Sidney Silveira
Ao frisar que o amor é o ato perfeito e supremo da
vontade, aponto para a liberdade das ações amorosas, pois ninguém é, nem
pode ser, coagido a amar. Da mesma maneira, nenhuma pessoa deixa de amar sob ameaça
— ainda que submetida a lancinantes torturas psicológicas, ou mesmo físicas. Se
um hipotético sujeito encostasse o cano frio duma pistola 9mm nas têmporas de
outro e dissesse “Deixa de amar a tua mãe agora, ou eu te mato!”, nem assim teria
o condão de fazer valer o fortíssimo argumento da arma de fogo, pois o amor é realidade impermeável a tiranias de qualquer tipo. A total intangibilidade do amor assegura-lhe
a liberdade, à qual podemos atribuir o caráter de infinitude fazendo uso do
grandioso instrumento metafísico da analogia
entis. Em breves palavras, o amor é a vontade no exercício translúcido e
pleno de sua mais absoluta impenetrabilidade.
Se o amor se transforma em hábito, podemos dizer que a
liberdade humana realizou-se superiormente. Mas ninguém chega a tal ápice sem
vencer obstáculos inescapáveis, como por exemplo tentações, fraquezas,
ignorância. A famosa e bela máxima de Plutarco segundo a qual “nem Deus pode
dar nem o homem pode receber nada mais excelente que a verdade” vale ainda mais
para o amor, pois este não é outra coisa senão a verdade em ato assimilada pela
inteligência e querida pela vontade. Em suma, no amor dá-se a comunhão destas
duas potências superiores da alma na escolha efetiva do bem. Por isso, as ações
humanas ou se orientam a abarcar os transcendentais verum e bonum, ou se
degradam progressivamente. Porque sem
verdade e sem bondade o amor se transforma na mais cabal das impossibilidades,
cedo ou tarde.
Se o universo das
relações afetivas de uma pessoa não possui o vetor amoroso, logo ela cai na
degradação moral da inconstância, da tibieza, da falsidade. Ao
contrário, quem ama acaba por se tornar constante, forte e veraz. O “sim”
e o “não” do verdadeiro amante não obedecem a condicionamentos acidentais, ao
contrário do “sim” e do “não” de homens que se colocaram culpavelmente em
situação de desamor. Estes agem de acordo com momentâneas conveniências, razão
pela qual não são confiáveis em hipótese nenhuma. Na realidade, eles pioraram por não amar, e jamais poderão
culpar a quem quer que seja por isto. Não há desculpas nem justificativas para
a simulação de auto-indulgência que culmina em maldade.
No sentido sublime aqui aludido,
nenhum homem é capaz de, sem o auxílio divino, amar. E tal auxílio não vem de
outro modelo senão do próprio Verbo Encarnado — que nos revelou de maneira
cristalina e objetiva o caminho, a verdade, a vida. Quando penso, pois, por que
sou católico, penso nisto: o amor em estado puro dá-Se a mim por completo, sem
que eu mereça. Faz-Se humildemente tangível para elevar-me a uma condição
superior, intangível. A Sua entrega benevolente não conhece condicionamentos.
Ela não é mérito meu, nem apetite d’Ele. É libérrima e eficacíssima.
Jamais conseguirei,
nesta vida ou na outra, fazer jus ao amor perfeito de que sou objeto. Amor que honra o
desonrado e dignifica o indigno. Que perdoa o imperdoável e eleva o vil. Amor absolutamente
impermeável a todos os seus possíveis contrários. E por isso mesmo eterno.
Até nas ocasiões em que,
ritualmente, desce ao tempo na forma de hóstia viva e se faz Presença Real, fonte infinita de bens.