sexta-feira, 29 de maio de 2009

Dionísio, Pseudo Areopagita


Raffaello Sanzio (São Paulo prega em Atenas)


Sidney Silveira
Falou-se noutro texto de quanto, durante toda a era Patrística, abundavam as admoestações contra a filosofia grega, particularmente as advertências para o perigo de assimilação, por parte dos cristãos, de elementos espúrios à fé. O exemplo para esta postura era buscado na Boa Nova trazida pelo Apóstolo aos escandalizados gregos (cfme. At. XVII, 23-29): a sabedoria dos homens havia sido suplantada por outra, divinamente revelada, que doravante seria o norte para todo e qualquer conhecimento humano, especulativo ou prático. Na culta Atenas de então, em meio aos juízes do Areópago — conselho de membros da aristocracia ateniense em cujo recinto havia várias imagens dos deuses pagãos —, Paulo anuncia eloqüentemente o ignoto Deus que veio ao mundo para pôr fim às humanas superstições e à adoração de falsos ídolos. A partir de então, não mais seria lícito aos homens procurar, fora da Revelação, a solução para os seus dilemas fundamentais, para os dramas que configuram a sua condição.

Neste momento decisivo para a história humana, como aconteceria tantas e tantas vezes ao longo dos séculos, ao simples anúncio da Palavra revelada distintos grupos se formaram: uma grande parte de zombeteiros; outra de pessoas céticas racionalistas, para quem a Cruz é simplesmente uma loucura; outra de gente que, como o rico do Evangelho (Lc. XVIII, 23), se sentiu atraída pela novidade, mas cujo apego ao mundo ou à carne impediu de abraçar a radicalidade da fé; e uma minoria que, com o auxílio da Graça, se abriu ao influxo benemerente da Palavra divina e produziu frutos de cem por um, de sessenta por um e de trinta por um (Mt. XIII, 8). Dentre estes estava Dionísio, depois cognominado “Areopagita”, um juiz que se converteu ali, no exato momento em que Paulo era avaliado por uma assembléia de pessoas atônitas a quem com firmeza dizia anunciar o Deus que a todos “deu a vida, o movimento e o ser” (At. XVII, 28).

Muitos anos depois — hoje se sabe que, provavelmente, no século V —, um homem que durante centenas de anos se acreditou ser o grego convertido por São Paulo, por razões que não cabe apontar neste breve texto, escreveu quatro livrinhos que influenciariam grandemente teólogos e filósofos cristãos: “Sobre a Hierarquia Celeste”; “Sobre a Hierarquia Eclesiástica”; “Sobre os Nomes Divinos”; e “Sobre a Teologia Mística”. Desde quando a crítica histórico-filológica apontou — já nos albores do século XIX — que essa obra não poderia ter sido escrita por São Dionísio Mártir, esse autor anônimo (um notável místico!) passou a ser conhecido pelos estudiosos como Dionísio Pseudo Areopagita.

Indico entusiasticamente aos leitores do Contra Impugnantes a leitura destas quatro pequenas obras de grande valor, que representam uma das maiores influências de um autor no decorrer dos séculos — e de forma quase subterrânea, por assim dizer. Eis alguns teólogos, Santos e filósofos que beberam desta fonte, com maior ou menor proveito:

São Máximo, o Confessor, autor das estupendas Centúrias da Caridade; Escoto Eurígena; Pedro Lombardo; ao que tudo indica, São Bernardo de Claraval; o notável Hugo de São Vítor; Santo Antônio de Lisboa; o grande cientista Robert Grosseteste; São Boaventura; Santo Alberto Magno; Santo Tomás de Aquino (em cuja obra, para se ter idéia da influência dionisiana, há 1.702 menções ao Areopagita); Nicolau de Cusa, cuja Douta Ignorância foi grandemente influenciada por nosso autor; toda a tradição dos cartuxos da Idade Média; Marsilio Ficino, já no Renascimento; São Thomas More; São João da Cruz, cuja Subida do Monte Carmelo tem algumas similitudes impressionantes com Sobre a Hierarquia Celeste e com Sobre os Nomes Divinos; etc.

Deixo, como tira-gosto, um trecho da Teologia Mística do Areopagita:

“Agora que escalamos desde o solo mais baixo até os mais altos cumes, [sabemos que] quanto mais subimos, mais escassas se tornam as palavras. Ao chegarmos ao cume, reina o mais completo silêncio. Estamos de todo unidos ao Inefável”. (Teologia Mística, III, 1033C)

Em tempo: Noutra ocasião, escreverei um pouco sobre a estrutura da Suma Teológica de Santo Tomás: do exitus e reditus. Ela é, segundo autores abalizados, de direta influência dionisiana. E também falarei um pouco sobre duas dessas obras do Pseudo Areopagita.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

“A CANDEIA DEBAIXO DO ALQUEIRE”, do Padre Calderón, e novas “Jornadas de Humanidades” em La Reja

Carlos Nougué
I)
Uma das razões por que tive de deixar de escrever temporariamente para o Contra Impugnantes foi o estar ocupado com a tradução de A Candeia Debaixo do Alqueire, do Padre Álvaro Calderón, da Fraternidade São Pio X. E, com efeito, o livro será lançado em cerca de 20 dias pelo nosso Angelicum — Instituto de Filosofia e de Estudos Tomistas; e, efetivamente, foi para mim um privilégio poder traduzir esta obra magna, não só porque o tradutor é sempre, de fato, um leitor privilegiado, mas porque A Candeia... é, no âmbito da teologia, uma das obras mais importantes (se não a mais importante) dos últimos, digamos, 50 anos. E por quê?

São vários os motivos. Antes de tudo, o fato mesmo de o Padre Calderón ser não apenas um professor de seminário (e seminário tradicionalista), e não apenas um tomista, mas um Auxiliar de Santo Tomás, um verdadeiro continuador do Aquinate. Não apenas um comentarista. Depois, porque neste A Candeia... o Padre Calderón faz reviver, em alto estilo e com impecável competência, o método escolástico da disputatio, tão desenvolvido pelo mesmo Santo Tomás. Como verão os leitores, os artigos da disputatio se compõem, essencialmente, de quatro partes:

1) os argumentos ou objeções dos adversários da tese esgrimida no artigo, as quais deverão ser expostas de modo perfeito, não raro de modo superior à exposição dos próprios adversários, sendo dupla a razão para tal: honestidade e clareza intelectual; sobretudo o fato de que, assim procedendo, se está obrigado a dar uma resposta às objeções ainda mais perfeita, definitiva, cabal;

2) argumento(s) (de terceiros) em sentido contrário ao das objeções, o(s) qual(is) já como que encaminha(m) para a resposta;

3) esta mesma resposta, ou corpus, no qual se resolve globalmente a questão que suscita o artigo; é a parte principal;

4) as respostas às objeções, uma a uma, detalhadamente.

Mas A Candeia... é obra tão suma como dizemos sobretudo porque resolve, de modo definitivo, cabal, inequívoco, a questão central desta disputatio e, diga-se, do catolicismo nos últimos 45 anos: Qual o grau de autoridade do magistério conciliar, ou seja, o magistério oriundo do Concílio Vaticano II, como, aliás, diz o próprio conjunto do título da obra: A Candeia Debaixo do Alqueire – Questão Disputada sobre a autoridade doutrinal do magistério eclesiástico a partir do Concílio Vaticano II.

Qual a resposta do Padre Calderón? Naturalmente, deixarei que o vejam por si mesmos os leitores. Mas desafio desde já: que os apoiadores do Concílio Vaticano II, por um lado, e os sedevacantistas, por outro, tentem contestar as conclusões de A Candeia... naturalmente não com epítetos, vitupérios e coisas que tais. Uma multidão de coisas assim, como já disse alhures, não chega a constituir um silogismo. Tentem contestá-las no terreno propriamente teológico, e com o mesmo grau de amplitude e generosidade intelectual do Padre Calderón. Vejamos o que poderão conseguir.

Em tempo: logo avisaremos do dia e local do lançamento do livro. Mas reservem já com o Sidney seu(s) exemplar(es); comprem, presenteiem, e ajudem assim a que medre também em nosso solo este autêntico tomismo vivo que, na atualidade, quase certamente tem no Padre Calderón seu principal representante. E esperem Concílio Vaticano II: A Religião do Homem, outra obra sua, que não fará senão confirmar o que acabo de dizer.

II) E quisera poder estar presente às novas “Jornadas de Humanidades” do Seminário de La Reja (província de Buenos Aires, Argentina), da Fraternidade São Pio X, onde precisamente vive e dá aulas o Padre Calderón. O tema será “O Evolucionismo”. Mas melhor que o tema são os palestrantes: 1) como convidado especial, o biólogo Raúl Leguizamón, autor de vários livros, e que é junto com Michael Behe (autor de A Caixa-Preta de Darwin) o principal nome atual da ciência biológica e biomolecular antievolucionista; 2) o próprio Padre Calderón; 3) os padres Camargo, brasileiro, e José María Mestre, ambos também da Fraternidade; 4) os professores Bolo, Pérez Argüero e Casermeiro.

Para mais informações, vejam no site da própria Fraternidade:
http://www.fsspx-sudamerica.org/principal.html.
Adendo do Sidney: Dizer-se “tomista” empresta certa aura de ortodoxia a um teólogo, a um filósofo, a um professor de filosofia. O alemão Josef Pieper dizia, jocosamente, que tal é a magnitude de obra de Santo Tomás que só se pode aplicar o epíteto “tomista” a alguém de forma equívoca. Noutra oportunidade, apontei alguns dos problemas do tomismo contemporâneo, que muitas vezes aproveita do Aquinate o que quer — principalmente no terreno da metafísica e da moral —, mas, quando lida com questões cristológicas, eclesiológicas, soteriológicas, antropológicas, litúrgicas, magisteriais, etc., acontece o seguinte: ou se cala ou faz, criminosamente, Santo Tomás dizer o que não disse. Há entre essas pessoas quem queira fazer o Aquinate servir à nova orientação ecumênica, à nova liturgia, à nova cristologia pluralista e, enfim, àquilo que o padre Garrigou-Lagrange chamava de nouvelle théologie. É óbvio que, para tanto, faz-se uso de uma bibliografia cuja hermenêutica é, digamos, demasiado aberta — e totalmente “moderna”. Esses professores, na prática, põem Santo Tomás a serviço das suas próprias ideologias, a serviço do espírito de novidade que parece ter varrido quase tudo na Igreja. E, como diz o próprio Calderón, ter voluntas thomistica é uma coisa; ser um discípulo do mestre, outra mui distinta.
Tendo em vista tal panorama, deparar-se com a obra magna do Padre Calderón traz, de imediato, um susto, um assombro, uma atitude de verdadeiro pasmo. Não apenas por seu grande conhecimento da história da Igreja, dos dogmas, do Magistério, etc., mas pela grande erudição que possui no campo do tomismo, propriamente. Padre Calderón não é leitor apenas do neotomismo (muitas vezes tão distante de Santo Tomás, como é o caso de Maritain, cujos erros tremendos têm ressonância ainda hoje, no seio da Igreja), mas alguém que, além de ter ido com grande afinco à obra do próprio mestre medieval, conhece pesquisadores contemporâneos e, também, autores tomistas que, hoje, são apenas uma nota de rodapé nos trabalhos dos estudiosos da obra do Aquinate — como por exemplo Capreolo, João de Santo Tomás e Cajetano. A intransigência do Padre Calderón é a intransigência de quem não faz concessões ao erro, venha ele de onde vier.
O livro A Candeia Debaixo do Alqueire terá 330 páginas e custará R$ 60,00. Faremos o seu lançamento num “sebo” no Centro do Rio. Quanto às encomendas (e aqui lembro que o número de exemplares não é grande), responderei em breve a todos os já que me mandaram email — com informações sobre o depósito a ser feito e sobre o valor do frete. Desta vez, peço encarecidamente que não solicitem desconto no preço (o qual está baixo, dado o livro que é), pois além de tudo precisamos ter recursos para dar prosseguimento a esta difícil semeadura. Afinal de contas, gasta-se hoje tanto dinheiro com bobagens e, na hora de se comprar um livro tão importante como este, se argüi “falta de grana”. É quase uma espécie de avareza.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Catolicidade e ecumenismo

Sidney Silveira
Ouvindo de um padre, nesta semana, a defesa do ecumenismo — sob a alegação etimológica de que “ecumênico”, em sua raiz grega, tem o mesmo significado de “católico” (ou seja: universal) —, não pude deixar de lembrar-me de um texto do Padre Álvaro Calderón (o mesmo da obra-prima "A CANDEIA DEBAIXO DO ALQUEIRE"), veiculado no site da Permanência. Vale a pena ler.

O segredo de Léon Bloy

Carlos Nougué
A Igreja sempre assumiu as artes em função da liturgia, ou seja, do “conjunto de cerimônias e ritos por meio dos quais [ela] expressa e manifesta sua religião para com Deus” (R. P. Jesús Mestre Roc, Curso de introdución a la liturgia, p. 3, texto encontrável no site Stat Veritas). E, assumindo-as assim, não podia senão elevá-las ao ápice de sua potência: com efeito, tudo na criação atinge seu ápice no serviço de Deus. Com respeito à música litúrgica, dizia o compositor Gounod: “Não conheço nem uma só obra saída do cérebro de algum grande mestre que possa pôr-se em paralelo com a majestade aterradora desses cantos sublimes que diariamente ouvimos [que se ouviam então, acrescente-se hoje] em nossos templos e em nossas cerimônias fúnebres: o Dies irae e o De profundis. Nada chega a tal altura nem a tal potência de expressão e de impressão”. Ou Mozart: “Quanto a mim, daria gozosamente todas as minhas obras por ter sido o autor do Prefácio”. Com respeito à poesia, que obra do mundo pode equiparar-se em sublimidade, para dar apenas um exemplo entre tantos e tantos, ao ofício de Corpus Christi escrito por Santo Tomás de Aquino? Com respeito à arquitetura, ou seja, a arte que hospeda a liturgia, que edifício pode senão ajoelhar-se diante de uma catedral gótica (escreverei proximamente um artigo sobre o gótico) ou mesmo de uma igreja românica ou barroca? E, quanto à pintura e à escultura, que obra grego-romana, para falar do melhor, não se apequena diante dos retábulos e estátuas e vitrais que adornam (ou adornavam) nossos templos fazendo deles como que imagens da cidade celeste?

E, mutatis mutandis, vale para todas as artes o que Monsenhor Gay diz especialmente sobre a música: “Há 19 séculos que a Igreja não cessa de cantar, e assim continuará até o fim do mundo, pois o canto não é para ela um passatempo, nem um prazer para ela ou para os demais; é um dever, um dever constantemente prescrito e constantemente cumprido; é o acento regular de sua linguagem e uma das fórmulas de seu culto. Cantava-se nas catacumbas, cantou-se nos cadafalsos, cantou-se em torno dos féretros, e nunca se cantará com um coração tão alegre como quando sobre as ruínas amontoadas pelo Anticristo se levantarem os olhos para o oriente para saudar a vinda da última e total redenção” (Virtudes cristianas, II, apud R. P. Jesús Mestre Roc, ibid.).

Como todavia costumo dizer, as artes, ainda que em plano indubitavelmente inferior ao litúrgico, também servem ou deveriam servir para a vida do católico fora dos templos. Não obstante, no alegrar uma casa ou no entreter a cidade ou no contribuir para forjar a unidade de uma nação, não podem elas porém afastar-se do serviço de Deus a ponto de lhe ser em algum grau contrárias; têm, em verdade, de em algum grau prestar também serviço a Deus; têm de estar ordenadas, de maneira mais ou menos direta, a Ele. Têm ao menos de “estar à sombra do Evangelho”, como ouvi certa feita numa bela homilia, e como de fato estão os quadros de um Le Nain, o pintor francês (do século XVII) dos humildes, das famílias do campo, cujas figuras, como diz o Padre Calmel em Théologie de l’histoire (Dominique Martin Morin, 2ª. ed, 1984, p. 70), ”refletem um equilíbrio e uma dignidade que já não se vêem nos agricultores contemporâneos. Por que aquela calma, aquela gravidade, aquela paz impressa em seus rostos? Sem dúvida porque os camponeses que ele evoca guardam ainda mais ou menos intacto o patrimônio de virtudes cristãs trazidas aos gauleses mais de quinze séculos antes pelos primeiros bispos e pelos primeiros mártires. Fora das virtudes cristãs, jamais teríamos conhecido esta paz da alma, esta segurança diante da adversidade, esta força da alma que transfiguram e sobrelevam as frágeis virtudes humanas, que fazem com que a vida aqui em baixo, neste vale de lágrimas, ainda que repleta de provações, não seja porém envenenada nem desesperadora. São virtudes humanas sobrelevadas pela graça o que está impresso nos nobres rostos de Le Nain”. E, ao retratá-lo, prestava Le Nain ao seu modo, no seu grau abaixo do litúrgico, um serviço de louvor a Deus, ao mesmo tempo que, em ordem a esse serviço, prestava beleza ao mundo dos homens.

Mais ainda: podemos os católicos assimilar a obra de grandes artistas não católicos como o compositor luterano Johann Sebastian Bach ou o escritor ortodoxo russo Fiodor Dostoievski, contanto que saibamos expurgar dela o nefasto ou acusá-lo (o herético da letra de certas cantatas de Bach, o antipapismo, o pan-eslavismo, etc., em certas passagens de Dostoievski), e nos lembremos, sempre, de que somos não só de Cristo, mas de sua esposa, a Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Para a relação do católico com as artes, contudo, o veneno mais insidioso não está propriamente nas obras de arte francamente não católicas ou blasfemas; está sobretudo no pensar e dizer que as artes têm mais ou menos autonomia com respeito ao fim último, com respeito a Deus. No considerar que tanto a jurisdição do político como o âmbito das artes podem instalar-se num terreno neutro com respeito ao Senhor; no considerar que, além daquele fim último, tem o homem um fim natural, a pólis, com suas necessidades naturais, entre as quais a do belo propiciado pelas artes; no considerar que há uma cidade intermédia entre a cidade de Deus e a do amor-próprio e do demônio, com artes intermédias entre a arte para Deus e a arte para o amor-próprio e o demônio. E este veneno, o veneno do humanismo, se inoculou em certo grau até nos melhores de nossos combatentes antiliberais. Com efeito, como diz o Padre Álvaro Calderón em El neonestorianismo actual – A propósito de la película “La última tentación de Cristo” (texto encontrável no já referido site Stat Veritas), “O verdadeiramente grave é o câncer que carcome hoje o catolicismo por dentro. Até os principais órgãos estão infectados com os princípios do inimigo, e, como acontece com o câncer, quanto mais se quer viver, mais rapidamente se morre, porque as próprias funções vitais da vítima servem para agravar o mal”. E uma das muitas provas que se poderiam aduzir ao dito, temo-la na contribuição dada pelo grande Louis Veillot para impedir se pusesse no Index Librorum Prohibitorum a obra de Léon Bloy (1846-1917). Dizia o eminente antiliberal com respeito a essa obra: “Trata-se de arte apenas”. Ou seja, de meras metáforas; estão em seu terreno neutro; o belo tem autonomia; etc.; etc.; etc. Mas, hélas!, aquele mesmo Léon Bloy, esse mesmo “Leão” que gerações e gerações de católicos consideraram e ainda consideram como defensor santamente irado da tradição e da ortodoxia, esse mesmo escritor que dizia não conhecer senão um só Satã poético verdadeiramente terrível, “o de Baudelaire, porque é sacrílego” (Le Révélateur du Globe, 1884), esse mesmo “profeta” triste, algo desesperado e eo ipso parente espiritual de Sören Kierkegaard, esse mesmo “vaticinador” a que se atribuía uma piedade máxima, de comunhão quotidiana, mas perpassada de um gosto excessivo pelo sofrimento, esse mesmo homem que consideravam um místico e que se considerava possuidor de um segredo revelado a ele e apenas a ele, esse mesmo era um arraigado e cabal luciferista!

Aqui não me estenderei demasiadamente sobre o assunto, até porque há textos que o tratam de modo decisivo. São eles: L’œuvre étrange de Léon Bloy, de Louis Jougnet, e L’enfant prodigue selon Léon Bloy – Une interprétation blasphématoire, de Antoine de Motreff (ambos em Le Sel de la Terre, n. 52, Printemps 2005, Avrillé, Couvent de la Haye-aux-Boshommes, pp. 189-202 e pp 116-140 respectivamente); e as obras Un Prophète luciférien, Léon Bloy, de R. Raymond Barbeau (Paris, éditions Montaigne, Aubier, 1957) e Présence de Satan dans le monde moderne, de Mrg Augustin Louis Léon Cristiani (Paris, France-Empire, 1959). Mas não poderia deixar de mostrar aqui, ainda que muito brevemente, os perigos imensos que se escondem atrás não só da pretensa autonomia e neutralidade das artes, mas particularmente das idéias estranhas, demasiado estranhas, de Léon Bloy.

E, com efeito, como não ver a origem gnóstico-luciferista da identificação pretendida por Bloy entre Satã e o Espírito Santo? Escreve ele em Le Mendiant Ingrat (em 14 de agosto de 1892): “Hoje, décimo primeiro domingo depois de Pentecostes [...] o fariseu representa Jesus e o publicano o Espírito Santo [...] o primeiro diz o que ele não é, NOM SUM, enquanto o segundo afirma, pedindo graça, que é um pecador. Uma estranha luz sobre este evangelho é dada pela aproximação destes dois textos: Omnis qui se EXALTAT humiliabitur (Lucas, XVIII, 14). Oportet EXALTARI Filium hominis (João, XII, 34)”. Ora, pergunta Antoine de Motreff: “como o Espírito Santo pode ser o pecador que tem de pedir perdão, senão porque ele já pecou contra Deus, qual Lúcifer? Uma vez que Satã se humilhará, Deus o exaltará até ele se tornar uma das Pessoas da Trindade” (op. cit., p. 123).

Não, não se trata de exagero, e para mostrá-lo bastarão umas poucas citações do mesmo Léon Bloy. Naturalmente, como bom “profeta” gnóstico, o francês não revelará o seu paracletismo luciferista senão pouco a pouco, progressivamente. Mas já as últimas páginas de Salut par les Juifs contêm a confissão total e peremptória de seu segredo. Com efeito, escreve Bloy em Le Mendiant Ingrat (em 31 de agosto de 1892) a respeito daquelas reflexões: “Encontrei a minha conclusão. Vou enfim poder evadir-me desta brochura que me tem cativo há dois longos meses. Suponho que, doravante, já não terei amigos esperáveis no que se chama o mundo católico”. E de fato não deveria tê-los, porque efetivamente diz ele em Salut par les Juifs: “Esse Visitante inaudito, esperado por mim durante quatro mil anos [sic], não terá amigos e sua miséria fará com que se assemelhem mendigos e imperadores. [...] Após ter exterminado a piedade [...], esse proscrito de todos os proscritos será condenado silenciosamente por magistrados de irreprochável doçura. // Jesus não tinha obtido dos judeus senão o ódio, e que ódio! Os cristãos terão liberalidade para com o Paráclito com o que está para além do ódio. // E é de tal modo o Inimigo, é de tal modo idêntico a esse Lúcifer que foi chamado o Príncipe das Trevas, que é praticamente impossível – mesmo no êxtase beatífico – separá-los. // Aquele que puder compreender que compreenda. // A Mãe de Cristo foi dita a Esposa deste Desconhecido de que a Igreja tem medo, e é certamente por essa razão que a Virgem prudentíssima é invocada sob os nomes de ESTRELA DA MANHÃ e VASO ESPIRITUAL”. Ou seja, o Paráclito esperado por Bloy e pelos judeus será Satã, Lúcifer, que é idêntico ao Espírito Santo prometido por Jesus para Pentecostes. E completa o francês: “Os raríssimos cristãos que ainda fazem uso da razão podem perceber que não se trata [...] de metáfora [...], mas simplesmente de constatar o Mistério, a PRESENÇA do Mistério, para escândalo dos imbecis ou dos teólogos pedantes que afirmam que está tudo esclarecido”. Como o sabe com tanta certeza Bloy? Porque “eu sei coisas que ninguém sabe. Elas não me foram mostradas unicamente para me fazer sofrer”.

Como se vê, diz com razão Léon Bloy que essa mescla de satanismo e loucura não é metafórica. Estava pois equivocado Louis Veillot, assim como estão equivocados, perigosamente equivocados, todos os que invocam a autonomia da arte e do belo: “belas” são as palavras com que Bloy ou Baudelaire louvam a Lúcifer, conquanto apenas belas entre aspas, porque indubitavelmente o belo disjungido do bem não pode ser senão um falso belo. O brilho do belo antagônico ao bem é brilho de ouropel; mas ouropel que, peçonhento, pode cegar, e cega, e vem cegando gerações e gerações de católicos, incluídos muitos dos nossos melhores.

Em contrapartida, como diz em entrevista (Zenit, 22 de maio de 2009) o escritor católico Michael O'Brien, “A vocação para a arte cristã é algo sagrado. É uma vocação, não uma profissão. É uma misteriosa relação de co-criação, e por isso a pintura e a escrita católicas, todas as artes, deveriam começar assim: com os artistas de joelhos, implorando a graça”. Sim, porque ao contrário de tantos servidores diretos ou indiretos de Satã no campo das artes, os artistas servidores de Deus não fazem obras que pudessem ser reunidas numa seção de museu intitulada “Arte cristã”, ao lado e em pé de igualdade com outras correntes artísticas. Não: como diz Henri Charlier, a arte cristã não é uma forma de arte mais; é a arte, aquela a que todas as demais, ainda que obscuramente ou a contragosto, aspiram.

E nunca se deverá afirmá-lo, e praticá-lo, “com um coração tão alegre como quando sobre as ruínas amontoadas pelo Anticristo se levantarem os olhos para o oriente para saudar a vinda da última e total redenção”.

terça-feira, 26 de maio de 2009

"TV" Contra Impugnantes — exageros do fundador da escola cínica: Antístenes

Sidney Silveira
Veja-se um trecho da aula do Nougué sobre um dos chamados "socráticos menores": o fundador da escola cínica (Antístenes), cuja filosofia ascética, se levada às últimas conseqüências, nos conduziria a uma vida de cão (literalmente!), como o próprio Nougué o afirma de maneira salutarmente jocosa.

Padres “do mundo” e padres “no mundo”

Sidney Silveira
Concebamos um padre-galã, cantor barítono de voz aveludada, vestido de forma absolutamente mundana (não raro, com retoques de sensualidade e muita maquiagem), a entoar em shows com luzes pirotécnicas um tipo de música que Platão — o pagão Platão! — chamava de “langorosa”, nefasta para a sua República ideal*. Em suma: um tipo de música que, dada a sua melodia pobre e melosa, induz os incautos que a escutam a um estado psicológico narcotizante, no qual a sensibilidade é aguçada semi-hipnoticamente. Um tipo de música que acarreta o que místicos e filósofos medievais chamavam de divagatio mentis, quer dizer: a dissipação da inteligência em imagens em si desimportantes, um estado de espírito em que as rédeas da fantasia simplesmente se desorientam, perdem a sua ordenação à potência cogitativa da alma**. Eis, aqui, num breve quadro aproximativo, a figura e o trabalho do padre Fábio de Melo, um dos recordistas na venda de CDs e DVDs no último ano no Brasil — o que é um sintoma gravíssimo não apenas da doença de que padece a catolicidade em nosso país, mas da doença de que padece a sensibilidade, o gosto médio das pessoas.

Mas o pior não é isto. O pior é que, sendo padre, esse jovem desconhece absolutamente a história do Magistério bimilenar da Igreja, a julgar pelas afirmações que faz em programas de auditório e em talk-shows sobre “doutrina” católica. A entrevista concedida no programa do Jô é apenas um exemplo: Fábio de Melo não apenas não soube responder à primeira pergunta, sobre se a teologia é uma ciência (ah, se tivesse ao menos lido a primeira questão da primeira parte da Suma Teológica!), mas engendrou um conjunto de barbaridades que, consideradas à luz da doutrina de sempre da Igreja, são o que tecnicamente se convencionou chamar de heresias ou blasfêmias. Exemplos do engenho teológico do padre Fábio de Melo: a) só houve, na verdade, uma única Missa (a da Santa Ceia), pois, em sua opinião, as demais não podem sequer receber tal nome; b) passamos, nesta vida, do estado “adâmico” ao estado “crístico”, idéia inspirada no malfadado evolucionista Teilhard de Chardin, incluído acertadamente no Index Librorum Prohibitorum, além de farsescamente envolvido na fraude do Homem de Piltdown. Essa opinião é herética em toda a linha, pois dá por pressuposto que essa passagem de um “estado” a outro é natural e se dá nesta vida, ou seja: é meramente humana. c) após dizer que foi muito namorador na adolescência (o que, em si, não seria um problema maior), Fábio de Melo deu claramente a entender que é impossível um sacerdote aderir ao celibato sem passar pela experiência do amor carnal***. Tal afirmação só poderia advir de alguém que, tendo maior ou menor experiência do amor carnal, mostra não ter nenhuma do amor sobrenatural que provém da Graça, e, portanto, de alguém que descrê da possibilidade de castidade nesta vida — uma castidade oriunda não de experiências humanas, mas da gratia gratis dada. De alguém que não conhece o Magistério da Igreja nesta matéria. A propósito, o padre Fábio disse nessa mesma entrevista que a sua vocação aconteceu depois que viu a piscina do seminário (santa inspiração!); d) inquirido pelo Jô sobre o “absurdo” do conceito católico de matrimônio (“só para procriar”, nas palavras do apresentador), o padre Fábio engrolou a língua e mostrou não conhecer não digo a doutrina tradicional (aquela que lindamente Pio XI nos lembrava em Casti Connubii), mas sequer a doutrina hoje vigente (em si mesma problematicíssima, pelos motivos que apontaremos noutro texto); e) professor de teologia (ai meu Deus!), padre Fábio disse que cabe à teologia ligar e não dividir (embora não dissesse ligar o quê a quê). Esqueceu-se da parábola do joio e do trigo o nosso “neoteólogo”? Sim, esqueceu-se que o mesmo Cristo disse: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”. (Mt. X, 34-36). Poupo-me, aqui, de trazer à luz o que disseram grandes Doutores e o próprio Magistério sobre esta passagem do Evangelho, para não estender por demais o texto.

Não conheço o padre Fábio de Melo e não lhe quero mal. Mas já que a hierarquia é absolutamente frouxa e permite que esses sacerdotes reneguem o seu verdadeiro múnus, cabe aos leigos conhecedores do essencial da doutrina defendê-la de ações maléficas, no seio da própria Igreja. Na verdade, a situação é dramática, na medida em que a própria hierarquia se omite, em parte por estar ela mesma contaminada pelo vírus modernista-liberal que há 40 anos tomou conta de quase tudo. O que advirá da situação atual da Igreja é um mistério inscrito nos desígnios da Providência. Por um lado, não é demais lembrar a terrível frase do Senhor: “Quando vier o Filho do Homem, acaso encontrará a fé sobre a terra?” (Lc. XVIII, 8). Por outro lado, cabe-nos defender a doutrina com unhas e dentes, esperançosos da promessa do mesmo Cristo, de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja (Mt. XVI, 18).

A diferença entre padres do mundo e padres no mundo é esta: entre os primeiros há os que perderam quaisquer resquícios de sacralidade, e há também os que, embora mantenham a fé, se omitem de defendê-la publicamente contra os absurdos inter pares. Quanto aos segundos, estes são cada vez mais raros e continuam sendo um sinal da absoluta sobrenaturalidade da fé. E é na Fraternidade Sacerdotal São Pio X — FSSPX que se encontram, em sua maioria.

São verdadeiros heróis da resistência.

* Neste ponto, Platão era absolutamente realista. Ele sabia muito bem que a exacerbação da sensibilidade representa, em todo homem, uma atrofia das capacidades superiores da alma racional. Se se disseminasse na Pólis, tal excitação da sensualitas acarretaria um tipo de sociedade dramaticamente má, incapaz de ter acesso aos valores superiores que configuram a condição humana. Uma sociedade incapaz de sair da caverna descrita no Livro VII da República. Hitler, o diabólico Hitler, também sabia disso: como se lê na monumental biografia escrita por Joachim Fest, depois de constatar que, em seus discursos noturnos, o efeito hipnótico sobre a multidão era maior, nunca mais Hitler discursou pela manhã. Mas, ao contrário: procurou a noite, e sempre com algo espetaculoso para distrair a massa, como na vez em que ordenou que todas as baterias antiaéreas da Alemanha, no entorno do Estádio Olímpico (onde faria a sua satânica arenga), apontassem a luz para um ponto convergente no céu. Quando isto foi feito, a multidão ficou apalermada com a pirotecnia e totalmente “aberta” para engolir o que dissesse o seu líder. O mesmo se pode dizer do truque de alguns pseudofilósofos liberais que, em meio a algumas verdades lapidares, escrevem algo baixíssimo, não raro uma mentira, e assim inoculam o seu veneno. Voltaremos a isto noutro texto.
** Uma sensibilidade desordenada acarreta um grande déficit na potência cogitativa — na prática, uma das mais afetadas em nossa dinâmica psíquica. Como vimos, a cogitativa capta as intenções não percebidas pelos demais sentidos, e é por este motivo chamada por Santo Tomás de razão particular — a partir da qual a ratio universalis exerce o seu império sobre as paixões. Uma sensibilidade molenga, acostumada a músicas melosas e de timbre adocicado, assim como a imagens cândidas, produzirá o que eu chamo de “psique Poliana”. Uma psique não aparelhada para a captação das verdades mais elevadas, ou seja: para a visão da real condição humana.
*** O mesmo se pode entrever na entrevista concedida por outro padre, o falecido Leo (mestre de Fábio de Melo), ao mesmo Jô Soares, na qual ele deixa escapar com certa ironia o seguinte: “Um dia, um padre idoso me disse: sou virgem. Achei bonito, isso”. A propósito, nessa mesma entrevista o padre Leo disse uma coisa que seria muito cômica se não fosse desgraçadamente trágica: descobriu a sua vocação numa certa noite psicodélica, após fumar vários cigarros de maconha e depois de cheirar várias carreiras de cocaína. Em síntese: ao contrário das grandes e verdadeiras vocações, que implicam o abrir de olhos (da inteligência) para uma realidade sobrenatural beatificante, e para a própria miséria do pecado em que se jaz, a vocação do padre Leo se deu num estado de semiconsciência, de grande consumição pela droga. Um estado em que a inteligência estava obliterada por uma sensibilidade distendida artificialmente por meios alucenógenos. Nessa entrevista, o falecido padre Leo dizia que o problema da maconha comercializada atualmente é que não é pura, mas misturada com outras substâncias. A que ele fumava em sua juventude, sim, era “da boa”.
Em tempo: Durante o Concílio de Nicéia (325), São Nicolau — aquele que o mundo sem fé transformou no "bom" velhinho Papai Noel — esmurrou o herege Ário, autor da tese que negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na ocasião, ninguém acusou a São Nicolau de falta de caridade. É claro que não estamos nós aqui a dizer que vamos esmurrar "A", "B" ou "C", mas aduzimos este exemplo apenas para mostrar que o zelo pela verdade da fé deve estar muitíssimo acima de respeitos humanos e de conveniências políticas, ou até mesmo de sanções eclesiásticas (nos casos em que a autoridade hierárquica depõe voluntariamente a sua autoridade magisterial e contraria a Tradição, e usa de alguns meios disciplinares para calar os que se recusam a seguir os erros. Aqui, vale o princípio da obediência ao princípio superior).
Em tempo2: A propósito do matrimônio, deixo aqui um depoimento pessoal, que pode servir de testemunho para alguém. Depois de me converter mui tardiamente e após grandes sofrimentos e provações (fiz a minha primeira comunhão dos 39 para os 40 anos), passei a estudar com muito maior afinco o Magistério. Dentre os meus grandíssimos pecados passados, estava o ter-me casado na Igreja sem nem sequer ser católico, enquanto a jovem nubente a que me uni sequer era batizada. Após consultar dois padres ligados a FSSPX, por intermédio do meu amigo Nougué, estes disseram-me que o meu caso era de nulidade. Entrei então com um processo num tribunal eclesiástico e, depois de quatro anos e muitas idas e vindas, no dia 24/12/2008 (exatamente na véspera do último Natal) recebi pelo correio a Declaração de Nulidade Matrimonial, que atestava que o meu casamento jamais fora um sacramento. Não que a minha felicidade dependesse disto — pois, após muito penar com relacionamentos desagradáveis a Deus, vi que nenhuma felicidade é possível, se se está longe da lei da Igreja —, mas o fato é que restituí uma verdade capital em minha vida. Graças a Deus.

sexta-feira, 22 de maio de 2009