quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Pensamento mágico e bom senso (III)

Carlos Nougué
Dissemos no artigo anterior que “toda e qualquer quimera” (como a economia liberal) “é produto de uma ideologia”. Mas o que é precisamente “ideologia”?

Cunhado no livro Elements d’idéologie (1801) por Antoine Destutt de Tracy, discípulo de Condillac (ambos liberais e revolucionários), o termo exerce ali, segundo o próprio autor, o papel de “filosofia primeira” em substituição a qualquer metafísica e a qualquer religião. O que, porém, quer dizer precisamente De Tracy ao falar de “filosofia primeira”, já que não se trata de metafísica? Ora, esta sempre fora considerada a filosofia primeira por tratar, justamente, das coisas que são primeiras na realidade – Deus incluído, e acima de tudo. Pois a “ideologia” do francês tinha o exato sentido de “ciência das idéias”, e, como uma ciência ou filosofia se define pelo seu objeto, e como a “ideologia” de De Tracy se substituía à metafísica como “filosofia primeira”, logo, para o pensador, as coisas primeiras na realidade só podiam ser as mesmas “idéias”. A “ideologia” de De Tracy é, portanto, uma legítima continuadora do “Penso, logo sou” de Descartes, aquele mesmo segundo o qual, como vimos, o pensamento cria o homem que o pensa; e dela, da “ideologia” de De Tracy, se pode montar o seguinte “silogismo”* (antes um paralogismo**, ou um entimema no sentido aristotélico***): “Têm-se idéias, logo a realidade é”. Sim, porque considerar as idéias como as coisas primeiras da realidade é do mais puro pensamento mágico em sua segunda vertente, qual seja, a que toma o efeito pela causa.

Logo, porém, o termo “ideologia” ganharia outra acepção, pejorativa, graças (como conta Maxence Hecquard em seu admirável Les fondements philosophiques de la démocratie moderne, Paris, François Xavier de Guibert, 2007), graças a ninguém menos que Napoleão Bonaparte, que chamava sarcasticamente de “ideólogos” os “filósofos nebulosos afastados da realidade”. Não se sabe se conhecendo ou não a ironia napoleônica, o fato é que Marx e Engels censurarão, em A Ideologia Alemã (1845), a esses mesmos filósofos o fato de eles “descerem do céu para a terra” em vez de “se elevarem da terra ao céu”, donde decorre a famosa máxima marxista: “Já não se trata de entender a realidade, mas de transformá-la” – para, parafraseio-o eu, “fazer com que o homem seja como Deus e se torne senhor de um verdadeiro paraíso: o material terrestre”... O termo “ideologia”, no entanto, adquire duas novas acepções com os fundadores do materialismo histórico e dialético.

A primeira deriva de sua concepção de que toda e qualquer idéia emana, no homem, das condições de sua vida material. (E tem-se aqui outro exemplo de pensamento mágico, ainda de segunda vertente: nele, o efeito vida material é tomado como “causa” do inteligir humano, quando obviamente se trata do oposto – se assim não fosse, como um pequeno-burguês com fumos de nobre como Marx poderia defender o proletariado, se as suas condições materiais de existência não lhe permitiriam senão o pensar como um pequeno-burguês com fumos de nobre?) Ora, a ideologia, sempre segundo os dois alemães, falseia justamente tal relação, virando o homem ”de cabeça para baixo” e fazendo-o crer que são as idéias o que determina a sua vida material; e essa “falsa consciência” que é a ideologia, em especial a ideologia burguesa, não visa senão à “alienação das classes exploradas e oprimidas”. Desse modo, como diz Raymond Aron (Trois essais sur l’âge industriel, IIIe Partie, c. 2, p. 189, apud Maxence Hecquard, op. cit., p. 38), a ideologia é “uma deformação interessada do real”.

Mas há em Marx, como nos faz ver ainda Raymond Aron, outra acepção de ideologia, a qual, digamos, é “axiologicamente neutra”, ou seja, é neutra em termos de valor (conceito que, como veremos daqui a alguns artigos, está na raiz do próprio liberalismo): a acepção de “conjunto dos edifícios intelectuais e morais”. Trata-se, em verdade, como diz Maxence Hecquard, da mesma acepção anterior sem, todavia, o julgamento de valor, sem o aspecto pejorativo. Pois bem, é esta mesma segunda acepção de ideologia, mas tal como desenvolvida penetrantemente, como veremos, pelo liberal Raymond Aron, o que nos servirá para mostrar que o liberalismo, seja o político-democrático, seja o econômico, é tão ideologia como o próprio comunismo, e, pois, tão pensamento mágico como ele.

* Silogismo: segundo Aristóteles, o modo fundamental do raciocinar humano, estruturado a partir de duas proposições, chamadas premissas, das quais, por inferência, se obtém necessariamente uma terceira, chamada conclusão. Veja-se um exemplo clássico de silogismo: “Todos os homens são mortais; ora, Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”.

** Paralogismo: raciocínio inválido ou falso.

*** Entimema: aqui, silogismo carente de rigor formal por elidir uma premissa que, se mostrada, patentearia a falsidade do raciocínio. Assim, se Descartes mostrasse seu “Penso, logo sou” com sua premissa maior obrigatória, o silogismo ficaria assim: “Para ser, é preciso pensar; ora, eu penso; logo, sou”, o que evidenciaria, a todas as luzes, a sua absoluta falsidade. E a evidenciaria para o próprio Descartes, porque não queremos crer que ele considerasse falso o seu próprio raciocínio... Antes cremos naquilo de “psicopatologia” de que falava Étienne Gilson.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pensamento mágico e bom senso (II)

Carlos Nougué
Como vimos no artigo anterior, o liberalismo econômico (como, aliás, todo e qualquer liberalismo, como teremos oportunidade de mostrar) funda-se em duas espécies de pensamento mágico. A primeira é a que toma o efeito pela causa. Tal espécie de pensamento não é privilégio desse liberalismo: ao contrário do que se dá com a razão natural e, pois, com o realismo filosófico, é característica de todos os idealismos, tomada esta expressão em sentido lato. Assim, para Descartes o efeito pensar é “causa” do ser; para Kant e Hegel o efeito idéias (ou a Idéia) é “causa” da realidade; para Darwin e Engels o efeito fazer instrumentos é “causa” do ser homem; para Karl Marx, Engels e Lênin o efeito violência de classe é “causa” (ou “parteira”) da história; e para o liberalismo econômico, como já vimos, os efeitos troca, moeda e mercado são “causas” da confiança entre os homens.

O absurdo de tudo isso salta aos olhos (e se não feriu os olhos de seus propugnadores é porque, como disse Étienne Gilson, o problema de grande parte do pensamento moderno é de “psicopatologia”). Imagine-se, por exemplo, o “Penso, logo sou” de Descartes: o pensamento cria aquele que o pensa... É mais ou menos como um embrião gerar aquele que o gera, ou um alimento engendrar aquele que o ingere. Do mesmo modo, como o produzir instrumentos pode produzir aquele que os produz, ou seja, o homem? É mais ou menos como crer que a habilidade do joão-de-barro para construir sua linda casinha é capaz de construir o próprio joão-de-barro. E como é possível que a troca de mercadorias, esse mágico cavalo-de-batalha (ou será um cavalo alado?) do liberalismo econômico, possa causar a confiança que, em verdade, ela pressupõe? É mais ou menos como uma mãe dizer a seu filhinho: “Aceite, querido, balas de qualquer estranho na rua, que assim vocês estabelecerão uma bela relação de confiança mútua”...

Mas por que tanto insiste o liberalismo econômico nesta verdadeira aberração? Para justificar o seu grande objetivo, qual seja, a construção de uma economia absolutamente de mercado, com agentes econômicos absolutamente livres, sem nenhuma trava por parte da moral, nem da religião, nem do Estado. De nada! Dizia Von Mises: “A produção material é o que de mais importante faz o homem”. Dizem seus seguidores: “Bancos, atuem e lucrem livremente!” “Empresas, atuem e lucrem livremente!” “Alguns falirão? Trabalhadores passarão necessidades? Famílias se verão na rua da amargura? Tudo passageiro, porque, no final, o mercado, fundado na [sacrossanta] lei da oferta e da procura, se auto-regulará perfeitamente, e trará para todos a felicidade geral!” Deixemos de lado, por ora, o talvez maior escândalo desta tese, precisamente porque amoral: o fato de o paraíso prometido ser material, e não espiritual (como, em seu Jardim, daria saltitos de alegria Epicuro ao ouvir tal promessa!). Concentremo-nos, aqui, no ângulo estritamente econômico da tese, para mostrar que, em verdade, ela preenche todos os requisitos da segunda vertente, anunciada mais acima, do pensamento mágico: a vertente quimérica.

O que é uma quimera nos termos que, aqui e agora, nos interessam? Dizem, pouco mais ou menos, os dicionários: “produto da imaginação; fantasia, utopia, sonho”. Mas aprofundemos, filosoficamente, a definição: “qualquer projeto de sociedade futura baseado não em uma lei eterna, nem na ordem do cosmos, nem em nenhuma realidade social preexistente, mas em mera idéia nascida, voluntariosamente, na cabeça de seu(s) propugnador(es)”. Ou seja, toda e qualquer quimera é produto de uma ideologia. (No próximo artigo veremos que o liberalismo é tão ideologia quanto o comunismo, e isso segundo a própria definição de ideologia de um dos mais importantes pensadores liberais do século XX: Raymond Aron). Fecha-se assim o círculo (como a cobra que morde o próprio rabo...): depois de se fazer do efeito causa, elimina-se toda e qualquer causa real, para substituí-la por uma “causa” ideal. E, justo por não ter alicerces reais, tal “causa” merece perfeitamente as aspas: ela não causa senão uma deformação, uma monstruosidade, um aborto, sempre distante daquilo que se ideou. Uma prova? A atual e gravíssima crise econômico-financeira mundial, engendrada integralmente nos porões amorais do liberalismo econômico.

O livre mercado, o livre lucro, a livre usura bancária sempre gerarão o que agora vemos (e vamos sentir na carne), porque seus propugnadores, em seu idílico Parnaso, esquecem o que qualquer homem do povo sabe perfeitamente: porque muitos homens são gananciosos, o dinheiro traz infelicidade. É o bom senso, é o senso comum quem o diz.

Mas, por favor, não se diga que somos contra a propriedade privada, contra o lucro, contra o mercado, porque nos bastará, para desmenti-lo, pôr aqui, na íntegra, os documentos do Magistério infalível relativos ao assunto. (Ademais, tenha-se um pouquinho de paciência, a paciência da verdadeira ciência, que já mostraremos nesta mesma série as teses do realismo filosófico com respeito à economia.)

O que importa, aqui e agora, é insistir no caráter ideal (e pois ideológico) do liberalismo econômico. E tampouco nos venham falar de Platão: o idealismo platônico, conquanto equivocado por dar existência substancial às idéias, sempre se fundou em algo que ele considerava real ou extramental (aquelas mesmas idéias substancializadas). Além disso, é Platão o primeiro formulador de algo fundamental em filosofia: a noção de participação. Demos um exemplo: uma coisa é mais ou menos boa porque está mais ou menos próxima da Idéia de Bem, ou seja, porque participa mais ou menos da Idéia de Bem.

Ora, segundo alguns liberais, sua corrente, “ao contrário da comunista, aceita que uma economia pode ser mais ou menos liberal”. Imagino, antes de tudo, que os próprios comunistas, de mãos dadas com os liberais, tenham de aplicar à China atual a noção de mais ou menos: será o gigante asiático mais ou menos comunista, ou mais ou menos capitalista? Comunistas e liberais que o digam, porque de fato a coisa é complicada: a China, ao que parece, é maximante comunista em termos estatais, e maximamente liberal em termos econômicos... Mas o que importa aqui é que, se os liberais aplicam a noção de mais ou menos às economias liberais, é porque têm algo como modelo de que possam tais economias participar mais ou menos. Com respeito à sociedade, tinha Platão por modelo as Idéias do Hiperurânio e os deuses; Aristóteles, o Primeiro Motor Imóvel e a ordem do cosmos; os católicos, a lei eterna, a lei natural e a lei divina positiva. E os liberais? Pois a sua própria e exclusiva mente!

(Continua.)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Frutos do pensamento mágico do liberalismo

Sidney Silveira
A propósito de o liberalismo (político ou econômico) ser baseado, fundamentalmente, em um pensamento mágico — como bem frisou o Nougué —, seja porque inverte as relações causais ou busca-as não em evidências, mas em idéias preconcebidas, seja porque adota posturas quiméricas absolutamente irresponsáveis, vale dizer que isto é facilmente identificável nas próprias sementes que os liberais semeiam, aqui e ali. Na quase absoluta maioria dos casos, os autores que eles apreciam e difundem são tão irrealistas quanto eles mesmos, seja em gnosiologia, seja em política, seja em teoria econômica, seja em psicologia, seja em sociologia — neste caso, tendo como base numa antropologia ao rés-do-chão —, etc.

Exemplos? Eis o primeiro deles, de uma série por vir:

René Girard. Tese: o bode expiatório. Premissa fundamental: o desejo mimético. Resumo sintético da teoria: O homem, quando deseja algo, não o deseja em virtude de um bem intrínseco ao objeto desejado, apetecido naturalmente pela vontade (pobre e ingênuo Santo Tomás! Supor que só o bem é motor dos desejos humanos; supor que há uma conaturalidade entre a vontade e o bem, posta no coração dos homens por Deus Pai...). Não! Tudo o que o homem deseja, deseja-o como imitação invejosa de um bem — material ou espiritual — pertencente a outrem. Ou melhor: deseja PORQUE pertence a outrem e é também objeto dos desejos de outras pessoas. Assim, essas invejas fundamentais contrapostas umas às outras — e crescentemente multiplicadas no decorrer dos tempos — chegam a um nível tal que, em dado momento, a discórdia e a violência universal de todos contra todos só poderá ser suspensa pela eleição de um bode expiatório a ser sacrificado — o qual aplacará o ódio coletivo. "Provas" apresentadas para essa tese de “psicologia” (de que a vontade [ou o desejo] é movida pela inveja): a pura e simples interpretação de mitologias antigas e da Sagrada Escritura, com apresentação de alguns dados estatísticos (na verdade, interpretados de forma a amoldar-se à própria tese, numa estupenda e cristalina petitio principiis, que, para quem não sabe, é a atitude de considerar uma tese como verdade líquida e certa a partir da simples formulação dela, ou seja, fazer das premissas a conclusão).

Pois bem, se a teoria de Girard está certa, o amor é formal e absolutamente impossível, e não somente o amor ao próximo enquanto semelhante, mas principalmente o amor a Deus — que, sendo o Bem supremo que se possui a Si mesmo desde a Eternidade, seria por isso mesmo o sumo invejado por qualquer criatura dotada de inteligência. Ora, esta não é senão a atitude de Lúficer: não o amor (virtude unitiva) a Deus pela bondade intrínseca deste, mas a inveja por ser Ele a inesgotável superabundância de bens, eterno, Ato Puro.

Do ponto de vista simplesmente intelectual, é um mistério tal tese ter recebido o mínimo crédito, na medida em que contraria todas as evidências — as quais apontam que a operação da vontade é a resposta consciente do espírito ante as coisas entendidas como boas, ou seja: queremo-las simplesmente PORQUE SÃO BOAS; é tão-somente por portarem um quantum de bem que são amadas e desejadas por nós. Desde pequeninos experimentamos isto, até ao pedir a mamadeira para a mamãe com um gugu-dadá. Só se explica tal “credibilidade” da tese do autor francês pela forma organizada e repetitiva com que liberais de diferentes países reiteram à exaustão que Girard é o máximo. Ora, como sabemos, uma mentira ou um erro repetidos insistentemente se transformam em "verdade" aos olhos da maioria desatenta...

Não dá para expor aqui, amiúde, a diferença entre o que são, para Santo Tomás, a voluntas ut natura (o querer algo simplesmente porque é bom) e a voluntas ut ratio (o querer algo pela razão de ser o intermediário necessário para a posse de um outro bem). Fica para outra ocasião esta belíssima, fundamentada e concatenada exposição do Aquinate sobre os modos de operação do nosso querer.

Apenas vale consignar o ensinamento do Santo Doutor — absolutamente realista e baseado na mais alta antropologia, com base metafísica — a respeito das causas que nos levam a desejar algo: 1ª) o bem; 2ª) a semelhança; e 3ª) o conhecimento. E os efeitos: 1º) a união ou mútua “inesão” (depois explico); 2º) o esquecimento de si (quando naturalmente desejamos, ou seja, sem estar no estado patológico que Girard quer fazer-nos crer que move os nossos desejos, o outro é mais importante do que nós mesmos*, e desejamos não o que ele tem ou o que ele é, mas desejamos doar-lhe ainda mais, doar-nos a nós mesmos numa entrega amorosa); 3º) e o obrar voluntário (ou seja: o amor é um ato libérrimo, o mais livre que a criatura humana pode praticar, e justamente para ele ela foi criada. O obrar voluntário é o desejo movido excelentemente pelo amor).

Algum liberal pode imaginar, a esta altura, que desejei escrever este artigo porque invejo o Girard, porque o desejo mimético me impeliu a tanto (do mesmo modo que os psicanalistas costumam dizer que só uma pessoa analisada pode criticar a análise). A estes respondo: mesmo que quisesse, eu não poderia invejá-lo, pois detesto autores de teses obscuras, errôneas, conducentes a visões deturpadas da realidade... Será que vocês acreditariam que é simplesmente por amor à verdade (oh, crime!), e sobretudo à Verdade que é Cristo, da qual todas as teorias errôneas nos afastam, que desejamos escrever, eu e o Nougué — e continuaremos a desejar — , todos os textos deste blog?
* No caso de Girard, o outro também pode ser considerado mais importante do que nós, mas não como alguém a ser servido amorosamente, e sim invejado e, por esta razão, imitado o que é muito, mas muito diferente. No primeiro caso, trata-se de uma PERSONALIDADE QUE SE AFIRMA NA ENTREGA AMOROSA, reconhece o outro como diferente e o deseja simplesmente pelo que é, abrasando-se no amor, no êxtase da entrega; no segundo caso, trata-se de uma PERSONALIDADE QUE SE NEGA E SE ANULA PELA INVEJA que a faz querer ser como o objeto invejado, na presunção de que, com isto, será igualmente invejada, ou seja: transformar-se-á também em objeto do desejo de outras pessoas. Virgem Santa! A inveja, vício capital, torna-se nesta teoria o motor das vontades humanas...

domingo, 5 de outubro de 2008

Pensamento mágico e bom senso (I)

Carlos Nougué
Dizia Santo Tomás no início da Suma contra os Gentios: “Refutar todos os erros é difícil, por duas razões. A primeira é que as afirmações sacrílegas de cada um dos que caíram no erro não nos são conhecidas a ponto de podermos tirar delas argumentos para confundi-los. Era isso, porém, o que faziam os antigos doutores para destruir os erros dos pagãos, cujas posições eles podiam conhecer, quer porque eles próprios tinham sido pagãos, quer, ao menos, porque viviam no meio dos pagãos [...]. A segunda razão é que alguns entre eles, como os maometanos e os pagãos, não estão de acordo conosco em reconhecer a autoridade das Escrituras, graças à qual os poderíamos convencer, enquanto com os judeus nós podemos disputar no terreno do Antigo Testamente, e com os heréticos podemos disputar no terreno do Novo Testamento. Maometanos e pagãos não admitem nem um nem outro. É preciso, então, recorrer à razão natural, à qual todos são obrigados a dar sua adesão. Mas a razão natural é falível com respeito às coisas de Deus. No estudo detido que faremos de tal verdade particular, mostraremos, pois, ao mesmo tempo, que erros esta verdade exclui, e que a verdade estabelecida pela via demonstrativa está de acordo com a fé da religião cristã”.

Pois bem, analogamente, tentaremos mostrar na série que começa aqui a falácia dos argumentos econômicos liberais. Não recorreremos nesta série ao Magistério da Igreja, nem a Santo Tomás de Aquino, nem a Platão e Aristóteles, pela simples razão de que esses não são terrenos comuns entre nós e os liberais. Mas, enquanto Santo Tomás supunha a possibilidade de adesão de muçulmanos e pagãos à razão natural, nós hoje, ante os liberais, temos um problema, digamos, anterior: eles simplesmente já não aceitam a razão natural, porque, como veremos, assim como os comunistas, aderiram a uma espécie de pensamento mágico. Temos pois de recorrer antes ao bom senso (ou “senso comum”, como alguns o preferem chamar) para tentar destruir, primeiro, o pensamento mágico.

O pensamento mágico típico crê encontrar na realidade relações causais, mas, de fato, e diferentemente da razão natural, não distingue concomitância de causalidade
. Por exemplo: alguém pode crer que o número 11 dá sorte porque ganhou algum torneio esportivo usando uma camisa de número 11. Procurará, a partir de então, fazer girar toda a sua vida em torno do número 11, e de fato, a cada passo, encontará entre o número 11 e a sorte uma relação de causalidade, enquanto, em verdade, tudo não havia passado de uma relação de concomitância: usar a camisa 11 e ganhar o torneio não tinham sido senão fatos simultâneos, sem nenhuma determinação mútua. O fato, no entanto, é que a algo que é apenas concomitante o supersticioso atribui caráter causal.

São muitos os produtos do pensamento mágico típico, entre eles a astrologia.

Mas, se, mais amplamente, se considera mágico todo aquele pensamento que vê relação causal onde de fato não a há, então nem todo o pensamento mágico se resume a superstição: quando, por exemplo, Engels dizia, na esteira de Darwin, que o que torna o homem homem é o fazer instrumentos, tal maneira de raciocinar e concluir é ainda pensamento mágico sem, todavia, ser superticioso: aqui não se confunde concomitância com causa, mas resultância, conseqüência, efeito com causa. Pensemos: qual é a causa e qual o efeito: o mamífero é mamífero porque mama, ou mama porque é mamífero? O homem é homem porque pensa, ou pensa porque é homem? Confiamos em que os motoristas não avançarão o sinal porque atravessamos a rua, ou atravessamos a rua porque confiamos em que os motoristas não avançarão o sinal? Ora, é claro que o mamar é efeito da causa ser mamífero, assim como o pensar é efeito da causa ser homem, e assim como o atravessar a rua é efeito da causa confiar. Logo, do mesmo modo, fazer intrumentos é efeito da causa ser homem. (Hão de argumentar: mas alguns macacos, como os chimpanzés, também fazem instrumentos... Sim, mas não se segue daí que sejam chimpanzés porque fazem instrumentos; antes fazem instrumentos porque são chimpanzés. Então têm os chimpanzés e os homens isto em comum: fazer intrumentos? Sim, senhor, e que isso não seja pedra de escândalo: temos os humanos muitas outras coisas em comum com os chimpanzés: temos corpo, e eles também; temos sangue, e eles também; temos olhos, e eles também; gritamos de dor, e eles também; etc. Aliás, também as aves têm corpo, sangue, olhos, e muitas gritam [ainda que não de dor], enquanto outras também fazem instrumentos, e até constroem belas casas, ou ao menos mais belas que muitos edifícios modernos... Isso para não falar que temos algo muito importante em comum com as abelhas e as formigas: o sermos sociais.)

Mas insistamos: qual é a causa e qual o efeito: os homens confiam uns nos outros porque trocam mercadorias entre si, ou trocam mercadorias entre si porque confiam uns nos outros? Os homens confiam uns nos outros porque usam a moeda como meio de troca, ou usam a moeda como meio de troca porque confiam uns nos outros, ou melhor, confiam em que a outra parte atribui valor justo à mercadoria em questão, permitindo assim a troca por meio de moeda? Se isto último não fosse a causa, nunca nos queixaríamos de um preço e, por essa razão, nunca deixaríamos de comprar uma mercadoria. Ora, quando não confiamos em que a outra parte atribui um justo valor a determinada mercadoria, não a compramos (se o podemos fazer, é claro...), ou seja: se não confiamos no outro, não se dá troca, não se realiza a relação de troca. Logo, a relação de troca é efeito da causa confiar.

Mas é exatamente o contrário o que afirma um dos papas do liberalismo econômico: Alain Peyrefitte. Para ele, a “sociedade de confiança” (a expressão é do próprio economista francês) só existe por causa da troca. Insistamos: para ele, a confiança é efeito da troca, assim como para Descartes o ser era efeito do pensar, e assim como para Engels o ser homem era efeito do fazer instrumentos.

(Continua.)

Em tempo 1: Como veremos ao longo desta série, o liberalismo econômico mescla duas vertentes do pensamento mágico: esta última que acabamos de ver, ou seja, a que toma o efeito pela causa, e a quimérica, que veremos nos próximos artigos. E compartilha ambas essas vertentes com o comunismo, como já dissemos. Um exemplo de quimera? O crer que, independentemente do homem, o próprio mercado acabará por se auto-regular até tornar-se o campo da própria justiça. Como se não houvesse a cobiça. Pois dizem os comunistas algo similarmente quimérico: depois da pior das ditaduras, a do proletariado, o Estado ruirá por si só!... Como se não houvesse o apego ao poder.

Em tempo 2: Mas pior é quando, nos liberais econômicos, à quimera se junta a irresponsabilidade. “Deixe-se explodir a economia, que assim se manterão os princípios liberais, e a economia se reordenará por si mesma” – dizem, referindo-se ao “traidor” Bush, o líder mundial dos liberais, por ter, com seu pacote bilionário, contrariado a tese mágica da capacidade de auto-regeneração do mercado. Incapazes de juntar causa e efeito (é este um dos traços da vertente quimérica do pensamento mágico), incapazes de ver a relação entre seu impossível liberalismo econômico e o drama material que se abate sobre os homens atualmente, preferem deixar que se agrave o drama para que assim “se salve” sua teoria... Irresponsáveis, sem nenhuma preocupação com o bem comum nem com o próximo – não há outras palavras, infelizmente, para defini-los.

sábado, 4 de outubro de 2008

A Igreja e a economia

Sidney Silveira
Outra idéia muito comum entre os liberais — os quais, como já vimos, defendem a tese maçônica da separação entre os planos material e espiritual, entre o Estado e a Religião — é dizer que a Igreja não deve envolver-se em questões econômicas, já que a economia trata de algo atinente “apenas” aos meios de produção (à poiesis portanto), à troca de bens e à reprodutibilidade dos mesmos, etc. Ora, se realmente fosse assim, a economia estaria circunscrita ao âmbito que lhe é próprio, ou seja: só poderia tratar das questões relativas a essas coisas enumeradas. Mas o que dizem os economistas liberais em todos os seus livros, num tom tediosamente monocórdico? VIVEM DIZENDO COMO O ESTADO DEVE OU NÃO DEVE SER — o que mostra ser o liberalismo econômico, essencialmente, uma teoria política. E uma teoria que não apenas transcende ao aspecto econômico, mas faz muito pior: subordina o político ao econômico. E reduz o Estado e o governo a um mínimo (tolerável, mas incômodo), a algo que deva defender, antes de tudo, as intocáveis leis do livre mercado.

Vejamos o que diz São Pio X sobre isto de a Igreja ser “alheia” a questões econômicas de qualquer ordem: “A questão social e as contendas relacionadas (...) à forma e ao tempo de trabalho, ao preço dos salários (...) NÃO SÃO PROBLEMAS MERAMENTE ECONÔMICOS, de tal gênero que pudessem resolver-se deixando de lado a autoridade da Igreja, pois, ao contrário, é verdade claríssima (...) que se trata de uma questão moral e religiosa, e, por isso, é nos ditames da Religião e nas leis da Moral que há de encontrar solução satisfatória”. (Encíclica Singulari Quadam, curiosamente ausente da edição brasileira da Paulus que traz as Encíclicas de Pio X).

O grande papa e grande santo — que noutra Encíclica condenara expressamente a separação entre a Igreja e o Estado (em Gravissimo offichii munere defungimur, nº 2, texto também ausente da edição da Paulus e que não consegui achar no site do Vaticano) — bem sabia que uma sociedade não conformada a valores universais e eternos, não ordenada por um princípio espiritual exterior e superior a todas as coisas humanas, ou seja, uma sociedade em que o Estado é tão-somente uma superestrutura no meio da comunidade e as leis nada têm de pedagógico, mas ao contrário, dão livre curso às liberdades individuais (excetuando os casos em que estas trazem riscos físicos a algumas pessoas), será uma sociedade fadada à mais hedionda brutalidade. Ao reino da quantidade. Aos materialismos mais deletérios para a alma humana.

Ademais, OU HÁ ALGO QUE PODE E DEVE LIMITAR O MERCADO, OU NÃO HÁ. Partamos desta disjunção — pois a disjunção é uma das formas mais profícuas do método dialético, capaz de desnudar premissas ocultas. No caso, basta-nos a segunda das hipóteses acima: se não há nada que possa limitar o mercado, isto significa que ele está ipso facto absolutizado, transformado em referência máxima — e a lei do mercado seria, então, a lei das leis. É o que a imensa maioria dos liberais defende, uns de forma camuflada e outros abertamente, chegando estes últimos até a proclamar a absoluta superioridade moral do mercado (ops...).

Outra coisa: nem toda necessidade humana é demanda, no sentido equívoco em que os liberais em geral empregam essa palavra. Há uma instância de interioridade na alma do homem que o Estado — sobretudo o liberal, com leis primacialmente mercadológicas, ou seja: contratualistas — não pode suprir, mas que deve defender. Sim, pois se as leis não são um elemento facilitador para que o homem exerça plenamente a sua liberdade interior, a qual nada tem a ver com a idéia liberal de "liberdade", que eles confundem com o ato de escolha (não à toa dizia Leão XIII que os Estados devem preocupar-se in primis com os bens da alma), mas se são apenas propiciadoras de trocas materiais ou então coercitivas (para o caso dos abusos claramente verificáveis), estamos muito distantes do verdadeiro império da lei — que é, como diz Platão no começo das suas "Leis", proveniente de uma instância divina. E estamos também distantes da lei natural na perspectiva escolástica. O império da lei, para um liberal, nada tem de referente a algo supra-humano que ordene e informe as ações dos homens. A sua noção de lei não tem base metafísica nem, portanto, teológica, sem as quais caímos na justificativa de quaisquer éticas de indivíduos ou de grupos, caímos nessa confusão dos diabos a que hoje assistimos: todos querem ter uma lei para defender os seus próprios interesses, mesmo se contrários à Constituição e mesmo se contrários à lei natural. Bem comum? Ugh! Quanto a este, lembrem-se os leitores de que o bem comum, para um liberal, é nada, é bobagem, é abstração...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Para meditação

Carlos Nougué
Está mais perto de Deus o malfeitor que se envergonha de ter feito o mal do que o homem honesto que se envergonha de fazer o bem.
(Padre Pio de Pieltrecina)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Os Anjos, em abordagem metafísica

Sidney Silveira
Começa nesta sexta-feira (03/10), em Niterói, o curso livre ministrado pelo Prof. Sergio de Souza Salles sobre A Metafísica dos Anjos, que reputo simplesmente imperdível, não apenas pela competência do Prof. Salles, mas também porque o tema dos Anjos toca a mais alta metafísica de Santo Tomás — como certa vez disse Cornelio Fabro a propósito da obra De Substantiis Separatis, publicada no Brasil pela Sétimo Selo. As informações sobre o curso estão aqui e acho que ainda há tempo para inscrições.