quarta-feira, 20 de julho de 2011

Concurso “Santo palavrão”

Mande-nos qualquer texto com uma só obscenidade escrita por um Santo, e ganhe todos os livros da editora Sétimo Seloassim como os “DVDs” da coleção A Síntese Tomista


Sidney Silveira


[Como há algo verdadeiramente cômico — embora com aspectos um tanto trágicos — na história que suscitou a presente série de textos, resolvi criar um bem-humorado concurso, que, não obstante, é à vera, ou seja: vale de fato se alguém o conseguir vencer]


Cristo disse, entre outras, as seguintes palavras ou expressões: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?” (Mt. XVIII, 33). Noutras passagens do Evangelho, apenas para dar alguns exemplos, vemos Nosso Senhor usar palavras como “porcos”, "cães" “hipócritas”, “malditos”, “impuros” e outras similares. Com isto, o Messias mostra o seguinte: contra a malícia, não há senão que usar de uma linguagem dura e direta. Mas nunca, jamais, em tempo algum, usou Ele de qualquer obscenidade em seu vocabulário — nem mesmo contra os que O mataram, a quem perdoou na Cruz. Também os Santos, muitas vezes, usaram de linguagem duríssima contra os adversários, com expressões típicas do vulgo, como por exemplo Santo Antônio de Lisboa, contra os cátaros; São Bernardo, contra Abelardo; São João Crisóstomo (o boca de ouro), contra o judaísmo; São Jerônimo, que chamava por nome de animais não só os seus inimigos, mas às vezes até os amigos, como o grande Santo Agostinho, a quem disse certa vez: “Cala a boca, seu burro!”; etc.


Retenhamos, pois, isto: uma coisa é usar de linguagem dura, ou mesmo duríssima e em tom zombeteiro, contra gente maldosa com quem não dá para entabular diálogo; outra, totalmente distinta, é usar de linguagem obscena, recorrendo a imagens sexuais ofensivas, algumas chegando a detalhes grotescos, ironias de baixo calão, alusões injuriosas à vida privada do oponente, metáforas com ofensas imorais à honra dele ou à de sua família, e outras coisas mais. Em suma, é quando a obscenidade e a maledicência dão-se um amplexo cheirando a enxofre e procuram denegrir a pessoa do próximo. Bem diz a Sagrada Escritura desse tipo de linguagem: Não terá duração na Terra a má língua (Sl. 139, 120); Aquele que profere uma linguagem iníqua não pode fugir de Deus; Sua justiça vingadora não o deixará escapar (Sab. I, 8).


Pois bem, feita esta distinção, digamos, conceitual entre a santa dureza e a maldade espiritual — deveras importante, porque muitas vezes a virtude e o vício são muito parecidos — frisemos agora: dizer que a linguagem de qualquer Santo contra os inimigos foi de palavrões (no sentido de jargões obscenos) pode acontecer em dois únicos casos: ou por ignorância, ou por malícia. Para quem conhece bem a história da Igreja e a dos Santos, qualquer terceira hipótese está absolutamente excluída, por evidência cabal — e o evidente, como os principiantes no estudo da lógica sabem perfeitamente bem, não se demonstra; mostra-se.


Demos, a título de procedimento dialético, que alguém, ao buscar o respaldo dos Santos para justificar um palavreado chulamente detratório, aja sem maldade alguma — ou seja, que a sua ação seja movida por “boas intenções” mescladas a uma candente ignorância na matéria. Também demos, ainda como procedimento dialético, que não haja nenhuma má-fé de sua parte, ao fazer insinuações e acusações infames. E, como corolário das premissas anteriores, demos ainda que a malícia é algo que passa longe dessa alma, com a graça do bom Deus. Por fim, arguamos em favor deste arquetípico opositor o seguinte: de acordo com os princípios da Teologia Moral, os pecados por malícia são sempre culpáveis, mas os praticados por ignorância (pressuposição da qual partimos, no caso) são perdoáveis. Isto posto, o enfezado oponente teria uma única e dolorosa culpa ao dizer que os Santos usaram de “palavrões” similares aos dele: uma ignorância, mais ou menos vencível.


Tragamos agora duas definições, extraídas ipsis verbis do Dicionário Aurélio:


Ø “Obsceno: Que fere o pudor. Impuro, desonesto. Diz-se de quem profere ou escreve obscenidades”.


Ø Obscenidade: Qualidade de obsceno. Palavra, gesto, ato ou imagem obscenos”.


Pois bem, dadas estas duas definições, a Sétimo Selo, da qual sou um hoje um mero representante no que tange à linha editorial, estatui o seguinte e breve regulamento do Concurso Santo Palavrão:


Parágrafo 1: O primeiro leitor do Contra Impugnantes que nos enviar um só texto em que haja uma obscenidade escrita (ou dita) por algum Santo contra seus inimigos, receberá de presente um exemplar de cada livro já editado pela Sétimo Selo, assim como um exemplar de cada DVD da coleção A Síntese Tomista até agora lançado. Pago com muito gosto do meu bolso!


Parágrafo 2: Para tanto, o leitor deverá enviar-nos a referência bibliográfica da obra em questão, dando-nos o direito de exigir, caso julguemos o índice catalográfico insatisfatório, que nos mande pelo Correio o exemplar físico do livro onde está o presumível dito obsceno do Santo. Comprometo-me, de público, a restituir o exemplar, juntamente com o prêmio, caso se comprove, de fato, a santa obscenidade.


Os produtos são os seguintes:


Ø “A Natureza do Bem” (De Natura Boni contra Maniqueus), de Santo Agostinho, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “Sobre o Mal” (De Malo), Tomo I, de Santo Tomás, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “A Inocência do Padre Brown”, de Chesterton;


Ø “A Política em Aristóteles e Santo Tomás de Aquino”, do filósofo argentino Jorge Martínez Barrera;


Ø “Sobre os Anjos” (Tratactus De Substantiis Separatis), de Santo Tomás, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “Atualidade do Tomismo”, coletânea de artigos;


Ø “Raimundo Lúlio e As Cruzadas”, três obras do escritor catalão, numa edição trilíngüe (latim/catalão medieval/português);


Ø “A Candeia Debaixo do Alqueire”, do Pe. Álvaro Calderón, da FSSPX;


Ø O Êxtase da Intimidade, do filósofo espanhol Juan Cruz Cruz;


Ø DVD da coleção A Síntese Tomista – Tomo I. Aspectos da Gnosiologia e da Metafísica de Santo Tomás de Aquino, com este miserável escriba;


Ø DVD da coleção A Síntese Tomista – Tomo II. O Tempo e a Eternidade em Santo Tomás de Aquino, com o Nougué;


Ø DVD Bach e a Harmonia das Esferas, com o Nougué.


Parágrafo 3: A citação com as informações indicadas no item 2 devem ser enviadas para o email concursosetimoselo@gmail.com.


PARÁGRAFO 4: Obviamente, não valem as obscenidades ditas antes da conversão, ou o caso de mártires que só se santificaram exatamente com a sua morte.


PARÁGRAFO 5: A promoção é válida até o final de agosto.



APÊNDICE


Um gnosiólogo em ato.


Pois bem, feita esta brincadeira editorial — que não deixará de ser pedagógica —, transcrevo a seguir a fala do Prof. Olavo de Carvalho no seu talk show da noite desta quarta-feira (20/07), em que, num tom de surpreendente urbanidade, embora sem deixar de lado certa sarcástica maledicêndia (que, em vista dos espetáculos anteriores de zanga e feérico impetus detrationis, considero uma verdadeira maravilha) faz referência a esta aula minha, em que cito Husserl. Bem, como rir não é pecado, confesso que cheguei a chorar de tanto rir. O homem, quando quer, é um humorista de primeira! [trata-se aqui de um sincero elogio!]


Abaixo, eis o trecho da fala do Prof. Olavo. Perdoem-me se houver algum erro de digitação, mas não sou taquígrafo e fui simplesmente transcrevendo-a conforme ouvia, e preciso dormir daqui a pouco.


Os itálicos — a ser comentados depois — são meus:


Ao contestar que possamos conhecer a essência de um objeto por intuição, ele [ou seja, eu] proclama que nada sabemos ao certo antes que o intelecto intervenha e classifica o que foi apreendido pelos sentidos. Com isso, ele dá um sentido de seqüência temporal ao que é com toda a evidência a hierarquia lógica e interna de um ato de cognição instantânea. É obvio que os sentidos não nos dão por si a essência de nada; apreender a essência é tarefa do intelecto, mas isto não quer dizer que entre a captação pelos sentidos e a entrada do intelecto em cena, decorra um intervalo de tempo, muito menos uma separação material, e não apenas formal, entre ver um gato e perceber que é um gato. O ato e reconhecimento instantâneo pelo qual o intelecto apreende um gato naquilo que os sentidos lhe apresentam como gato, é precisamente o que se denomina intuição. Então do que ele está falando? Prova suplementar da sua fulgurante inépcia, ele nos dá em seguida, ao fornecer como exemplo da impossibilidade de apreensão intuitiva de essências, o fato de que, se alguém, em segredo, depositasse um veneno no seu copo, ele não teria a apreensão intuitiva do copo envenenado. Raramente vi um professor de filosofia mesmo de ginásio descer tão baixo. De um lado, ninguém pode ter a intuição de algo que não chegou ao seu conhecimento nem pelos sentidos, nem por qualquer outra via de informação. Se o Sr. Silveira não tem a intuição do que se passou, não é por deficiência da faculdade intuitiva, mas por ausência do objeto. Qualquer criança de 5 anos entende isto num relance, mas na platéia do Sr. Silveira não havia aparentemente ninguém com a experiência e a erudição de uma criança de 5 anos, e por isso ninguém o contestou. Todos continuaram ouvindo a patacoada em respeitoso silêncio (...). Em segundo lugar, conter ou não conter veneno não faz parte da essência de nenhum copo; é um acidente. O cara não sabe distinguir uma essência dum acidente, meu Deus do céu. A intuição reconhece imediatamente um copo como copo, mas não distingue necessariamente a substância que o preenche, aliás pelo simples fato de que diferentes líquidos não se distinguem tão claramente uns dos outros pela sua simples forma visível, como objetos sólidos e espécies diversas, diferentes nesses e semelhantes naquele. Todo líquido tem a forma visível de líquido, não é? Não é como você distinguir um gato duma tartaruga, duma mesa, duma casa, tá certo? A objeção do Sr. Silveira à eficácia da faculdade intuitiva consiste apenas em alegar que ela não percebe no mesmo instante todos os acidentes, o que é o mesmo que não dizer absolutamente nada. Em terceiro lugar, um veneno depositado num copo com fins homicidas é por definição uma substância sem aparência distintiva que permita identificá-lo como tal. (...) O Sr. Silveira acredita que não tem intuição das essências porque não enxerga o invisível. Com toda a evidência o que lhe falta não é a apreensão intuitiva das essências, mas aquele mínimo de capacidade raciocinante que ele precisa ter para ser um mecânico de automóveis ou um caixa de banco, motivo pelo qual ele resolver escolher a profissão de porta-voz do magistério infalível. Por que desejaria eu conferir o estatuto de adversário filosófico meu a um sujeito tão obviamente despreparado e burro? Se à burrice e ao despreparo ele soma ainda a língua dupla e o hábito das insinuações veladas, pretendendo subir na vida na base da difamação e da intriga, que outro confronto posso ter eu com ele senão o de ordem jurídico-policial? (...) Nada mais sábio do que fugir ao vexame colossal de apanhar de um velho!”.


Ora, “o estilo é o homem”, dizia Buffon. Pois bem, assim que eu tiver um tempinho (se possível amanhã), vale passar um pequeno bisturi dialético no que vai acima.


Outra coisa engraçada no talk show desta noite: o Prof. Olavo usar daquilo que os medievais chamavam de argumento de autoridade (ou seria “otoridade”?) para dizer que o Nougué fugiu ao debate. “Eu publiquei tantas obras, e o Nougué não publicou nada, portanto, etc.”.


Muito boa! Isto me deu uma idéia de escrever no Contra Impugnantes, um pouco mais à frente, algo sobre o que seja o “argumento de autoridade”, e qual o seu real valor filosófico... Deixo por ora apenas uma frase de Sto. Tomás de Aquino, que tomo como parâmetro para os meus estudos:


“Não importa quem diz, mas a validade do que se diz”.


E depois chega, porque todos temos mais o que fazer!