segunda-feira, 14 de setembro de 2009

TV" Contra Impugnantes — Protágoras, relativismo e Einstein



Sidney Silveira
O rosto sorridente de Einstein, acima, é apenas para remeter-nos ao final do trecho desse vídeo de aula do Nougué — sobre as absurdidades de Protágoras e seu “homem como medida de todas as coisas”.

Ainda sobre o nosso papel

(Carlos Magno é coroado pelo Papa Leão III: o poder temporal recebe o beneplácito do poder espiritual)

Carlos Nougué
Na década de 1950 foi fundado por Jean Ousset e outros, na França, La Cité Catholique, movimento de leigos cujo objetivo era a reinstauração do Reinado Social de Cristo, segundo o estabelecido por Pio XI na Encíclica Quas primas. Grande foi a perseguição movida contra La Cité Catholique por largos segmentos do clero, sempre sob o argumento de que os leigos não se devem intrometer em assuntos que competiriam unicamente aos religiosos; mas com um fundo claro: tratava-se já, em parte, de reação daqueles que dariam a tônica humanista-liberal ao Concílio Vaticano II. Poucas autoridades eclesiásticas saíram em defesa daquele movimento de leigos, entre as quais D. Jean le Cour Grandmaison, D. Louis (Arcebipo de Reims), e D. Marcel Lefebvre, o que lhe valeu acerbos ataques e críticas. Leiamos extensamente a carta do então Arcebispo de Dacar e Delegado Apostólico para a África Francesa dirigida a La Cité Catholique e posta ao modo de Apresentação no livro Pour qu’Il regne (escrito por Jean Ousset, mas assinado pelo movimento): “Caros Senhores [dizia D. Lefebvre], já não é necessário que eu manifeste meu encorajamento e minha simpatia com respeito à vossa associação. Quando tive a satisfação de conhecer seu objetivo, seus desejos, suas realizações, já os aprovei plenamente. Bem sei que se fazem críticas com relação a vós: elas atingem alguns detalhes de expressão; trata-se de algumas pessoas que temem por causa de seu suposto apego a certas formas de política; e essas objeções vós não deveis levar em consideração senão para aperfeiçoar vossa obra. Mas, se tais juízos querem atingir as bases mesma de vosso pensamento, de vossa orientação, então equivalem a JULGAMENTOS DE INTENÇÃO e a puras calúnias. Vossa obra Pour qu’Il regne responderá a estes últimos por seu cuidado de ser fiel intérprete do pensamento e das mensagens dos Soberanos Pontífices. Vós tornais a dizer, com todos os Papas e segundo Nosso Senhor mesmo, “venha a nós o Vosso reino”; vós quereis, antes de tudo, purificar os espíritos de tudo o que neles e em torno deles se opõe a esse Reino. Seguindo os objetivos traçados pelos Sucessores de Pedro, vós vos esforçais por melhor conhecer os graves erros que eles denunciam, a fim de destruí-los; e o meio que preconizais está entre os mais eficazes: trabalhar para que se faça a luz nos espíritos por meio de pequenos grupos, indicando de maneira precisa a Verdade por compreender e afirmar; e o erro por combater. ‘Redigere intellectum in obsequium Christi’, diz São Paulo. Essa é a primeira tarefa; a segunda, ou seja, a ação, em função dessa submissão, se dará naturalmente. Nosso Senhor reinará na Cidade quando alguns milhares de discípulos assíduos de Nosso Senhor e da Igreja forem convencidos pela graça e por seu esforço intelectual da Verdade que lhe é transmitida e de que esta Verdade é uma força divina capaz de transformar tudo. Hoje, é a verdadeira filosofia o que mais faz falta. Se, seguindo os conselhos de todos os Papas do último século, os clérigos e os próprios leigos se esforçassem por conhecer a verdadeira filosofia tomista, os verdadeiros princípios da ética e da sociologia, já não se invocariam, nas Constituições, os sacrossantos princípios de 89, que arruínam as noções fundamentais do direito, da justiça, desconhecendo a lei divina que determina o bem e o mal. Aí está por que é excelente o vosso desejo de incutir todas essas noções salutares nos espíritos para que Cristo reine. Eu desejo que possais logo preparar um livro que resuma os principais pensamentos deste e adaptados do ponto de vista didático aos vossos grupos de africanos, que são ávidos de verdade e de verdade religiosa. As graves responsabilidades que eles têm hoje exigem que tenham princípios de ação exatos e coerentes, princípios que só a religião católica detém. Que Cristo Rei e Maria, Rainha do Mundo, bendigam vossos esforços a fim de que os governantes submetam seus espíritos e os corações a Seu Reino de Amor” (negritos nossos).*

Pois bem, a partir desta importante carta de D. Marcel Lefebvre, podem-se formular as seguintes interrogações, a que tentaremos responder em seguida: 1) Por que Jean Ousset acabou por aderir às teses conciliares?; 2) Está-se defendendo aqui a criação hoje, no Brasil, de um movimento semelhante a La Cité Catholique?; 3) O efetivo apoio de D. Lefebvre a um movimento leigo tem verdadeiro respaldo no magistério da Igreja e pode estender-se, de algum modo, à ação dos leigos nos tempos atuais?

Resposta à primeira. Naturalmente, não é este o espaço para esta discussão. Digam-se apenas duas coisas. Em primeiro lugar, parece-nos, após atenta leitura de Pour qu’Il regne, encontrar um problema nele: certa incapacidade de aceitar que não se refaça a Cristandade, esquecendo-se acaso de que, conquanto Cristo possa de potentia absoluta refazê-la, talvez tal refeitura não esteja nos desígnios de Deus para a história humana (que, como já se disse num artigo deste blog, não pode ordenar-se senão à completação do números dos eleitos). Em segundo lugar: apesar disso (e da adesão de Jean Ousset, mais que às teses conciliares, à “autoridade” do Concílio), “a única obra de política católica totalmente sã que encontramos [desde séculos atrás]”, afirma o Padre Álvaro Calderón, “é Para Que Ele Reine, de Jean Ousset. É verdadeiramente ‘fiel intérprete do pensamento e das mensagens dos Soberanos Pontífices’, como diz dela o Arcebispo de Dacar, Mons. Marcel Lefebvre” (negrito nosso).

Resposta à segunda. Obviamente que não defendemos, neste blog nem em nenhum outro espaço, a criação de movimento algum, seja ao estilo de La Cité Catholique, seja ao estilo de qualquer outro. Não é a primeira vez que o dizemos, mas o repetiremos pacientemente quantas vezes for necessário; imputar-nos algo diferente com relação a isto é fazer “julgamento de intenção”. Mas por que não o defendemos, pergunte-se ainda assim? Se se trata de um movimento ao estilo de La Cité Catholique, evidentemente por já não ter lugar no mundo de hoje; era adequado para o mundo de antes do Concílio Vaticano II. Se porém se trata de qualquer movimento, não defendemos sua criação ou porque simplesmente não temos pendor ou índole para isso, ou sobretudo porque tampouco parece adequado para o mundo de hoje — por razões que já demos ao longo de muitos artigos neste blog e que não cabe repetir aqui. O que, então, fazemos neste blog e em qualquer outro espaço ao defender a verdadeira filosofia tomista, o magistério da Igreja, a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tudo quanto M. Marcel Lefebvre elogiava em La Cité Catholique — menos o fato de constituir-se como movimento. Mas cabe insistir hoje em dia no tema da Realeza de Cristo? Como se lê no Catecismo da Realeza Social de Jesus Cristo, do Padre A. Philippe, C.SS.R., ainda que tudo no mundo indique a impossibilidade aparente dessa Realeza, devemos defendê-la até a morte – não seja que, de tanto a omitirmos, acabemos nós mesmos por negá-la.

Resposta à terceira. Circunscrevamos a resposta ao magistério de dois Papas, Leão XIII e Pio XII, considerando que ambos pontificaram num mesmo período: o do encurralamento da Igreja e do resto de Cristandade pelas revoluções liberais e comunistas, ou seja, antes do esmagamento desta e da autodestruição daquela resultantes do Concílio Vaticano II; mas também que ambos esses períodos constituem um só do ponto de vista que nos interessa aqui: o da ação dos leigos. Com efeito, DISSE LEÃO XIII em Sapientiae Christianae, II, 8: “A missão de pregar, isto é, de ensinar, compete por direito divino aos doutores, aos quais o Espírito Santo constituiu bispos para apascentar a Igreja de Deus, e principalmente o Romano Pontífice, Vigário de Jesus Cristo, e da moral. No entanto, ninguém pense que é proibida aos particulares [ou leigos] qualquer colaboração neste apostolado, sobretudo aos que Deus concedeu talento e desejo de fazer o bem. Os particulares, quando for o caso, podem facilmente, não arrogar-se o cargo de doutor [da Igreja], mas sim comunicar aos demais o que eles receberam, repetindo, como um eco, a voz dos mestres [ou seja, como já vimos em “Nosso Papel e Divisão de Águas”, repetindo, como repetidores de segundo grau — abaixo dos sacerdotes em geral — o que disse Nosso Senhor Jesus Cristo, o Magistério da Igreja, Santo Tomás de Aquino e os mestres auxiliares deste]”. Por seu lado, ADVERTIU PIO XII em 31 maio de 1954 (na “Alocução aos Cardeais e Bispos para a canonização de Pio X”) contra uma “teologia laica”, ou seja, uma teologia que manifestasse a autonomia de um suposto “poder espiritual” próprio do laicato e independente do poder espiritual eclesiástico: “‘Teólogos laicos’ que se proclamam independentes […], que distinguem seu magistério do magistério público da Igreja e, de certo modo, o opõem a ele […]. Contra isto deve-se sustentar o seguinte: nunca houve, nem há, nem haverá jamais na Igreja um magistério legítimo de leigos que tenha sido subtraído por Deus à autoridade, guiamento e vigilância do magistério sagrado [...]. Isso não significa que a Igreja proíba aos leigos a profissão (como num eco para maior aplicação e difusão) da única e verdadeira doutrina: a do sagrado Magistério. Um comportamento assim, longe de opor ao magistério espiritual eclesiástico um magistério espiritual que, em si, seria laico […], um comportamento assim, ao contrário, é sinal da subordinação que deve existir entre o poder temporal do laicato e o poder espiritual dos clérigos. A Igreja não terá jamais demasiados leigos teologicamente formados para fazer que penetre na substância do temporal o fermento da doutrina elaborada pela hierarquia eclesiástica” (negrito nosso). Pois bem, supondo tudo quanto se disse de doutrinal nessas duas manifestações do magistério anterior ao Concílio Vaticano II; e considerando que então, como dizia ainda Pio XII, “a responsabilidade dos homens católicos parece maior e mais urgente em vista da organização mais avantajada da sociedade e do papel que cada um é chamado a desempenhar dentro dela […]” e que “ao nosso redor, as forças do mal estão poderosamente organizadas, trabalhando sem trégua” (“Mensagem aos homens da Ação Católica Portuguesa”, 10 de dezembro de 1950), razão por que, “por este aspecto, os fiéis, e mais precisamente os leigos, se encontram na linha de frente da vida da Igreja” (“Discurso aos novos cardeais”, 20 fevereiro de 1946; negrito nosso); pergunte-se: suposto, segundo o próprio magistério da Igreja, que não só não é um mal mas é importante os leigos serem repetidores da Sacra Doutrina, pode-se dizer que após o Concílio Vaticano II diminuiu a importância, indicada por Pio XII, desta forma de atuação dos leigos? Por óbvia, nem se necessita enunciar aqui a resposta.

Resta ainda, porém, outra questão: os escritos dos leigos não teriam de ter o nihil obstat e imprimatur da Hierarquia da Igreja? Sem dúvida, seria o correto, e com efeito o tem o mesmo Pour qu’Il regne de Jean Ousset. Mas não apenas os escritos dos leigos; também os de quaisquer clérigos, excetuados, naturalmente, o Papa e os bispos. Ora, é um fato que os autores (leigos e clérigos) modernistas e liberais foram progressivamente, por razões óbvias, esquivando-se de tal submissão. Como hoje em dia, porém, um escrito católico obteria o nihil obstat e imprimatur da Hierarquia da Igreja, se o governo dos Papas conciliares fez cair em desuso sua necessidade? Além do mais, usemos de bom senso: que escrito católico tradicional obteria hoje o nihil obstat e imprimatur de qualquer bispo, ainda que algum se dispusesse a ressuscitar tais permissões episcopais? Pediu-as Gustavo Corção para seu O Século do Nada? Pediu-as o carlista Rafael Gambra para seus numerosos escritos? Pediu-as ou as pede Rubén Calderón Bouchet para suas muitas obras?

Poder-se-ia multiplicar enormemente essa lista. Baste-nos, contudo, reproduzir aqui uma breve mas sugestiva relação de autores leigos da atualidade que publicam escritos ou conferências não só sobre filosofia, mas sobre teologia, sobre liturgia e sobre o próprio magistério da Igreja — sem imprimatur nem nihil obstat. Encontramo-la no site “Stat Veritas” (assim como se poderiam encontrar similares em muitos e muitos outros sites tradicionais): José Miguel Gambra (“
En el centenario de la Pascendi de São Pio X”); Antonio Caponnetto (“El historicismo de los modernistas”); Juan Carlos Ossadón Valdés (“Tres puntos sobre la nueva misa”); Julián Gil Sagredo (“El pecado próprio del liberalismo”); etc.

Não pode, todavia, haver erros doutrinais nos escritos dos leigos? Sim, como os pode haver, também, nos escritos dos clérigos. Há como sair do impasse? Sim: que os clérigos tradicionais apontem, eles próprios, PUBLICAMENTE E COM PROPRIEDADE, quaisquer erros que se encontrem em tais escritos. Quanto a nós, caso o façam e assim que o fizerem, retratar-nos-emos publicamente como devido.

* DIZIA SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Doutor da Igreja: “Se consigo converter um rei, terei feito mais pela causa de Deus do que se tivesse pregado centenas ou milhares de missões. O que um soberano tocado pela graça de Deus pode fazer, em prol da Igreja e das almas, nunca o farão mil missões” (apud Jean Ousset, Pour qu’Il regne).
Em tempo 1: Esta semana estarei particularmente ocupado, razão por que se adia para a segunda-feira dia 21 a informação dos dados concretos do curso de História da Filosofia via Internet; e para a mesma semana a continuação das séries sobre o sedevacantismo e o corte-e-costura dos liberais.
Em tempo 2: Fecharam-se as três primeiras turmas da primeira parte do “Trivium” (“Para bem escrever na língua portuguesa”): a de Belo Horizonte e duas do Rio. A primeira aula em Belo Horizonte será em 24 de outubro próximo; a da primeira turma do Rio, em 28 de novembro; e a da segunda turma do Rio, em 27 de fevereiro (de 2010, naturalmente). Mas ainda há algumas vagas para a turma de Belo Horizonte e para a segunda do Rio. Qualquer interessado pode, pois, escrever-me (
carlosnougue@hotmail.com).

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

TV" Contra Impugnantes — a tábua das proposições de Aristóteles

Sidney Silveira
Posto agora na "TV" Contra Impugnantes mais um pequeno vídeo, a pedido de um amigo que assistiu a essa aula.

O bom e o mau monge, de acordo com uma Santa


Sidney Silveira

A essa altura da minha vida, premido pelo raio de uma doença que faz de mim um paciente de risco — com eventos intermitentes e súbitos, mesmo estando eu sob a administração de remédios —, as coisas do mundo, sobretudo na hora das crises, parecem tornar-se absolutamente desimportantes. Nessas horas, o único recurso é pedir a Deus que se faça a vontade d’Ele, ou seja: se a morte vier, que seja em amizade com Ele, em estado de graça, e nunca em estado de pecado mortal. Um apelo à misericórdia divina no momento decisivo, de possível passagem desta vida à outra. Nessas horas, grande parte das coisas que pareciam relevantes para nós ganha a sua real dimensão. Eram na verdade pó. Fumaça. O senso de realidade, que estava entorpecido pelas paixões, pelos projetos de vida, etc., nessa hora recupera-se formidavelmente. Isto para o homem que, de alguma forma, vive no horizonte da fé. Ah, quão bom é meditar a respeito da morte! — e a melhor forma de fazê-lo parece ser quando ela nos ameaça com a sua sombra, embora saibamos que Deus é quem sabe o dia.

Mas o fato é que, estando ou não doente, se há uma coisa que não tenho é sangue de barata! Sempre fui sangüíneo, e, por isso, quando certas coisas passam do limite da aceitável, vêm-me ímpetos tremendos. Afinal, ser tolerante não é tolerar o intolerável, não obstante possamos, como cristãos, oferecer tudo a Deus em desagravo aos que nos querem fazer mal ou querem fazê-lo a quem amamos. Eu hoje sei que, nessas horas, só mesmo Deus para temperar o calor que me corre nas veias. Foi o que aconteceu anteontem, quando eu soube de uma trama contra uma pessoa espiritual, por coincidência no exato momento de uma dessas crises. Certamente porque Deus quer santificá-la, mas isto não retira de nós a tristeza com o fato.

Eu poderia dizer muitas coisas (e talvez um dia o faça), em razão do que está em jogo. Por ora, ocorreu-me apenas postar o trecho de uma das cartas de Santa Catarina de Sena, Mística e Doutora da Igreja, sobre a vida religiosa — em duas faces de uma mesma moeda.

E, por ora, mais não digo.


SANTA CATARINA DE SENA

(Trecho da Carta 67)

A vida religiosa(...)

"2. O religioso indigno desse nome

Lembrai-vos, caríssimos filhos, que pode existir religioso que não vive conforme a Regra, [que vive] sem bons costumes religiosos, lascivamente, com desejos errados, impaciente, descontente com as observâncias regulares da Ordem, por demais alegre em divertimentos e prazeres do mundo, soberbo e vazio. Dessa soberba e vacuidade procede a desonestidade mental e corporal. É possível haver religioso sedento de honras, posições sociais e riquezas materiais, que são a morte para a alma, e vergonha e confusão para os consagrados. Tal religioso seria uma flor malcheirosa e desagradável a Deus, aos anjos e aos homens. Seria digno de condenação, pois encaminha-se para a morte eterna. Desejando riquezas, empobrece; querendo honra, se rebaixa; procurando o prazer sensível e o cuidado de si fora de Deus, termina odiando-se; desejoso de saciar-se com prazeres do mundo, acaba passando fome e dessa fome vem a morrer. Porque as realidades e prazeres do mundo não conseguem saciar a alma humana. As criaturas materiais foram feitas para o homem e o homem para Deus. As criaturas materiais não podem satisfazer o homem, dado que são menores que ele. Somente Deus, Criador e artífice de tudo, é capaz de saciá-lo. Por isso aquele religioso morre de fome [espiritual]!

3. Como vive o bom religioso.

Não agem assim as flores perfumadas, ou seja, os verdadeiros religiosos obedientes à Regra da Ordem. Não desobedecem; prefeririam morrer. Sobretudo no que se refere ao voto feito na profissão religiosa, quando prometem obediência, pobreza voluntária e continência da mente e do corpo. (...) Os verdadeiros religiosos não investigam a vontade de quem os governa; simplesmente obedecem. (...) o religioso humilde compreende que a pobreza voluntária das coisas do mundo enriquece a alma e a liberta da escravidão, torna-o benigno e manso, afasta-o da vacuidade da fé na esperança das coisas transitórias e traz a fé viva da esperança verdadeira".

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Cruz e a Confiança em Deus

Carlos Nougué
A um grande pai e amigo

Uma das maiores tentações do católico católico — ou seja, aquele que nos dias de hoje, contra ventos e tempestades de um mundo neopaganizado, tenta manter as tradições da antiga Cristandade — é a “messiânica”: o considerar que como resultado das ações católicas tradicionais o mundo se tornará a converter e tornaremos a ter uma duradoura Cristandade. Nego-o? Considero-o improvável, mas digo sobretudo que tal esperança não pode ser o motor principal de nossa vida. Se é verdade que o Reino de Cristo não é só celestial, mas também terrestre (porque, sendo seu Reino o da Verdade, há de ser Ele o Rei de tudo: do mundo universo, das sociedades, de nosso coração), isso, porém, só é assim porque o é em ordem a Ele mesmo. Não disse o próprio Jesus que a figura deste mundo passará, mas suas palavras não passarão?

Em outros termos: o motor de nossa vida não pode ser senão o amor e a total entrega à cruz, e não somente à Cruz que nos merece todo e qualquer bem eterno; também à cruz nossa de cada dia, a mesma que Cristo nos mandou carregar para podermos seguir empós d’Ele. Ordenar-se a Nosso Senhor Jesus Cristo é ordenar-se à sua Cruz e pois à nossa cruz. Mas há um pressuposto para tal: a plena confiança nos desígnios de Deus com relação a todos os planos — o religioso, o histórico, o social, o individual. Se Aquele Que É permite a Sexta-Feira da Paixão que vive hoje a sua Igreja, é certamente por um bem infinitamente superior. Se o Senhor dos Exércitos permite que a história marche para os tempos de trevas do Anticristo, é certamente por um bem infinitamente superior. Se a Causa das Causas permite a desagregação das sociedades, é certamente por um bem infinitamente superior. Se o Sumo Bem permite o sofrimento individual, é certamente por um bem infinitamente superior. É verdade que Deus permite tudo isso também em castigo dos pecados dos homens. Mas o permite, acima de tudo, por um bem infinitamente superior: a própria glória devida a Ele mesmo e à Cruz de seu Filho, cujas chagas permanecem em seu corpo glorioso como o galardão dos galardões, como o fulgor dos fulgores.

Nossa vida não pode pautar-se senão na confiança absoluta de que tudo quanto acontece se ordena a este bem infinitamente superior. Por isso nos manda Nosso Senhor Jesus Cristo que demos a outra face aos nossos agressores, e não apenas que lha demos, mas que ao dar-lha os amemos como Ele próprio nos amou, ou seja, até a morte, e morte na Cruz. Que escândalo tanto para os infiéis quanto para os lobos em pele de cordeiro a atitude do católico diante do agressor, diante do maquinador, diante do detrator, diante daquele cuja voz ou sussurro só se ouve nas sombras! Sim, porque o rancoroso agride o não-rancoroso como se fosse alvo do rancor deste... O ambicioso trama contra o não-ambicioso como se fosse vítima da ambição deste... O invejoso intriga contra o não-invejoso como se este agisse por inveja dele... Mas o católico que toma sua cruz para ter a honra suprema de seguir empós de Cristo e poder assim glorificar sua Santa Cruz dá a outra face ao rancoroso, ao ambicioso, ao invejoso, e ao dar-lha ama-os a eles como Cristo nos amou a nós, os pecadores, e ama a própria agressão como parte de sua devida cruz.

Não dá, todavia, a outra face da Igreja, de sua família, de seus amigos, dos que sofrem injustiça por amor da Verdade. Nunca lho pediu Cristo, muito pelo contrário. Deve agir o católico em defesa da Igreja, de sua família, de seus amigos, dos que sofrem injustiça por amor da Verdade. Não fazê-lo é covardia... e é pecado. Apenas uma coisa lhe deve impedir tal agir: qualquer consideração prudencial de que ao fazê-lo acabaria por prejudicar a eles mesmos ou a algo superior (como, por exemplo, os interesses da Igreja). Esse não agir, porém, não deve considerar-se definitivo: porque, se se apresentar o momento em que agir em defesa deles, em vez de prejudicá-los, os ajudará, então, sim, o católico não poderá hesitar um só instante — deve começar imediatamente a fazê-lo. E deve fazê-lo ainda que tal lhe acarrete qualquer sofrimento, porque este mesmo acarretar não fará senão acrescer-lhe a devida e amada cruz, para a devida glória da amadíssima Cruz.

Lutemos, sim, até o último suspiro, pelos direitos sociais e políticos de Cristo Rei. Mas não nos esqueçamos de antes de tudo imitar o nosso divino Mestre e Modelo, que, como se lê na “Via Sacra”, estendeu os braços para receber a Cruz e, num transporte de ternura, apertou-a ao coração e banhou-a de lágrimas — antes de, pondo-a aos ombros chagados, encaminhar-se para o Calvário.

“Ó Jesus, essa cruz me era devida a mim, que sou pecador, e não a Vós, que sois inocente. Mas o inocente quis pagar pelo pecador... Sede sempre bendito, ó Senhor. Abraço, por vosso amor, todos os desprezos e contrariedades da vida.”

Amém.

Em tempo 1: Na próxima semana darei todas as indicações práticas acerca do “Curso de História da Filosofia”. Incluem-se entre essas indicações uma ementa detalhada e uma bibliografia precisa e comentada.

Em tempo 2: Como o site da FSSPX entrará em recesso para reformulações, meu longo artigo sobre o sedevacantismo continuará neste blog. Ainda esta semana se postarão aqui as partes V e VI, nas quais se expõe a Tese de Cassiciacum. Os que ainda não têm as partes anteriores podem pedi-las a mim (carlosnougue@hotmail.com).

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Castidade e teoria psicanalítica



Sidney Silveira
Como se dizia antigamente, por uma espécie de analogia, “a castidade faz dos homens anjos” (castitas angelum de homine facit). Dizia-se também: “Com as mulheres, usemos de palavras breves e austeras” (cum feminis, sermo brevis et rigidus)*. E mais: “É impossível aproximar-se do fogo e não arder” (impossibile est flammis circumdari, et non ardere). Estas e muitas outras máximas e advertências dos Santos Doutores e do Magistério da Igreja com relação à castidade e aos meios (naturais e sobrenaturais) de mantê-la pertencem hoje a bolorentos manuais de Teologia Moral, relegados ao esquecimento, mesmo em Seminários.

Num mundo lúbrico, feito de encomenda para todos os tipos de gozo psicofísico, verdadeira fábrica de sexo das mais inimagináveis formas, a castidade transformou-se definitivamente em signo de algum tipo de doença psicológica. Mas isto não é de hoje. Algumas pseudofilosofias, secundadas pela teoria psicanalítica, há mais de cem anos vêm repetindo esse bordão. Nietzsche, por exemplo, dizia-nos em sua tola (porém daninha) Genealogia da Moral que o tipo mais acabado de neurótico é o santo. Freud foi além, ao afirmar em diferentes obras que uma das principais fontes de neuroses no Ocidente era a repressão dos movimentos da sexualidade por parte da moral cultural cristã.

Na prática, o homem sadio, na opinião dessas “autoridades”, seria o que conseguisse dar vazão a todos os movimentos libidinosos de sua psique; caso contrário, não lhe restaria senão a queda em estados os mais mórbidos e nervosos que se possam imaginar. O problema, segundo Freud, residia na moral ocidental (também vigente na católica Viena de então) que proibia não apenas a perversão sexual — como era chamada a homossexualidade —, mas até mesmo o exercício da heterossexualidade fora do matrimônio (oh, sacrifício terrível, o da monogamia!). Nesta visão, uma sociedade de adúlteros plenamente saciados e de sodomitas habitualmente in actu exercito de suas taras geraria um mundo muitíssimo melhor. Um mundo livre dos conflitos pulsionais mais agressivos provenientes das interdições do Superego.

O ataque frontal e decisivo ao sacramento do Matrimônio cristão estava desferido — pois, para justificar toda a sorte de incontinências e fetiches, passou-se a ter o apoio de uma nova “ciência” que se transformaria, na prática, numa espécie de sucedâneo da Religião: sobretudo nas classes médias, ao longo do século XX o divã tomaria o lugar do Confessionário. Mas se este último apagava uma culpa objetiva por meio do perdão divino subministrado sacramentalmente pelo padre (in persona Christi), aquele contribuiria para, em primeiro lugar, tornar a idéia de culpa algo subjetivo em toda a linha (e com raízes no elástico conceito de “inconsciente”, sobre o qual os psicanalistas das mais diferentes linhas divergem), e, depois, enterrar de vez a noção de culpa — lançando profanamente (in persona “Freudi”) a pá de cal sobre toda e qualquer idéia de moral. Era o prelúdio do vale-tudo.

Em síntese, para o Dr. Freud, a moral sexual vigente em sua época e nos séculos anteriores (ou seja: a cristã) seria a causa direta da neurose coletiva de todo o Ocidente, dada a impossibilidade de ser cumprida pela maioria das pessoas . De acordo com o seu psicanalítico parecer, as tendências perversas seriam justamente as que fariam a cultura progredir. Na prática, a religião (o Totem) já havia perdido a preeminência, mas ainda restava por derrubar a moral (o Tabu), e todas as suas proibições que não faziam outra coisa senão produzir patologias em progressão geométrica.
Hoje é extensa a bibliografia que aponta as raízes nietzschianas da psicanálise de Freud. Os conceitos de “pulsão”, “inconsciente”, “repressão”, “sublimação”, “caráter patológico da moral ocidental (e da religião)” e outras idéias centrais do pensamento freudiano se encontram presentes, de modo evidentíssimo, na obra de Nietzsche, como nos aponta Martín Echavarría, no livro “La práxis de la psicologia y sus fundamentos epistemológicos según Tomás de Aquino”. Num trecho dessa obra luminosa, Echavarría acertadamente nos lembra que:

“(…) la técnica terapéutica misma de hacer conciente lo inconciente se inserta en una concepción cercana a la idea de Nietzsche según la cual la curación consiste (…) en la superación del bien y del mal”.

Echavarría nos aponta, pela voz de alguns testemunhos que privaram da intimidade do pai da psicanálise, a grande esperança que tinha Freud no “super-homem” nietzschiano. Ele confessara ao Dr. G. C. Viereck que “Nietsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto sua intuição antecipou as nossas descobertas”.

Não admira que, com tais fundamentos e com esse afã prometéico de ir além do bem e do mal, a psicanálise estivesse condenada a permanecer eternamente como uma teoria — sem jamais lograr uma demonstração empírica dos seus conceitos-chave. Uma teoria feita de idéias auto-referentes com fumos de ciência, como demonstrou um dos mais importantes psicólogos do século XX: Rudolph Allers (mestre de Viktor Frankl, mas em certo sentido muitíssimo superior ao discípulo, dada a perspectiva metafísica de sua psicologia), em seus livros “Estudo crítico da psicanálise” (uma grande obra-prima de demonstração dos sofismas da ciência inventada pelo Dr. Vienense) e “Freud – o problema da psicanálise”.

Diz Allers no primeiro desses dois livros: “Não será difícil provar que a psicanálise pertence a um grupo de sistemas nascidos do espírito do naturalismo e do materialismo. E não é difícil também ver que o ponto de vista moral radical da mesma psicanálise é caracterizado por um puro hedonismo. Estas atitudes têm uma influência definida e de vasto alcance sobre a maneira de conceber a natureza humana. (...) A psicanálise não é, e nem pode ser, uma ciência, no mesmo sentido em que a física o é”.

Depois desse preâmbulo, Allers escolhe seis axiomas da psicanálise e os põe a todos por terra, juntamente com os seus corolários e conseqüências — como num dominó.

São eles:
1º. Todos os processos mentais se desenvolvem de acordo com o padrão do mecanismo do reflexo;
2º. Todos os processos mentais são de uma natureza energética;
3º. Todos os processos mentais são estritamente determinados pela lei da causalidade.
4º. Todo fenômeno mental deriva, em última análise, de um instinto. Os instintos são o material primário dos estudos mentais;
. O princípio da evolução aplica-se ao desenvolvimento do espírito humano na história;
. A cadeia das associações livres reconduz-nos à causa real dos fenômenos mentais.

Para o católico culto — que hoje se vê compelido a defender a doutrina tradicional em sua integridade (tanto intra como extra ecclesiam) —, as obras de Allers críticas à psicanálise são obrigatórias. Tanto pela profundidade filosófica, como pela contundente defesa da fé, que indiretamente acabam realizando.

* Tais prescrições nada têm a ver com algum tipo de misoginia, de aversão às mulheres. Pelo contrário: a grande apetecibilidade da beleza feminina, aos olhos do homem cristão em permanente e titânica luta contra o pecado, é que traz, para a sã doutrina, um grande risco de queda. Ou seja: no atual estado de natureza caída, a contemplação da beleza traz consigo o risco de queda em pecados os mais variados, pois não temos — como tivéramos no estado de justiça original — a capacidade de ordenar o apetite sensitivo às potências superiores da alma racional, senão com o auxílio da Graça. A propósito, isto serve também para as mulheres, na contemplação da beleza masculina: da deleitação morosa ao ato pecaminoso, muitas vezes basta um instante. Ah, se Santo Tomás, com santa inocência, dizia para evitarmos olhar as mocinhas belas (que no seu tempo se vestiam castamente), que diria a nós, homens contemporâneos, de um mundo hiperssexualizado e, ao mesmo tempo, infantilizado a mais não poder?

sábado, 5 de setembro de 2009

Corte-e-costura e ainda a Encíclica “Caritas in veritate” (VI)

Carlos Nougué
Como vimos, para que pudéssemos tratar do que diz o magistério infalível da Igreja com respeito às relações entre poder eclesiástico e poder civil, era preciso antes resolver com Santo Tomás um preâmbulo, ou seja, responder às seguintes perguntas: Convém aos entes ter um fim último? Se sim, é possível um mesmo ente ter dois fins últimos? Se não, qual o único fim último do homem e qual o caráter de seus demais fins? Terminemos, pois, nesta parte, de resolvê-lo, para seguir mostrando, solidamente, a péssima arte liberal de recortar doutrinas alheias em favor de suas teses; e também para mostrar que, assim como “não se pode usar a linguagem moderna sem cair no poço [subjetivista e relativista] do pensamento moderno” (P. Calderón, A Candeia Debaixo do Alqueire, p, 181), assim também não se pode comungar com nenhum princípio do liberalismo sem cair no abismo desta que é a ideologia anticristã por antonomásia.*

Continuemos, pois, com a referida resposta do Aquinate.

5) Cabe agora, portanto, responder a “utrum unius hominis possint esse plures ultimi fines” (se para um homem pode haver muitos fins últimos). E parece que sim, porque, com efeito, é possível a vontade de um homem querer, simultaneamente, como a últimos fins, duas coisas ou mais. Sucede porém que, ao contrário do que se objeta, pelo menos três argumentos mostram ser tal impossível. Diga-se pois em primeiro lugar que, em razão de todos desejarem sua própria perfeição, cada um só pode desejar por fim último aquilo que ele considere o bem não só perfeito, mas capaz de aperfeiçoá-lo cabalmente; ou antes, capaz de atender tão perfeitamente aos desejos do homem, que fora dele não reste nada de desejável. Ora, exatamente por sua perfeição e sua capacidade de aperfeiçoar o homem e de atender plenamente seus desejos é que tal bem ou fim último não requer nada fora dele para aperfeiçoá-lo. Logo, é impossível ao apetite desejar dois bens ou fins enquanto perfeitos. Diga-se pois em segundo lugar que, assim como no processo da razão o que é princípio é naturalmente conhecido, assim também no processo do apetite racional ou vontade é princípio aquilo que é naturalmente desejado. Ora, o que naturalmente se apetece ou deseja não pode senão ser único, porque, em razão de toda e qualquer natureza tender inexoravelmente a uma só coisa, ou seja, à unidade de seu princípio formal, o princípio do apetite racional ou vontade não pode ser senão o próprio fim último. Logo, é necessário que seja único aquilo que a vontade busca enquanto fim último. E diga-se em terceiro lugar que, devido ao fato de as ações humanas receberem sua espécie do fim, é necessário que igualmente recebam seu gênero do fim último comum, tal como se dá nos entes naturais, que têm seu gênero de uma razão formal comum. Ora, enquanto tais, todas as coisas apetecíveis pela vontade estão num mesmo gênero. Logo, porque em cada gênero há um só primeiro princípio, e, como se viu, porque o fim último tem caráter de primeiro principio, o fim último igualmente não pode deixar de ser único. Assim, a relação entre o último fim do homem e o conjunto do gênero humano é a mesma do fim último de um homem singular e o de qualquer outro homem singular. Por isso, assim como a totalidade dos homens tende a um único fim último, assim também a vontade de cada homem se ordena a um só fim último.

6) Se assim é, indague-se agora “utrum homo omnia quae vult, velit propter ultimum finem” (se tudo quanto o homem deseja, o deseja em vista do fim último). E parece que não. Sucede porém que por duas razões o homem é levado, necessariamente, a desejar em ordem ao fim último tudo quanto deseja. Antes de tudo, tudo quanto o homem deseja, o deseja enquanto tem razão de bem. Se, todavia, este bem desejado não for o bem perfeito e, pois, o fim último, ele o terá de desejar necessariamente enquanto tendente ao bem perfeito: porque, com efeito, a incoação ou começo de algo, seja este algo natural ou artificial, sempre se ordena a seu aperfeiçoamento ou consumação. Logo, o começo de toda e qualquer perfeição não pode senão ordenar-se à perfeição total ou completa, que só pode encontrar-se no fim último. Além disso, porém, deve-se dizer que o fim último, enquanto move o apetite, está para o movimento deste assim como o primeiro motor está para os demais movimentos. Ora, como se sabe, as causas segundas não movem senão na medida em que são movidas exatamente pelo primeiro motor. As coisas desejadas segundamente, por conseguinte, só podem mover o apetite em ordem ao último fim, que, como visto, é o desejado primeiramente; e por isso mesmo todos os bens que não sejam o bem apetecido primeiramente enquanto fim último não podem ser com relação a este senão meios ou fins intermediários. (É esta conclusão, por sinal, o que nos norteia em tantos artigos escritos para este blog, como, por exemplo, os referentes à música e o belo.)

7) Por isso, não se pode deixar de insistir e perguntar “utrum sit unus ultimus finis omnium hominum” (se há um só fim último para todos os homens). E parece que não. Sucede, porém, que se pode considerar o fim último por dois ângulos. Pelo primeiro, quer dizer, quanto à razão de último fim ou de perfeição, todos os homens necessariamente o apetecem, porque, como vimos, todos apetecem sua própria perfeição. Mas pelo segundo, quer dizer, quanto àquilo em que se encontra tal razão de fim último ou de perfeição, divergem os homens. Sim, porque uns apetecem, como a fim último ou bem perfeito, a fama; outros, o poder político; outros, as riquezas; outros, ainda, os prazeres do sexo ou da comida; etc., etc., etc.; do mesmo modo como a música é agradável a todos, mas uns preferem a música de um compositor, outros a de outro, etc. Deve-se dizer, porém, que a música melhor ou efetivamente mais agradável é aquela que satisfaz o gosto da pessoa mais refinada ou que mais refinadamente saiba apreciar a música. Logo, o bem mais perfeito e desejado enquanto fim último será aquele apetecido por quem tiver o afeto mais bem ordenado ou disposto.

8) Visto todo o anterior, pergunte-se por fim “utrum in illo ultimo fine aliae creaturae conveniant” (se as demais criaturas convêm nesse último fim). E parece que sim. Sucede, porém, que também se pode falar do fim segundo se trate da própria coisa em que se encontra o bem ou segundo se trate de sua consecução ou fruição. Assim, o fim de quem tem ambição política é, pelo ângulo da própria coisa apetecida, o poder; mas, pelo outro ângulo, é seu atingimento ou usufruto. Ora, se se trata do fim último do homem enquanto é a coisa mesma que é fim, então todas as demais criaturas convêm com ele: porque, com efeito, é Deus mesmo o fim último não só do homem, mas de todos os entes, visíveis como invisíveis. Se todavia se trata do último fim do homem enquanto consecução ou fruição deste fim, então é patente que as criaturas irracionais não têm em comum com o homem o fim último deste, porque o homem, como as outras criaturas racionais, atinge seu último fim conhecendo intelectivamente e amando este mesmo fim último, que é Deus, enquanto as criaturas irracionais não o podem conhecer intelectivamente nem amar. E isso é assim porque os entes irracionais não atingem o fim último do universo senão por participação de alguma semelhança de seu Criador: seja porque são, porque vivem, ou ainda porque podem conhecer (ao modo sensível e estimativo).

Podemos agora, portanto, passar com segurança ao próximo ponto de nosso plano: como trata o magistério infalível as relações entre a Igreja e cidade?

(Continua.)


* Não raro, quando lemos uma obra capital e exigente como A Candeia Debaixo do Alqueire, do P. Álvaro Calderón, deixamos de gravar na memória passagens suas não-centrais. Mas relembro agora, desse mesmo livro, uma que se encontra na resposta à segunda objeção do Artigo Terceiro (p. 181), e que põe a nu o liberalismo também pelo lado cultural: “A revolução anticristã não podia deixar de ser, ao mesmo tempo, uma revolução anticultural, que guilhotinasse as universidades católicas fazendo-as perder a teologia como cabeça das ciências e das artes. Removida a teologia, morre primeiro a metafísica, e as demais se atrofiam como os órgãos de um corpo em decomposição. Falar em ‘cultura moderna’ é um contra-senso, porque a modernidade é um processo de desculturação [...].” Tampouco pois no terreno da cultura pode um católico dar, nem minimamente, sua adesão ao mundo liberal em que nos coube viver. Ao contrário, em e de nossas catacumbas contraponhamos à anticultura moderna uma cultura que, por se ordenar intencional e essencialmente ao Fim Último do homem e de todo o universo, seja a verdadeira cultura.