segunda-feira, 19 de março de 2012

A Cidade e a Lei, segundo Sto. Tomás


Sidney Silveira
Enquanto tento recuperar o material gravado no evento "Santo Tomás, médico da alma" (que quase se perdeu totalmente, devido a uma pane em meu computador que está me levando a reinstalar todos os programas), vou postando outros vídeos relacionados a este trabalho de divulgação de Santo Tomás no Brasil — caso do trecho de aula acima, em que se cita de passagem o conceito de lei de acordo com o Doutor Comum.

Apenas uma observação: quando aí se fala que prestar o culto devido a Deus é um dever de justiça distributiva, está-se fazendo referência a um princípio anteriormente mencionado em sala de aula: dar a cada um o que é devido na medida do seu merecimento, tratando os iguais como iguais e os diferentes com proporcionalidade fundada em seu intrínseco valor.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A incognoscibilidade do sumamente cognoscível — Deus


“A inteligência humana é tênue claridade



a guiar-se no inefável”.


Sidney Silveira


Deus é uma treva luminosa, ensinava em linguagem mística o Pseudo Dionísio Aeropagita. Este aparente paradoxo reside no fato de que, para a inteligência humana — entretida com as inarredáveis dificuldades do plano material, que precisa transcender, abstrair, para alcançar o plano noético onde se dá o conhecimento —, a inteligibilidade do ser de Deus, em si absoluta, é pura obscuridade. Noutras palavras, a luz natural do intelecto humano não alcança identificar-se com a luz sobrenatural do ser divino, havendo, portanto, uma radical inadequação entre toda e qualquer inteligência criada e o ser de Deus.[1] Em palavras simples: o intelecto humano não está em potência para inteligir Deus. Por isso, pode-se afirmar que a nossa inteligência é potência para todos inteligíveis, como ensinara Aristóteles, mas com exceção do sumamente inteligível, o Próprio Ser.


Lembremos que conhecer, no caso do homem, é um movimento acidental da potência intelectiva pelo qual se assimila imaterialmente a forma dos entes. Esta definição implica várias coisas; uma delas é que a inteligência humana não é ato puro, no sentido de que está sempre em potência para adquirir um infindável número de novos conteúdos inteligíveis. Assim, por mais que o homem conheça, sempre haverá um infinito por conhecer, dada a inesgotabilidade do ser, que é o primeiro efeito da omnipotência divina.[2] Por esta razão, afirmava Santo Tomás que jamais homem algum será capaz de esgotar a inteligibilidade sequer de uma única essência,[3]ou seja: sempre será possível descobrir novos aspectos dela ou, então, de sua relação com as demais essências; sempre será possível lançar novas luzes sobre o que ela é; sempre será possível conhecer mais.


A inteligência humana é, portanto, luz no mistério. Ela está arrojada entre a obscuridade superior da realidade do Ser divino e a obscuridade inferior que radica na matéria, como lindamente escrevera Garrigou-Lagrange na obra-prima Le sens du Mystère. Entre essas duas obscuridades, pode-se dizer que a inteligência humana é tênue claridade a guiar-se no inefável. E não nos iludamos quanto a esta sua aparente indigência ontológica, pois ela esconde algo precioso: como potência para os inteligíveis, ela caminhará eternamente em meio a descobertas, dada a infinda riqueza ontológica do ser, participado por Deus.


Nem mesmo na situação que o Magistério da Igreja os teólogos e chamam de visão beatífica — na qual as inteligências criadas verão todas as coisas contemplando a causa primeira incriada, ou seja, verão tudo em Deus — se esgotará a inteligibilidade dos entes, pois sempre se poderá associar cada essência ao conhecimento de novos aspectos do ser divino que a Deus aprouver revelar. Neste sentido, podemos afirmar que, no céu, a única ciência efetiva será a teologia, ou seja, a permanente inquirição acerca da deidade e, por conseguinte, acerca de cada coisa que dela provém. Na eternidade, todos os demais conhecimentos relativos aos entes serão adquiridos à luz da compreensão assintótica do ser divino, cuja omnímoda perfeição e infinitude garantem um infinito de coisas por conhecer, como se apontou acima. Ora, como o aprimoramento do conhecimento da causa sempre lança novas luzes sobre a natureza dos efeitos, disto se segue que mesmo as almas que estiverem sob a luz da glória continuarão a maravilhar-se com a beleza do ser que será perene e crescentemente descortinada pela inteligência.


A propósito, vale neste contexto dizer que a omnipotência divina radica não no fato de que Deus não possa padecer nada, ou seja, que não possa ser afetado por outrem nem receber perfeições que já não contenha em Si, sendo Ele omniperfeito. Isto, como comprova Santo Tomás na densa obra De Potentia Dei, refere-se a aspectos operativos da omnipotência divina, mas não à essência dela. Esta pode ser definida como potência para atualizar tudo o que é possível, o que excetua as coisas de per si impossíveis — as quais implicam contradição. Por exemplo, não pode Deus fazer com que o que foi deixe de ter sido, ou seja, apagar o passado em si mesmo (embora de alguma maneira possa apagá-lo em nossa mente); não pode fazer o mundo girar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo sob um mesmo aspecto; não pode fazer com que, nos entes, a parte seja maior do que o todo; etc.


Tais impossibilidades, no entanto, não reduzem em nada a omnipotência divina, mas apenas apontam para o fato de que as ações e o ser de Deus não são autocontraditórios. A Sua inteligência não pode contrariar-se, pois em Deus ser e entender se identificam em máximo grau; o Seu ser é entender. E, sendo tal ser absoluto e infinito, o conhecimento com o qual ele se identifica será absolutamente infinito. Já o homem, cujo constitutivo formal implica composição de essência e ato de ser, tem um limite entitativo intransponível — sendo a finitude de sua potência intelectiva proporcional ao grau de ser que radica em sua forma. Assim, tendo potência para conhecer infinitas coisas, o homem não as pode conhecer infinitamente em ato.


Como se vê, os conceitos de potência e ato são fundamentais para a compreensão da teoria tomista do conhecimento, seja divino, angélico ou humano. E, no quadro das possibilidades cognoscitivas humanas, pode-se dizer que há uma conformidade — ou conaturalidade — da inteligência com diferentes tipos de inteligíveis, desde os entes mais próximos à materia prima até Deus, sendo este último conhecido apenas quanto à existência e atributos, mas não quanto ao ser, de per si insondável por qualquer inteligência finita. E a razão dessa impossibilidade radica no fato de que, numa substância que não seja ato puro, mas composta de ato e potência, matéria e forma, essência e ser, etc., as operações não podem ser infinitas em ato, porque isto pressuporia um ente atualmente infinito, e este é Deus, apenas.


Em resumo, todo agente obra na medida em que está em ato, daí que o modo de operar tenha uma radical correspondência com o ato de ser que o conforma. No caso do homem, cuja forma substancial é a alma racional, a inteligência está aberta ao entendimento da essência de todas as coisas (embora não as esgote, como acima se disse), com exceção da essência divina. Esta, embora sumamente cognoscível em si (quoad se), é absolutamente incognoscível para o homem (quoad nos). No entanto, nesta humana impossibilidade de conhecer o Infinito, que é Deus, jazem infinitas possibilidades de conhecimento.


E de assombro com a obra da criação.


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1- Não se confunda essa inadequação entre a nossa inteligência e o ser divino com aquilo que os neoteólogos modernistas (com patente malícia, como demonstrou o Pe. Álvaro Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire) chamam de inadequação dos dogmas. A tese parte da correta premissa da incognoscibilidade da essência divina, para então afirmar que tanto os dogmas como a Sagrada Escritura são “inadequados” para referir-se a Deus, daí que haja grande liberdade para interpretá-los. O sofisma consiste em não considerar que a doutrina revelada é absolutamente adequada ao modo humano de conhecer, entre outras coisas porque o que se recebe é recebido ao modo do recipiente (quidquid recipitur per modum recipientis recipitur). E mais: o que Deus revelou de Si na Escritura é não somente inteligível para o homem, mas também suficiente para conduzi-lo à salvação.


2- Dar o ser é algo exclusivo da causa primeira e universal, que é Deus. Em todas as causas segundas, o ser está pressuposto, ou, nas palavras do Aquinate, “o ser é o primeiro efeito que não pressupõe nenhum outro” (De Potentia Dei, q. 3, art. 4, ad. 19.). Ele radica em Deus e se espraia por todos os entes, em formas e graus diferenciados.


3- Nem de uma mosca, cfme. Santo Tomás de Aquino, Expositio in Symbolum Apostolorum, Proêmio.

terça-feira, 13 de março de 2012

Da série "crítica ao sedevacantismo"

Sidney Silveira

Leia-se, neste link do blog do SPES, mais um texto do Pe. Curzio Nitoglia sobre o sedevacantismo.

Apostasia, atentado contra um direito divino

Sidney Silveira

O conceito de apostasia, depois da clássica formulação de Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica (II-II, q. 12, art.1), passou a ser definido pelo Magistério da Igreja e pelos mais importantes teólogos como uma deserção da fé em tríplice perspectiva:

Ø A pura e simples renúncia às verdades da fé cristã (apostasia a fide);

Ø O abandono do estado religioso — monacal — após a realização dos votos solenes (apostasia a religione);

Ø O abandono do estado clerical, ou seja: o padre simplesmente dar as costas ao sacramento da Ordem, largar a batina (apostasia ab ordine).

Dentre estas, a verdadeira apostasia é a que implica uma renúncia à fé. As outras duas recebem o nome de apostasia em sentido analógico; são um pecado grave e especialíssimo, sem dúvida, mas que não necessariamente implica uma perda da fé. Diz o Aquinate: “A apostasia simpliciter é a de quem abandona a fé; é a chamada apostasia de perfídia”.[1]

Outro ponto a destacar é que, para haver apostasia, não é necessário que o fiel passe a professar outra religião, como por exemplo o judaísmo ou o islamismo. Basta ter recebido o batismo e não crer nas verdades da fé, e isto pode manifestar-se de maneiras diversas — seja negando-a formalmente, seja defendendo teses que a contrariem em seus princípios. Por exemplo: em se tratando de batizados, um materialista (que nega a criação por deificar a matéria dando-lhe caráter de primeiro princípio), um ateu (que teoriza sobre a inexistência de Deus) ou um panteísta (que identifica substancialmente Deus com as coisas), entre outros, são apóstatas, ou seja: renunciam à fé em alguns de seus princípios universais.[2]

Neste ponto, algumas distinções se fazem necessárias. Uma pessoa que, por exemplo, formule idéias contrárias a algum dogma, mas aceite os demais, não pode ser chamada com toda a propriedade de apóstata, e sim de herege. Neste contexto, vale frisar que apostasia e heresia são duas formas distintas do pecado de infidelidade: a primeira implica uma renúncia à religião fundada por Cristo; a segunda, uma ruptura parcial com a doutrina cristã, conforme descrita na Sagrada Escritura e ensinada pelo Magistério.

É verdade que houve teólogos importantes, como Suárez, para os quais toda heresia deve ser considerada como um tipo de apostasia, não havendo meio termo; neste caso, todos os hereges deveriam ser considerados essencialmente apóstatas, não importando se o abandono da fé católica é total ou parcial (cfme. Suárez, De Fide, disp. XVI, sect. V, n. 3-6). É verdade que, desde tempos imemoriais, as penas canônicas para hereges e apóstatas foram iguais ou muito semelhantes, o que parece corroborar a tese de Suárez, mas por outro lado ela deixa de resolver várias questões teológicas, como as que dizem respeito às diferenças entre heresia formal e material. E mais: a apostasia é um retrocesso completo porque aparta o homem totalmente da fé, virtude teologal infusa, ao passo que a heresia só pode dizer-se completa se o herege mantém sua opinião após a autoridade ter-se manifestado contrariamente a ela, em se tratando de matéria até então opinável do ponto de vista teológico.

A propósito, vários teólogos fizeram outra distinção que vale mencionar neste breve texto: entre apostasia implícita ou explícita. De acordo com isto, a apostasia será explícita e formal se o fiel renunciar à fé cristã por declaração categórica ou por atos que equivalham a uma declaração, como por exemplo o converter-se ao maometanismo — o que, ipso facto, revela a sua infidelidade. A apostasia será implícita ou interpretativa quanto o cristão, sem formalmente renunciar à doutrina, conduzir-se de forma tal que se mostre um verdadeiro estranho às verdades da fé. Por exemplo: católicos que aplaudam ataques diretos ou indiretos à religião por parte dos infiéis (diríamos hoje, dos neopagãos). Ou então, acrescentemos nós, que defendam legislações atentatórias ao direito divino ou ao direito eclesiástico,[3] como as que justificam a separação formal entre o Estado e a Igreja, condenada milenarmente pelo Magistério e inequívoca difusora do laicismo.

É verdade que estas e várias outras distinções se perderam dramaticamente após a revolução do Concílio Vaticano II e do magistério liberal que se lhe seguiu. Assim, numa Igreja cuja apostolicidade se esfumou totalmente com o ecumenismo, tanto a heresia como a apostasia se tornaram conceitos abstratos, e qualquer pena canônica será vista como usurpação indevida da autoridade eclesiástica — imiscuída na “liberdade” dos fiéis. Ora, se lembrarmos que, até então, até mesmo a cooperação com a apostasia ou com a heresia era apenada com a excomunhão latae sententiae, como por exemplo o ato de ler e difundir a obra de apóstatas ou hereges ou participar de suas atividades (conforme a bula de Pio IX Apostalicae sedis, de 1869, confirmada por Leão XIII na Constituição Oficciorum, de 1897), veremos o quão distantes estamos hoje do Magistério tradicional, pois católicos ou filocatólicos podem editar, ler ou indicar a obra dos hereges mais cabais com toda a liberdade, ou seja, livres de qualquer tipo de coação eclesiástica.

O excomungado Xavier Zubiri, por exemplo, poderia hoje freqüentar as aulas de Alfred Loisy e ler as suas obras sem nenhum problema. Poderia também ser leitor voraz dos livros de Maurice Blondel incluídos no Index, com a consciência aparentemente livre de quaisquer remorsos. Seja como for, isto não o livraria (a ele e a outros) do direito divino,[4] de acordo com o qual a apostasia ou a colaboração direta ou indireta com ela é sempre um pecado contra a fé, porque, levada às últimas conseqüências, implica rejeição à doutrina revelada e, portanto, à religião, na medida em que tal recusa traz consigo o não-cumprimento ou a indiferença em relação ao culto verdadeiro a ser prestado a Deus — primeiro dever de justiça dos homens.

A apostasia vai contra as promessas feitas no batismo, razão pela qual ela é agravante em relação à heresia. Trata-se, em verdade, de um suicídio religioso, como afirma Jean-François Badet no livro Le peché de l’incroyance.

Suicídio que, em si, é o mais grave dos pecados, porque atenta contra a lex aeterna.

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1- Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 12, art. 1, resp.

2- Cfme. A. Vacant, E. Mangenot et É. Aman. Dictionaire de Théologie Catholique. Tome Premier –Deuxième Partie. Paris: 1931, Librarie Letouzey et Ané, p. 1602

3- A. Vacant, E. Mangenot et É. Aman. Dictionaire de Théologie Catholique. Tome Premier –Deuxième Partie. Paris: 1931, Librarie Letouzey et Ané, p. 1604.

4- Sobre os tópicos do direito divino, escreveremos um texto noutra ocasião.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Pequeno aviso

Sidney Silveira

Tenho recebido emails de pessoas que acompanham o Contra Impugnantes, indagando-nos acerca do fato de que não temos atualizado o blog. É verdade. Mas há uma razão: estive doente nos últimos 10 dias e ainda estou convalescendo. Seja como for, lembro o que foi dito neste outro texto: a época de superprodutividade de textos ficou para trás, entre outras coisas porque este trabalho de divulgação da obra de Santo Tomás de Aquino não é premido, vetorizado, orientado por quaisquer esperanças de retorno — seja material ou espiritual. Apenas fazemos na medida das nossas possibilidades o que julgamos um dever, mas sem qualquer tipo de pressão quanto ao tempo.

Agradeço pelas mensagens carinhosas. Nos próximos dias voltaremos a atualizar o blog.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Adoro te Devote — o hino eucarístico de Santo Tomás






Adoro te devote, latens Deitas,


Quæ sub his figuris vere latitas;


Tibi se cor meum totum subjicit,


Quia te contemplans totum deficit.



Visus, tactus, gustus in te fallitur,


Sed auditu solo tuto creditur.


Credo quidquid dixit Dei Filius;


Nil hoc verbo veritátis verius.



In cruce latebat sola Deitas,


At hic latet simul et Humanitas,


Ambo tamen credens atque confitens,


Peto quod petivit latro pœnitens.



Plagas, sicut Thomas, non intueor:


Deum tamen meum te confiteor.


Fac me tibi semper magis credere,


In te spem habere, te diligere.



O memoriale mortis Domini!


Panis vivus, vitam præstans homini!


Præsta meæ menti de te vívere,


Et te illi semper dulce sapere.



Pie Pelicane, Jesu Domine,


Me immundum munda tuo sanguine:


Cujus una stilla salvum facere


Totum mundum quit ab omni scelere.



Jesu, quem velatum nunc aspicio,


Oro, fiat illud quod tam sitio:


Ut te revelata cernens facie,


Visu sim beátus tuæ gloriæ.


Amen

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A conversão e seus frutos

[Resposta à mensagem que recebi por estes dias de um sujeito enfezadíssimo, interpelando-me a respeito de como eu, convertido há “apenas” oito anos, me julgo no “direito” de escrever sobre Tomás de Aquino e sobre o Magistério eclasiástico.]


“Na Igreja, os perversos perseguem aqueles que [por compartilhar a doutrina] trazem proveito espiritual a muitos”.


São Gregório Magno (Moralia I, 13)


Sidney Silveira


Na Igreja, antiguidade não é posto. E a razão disso é muito, muito simples: as obras da fé não se medem por nenhuma espécie de cronometragem, porque a fé, sendo virtude teologal infusa por Deus, traz para a alma um tipo de força que transcende por completo a contingências temporais. Ou seja, o sujeito convertido passa a agir sub virtute fidei divinæ — o que muda os vetores de sua vida e, por conseguinte, das suas atividades. Daí ser bastante comum na história da Igreja um recém-convertido começar, em pouco tempo, a atuar diligentemente em questões relativas à fé; e de estéril e inerte, sem a fé, tornar-se frutuoso e laborioso, com ela. Isto porque a força da fé divina é nada menos que a graça, princípio da glória.[1]


Ademais, há pessoas que perdem a fé. Que apostatam mesmo depois de um bom tempo de vida na Igreja. Há casos notórios de monges e padres que, após longos anos de profissão e/ou ordenação, perderam a fé e sucumbiram definitivamente ao espírito do mundo. Como se vê, para o bem e para o mal, antiguidade não é posto na Igreja: há gente que, pouco tempo após converter-se, trabalha pelas verdades da fé, divulgando-as na medida de suas capacidades, e há gente que, depois de muito tempo de vida eclesial, volta as costas à graça e, de figueira estéril, acaba por converter-se em apóstata ou excomungado (casos respectivos de um Lutero e de um Guilherme de Ockham, por exemplo).


Sendo assim, só mesmo uma malícia suma poderia levar alguém a criticar um católico recém-convertido por trabalhar — seja em que frente for — na Igreja, e pior: fazendo uso de nefastos argumentos ad personam (caso do rapazola que me enviou a tal mensagem), que são um verdadeiro manjar na boca do difamador. A propósito, murmurações semelhantes foram feitas a ninguém menos do que Santo Tomás de Aquino, que deixou um conselho bastante útil para quem, no futuro, deparasse com situações análogas. É o seguinte.


Indagando-se sobre se os religiosos devem tolerar pacientemente todas as injúrias que se lhes fazem, o Aquinate distingue entre: a) ataques estritamente pessoais; e b) ataques que, de alguma forma, resvalam em coisas relativas à doutrina da Igreja. Quanto aos primeiros, afirma o Doutor Comum que convém tomar a Cristo como exemplo e suportar absolutamente tudo, aproveitando para oferecer as dores como penitência pelos próprios pecados; quanto aos segundos, a atitude é inversa: não se deve tolerar nada e resistir firmemente. Neste último caso porque, medidas todas as coisas, o caluniado não é outro senão o próprio Deus.[2]


Pois bem: como tal opinião a respeito da atuação de um recém-convertido em coisas relativas à Igreja se enquadra, perfeitamente, no segundo tópico acima, vale respondê-la. E comecemos por dizer que, se ela fosse levada às últimas conseqüências, nem mesmo grandes santos, Padres da Igreja e filósofos cristãos escapariam. O que é patentemente absurdo.


Por exemplo:


* São Paulo teria agido de forma condenável ao começar o seu apostolado apenas dois anos depois de convertido a caminho de Damasco. Ora, em se tratando de ninguém menos do que o Apóstolo dos Gentios, vê-se o tamanho da absurdidade à qual agora damos resposta.


* O recém-convertido Agostinho teria escrito de forma ilícita ou indevida obras-primas como o extraordinário De Sermone Domine in Monte — livro terminado cerca de três anos após sua conversão.


* Clemente de Alexandria (que é Padre da Igreja, apesar de haver erros teológicos em sua obra desaprovados pelo Magistério)[3] teria cometido o grande “pecado” de escrever, logo depois de sua conversão, o Protreptico, conclamando todos os pagãos a abraçar a fé.


* Raimundo Lúlio, hoje instrumentalizado por grupos de católicos neoconservadores que o transformaram em tataravô do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, teria equivocadamente começado a escrever, poucos anos após receber a fé, sua imensa obra com a expressa motivação de converter os infiéis.[4]


Os exemplos são incontáveis, e por economia eximimo-nos de enumerá-los. Estes quatro bastam para mostrar o quão infundada é tal “idéia”: a darmos crédito a ela, grandes santos teriam agido mal trabalhando em coisas relativas à fé logo após sua conversão; um apaixonado apologeta [5] teria dado o péssimo exemplo ao divulgar, perante o mundo, a doutrina do Evangelho pouco tempo depois de abandonar o paganismo; e, por fim, um filósofo medieval declarado beato teria de forma reprovável colocado sua prolífica pena a serviço da conversão dos infiéis, alguns anos após ele próprio converter-se. A estes poderíamos somar outros exemplos significativos, como o de São Francisco de Assis, que pouco tempo depois de sua conversão estava diante do Papa Inocêncio III, admoestando a todos pelo fausto, pelo luxo tão contrário ao Evangelho que bispos e prelados exibiam.


Pois bem, antes de o meu crítico ou os seus pares insinuarem (com a mesma patente malícia do presente argumento) que estamos nós nos equiparando a santos e a filósofos de escol, vale recorrer a um princípio — que aqui expomos por meio de uma analogia:


Ø Em se tratando de doutrina da Igreja, assim como não pode servir como conselho nada que seja contrário a um preceito, visto que a ordem dos conselhos é super-rogatória e eminentemente louvável, assim também não se pode opinar licitamente contra a imitação de uma prática levada às últimas conseqüências por santos e homens notáveis da Igreja .


A razão é simples: em se tratando de difundir o Evangelho (no que nos diz respeito, a partir da simples apresentação da obra do Doutor Comum da Igreja sem as matizações da teologia pós-conciliar), essa imitação é aconselhável em elevado grau. E, a propósito, é essencialmente isto o que fazemos: neste quesito, imitar o que grandes santos, papas e teólogos fizeram no passado — dar publicidade a Santo Tomás de Aquino; e, no tempo desgraçado em que nos cabe viver, mostrá-lo como antídoto contra o modernismo condenado por São Pio X. Essa imitação é também segura, na medida em que não tentamos “inventar a roda”, ou seja, interpretar os Dogmas à nossa moda, como muitos fazem por aí, mas apenas seguir à risca (em matéria de fé) a obra do mais abalizado Doutor da Igreja, consagrado por sete séculos de Magistério. Afastar-se do Aquinate, isto sim, é que implica colocar-se sob o risco de cometer erros teológicos.


Outra coisa: críticos de tal estirpe não possuem a menor autoridade espiritual para proclamar que um trabalho como este é indevido. Na verdade, têm autoridade zero. E também não possuem autoridade hierárquica, a qual seria mais inteligente argüir contra nós, pelo fato de sermos leigos. Mas mesmo este argumento não se sustentaria, por dois motivos principais: a) não é preciso pedir permissão para repetir a doutrina tradicional à luz da obra do Doutor Comum, pois fazê-lo é seguir o conselho magisterial de séculos sem fim. Seria como pedir licença a um superior hierárquico para fazer um bem espiritual que está à mão; e b) dado o atual estado de necessidade na Igreja (patente na voz pluriforme dos neoteólogos e do neomagistério, que, em vários pontos, contrariam o ensino de sempre)[6], apresentar a obra teológica de Santo Tomás de Aquino não apenas se justifica, mas é um dever inarredável por parte daqueles que a estudam com afinco há anos.


Isto assinalado, apenas com o intuito de gravar bem o conceito repitamos com outras palavras o princípio:


Ø não pode um católico criticar licitamente o que — por ser um conselho magisterial multissecular — é super-rogatório.


E mais: em que escola dos infernos o meu crítico terá aprendido que um recém-convertido deve ficar sempre quieto e caladinho? Talvez imagine ele que a Igreja é uma espécie de seita maçônica que requeira do adepto um tirocínio iniciático de anos de testes e estudos esotéricos — para somente então ser considerado apto a compartilhar as verdades aprendidas. Não! As suas leis são de instituição divina e, no decorrer dos séculos, vêm sendo expressas com toda a clareza pelo Magistério e pelos Doutores (isto para não falar do Catecismo e do Credo). Razão pela qual simplesmente repeti-las na voz destes últimos é algo que não pode ser criticado sem uma grande dose de maldade espiritual. Sobretudo se a crítica tem como base o tempo de conversão, o que é ridículo.


Em geral, por trás duma crítica de tal teor oculta-se um profundo ódio às verdades da fé — e mais que isso: ódio às obras que ela produz. E não é raro o murmurante que perpetra calúnias desse teor ser alguém que posa de aguerrido defensor da Igreja. Mas indaguemos nós: é possível defender a Igreja apartando-se de sua doutrina? É possível fazê-lo olhando-a como algo a respeito do qual um católico pode divergir, sem perder a fé? Ora, casos como os de um Guilheme de Santo-Amor, de um Guilherme de Nogaret (de quem ainda falaremos num dos textos da série sobre Bonifácio VIII), de um Sciarra Colonna, etc., são recorrentes na história eclesiástica. São homens que juraram — e perjuraram — estar defendendo a Igreja, quando na verdade trabalhavam para corrompê-la! Quantos caluniadores, a pretexto de trabalhar pela Igreja, atacaram homens que realizavam suas obras difundindo a fé!


Infelizmente, para os ministri diaboli [7]— como chamou Santo Tomás a estes que odeiam ver a doutrina da Igreja divulgada, em prol do bem comum das almas —, tudo serve de palha para a sua fogueira: o bem e o mal.


Sobretudo o bem, que eles gostariam de converter em males.


Em tempo: Recebi nos últimos dias emails e telefonemas de gente pedindo-me opinião sobre o trabalho de Fulano e Sicrano. Por princípio, prefiro crer que não seja por má-fé ou com o intuito de fofoca, mas o fato é que não reponderei a indagações desse tipo, pois, se eu pretendesse transformar-me em conselheiro de homens feitos, abriria uma Tenda do "Pai" Sidão e faturaria grana alta. Ora, pessoas adultas são livres para fazer as suas escolhas, buscar os seus caminhos. E, se são católicas, que peçam conselho diretamente ao Cristo eucarístico, misteriosamente escondido sob as espécies sagradas, mas não a este mísero escriba. Infelizmente, percebo que, em alguns casos, o propósito é pôr lenha na fogueira... Mas do disse-me-disse e das futricas da tia Candinha, livre-nos Deus.


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1- Gratia, inchoatio gloriæ, conforme o axioma escolástico.


2- Santo Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, c.13, n.3


3- A respeito da retirada de Clemente de Alexandria do Martirológio pelo Papa Bento XIV, em 1748, por meio da bula Postquam intelleximus, falamos em nossa apresentação ao Protreptico (tradução para o português da Profª. Rita Codá dos Santos), livro já entregue à editora É Realizações para edição.


4- A título de curiosidade, em sua Vita Coaetanea Lúlio diz que três são os seus propósitos ao escrever: a) converter os infiéis ao Cristianismo; b) redigir o melhor livro do mundo contra os erros dos infiéis; c) suplicar aos poderes constituídos que criassem mosteiros onde se ensinassem as línguas necessárias ao seu projeto de conversão do mundo. Cf. Raimundo Lúlio, Vita Coaetenea, I, 5-8.


5- “Navega para além desse recanto, artesão da morte; basta que tu queiras e terás vencido a perdição. Preso ao madeiro, tu te livrarás de toda corrupção; o Logos de Deus será o teu piloto, e o Espírito Santo te fará ancorar nos portos celestes; então, tu contemplarás o meu Deus e serás iniciado nesses santos mistérios; tu, por fim, usufruirás, nos céus, dos bens secretos (...), os quais nenhum ouvido humano escutou falar, e que não vieram do coração de nenhum mortal”. Clemente de Alexandria, Protréptico, XII, 4.


6- Para não perdermos tempo com a exposição material de documentos sem fim, basta-nos fazer referência ao ecumenismo, condenado solenemente durante todo o período anterior ao Concílio Vaticano II e hoje ensinado como um dos princípios reitores da catolicidade.


7- Santo Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, Prologus.