sábado, 12 de novembro de 2011

Comentário de Agostinho ao Sermão da Montanha será reeditado, agora pela É


O comentário de Santo Agostinho ao Sermão da Montanha, cuja edição esgotou-se há algum tempo, virá novamente à luz, desta vez pela editora É. O Nougué revisou a sua tradução e eu fiz um pequeno prefácio (cujo comecinho transcrevo a seguir, como tira-gosto). Assim que a edição for a público, daremos a ela grande publicidade; ou melhor, a publicidade que merece.




Breve apresentação

Sermão da Montanha, ápice da vida cristã


Sidney Silveira

I. A fé como suporte da moral

O extraordinário escrito De Sermone Domini in Monte enquadra-se entre os tratados morais de Santo Agostinho, não obstante o seu timbre marcadamente exegético. Ele veio à luz nos idos de 394, três anos depois da ordenação do Doutor da Graça como sacerdote, época de grande turbulência política e religiosa: uma crise de caráter universal ameaçava o orbe latino, com as invasões bárbaras e a decadência moral, cultural e material do Império Romano, ao passo que, no campo religioso, a Igreja se via na urgente contingência de dar resposta às heresias oriundas do dualismo gnóstico e à ameaça de retorno às tradições pagãs, defendida por elites que acusavam o Cristianismo de levar Roma à dolorosa ruína prefiguradora do seu fim.

Tais circunstâncias históricas exigiam posicionamento firme e magistral por parte dos cristãos, e neste contexto Agostinho realiza notável esforço para construir um método teológico baseado em tríplice autoridade: Escritura Sagrada, Tradição e Igreja. Da Escritura — estudada com paixão pelo Bispo de Hipona1 — são colocadas em relevo a origem divina2, a inerrância3, a profundidade4, e a riqueza inesgotável dos seus textos5. Ressalte-se que Agostinho lê a Sacra Pagina exclusivamente no contexto da Igreja Católica, pois “não se pode crer no Evangelho fora da Igreja”6; e esta, por sua vez, tem perene e absoluta conformidade com a Tradição apostólica7. Estão, portanto, Escritura, Tradição e Igreja unidas até o fim dos tempos por um laço indissolúvel, porque criado e mantido por Deus. Afastar-se delas é andar no pecado, sucumbir ao mal.

Levando estas premissas às últimas consequências, o Bispo de Hipona chegará à conclusão de que é impossível haver verdadeira moralidade sem fé. Ou seja: é caminhando na fé que a razão prática alcança as verdades fundamentais, e a razão especulativa tende à verdade eterna8. A partir deste ponto de inflexão o labor teológico de Agostinho ultrapassará todas as éticas relativistas, formalistas, materialistas, idealistas e racionalistas que lhe antecederam, cada qual com as suas aporias e insuficiências. Até Cícero, a quem Agostinho nunca deixou de amar, terá a noção de virtude corrigida e aprofundada pelos pressupostos da teologia cristã que a filosofia pagã jamais poderia vislumbrar: as virtudes morais, malgrado serem habitus naturæ como afirmava o estoico romano, necessitam da graça para alcançar a excelência, razão pela qual Cícero não poderia mesmo saber o que é feito para “liberar e santificar a natureza dos mortais e fazê-la feliz”9. Em resumo, só por Cristo, com Cristo e em Cristo pode a virtude humana, hábito da natureza, não se corromper neste mundo e lograr a vida feliz de que o Sermão da Montanha é, ao mesmo tempo, anúncio e prenúncio. Ele anuncia o caminho da perfeição moral com as armas sobrenaturais da fé e prenuncia a felicidade perfeita que os bem-aventurados terão no céu.

Como testemunha ocular do desmantelamento da cultura antiga, transviada espiritualmente desde a sua base e envolta em vícios políticos irresolvíveis, o Bispo de Hipona observa que “a alma [humana], ávida de eternidade porém sobressaltada pela fugacidade da existência, luta contra o sublime esplendor da autoridade divina”10. Tal luta, herança maldita do pecado original, não tem a mais remota chance de sucesso porque implica o afastamento de Deus, fonte de todos os bens. Ademais, trata-se da autoridade sem a qual toda e qualquer tentativa de construir uma moral se esboroa, se esfuma, por lhe faltar o único sustentáculo firme — a fé, que tem princípios retirados da Sagrada Escritura, é mantida pela Tradição e custodiada magisterialmente pela Igreja.

Vê-se por este conjunto de teses que as virtudes morais, devido ao seu caráter instrumental, não podem possuir um fim em si mesmas, mas devem forçosamente referir-se, fundar-se, orientar-se a algo que as transcenda11. Assim, embora seja possível falar de virtudes isoladamente, será sempre necessário colocá-las no contexto da fé para dotá-las de sentido pleno12, embora isto não signifique que para Agostinho elas devam ser substituídas pela fé, conforme observa Felix García (O.S.A.)13. Na doutrina agostiniana, a razão exige a fé para resolver o problema da felicidade humana, que está situado na raiz de toda moral realista; assim, a beata vita é o fim do agir humano bom, pois a verdadeira felicidade exclui todas as espécies de mal14 — com particular ênfase o mal moral — e a felicidade é o prêmio da vida honesta construída sobre a bem-aventurança da pobreza de espírito15, que, para Agostinho, corresponde ao dom do temor de Deus, ao primeiro pedido do Pai-Nosso e à virtude da humildade, degrau inicial da sabedoria.


(continua)

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1- Confessionum, XI, 2, 2-4.

2- Enarrationes in Psalmos, 90.

3- Epistulæ, 137, 1, 3.

4- Confessionum, XII, 14, 17-32


5- Confessionum, XI, 2, 2-4

6- Contra Ep. Manichaei quam Vocant Fundamenti, V, 6.

7- De Baptismo, IV, 24, 31.

8- Cfme. De Trinitate, XIV, 2.4.

9- Contra Iulianum, IV, 3, 19.

10- Epistulæ, 137, 4, 16 ss.

11-“As virtudes por meio das quais o homem vive forte, temperada e justamente devem referir-se à fé, pois de outro modo não serão verdadeiras” (De Trinitate, XIII, 20, 26).

12- Afastar as virtudes do contexto da fé significa retira-lhes a devida finalidade, razão pela qual Agostinho afirma, num conhecido paradoxo, haver virtudes viciosas. A verdadeira virtude está orientada ao fim último do homem — Deus —, ao passo que a falsa é inautêntica, mentirosa, desordenada. Assim, existe uma misericórdia má, transviada, cativa do mal, etc. (cfme. Contra Iulianum, IV, 3, 31-32).
13- Felix Garcia, Obras de San Agustín, Tomo XII (Tratados Morales). Introducción general. Madri, Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), 1954, p. 19.

14-De Moribus Ecclesiæ Catholicæ et de Moribus Manichaeorum, I, 3, 4.

15- Cfme. Mt., V, 3.