terça-feira, 8 de dezembro de 2009

As relações entre fé e razão (IV)


Sidney Silveira
(
continuação)

A posição de Tomás de Aquino com relação à origem da fé tem como fundamento a sua gnosiologia realista, segundo a qual o conhecimento — a posse da verdade — provém, in primis, de um processo de abstração das qüididades materiais dos entes, pela inteligência humana. Ou seja: não há atalhos intuitivos que nos permitam chegar ao conceito (à forma entis); que nos permitam, ao menos, ter um vislumbre da essência dos entes. Esta última só nos é acessível a partir da observação do modo de operação de cada ente, na ordem do ser. E, mesmo assim, a aquisição desse conhecimento é imperfeita, incompleta, pois a verdade é em si inesgotável, razão pela qual, com certa dose de ironia, diz o Doutor Comum em sua Exposição sobre o Credo que “nenhum filósofo jamais chegou a esgotar sequer a essência de uma mosca”.

Essa posição, como sabemos, ocasionou várias inimizades a Santo Tomás de Aquino no seio da própria Igreja, conforme confessara o bispo John Peckham, um dos seus algozes, no Chartularium universitatis parisiensis, obra de referência para os biógrafos de Santo Tomás. Foi um duro golpe desferido na noção de “iluminação divina” defendida por teólogos agostinianos (muitos pertencentes, no século XIII, à ordem franciscana), segundo a qual chegamos à verdade a respeito de qualquer coisa graças a um influxo imediato de Deus na inteligência humana.

DISTINÇÃO TOMISTA COM RELAÇÃO AOS CONCEITOS DA FÉ E DA RAZÃO

Depois que entrou em cena a gnosiologia aristotélico-tomista, a Igreja pôde fazer uma distinção precisa entre essas duas ordens complementares: a fé tem a sua fonte na iluminação da graça divina (lumem gratiæ); a razão, unicamente na abstração da inteligência (devida fundamentalmente à lumen rationis naturalis). Para o homem, portanto, dá-se o desenvolvimento da fé em um único sentido: artigos que noutro tempo eram cridos implicitamente (por estar contidos em outros, mas não de forma evidente) chegam, mais tarde, a ser expressos de forma explícita. Não se trata, aqui, de evolução dos dogmas, como imaginam os péssimos teólogos modernistas, mas do esclarecimento de alguns pontos da fé — na medida em que a fé supõe, como objeto material, uma obscuridade interna daquilo em que se crê (cfme. Suma Teológica, II-II, q.1., a. 5).

Sendo assim, se a verdade da fé não é internamente evidente (nem direta nem indiretamente), a inteligência não pode nada mais do que lhe prestar assentimento (ou não). Mas nunca, jamais, pode ela demonstrar o conteúdo da fé, que está além de suas possibilidades de escrutínio intelectual. No entanto, a razão desse assentimento da fé é muito diversa da do saber: a autoridade divina, que é o autêntico objeto formal da fé — seja para doutos teólogos, seja para velhinhas analfabetas. Em ambos os casos, assente-se a algo não evidente. A fé é, pois, daquilo que não se vê (non visum), enquanto a razão parte daquilo que se vê com os olhos da inteligência (visum).

Como não é nosso propósito aprofundar este tema, mas apenas expressar alguns princípios, vale dizer que a ciência (adquirida pela inteligência) e a fé se distinguem com relação a seus conceitos da seguinte forma:

Por seu objeto material: razão (visum); fé (non visum)
Por seu objeto formal: razão (
evidência); fé (autoridade divina)
Por seus efeitos: razão (assentimento por necessidade racional); fé (assentimento livre)

É justamente esse assentimento livre a uma verdade não evidente para a inteligência que faz com que a fé seja meritória. Ela é, em síntese, o “sim” da inteligência humana ao influxo da graça divina. Em contrapartida, não se pode dizer que haja propriamente mérito em assentir a algo por necessidade racional (como para concluir que 2+2=4).

A maior descoberta científica de todos os tempos, neste sentido, por ser de ordem inferior, é de valor infinitamente menor do que o “sim” de Maria ao Anjo da Anunciação.

Infinitamente inferior ao nosso “sim” a qualquer dos artigos da fé que salva.

(continua)