sexta-feira, 2 de maio de 2014

Entre a vaidade e a justa medida da honra

Sidney Silveira

INSTADO PELA ADMOESTAÇÃO do leitor André Vieira a respeito do texto em que menciono com tintas picarescas a participação do padre Reginaldo Manzotti num programa da MTV — ocasião em que eu estava ao lado do clérigo, defendendo o mesmo ponto —, procurei dar uma resposta simples e direta. 

Segundo o nobre amigo, vaidosamente esnobei o sacerdote 

Como se trata duma questão universalíssima, ou seja, de interesse geral, parece-me conveniente publicá-la no C.I. porque mais pessoas terão a oportunidade de lê-la.

Reitero o meu sincero agradecimento ao André pela crítica, que é sempre bem-vinda, sobretudo quando a intenção me parece reta. 

AQUI VAI: 

"Caro e nobre André, a vaidade é o desejo de uma glória vã — muito perigoso para a alma, razão pela qual lhe agradeço sinceramente pela advertência. Mas permita-me dar uma resposta que começa pela seguinte indagação: o desejo de glória pessoal é sempre vão ou ilícito? Na maravilhosa questão 132 da II-II da “Suma Teológica”, Santo Tomás diz que não! Quando se trata do natural anseio de reconhecimento dos próprios méritos por parte de qualquer homem, não constitui pecado. Ademais, é conselho evangélico saído da boca do próprio Cristo imediatamente após proferir as bem-aventuranças do Sermão da Montanha: “A vossa luz resplandeça diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está no céu” (Mt. V, 16). 

Noutra obra portentosa, ensina Tomás que “vão” pode considerar-se sob três aspectos: 

1- vão é algo falso; 
2- vão é o que carece de consistência; 
3- vão é o que se mostra incapaz de realizar o fim devido.

Ora, o vaidoso é tudo isso: acaba por ser dúplice, pelo desejo irrealista e imoderado de reconhecimento; em várias ocasiões mostra-se inconsistente, pois quer prevalecer sobre os demais em tudo, o que é impossível; e é incapaz de realizar o fim principal da vida humana: servir de instrumento à manifestação da glória de Deus. Se porventura a minha atuação neste programa da MTV se enquadra nalgum destes tópicos, entrego tudo nas mãos do Altíssimo, que é perfeito em Seus julgamentos e há de aplicar o prêmio ou o castigo da maneira devida.

Engraçado é que, após o referido programa, o jornalista Reynaldo Azevedo disse-me: “Você é muito tímido”, e imediatamente pensei o quanto ele estava muito longe de acertar, pois se não falei mais foi por dois motivos: acabaria divergindo do padre publicamente, o que seria contraproducente com relação ao meu objetivo ali; e não fui adestrado para a falta de educação. Prefiro a derrota a usar de expedientes quaisquer para vencer, entre os quais o de fazer prevalecer a minha voz no grito. Seja como for, pelo resultado da enquete do programa não se pode dizer que foi uma derrota. Mas poderia ter sido muitíssimo melhor, se a esplendorosa doutrina sobre a castidade e o celibato pudesse ter sido exposta devidamente.

Digo mais: em matéria grave, como esta, os leigos católicos que estiverem em condições devem colocar a sua candeia acima do alqueire, mesmo quando ao seu lado estejam sacerdotes. E, a esta altura da vida, não vou incorrer no pecado da falsa modéstia — uma das mais terríveis formas de vaidade — apenas para não parecer vaidoso. Portanto, serenamente reitero o meu lamento de ter estado ali acompanhado de um sacerdote loquaz, provavelmente bem-intencionado, mas com formação teológica tão deficiente.

Por fim, ainda sobre a vaidade, trago gravado indelevelmente no coração outro ensinamento de Santo Tomás nesta matéria (em “De Malo”, q. 9, art.1). 

É o seguinte: 

“A glória humana pode dirigir-se louvavelmente a três fins. Em primeiro lugar, à glória de Deus, pois, pelo bem que alguém manifesta, é glorificado Deus, a quem pertence, como primeiro autor, aquele bem. (...) Em segundo lugar, à salvação do próximo, que, conhecendo o bem de alguém, se edifica ao imitá-lo. (...) Em terceiro lugar, ao bem do próprio homem, que, ao considerar serem os seus bens louvados por outros, dá graças e persiste neles mais firmemente”.

Por fim, agradeço sinceramente pela reprimenda. Mas defendo-me dizendo que sem o lúdico a vida seria um caos total. 

Ademais, caro André, o padre não é de açúcar e não se vai desfazer feito um choramingas ao ver-se retratado com olhar irreverente, sim, mas não desrespeitoso. A sua imunidade eclesiástica não chega ao ponto de torná-lo imune a críticas. 

E olha que omiti as coisas mais pitorescas...

Grande abraço e fique com Deus!"