grupo podem ter plena ciência do logro, com exceção dos chefes e de poucos seguidores cuja lealdade cega tenha sido devidamente testada e aprovada. Além disso, o sistema “filosófico” deve ser apoiado por uma sensibilidade artística adequada aos fins da seita, dado que esta também se servirá da instância estética como instrumento de doutrinação das almas.


Pois muito bem. Se se usa a palavra “heresia” com analogia de proporcionalidade torna-se possível aplicá-la a toda e qualquer impugnação obstinada da verdade, que caracteriza as seitas. Assim, podemos, por exemplo, perfeitamente chamar ao nazismo de herético, dado o sistema de mentiras em que se baseava. Como a bibliografia hoje demonstra com abundantes documentos, a seita nazista foi forjada nos albores da segunda década do século XX na loja maçônica Thule, de Munique, cujo símbolo era a espada negra encimada por uma suástica. Ela foi alimentada, no plano teórico, por um ocultismo que fazia uso — numa mescla verdadeiramente infernal — de mitos sumérios, gnose, astrologia, cientificismo, milenarismo, arianismo, teozoologia (nas teses do ex-monge cisterciense Jörg Lanz, grão-mestre da Nova Ordem do Templo), eugenismo, pan-germanismo, militarismo, misticismo do sangue, paganismo, anticatolicismo, anti-semitismo, etc. Ora, como sempre ocorre quando a mentira ganha decisivo espaço na Pólis, seja em que contexto histórico for, instaura-se a desordem e se abre espaço para a maldade em gigantescas doses. Foi assim com o nazismo, com a Revolução Francesa (outra obra maçônica, nos princípios e nos fins), etc.


Retenhamos, pois, bem isto:


Ø toda seita é fundamentalmente contrária à verdade e difusora, em alguma escala, do caos social — do qual se alimenta, sobrevive.


Ø toda seita inverte a ordem dos fins naturais, pondo a verdade a serviço do erro, o espírito a serviço da matéria. Em palavras simples, subordina alguns meios bons a fins maus, com o objetivo de crescer no mundo, ter poder, manietar pessoas, circunstâncias, fatos políticos, etc.


A história da humanidade é repleta de acontecimentos planificados, difundidos e/ou executados por grupos sectários — que, à luz da fé, podem muito bem considerar-se diabólicos. Se olharmos a história das heresias na Cristandade, por exemplo, veremos as características acima arroladas em absolutamente todos os grupos que, para crescer no mundo à margem da verdade, usaram dos expedientes de doutrinação e manipulação os mais atordoantes, levando consigo incontáveis almas à perdição. Contrariando a fé sobrenatural, envenenavam a fortiori a ordem temporal com todo o tipo de mentiras políticas. A propósito, do tirano absolutista Felipe, o Belo, rei de França no início do século XIV, até as revoluções dos séculos XIX e XX assistimos a uma longa caminhada do manejo eficaz da mentira política, não raro concebida por sociedades secretas ou “discretas”.


Um exemplo de seita? Os cátaros ou algibenses, cujo dualismo gnóstico foi levado ao mais desvairado paroxismo. Sem entrar em pormenores históricos — pois não é o objetivo deste breve texto —, apenas registremos algumas de suas teses e características do seu modus operandi.


Ø Como para “salvar-se” era preciso libertar a alma do corpo, o espírito da matéria, tornava-se necessário diminuir ao máximo o influxo do corpo sobre a alma. Assim, entre os atos “abomináveis” para os cátaros estariam os de comer carne, ovos, laticínios, etc., pois nessa louca visão tais alimentos contribuíam para o domínio do corpo sobre a alma.


Ø O mais terrível ato de todos seria o da procriação, mesmo no matrimônio. Ato “antinatural” que em sua opinião contribuía satanicamente para propagar os corpos. O uso do sexo no matrimônio, para esses infelizes, seria muitíssimo mais “pecaminoso” do que o ato homossexual, por ser ordenado à “diabólica” geração de filhos.


Ø O matrimônio era, como se pode deduzir, expressamente proibido entre os cátaros.


Ø O suicídio era estimulado na seita e praticado por alguns dos “perfeitos”, que serviam de mártires à facção. Há relatos de homens que se cortavam em partes estratégicas do corpo para morrer sangrando lentamente, à vista de outros membros do grupo. Outros simplesmente jejuavam até morrer.


Ø Pois bem, para adentrar o patamar dos “perfeitos” havia o consolamentum, batismo espiritual ou profissão religiosa que, por meio de uma espécie de rito mágico, prometia liberar a alma do maléfico cárcere da matéria. Nessas ocasiões, os ministros impunham as mãos sobre a cabeça do neófito, que prometia solenemente cumprir os preceitos “morais” da seita até o fim. O mesmo sucedia com as mulheres, que no catarismo eram obviamente separadas dos homens.


Ø A propósito, muitos neófitos eram aconselhados a suicidar-se imediatamente após o consolamentum, para não correr o risco de cair em “pecado”. Suicidar-se era, pois, uma forma simples, e para eles louvável, de libertar a alma do jugo da matéria.


Ø As cerimônias religiosas consistiam na leitura do Evangelho pelos “perfeitos”, que em geral realizavam uma confissão coletiva dos pecados, dando absolvição indiscrimiada a todos. Um detalhe nada desprezível: os pecados eram perdoados sem que o pecador precisasse arrepender-se.


Ø Toda vez que um crente comparecia diante de um “perfeito” (que, segundo as variadas doutrinas dessa gnose, era o verdadeiro cátaro) era compelido a um ato de adoração — no qual, de joelhos, suplicava para morrer na seita e obedecer cegamente os superiores, até o fim. Tal adoração era às vezes composta do rito de melioramentum, sobre o qual não discorreremos aqui.


Ø Os cátaros desprezavam todos os sacramentos da Igreja e negavam, particularmente, a presença real de Cristo na Eucaristia.


Independentemente de qualquer dado relacionado à fé, imagine-se uma sociedade fundada em tais “princípios”: proibição de nascimentos e estímulo ao suicídio! Não duraria uma geração sequer. Ora, como ocorre com toda seita quando age, sementes do mal, do erro, da mentira, do dolo, da fraude política são lançadas no tecido social e cumprem papel grandemente desagregador, destruidor. Combatê-los com todas as armas é a única forma de evitar a supremacia da maldade.


A diferença, pois, entre qualquer seita religiosa ou política a partir do último quartel do século XX e as da época da Cristandade — seja a dos cátaros, a dos maniqueus, a dos donatistas, a dos marcionistas, a dos pelagianos, a dos jansenistas, etc. — é que, então, elas eram consideradas heréticas e admoestadas, perseguidas, combatidas pela Igreja com todo vigor, nos planos magisterial, político, jurídico e também militar. A criação de sociedades secretas não poderia mesmo ser tolerada pela Mestra das Nações, que, por ordem expressa de Cristo, ensinava a proclamar a verdade nos telhados (...et quod in aure auditis praedicate super tecta. Mt. X, 27). O dilema, aqui, é o seguinte: ou a Pólis será conformada por um conjunto de valores que expresse a natureza das coisas — entre os quais o de verdade é basilar —, ou será governada a partir de erros que, quanto mais se afastem dos bens reais que são espelhos das perfeições divinas, mais levarão ao caos, ao abismo, à Geena de fogo.


Eis, portanto, um dos motivos por que, numa sociedade mais ou menos saudável, se deva proibir, combater, atacar frontalmente as seitas: a defesa do bem comum político, o que do ponto de vista teológico depende fundamentalmente da supremacia do bens espirituais sobre os materiais na forma da lei (assim como, analogamente, o fim natural depende do fim último sobrenatural para vingar). O único remédio diante de tais ameaças é haver uma autoridade espiritual que, pairando sobre a instância política, intervenha toda vez que o bem comum seja ameaçado, e com ele a consecução do fim último dos indivíduos e das sociedades: Deus, a ser contemplado na visão beatífica. Essa autoridade era a da Igreja durante dois milênios, antes de o modernismo mudar o vetor das relações entre os poderes espiritual e material, ou seja, as relações entre o Estado e a Igreja. Não à-toa dizia Leão XIII numa bela Encíclica que, entre os bens a ser protegidos pelo Estado, em primeiro lugar estão os da alma. Ah, quão catolicamente distantes estávamos do liberalismo político, de cariz maçônico, sob a santa custódia do Magistério da Igreja!


O pior de tudo é que a Igreja não apenas não mais combate as seitas, mas aprova-as dentro do Corpo Místico — dando validade canônica a grupos de leigos ou clérigos claramente sectários, que usam algo da Tradição eclesiástica, algo da doutrina para crescer, como um câncer, em suas próprias fileiras. Obviamente refiro-me aqui a grupos neoconservadores, os quais apreciam a Tradição até o ponto em que se lhes critique a chamada "liberdade de consciência" (combatida por Gregório XVI, e que culminou no conceito de liberdade religiosa); que se lhes aponte o crime contra a fé representado pelo ecumenismo; etc. Na sua vertigem libertária, sendo católicos, querem libertar-se da doutrina, ou melhor: reinventá-la forçosamente.


Quanto às seitas liberais tidas por filocatólicas, elas cumprem hoje — mais de 100 anos depois da Pascendi — o papel de confundir a intelectualidade leiga, lançando sobre ela uma cortina de fumaça. O seu intuito maior é tentar evitar, tanto quanto possível, que a doutrina tradicional seja preservada por grupos que poderiam fazer pressão sobre a comunidade eclesial, no sentido do retorno à Tradição.


Ou alguém ainda duvida de que, no atual estágio da luta de Satanás contra a Igreja, os leigos têm papel-chave na defesa da fé, em razão da defecção da Hierarquia no que tange ao Magistério?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sobre Esperança e esperanças — “Contra Impugnantes” em nova fase

Sidney Silveira


Entre a esperança como afeto natural humano e a Esperança cristã, virtude teologal infusa, a diferença não é apenas de grau, mas de espécie. A Esperança cristã, devido a sua fonte sobrenatural, embora tenha como objeto um bem futuro (o que é próprio de toda esperança, como adiante veremos), não se fundamenta em conjecturas, estimativas ou cálculos probabilísticos em vista da aquisição do bem esperado, mas em Deus. É o “esperar contra toda a esperança” de que fala o Apóstolo ao referir-se a esta virtude sobrenatural infundida por Deus na alma de Abraão (Rom. IV, 18).


Quatro são, segundo Santo Tomás de Aquino, as características da esperança como movimento do apetite concupiscível, afeto natural humano:


Ø Que seja de um bem, pois naturalmente ninguém espera o mal;


Ø Que esse bem seja futuro, pois não se espera o presente;


Ø Que seja relativamente árduo, pois não se espera o que está à mão;


Ø Que seja possível, pois naturalmente não se espera o impossível.


Por sua vez, duas são as notas distintivas da Esperança que é virtude teologal infusa:


Ø Que o bem esperado seja supremo: Deus;


Ø Que (ao contrário da esperança enquanto afeto oriundo dos apetites naturais) não seja alcançável por meio de nenhuma criatura, senão por Deus mesmo, mediante a Sua graça.


Em palavras simples, a Esperança como virtude sobrenatural tem como objeto um bem absolutamente impossível de ser alcançado por esforços ou estratagemas humanos. É a Esperança na visão beatífica, na felicidade perfeita que só se pode realizar sob a luz da glória. Não se trata, pois, de uma virtude especulativa, e sim ética (ou seja: radicada na razão prática), a qual, movida por Deus mediante a graça, confirma a vontade humana na adesão ao bem absoluto.


Vale destacar que a esperança natural e a Esperança sobrenatural não se autoexcluem, mas se pode dizer perfeitamente que a sobrenatural, como virtude infusa — dado o seu benévolo influxo de ordem superior — corrige, sana, limpa a esperança que é simples afeto humano das apetências ou desejos desordenados. Daí que o axioma gratiam non tollit naturam, sed perficit (a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa) se aplique muito bem a isto de que agora falamos: o natural alcança o optimum, a excelência, devido à virtude do sobrenatural. Assim, esperando sobrenaturalmente em Deus o homem adquire um senso de realidade agudo com relação à transitoriedade, à caducidade dos bens deste mundo, pelos quais tantas almas se perdem, algumas delas em definitivo.


Como bem dizia São João da Cruz por meio duma linguagem mística, chega-se à união com Deus passando antes de tudo pela noite escura dos sentidos, o que implica literalmente pulverizar toda e qualquer humana esperança nos bens deste mundo, para somente então, ainda nesta vida, possuí-los, fruí-los, realizá-los sem desordem — de acordo com os critérios da reta razão e em obediência à lei divina. Em suma, possuí-los sem que representem um empecilho formal para a consecução do fim último em nossa alma: Deus mesmo, alfa e ômega, destino de todas as criaturas — mas de modo muito particular das racionais (como os homens e os Anjos), que ou fruirão a Sua presença eternamente, na glória, ou d’Ele desesperarão para sempre, no inferno. Pelo menos de acordo com a sã teologia, e não conforme os critérios da nouvelle théologie denunciada nos anos 50 por Garrigou-Lagrange, ou coisas piores que integram o indeglutível cardápio modernista.


É necessário neste ponto distinguir a esperança como afeto humano de algo que lhe é muito afim, no plano natural: a cupidez ou desejo (cupiditas sive desiderium). Diz o Aquinate na Questão Disputada Sobre a Esperança (a.1) que o desejo se refere a quaisquer bens de forma indiscriminada, ao passo que a esperança diz respeito aos bens árduos, como acima mencionado. É mais ou menos a diferença entre desejar comer um suculento filé no restaurante da esquina e esperar que uma linda e virtuosa mulher se torne, futuramente, a esposa com quem se compartilhará a vida, assim como o caminhar na fé. Mas reiteremos: muito acima tanto daquele prosaico desejo por carne como desta humana esperança de feliz enlace matrimonial — aqui arrolados como meros exemplos — está a Esperança sobrenatural cujo objeto transcende ao nosso intelecto, como frisa Santo Tomás:


O objeto da virtude [teologal] da Esperança é o bem árduo inteligível que está além do intelecto [humano] (supra intellectum existens)".


(Suma Teológica, II-II, q. 18, art. 1, ad.1).


Trata-se, pois, do bem inteligível supremo que deifica a inteligência. Um bem de tal ordem que conforma a inteligência humana a si, levando-a a um ápice, a uma perfeição operativa que ela, por suas próprias forças naturais, não poderia alcançar de forma alguma. Assim, conhecido o Bem Sumo, que é Deus, nada mais se pode esperar, razão pela qual a única das virtudes teologais que existirá no céu será a caridade — lá não havendo nem fé nem esperança, de acordo com Santo Tomás.


Contra Impugnantes em nova fase


Apresentadas, pois, as principais características da esperança como virtude teologal infusa e também como afeto natural, vale dizer o seguinte: é enorme a sensação de liberdade que se tem quando a ação não é mais vetorizada, premida, movida por humanas esperanças. Age-se, neste caso, não mais buscando o bom sucesso nas ações, mas por um dever de responsabilidade — e sem a mais remota esperança humana de alcançar este ou aquele resultado. Num certo sentido age-se quixotescamente, mas movido não pela loucura humana, como no caso do engenhoso fidalgo da Mancha, e sim pela loucura da fé — que é escândalo para os gentios, para os judeus e, hoje em dia, infelizmente, para boa parcela de católicos que até com os Dogmas se escandalizam.


Certamente ninguém chega a tal ponto de desapego sem passar pela tristeza, que é uma paixão da alma; sem passar por essa dor nascida da consciência efetiva da perda da possibilidade de alcançar-se determinado bem — árduo e possível — que se esperava. Mas como um dos remédios para a tristeza é o pranto (cfme. Suma Teológica, I-II, q. 38, art. 2, resp), nada como chorar, verter lágrimas, deixar a tristeza escorrer pelas gotas de água e sal que nos escapam dos olhos nessas horas, tendo claras na mente, como um dístico espiritual, as palavras de Nosso Senhor: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt. V, 4).


Ditas todas estas coisas, informamos que o Contra Impugnantes, espaço de divulgação do tomismo tradicional na web, entra a partir de agora em nova fase, pois o seu idealizador e redator perdeu totalmente a esperança em qualquer resultado prático com relação a este apostolado teológico-filosófico pela internet. E mais: perdeu totalmente a esperança humana de mudança no quadro atual do Catolicismo, a curto, a médio ou até mesmo a longo prazo. Isto porque, dada a corrupção doutrinária generalizada a que se chegou, o retorno à Tradição da Igreja ao nosso ver só poderá acontecer por meio de um imenso milagre, pois a natureza não dá saltos. Noutras palavras: as autoridades vaticanas não abandonarão naturalmente o modernismo que elas mesmas propagaram ao longo das últimas décadas, modificando totalmente a mentalidade católica, o sentir comum dos fiéis, a ponto de retirar muitas almas da fé intra Ecclesiam. Sim, o Concílio Vaticano II e o Magistério liberal que se lhe seguiu produziram uma horda imensa de católicos sem fé, de católicos que acreditam em alhos e bugalhos, em idéias as mais sofisticadas e pirotécnicas, mas não nas verdades da Sagrada Escritura, não no Magistério solene da Igreja. Católicos de batismo, mas não de fé, e, portanto, sem as obras que esta produz. É aberrante, mas verdadeiro.


Isto pode parecer duro para o paladar adocicado de Dona Maricota — arquetípica “ministra” da Eucaristia na paróquia X, adepta apaixonada do ecumenismo, da antiapostólica pastoralidade vaticano-segunda, incentivadora das cristotecas dançantes sob luzes estroboscópicas e baticuns feeéricos, na Igreja do seu bairro, etc. —, mas o fato é o seguinte: não sendo a fé uma crença subjetiva, e sim a virtude teologal infundida por Deus em nossa inteligência, que a faz anuir à integralidade das verdades reveladas na Sagrada Escritura e custodiadas magisterialmente pela Igreja, é evidente que muitos, muitíssimos hoje dentro do Corpo Místico se voltam contra os dados da fé, e com isto se colocam fora dela, não raro sem o saber. Para se ter uma pálida idéia disso, por exemplo hoje no Seminário do Rio de Janeiro se ensina o mito adâmico, contrariando a Sagrada Escritura, o Magistério solene infalível, a doutrina dos Santos Doutores, etc. Mas este é apenas um exemplo modesto; não os multipliquemos neste breve texto.


Contemplados com espírito sereno tanto a hierarquia das últimas décadas como os movimentos por ela aprovados com louvor e triste deferência, e os frutos que tudo isso produziu, a impressão que se tem é a seguinte: a Igreja transformou-se numa superestrutura moldada para impedir a todo custo a santidade em suas fileiras. Prova disso é que os melhores são afastados dos Seminários ou boicotados de todas as formas, até que desistam ou procurem refúgio em grupos tradicionalistas, alguns dos quais altamente problemáticos, ou então se tornem sedevacantistas. Conheço casos gritantes! Ao passo que pessoas sem a mais remota vocação sacerdotal (e, em verdade, nem mesmo intelectual, filosófica) vão ordenando-se para depois fazer o diabo usando, direta ou indiretamente, o nome da Santa Igreja. Vendo o atual estado de coisas, só um coração de pedra poderia não se entristecer.


Mas perder a esperança humana, em nosso caso, implica porventura depor as armas em defesa da fé? Em absoluto. Implica apenas mudar a forma de atuação. É o que faremos. A partir de agora, o ritmo dos textos postados no Contra Impugnantes não será mais regular, conforme vem acontecendo há três anos: para mensurar isto, até a última postagem decorreram 1150 dias de existência do blog, com 716 publicações — o que dá uma média significativa de uma postagem a cada 1,6 dia, aproximadamente. Esta superatividade acaba aqui.


Portanto, continuaremos num ritmo bem menor, até porque precisamos ganhar o pão cotidiano. As séries de textos ainda em curso (como sobre os endemoniados, sobre Xavier Zubiri, etc.) serão completadas, mas sem pressa, e algumas talvez apenas noutro formato. A nossa atuação estará mais centrada na edição de livros tanto pela Sétimo Selo como pela editora É. Livros de filosofia e teologia escolásticas. Sinto-me compelido a dar esta informação em virtude do elevado número de acessos diários que o blog possui.


A propósito, vale dizer antes de encerrar este texto que o Contra Impugnantes cumpriu efetivamente o papel de dar grande visibilidade à obra de Santo Tomás de Aquino no Brasil, fora dos seminários e das universidades católicas, nas quais muitas vezes só não se aceita o que é católico (os exemplos são tristemente incontáveis). Mas dentro da Igreja, na medida em que o seu alcance entre nós, católicos brasileiros, foi bastante razoável: além dos acessos diários ao blog, inúmeras pessoas, de diferentes partes do país (leigos, seminaristas, padres, estudantes de filosofia, etc.), entram em contato direto conosco para tratar de algo relacionado à obra do Aquinate.


A estes amigos agradecemos de coração. E aos inimigos, que não são poucos nos meios católicos, por fortalecer-nos na fé.


Vida que segue.


P.S. As próximas postagens deverão ser sobre algumas novidades editoriais e, também, a indicação de links no Youtube para trechos (em vídeo) das palestras do evento Santo Tomás, médico da alma.