quarta-feira, 13 de julho de 2011

O sacrossanto direito de resposta: o texto do Prof. Olavo de Carvalho

Sidney Silveira


O Prof. Olavo de Carvalho postou no Facebook o texto que transcrevo a seguir, na íntegra, numa resposta às minhas objeções ao um escrito seu em que se fala de “tomismo” e “neotomismo. Como não é homem de mandar recados, ele próprio enviou-me um email com o referido texto, pedindo-me para publicá-lo por aqui. É o que faço agora, e com muito gosto — porque se aprendi algo com os bons escolásticos foi que o contraditório, o disputador, o controversista antes de tudo nos faz um grande favor ao apresentar argumentos em contrário aos nossos, até porque o labor filosófico é, essencialmente, dialético. Se um sujeito não acolhe as objeções com toda a seriedade que merecem, olhando-as tanto quanto possível de forma desapaixonada, e sem tomá-las como farpas pessoais (ainda que de fato o sejam!), ainda nem deu os primeiros passos para o estudo da filosofia. Esta liçãozinha de Santo Tomás eu, um genuíno zé-ninguém, aprendi.


O mais brando que diz aí o Prof. Olavo sobre a minha pessoa é que seria caridade demais chamar-me de palhaço.


Amanhã, quando eu tiver um tempo, escreverei algo sobre esta resposta dele, pois cheguei exausto do trabalho e estou dando vazão a um mau hábito que a conversão não tirou de mim: ver um futebolzinho na TV! Mas não esperem os nossos leitores ataques pessoais, porque, sendo ou não eu um autêntico palhaço, aqui não é o picadeiro.


Eis a nota.


“PARA ALÉM DA PALHAÇADA


Olavo de Carvalho


No trecho que Sidney Silveira cita em seu artigo, a distinção que faço é entre tomismo e neotomismo, não entre a filosofia pessoal de Sto. Tomás e “os demais tomismos”. Minhas palavras não poderiam ser mais claras nem menos propícias a confusões. “Tomismo” é o nome de uma tradição inteira de exegese da obra de Sto. Tomás, é portanto, na intenção expressa de seus porta-vozes, a própria filosofia de Sto. Tomás explicada e trocada em miúdos, não uma nova e distinta filosofia. “Neotomismo” é o nome de uma moda que, partindo de uma instrução acertadíssima de Leão XIII, acabou por levar a conclusões que Sto. Tomás jamais aceitaria e por entronizar como seu máximo representante o perverso e mentiroso Jacques Maritain, contribuindo decisivamente para a autodestruição da Igreja Católica.


Note-se que mesmo ao falar do período histórico correspondente ao “neotomismo”, ressalvei e enalteci muitas vezes a obra de intérpretes categorizados do ensinamento de Sto. Tomás, como R. Garrigou-Lagrange e A. D. Sertilllanges, aos quais, por isso mesmo, preferi chamar “tomistas” em vez de “neotomistas”.


Sidney Silveira falsifica completamente o sentido da minha afirmação, fingindo que coloquei os grandes tomistas do passado, como Caetano e o Ferrariense, no mesmo saco junto com Maritain e seus acólitos. É o velho truque erístico do “espantalho”: construir um boneco de palha, destruí-lo a porretadas e cantar vitória sobre um adversário de carne e osso. Inventar uma idéia absurda, atribuí-la a quem nunca a defendeu e, demolindo-a com a maior facilidade, jurar que passou como um trator sobre a cabeça do infeliz.


Silveira não faz isso para defender uma tradição que nunca ataquei, mas para exibir-se a um estupefato mundo como católico mais puro, mais santo do que eu, e assim criar uma barreira de preconceitos que me tornem suspeito aos olhos dos fiéis.


Uai, nada mais fácil, no meu entender, do que ser mais santo que eu. Mas não por esses meios. A intriga e a difamação não são práticas ascéticas consagradas na doutrina católica.


Sidney Silveira é um desses inumeráveis “intelectuais católicos” que, por falta de talento pessoal, assumem ares de importância mediante a imitação do tom magisterial dos decretos papais e alocuções cardinalícias, para dar a impressão de que, quando abrem a boca, é a Igreja que fala.


Um sujeito desses não filosofa jamais. Passa pito, de dedinho em riste, usurpando uma autoridade que não lhe pertence e que não representa de maneira alguma.


Um autêntico filósofo católico nunca fala “em nome da Igreja”. Fala em seu nome pessoal, raciocinando sobre o que sabe e o que viu, orando para que suas conclusões não se afastem, no essencial, do ensinamento da Igreja, e sabendo que não pode arrogar-se a autoridade do magistério.


Se Sidney Silveira macaqueasse o tom da autoridade eclesiástica com a melhor das intenções, seria apenas um palhaço, um exibicionista. Como, no entanto, ele usa desse expediente no intuito de difamar quem nunca lhe fez mal algum, seria caridade demais chamá-lo apenas de palhaço”.

Breve aviso

Sidney Silveira


Às pessoas que, no último mês, enviaram emails solicitando alguns DVDs da coleção A Síntese Tomista, informo que, a partir da próxima semana, voltaremos à normalidade do atendimento. Peço-lhes desculpas, pois todo o processo de edição de vídeos, impressão dos labels dos DVDs e também das capas, além da embalagem a vácuo (para o caso dos DVDs que distribuímos a algumas livrarias) é feito em minha casa, e no último mês não tive tempo para envolver-me com estas coisas, pois ainda estou por conta da adaptação da numeração do texto grego do livro Protreptico, de Clemente de Alexandria (que sairá pelo selo da É Realizações, com breve prefácio meu), à da tradução feita pela Prof.ª Rita Codá.

Em breve, se Deus quiser, o ritmo voltará ao normal.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Neotomismo, uma ideologia?


Sidney Silveira
Envia-me um colega o texto do professor Olavo de Carvalho em que se afirma ipsis verbis o seguinte: “O tomismo é filosofia em sentido pleno; o neotomismo é, ao contrário, um movimento cultural e político — ideológico, em suma — voltado à difusão dessa filosofia, tomada como solução pronta de todos os problemas e, portanto, esvaziada de boa parte de sua substância filosófica”. No mesmo texto, dá-se claramente a entender que o único tomismo verdadeiro é (ou foi) o de Tomás de Aquino; os demais seriam uma espécie de degenerescência com fins meramente ideológicos, no sentido de algo descasado da realidade e voltado a uma práxis coletivista sem qualquer compromisso com a investigação filosófica. [1]

Decididamente, nenhuma dessas assertivas do conhecido professor é verdadeira: em primeiro lugar, o tomismo histórico existiu desde a morte do Doutor Comum da Igreja, nascido e crescido da pena de filósofos e teólogos simplesmente geniais (e não de “ideólogos”), comparados aos quais um Kant, um Heidegger, um Zubiri, um Descartes, um Husserl, etc. são tímidas formigas. O tomismo, como veremos, foi uma corrente filosófica genuína e profunda, e mais: ele foi importantíssimo para o Ocidente, e isto graças ao esforço e ao engenho de homens extremamente talentosos que:

a) primeiramente, procuraram compreender o incomensurável tesouro encerrado nos escritos do mestre medieval;
b) depois, difundiram-no como puderam, enfrentando as dificuldades intrínsecas à interpretação dos textos de Tomás;
c) e, por fim, utilizaram-no em defesa da fé e contra as heresias que, ao fim e ao cabo, afastam o homem do seu fim último: Deus. Nesta primeira fase, Godofredo de Fontaines, Egídio Romano e Giovanni Capreolo estão entre os nomes de maior destaque. O leitor contemporâneo acostumado a filosofias sem a menor preocupação de escapar à equivocidade, e portanto alheias ao denodado trabalho de formular os conceitos com clareza, precisão e sistematicidade, ao deparar-se com textos de um dos três autores acima mencionados é capaz de assistir ao suicídio coletivo de seus neurônios, totalmente desafeitos das abstrações metafísicas com maior autonomia de vôo.

Outro ponto: sem a defesa da obra (e da pessoa) do mestre medieval feita por estes e por outros discípulos, Santo Tomás de Aquino dificilmente teria sido resgatado do ostracismo em que os inimigos quiseram jogá-lo, a ponto de ficar proscrito por cerca de 50 anos, até ser reabilitado com a sua canonização e posterior acolhimento da doutrina por parte da Igreja, que fez grande justiça ao transformá-lo no Doutor dos doutores, ou seja, no Doctor Communis Ecclesiæ. Ora, como o próprio Aquinate ensinou em vários de seus escritos, Deus age por causas instrumentais segundas — e serviu-se desses homens excepcionais para que a philosophia perennis não submergisse à tsunami humanista anticivilizacional que culminará, séculos depois da morte de Santo Tomás, no liberalismo clássico e nas várias revoluções vomitadas de suas negras entranhas.

Para ter-se uma vaga idéia da importância desta pujante corrente filosófico-teológico-magisterial que começa imediatamente após a morte de Tomás — e caminha de forma não linear, porém contínua, no decorrer dos séculos —, ressalte-se que, sem o tomismo, não teria havido historicamente o Concílio de Trento, ou seja, a Contra Reforma — resposta firme e magistral da Cristandade ao humanismo que, conforme diz o Pe. Álvaro Calderón na obra-prima A Candeia Debaixo do Alqueire, representava a violenta reação da carne às duras exigências do espírito (cristão); uma atitude de retrocesso a apostasia, de orgulho, de ódio à autoridade espiritual. Nesta fase o grande nome é, sem dúvida alguma, o notável Tommaso de Vio, o Cardeal Caetano, exegeta, filósofo, teólogo, professor e, além de tudo, personalidade marcante de uma época capital da história eclesiástica. Aqui, assumindo-se ou não a crítica de Cornelio Fabro ao suposto caráter “aristotelizante” da obra de Caetano, o fato é que se trata de um gigante — do teólogo de quem Lutero, obstinado em suas incontáveis heresias, literalmente fugiu apelando ao Papa, para evitar o confronto direto. Algo similar ao que, séculos antes, havia ocorrido com o lógico Abelardo, diante de São Bernardo.

Apenas para citar um tema e não estender por demais este breve texto, as obras de Caetano e de Francisco Ferrariense (outro profundo filósofo tomista da Segunda Escolástica) acerca do princípio de individuação — e contra os erros implicados no conceito formalista de hæcceitas, de Duns Scot — são de grandíssimo interesse filosófico. Somente quem não as leu poderia insinuar tratar-se de “ideologias”, o que é uma espécie de desonra à nobreza destes homens e ao seu grande talento especulativo. A prova disto nós a daremos no decorrer dos próximos anos, editando alguns textos desses filósofos simplesmente estupendos, inéditos em línguas vernáculas. Um trabalho civilizatório e de defesa da fé, seja no âmbito eclesiástico (hoje infelizmente assaz envenenado por teorias desde sempre condenadas pelo Magistério), seja fora dele.

Pois bem. Naquilo que é, para alguns historiadores, a chamada “Terceira Escolástica”, surge João Poinsot, conhecido como João de Santo Tomás, a quem cabe perfeitamente o epíteto de gênio. O seu Cursus Theologicus, monumental tanto em tamanho como em profundidade, é uma das obras que adquirimos recentemente na íntegra, e está “na fila” para ser editada em diferentes volumes, quando a Deus aprouver (e se providencialmente conseguirmos recursos financeiros para tanto). A beleza, a precisão, a concisão, a clareza expositiva e a harmonia dos conceitos filosóficos de João Poinsot nos autorizam a elencá-lo entre os notáveis da história da filosofia, infelizmente pouco conhecido. O seu Cursus Philosophicus é outra obra que — quem sabe antes de morrer — apraza a Deus editarmos (digo “antes de morrer” porque este é um trabalho para anos a fio).

Em suma, tendo à frente estes e outros grandes filósofos, o tomismo vai sendo estudado nas academias e seminários católicos ao longo de vários séculos, e é também acolhido de forma cada vez mais solene pelo Magistério (o que, longe de torná-lo vazio, estático ou desinteressante, lhe dá uma pujança tremenda). Chegamos então ao século XIX e ao Papa Leão XIII, que na famosa Encíclica Aeterni Patris, diante dos perigos do modernismo teológico que, já então, se imiscuía nos meios católicos, ordena em palavras simples mais ou menos o seguinte: as filosofias cujos princípios são contrários ou derrogatórios da fé devem ser preteridas, em favor do ensino de Sto. Tomás de Aquino em todos os seminários católicos. Naquela época, o ditado Roma locuta, causa finita era quase um decreto pétreo, razão pela qual houve um salutar rejuvenescimento do tomismo.

A partir deste documento papal nasce e se desenvolve o que hoje se convenciona chamar de neotomismo, corrente cuja força será quase totalmente podada quando o modernismo for consagrado no Concílio Vaticano II, e os seminários abrirem, a partir do final dos anos 60, os gonzos ínferos de um sem-número pseudofilosofias e da nouvelle théologie denunciada pelo tomista Garrigou-Lagrange (a meu ver o maior teólogo do século XX). Infiltradas no seio da Igreja, essas filosofias criarão algo que o Pe. Álvaro Calderón chama, com humor ácido, de consenso “plurânime” dos teólogos, ou seja: uma verdadeira babel doutrinária cujos reflexos são sentidos hoje por qualquer pessoa de bom senso que se veja na contingência de assistir à Missa reformada de Paulo VI, ler os documentos do Magistério conciliar, confessar-se com padres modernistas — muitos dos quais “aboliram” o pecado e a penitência de seu ofício —, ver a arte produzida pela nova estética católica, etc.

Em suma, o neotomismo produziu alguns dos maiores filósofos do final do século XIX e do século XX, os quais estão muitíssimo além dos manuais a que chamo jocosamente de “coleção primeiros e últimos passos”, engendrados por historiadores da filosofia em geral anticristãos, para quem o mundo começa no século XVI. Pierre Mandonnet, G. M. Manser, o já citado Garrigou-Lagrange, Gredt (que escreveu toda a sua densa obra em latim), Santiago Ramírez (este último, autor do fabuloso De analogia secundum doctrinam aristotélico-thomisticam, outro sonho nosso de edição) e Cornelio Fabro são apenas alguns dos exemplos de autores extraordinários, sobretudo se comparados à maior parte do que se produziu no século XX: de Husserl a Sartre; de Heidegger a Ortega y Gasset. Abro aqui um parêntese para dizer que não incluo Jacques Maritain nesta lista, mas isto será tema para outro texto.

Por fim, não sei se o caro professor Olavo de Carvalho ainda mantém a opinião do texto supracitado (que, pelo visto, foi escrito há tempos, razão pela qual pode ser que ele tenha revisto este parecer). Mas como este seu texto é bastante difundido e diz respeito a um tema tão importante para a história da filosofia — e também para a história da Igreja, o que implica dizer: para nós católicos —, vimo-nos compelidos a mencionar apenas alguns exemplos do tomismo histórico, que, se porventura foi utilizado para a defesa da fé e dos Dogmas, não implica dizer que o tenha sido de forma “ideológica” ou “política”.

A menos que concebamos a política de uma perspectiva liberal (condenada pelo Magistério), quer dizer, como algo não necessariamente ordenado ao poder espiritual participado por Cristo à Santa Madre Igreja.

Ao modo de um Dante ou de um Thomas Morus.
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1- Aqui, não custa lembrar que “ideologia” é um termo plenamente assimilado pelo jargão da filosofia política a partir do francês Antoine Destutt de Tracy, que na bolorenta obra Elements d’ideologie (1801) afirmara ser a ideologia “uma filosofia primeira em substituição a qualquer metafísica”.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Precisões do meu amigo angelólogo

Sidney Silveira


Meu querido amigo Luiz Astorga, ao ler o último texto — sobre se Lúcifer foi criado como serafim ou querubim —, sugeriu pequenas mudanças num dos parágrafos, as quais acato integralmente em prol da sintonia fina dos conceitos. Quando os artigos do Contra Impugnantes começarem a ganhar a forma de livro, isto entrará como substanciosa nota de rodapé ou no corpus mesmo, com a devida menção à luxuosa contribuição do nobre angelólogo.


Eis suas precisões:


“(...) Convém salientar que, de acordo com Santo Tomás, a superioridade ontológica de um Anjo sobre outro não provém propriamente da hierarquia na qual se insere, senão que esta é indício — indireto — da superioridade de umas essências angélicas sobre outras, conforme lhes correspondem faculdades intelectivas mais ou menos potentes, e conforme correspondem a tais faculdades certos aspectos em suas espécies inteligíveis infusas, pelas quais entendem as coisas criadas. Quanto mais perfeito o anjo, tem ele infusas por Deus espécies mais universais que as de outro (por isso, quanto mais perfeito é, menos espécies possui, e muito mais abarcantes) e, conforme esta unversalidade pode ser categorizada sob três aspectos (para que não nos alonguemos, remetemos o leitor a S.T. I q.108 a.1 e a.4), distinguem-se entre si as três hierarquias. Como a hierarquia reflete esta primazia ontológica mediante a universalidade das espécies infusas, proporcionadas a cada ente intelectual nesta escada ontológica conforme a nobreza única de sua essência (que é, em si mesma, especificamente distinta), coerentemete temos que: entre anjos, a hierarquia é de tipo essencial (pois cada anjo é único especificamente), e entre homens, visto que partilham igualmente do último degrau desta escada, é meramente de tipo acidental: os homens, que se individuam e se multiplicam na matéria, têm todos igual nobreza essencial, e a todos convém igualmente a ínfima universalidade das espécies, abstraídas das coisas mesmas; o que varia é que cada homem realiza com mais ou menos perfeição seu árduo processo de captação intelectual abstrativa”.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Questão de angelologia: Lúcifer, querubim ou serafim?

Sidney Silveira
No trecho da aula sobre como os Anjos podem ser “indivíduos”, dado que a matéria é princípio de individuação e eles não têm composição de matéria, afirmo que Lúcifer, sendo o mais elevado de todos os Anjos antes de cair, é um serafim.

Pois bem, um atento leitor do Contra Impugnantes, que assistiu àquele vídeo, envia-me uma passagem da Sagrada Escritura (Ez. XXVIII, 14) onde se lê: “Eras um querubim protetor de asas abertas. Estavas na alta montanha de Deus e passeavas entre pedras de fogo”. Agradeço imensamente ao amigo, pois com isto nos remete a uma questão teológica de grande sutileza e relevância, à qual responde genialmente Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica (I, q. 63, art. 7), a partir da seguinte premissa, arrolada conforme o método da disputatio: “Parece que o anjo supremo entre os que pecaram não era o supremo de todos”.

Pois bem, na primeira objeção a essa questão — já partindo da pressuposição católica de que Lúcifer era o superior dentre todos os Anjos —, o Aquinate cita exatamente a passagem da Escritura aludida pelo nobre leitor, como se lê abaixo:

“Do anjo [mau] se diz em Ez. XXVIII, 14: Eras um querubim protetor de asas abertas. Estavas na alta montanha de Deus e passeavas entre pedras de fogo. Ocorre que a ordem dos querubins é inferior à dos serafins, como afirma Dionísio em sua Hierarquia Celeste (c.7). Logo, parece que o anjo supremo entre os que pecaram não era o supremo de todos”.

Neste contexto, antes de prosseguir convém salientar que, de acordo com Santo Tomás, a superioridade ontológica de um Anjo sobre outro não provém propriamente da hierarquia na qual se insere (pois este é o aspecto acidental desta supremacia), mas sim do fato de o superior possuir espécies infusas por Deus — a saber: formas inteligíveis — mais universais. Na verdade, a hierarquia reflete esta primazia ontológica à qual podemos fazer referência com uma simples proposição: a forma inteligível é tanto mais perfeita quanto mais universal, quer dizer, quanto mais contenha em si aspectos distintos do ser. E isto não é prerrogativa dos Anjos, pois também se aplica aos homens. Usemos uma analogia. Um grande jogador de xadrez, como Garry Kasparov, ao contemplar o tabuleiro numa determinada posição conhecerá muito mais as variantes ali implicadas do que um enxadrista neófito. Com uma só forma inteligível, o conhecimento de Kasparov será, pois, mais intensivo (e, no caso, também mais extensivo). Na prática, os dois jogadores olham para o mesmíssimo tabuleiro, mas a intelecção de um é bem superior à do outro.

Podemos, pois, dizer que o Anjo superior, com menos espécies infusas, conhece mais e melhor a realidade do que o inferior. A grande diferença em relação a nós é que, nos Anjos, as formas inteligíveis são infundidas por Deus desde a sua criação; em nós, elas são abstraídas das coisas — pelo intelecto agente. Assim, tudo o que o Anjo conhece naturalmente, conhece desde sempre. Por esta razão, podemos afirmar que, do ponto de vista natural, o conhecimento dos Anjos não pode formalmente crescer nem perder-se; do ponto de vista sobrenatural, sim, ele é passível de aumentar, pois Deus pode manifestar novos conteúdos inteligíveis aos Anjos de quaisquer hierarquias.

Não entro aqui no tema da comunicação entre Anjos de ordens e hierarquias distintas, pois escaparíamos à questão em foco. Com relação a este e a outros pontos, a grande referência no Brasil é o jovem tomista brasileiro Luiz Astorga, que está doutorando-se no Chile com uma tese sobre o estatuto ontológico das espécies angélicas. Um dia publicaremos esse estudo entre nós, pois se trata de matéria pouquíssimo conhecida pelos tomistas inseridos atualmente nos seminários e institutos católicos (modernistas, decerto); um tema abordado por notáveis tomistas históricos, como o Cardeal Caetano e João de S. Tomás, apenas para citar dois que escreveram textos densos e profundos sobre este aspecto interessante da angelologia.

Façamos agora uma escadinha gnosiológica, antes de voltar ao cerne do problema teológico aqui abordado:

> Deus, Ato Puro sem mescla de potência, é omnisciente: conhece absolutamente tudo num só ato, contemplando a Si mesmo e as coisas que criou, pois n’Ele Ser e conhecer identificam-se em grau máximo; 

> O serafim mais elevado conhece as coisas com menos atos intelectivos do que os Anjos de ordens inferiores, os quais têm em sua inteligência infusa formas inteligíveis menos universais. Portanto, os serafins são os Anjos cujas idéias estão mais próximas das idéias da mente divina. Este grau de universalidade das species infusas angélicas diminui progressivamente, indo do mais elevado serafim ao mais modesto Anjo custodiador (ou da guarda);

> O homem, criatura cujo ser, potências e operações são muitíssimo mais limitados, tem um conhecimento das coisas incomensuravelmente menor — tanto intensiva quanto extensivamente. Conhece, com muitíssimos atos intelectivos (ou seja, com grande esforço), apenas alguns aspectos do real, dado o caráter abstrativo de sua parca inteligência. E mais: o seu conhecimento pode crescer pela investigação, ou perder-se pelo esquecimento, por problemas de ordem psicológica, etc. Por isso o Doutor Comum afirma, no começo da Suma Contra os Gentios, que entre nós e os Anjos há uma distância muitíssimo maior do que a existente entre nós e os animais irracionais.

Voltemos agora ao x do problema, apontando o que dizem os versículos seguintes da passagem bíblica citada pelo atento leitor do blog (agora, em Ez. XXVIII, 17): “Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza; arruinaste a tua sabedoria por causa do teu esplendor.(...)”. E, a partir deste ponto, vejamos a conclusão teológica de Santo Tomás a respeito de se Lúcifer é um serafim ou um querubim. 

Premissa inicial: na Sagrada Escritura, muitas vezes o nome se refere à operação ou função do Anjo. Assim, o texto bíblico, ao indicar que o demônio caído era um querubim (Ex. XXVIII, 14), aborda um aspecto específico, a saber: os querubins são assim denominados, de acordo com a tradição bíblica, pela plenitude de ciência, ao passo que os serafins são os que estão abrasados pelo amor divino. Ora, quem tem ciência pode pecar, mas não o pode quem está abrasado pelo amor divino. Por esta razão, o nome “querubim”, nesta passagem de Ezequiel, designaria exatamente o que tinha a plenitude da ciência, mas sem estar abrasado pelo amor divino. Isto quer dizer que Lúcifer (o mais elevado de todos; e portanto um serafim) é ali designado tão-somente pelo que lhe restou, após o pecado: uma grande ciência, sim, mas inflada pelo orgulho e pela vaidade, porque não era abrasada pelo amor de Deus. 

Isto considerado, Santo Tomás nos leva a concluir que, se fosse um querubim, Lúcifer não seria o mais elevado de todos, e na Escritura ele é designado como querubim para mostrar os despojos ontológicos em que jaz, a partir de sua hedionda revolta contra o Criador: uma sabedoria obstinada na soberba, no ódio, na inveja. Não custa aqui ressaltar que, na própria questão aludida acima da Suma Teológica, Santo Tomás não deixa dúvidas de que se trata de "matéria opinável", ou seja: de algo acerca do qual o Magistério não fez definições dogmáticas.

O nobre amigo Luiz Astorga ressalta também que, para o Doutor Angélico, a hierarquia não é propriamente um gênero, mas um todo de tipo potencial (totus potestativus), em que os superiores contêm em si as capacidades dos inferiores, e que nele o superior pode com certa propriedade (mas denotando de modo incompleto suas virtudes) ser denominado pelo nome de um inferior. E este é exatamente o caso de Lúcifer ao ser citado na Sagrada Escritura como querubim. 

Sobre o totus potestativus em Santo Tomás, Astorga salienta ainda que não consiste numa “ajeitometria” de Santo Tomás, mas na resposta condizente com a doutrina tomada integralmente. 

Por fim, o Luiz, além de me dar inúmeras citações sobre esta questão na obra do Aquinate, lembra-me uma passagem do Tratactus De Substantiis Separatis, por nós editado e por ele traduzido, em que Santo Tomás de Aquino afirma o seguinte: “(...) 'Demônios', segundo o uso da linguagem corrente, são apenas aqueles [Anjos] considerados maus, o que (...) acontece com razão: os demônios recebem este nome do termo grego para 'ciência', a qual, sem caridade, segundo as palavras do Apóstolo, infla de soberba".

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Presença em São Paulo, no final deste mês

Sidney Silveira
Em evento organizado pelo Pe. Renato Leite, estarei em São Paulo no próximo dia 30/07, para um dia inteiro de palestras com base na doutrina de Santo Tomás de Aquino. Aos interessados, as inscrições devem ser feitas até o dia 26/07.

Outras informações, além das que estão no cartaz acima, serão prestadas pelo email evento_tomista@hotmail.com. As palestras também estão anunciadas no Frates in Unum. Agradeço ao Pe. Renato pelo gentil convite e, com a graça de Deus, espero fazer jus a ele.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

"TV" Contra Impugnantes: não tendo composição de matéria, como um Anjo pode ser "indivíduo"? (I)


Sidney Silveira

Veja-se mais um trecho de aula, no qual se faz referência à tese de Santo Tomás de Aquino de que só há um anjo em cada espécie...