terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A morte

Este pequeno artigo foi publicado há uns cinco anos numa coletânea de estudos medievais. Era parte de um texto maior, assinado em conjunto com o meu querido irmão Ricardo; ele abordava o tema na perspectiva histórica, enquanto eu o fazia a partir da doutrina de Santo Tomás. O texto é basicamente o original, sem as pequenas e inadvertidas mudanças feitas pelo editor do livro... De toda forma, como se tratava de algo que, por restrição de espaço, fui cortando, cortando, cortando, agora relendo o texto ele me pareceu truncado e um tanto obscuro em algumas partes. Mas compartilho-o assim mesmo, até porque por estes dias estou sem tempo para escrever.

A MORTE NA PERSPECTIVA DE SANTO TOMÁS

("A maior perfeição de cada coisa consiste não apenas em ser boa em si, mas em causar a bondade nas outras coisas” - Tomás de Aquino, De unitate intellectus, V, 111) [1]

Sidney Silveira

No estudo intitulado “Tomás de Aquino e o nosso tempo: o problema do fim do homem”, o filósofo Henrique C. de Lima Vaz adverte que a interpretação de uma experiência que encontrou a sua expressão teórica em textos do passado supõe a possibilidade de referir essa mesma experiência — e também a sua expressão — ao presente, no ato da leitura.[2] No caso de Tomás de Aquino (1225-1274), além dos problemas de hermenêutica suscitados pela tentativa de interpretação de escritos compostos em época tão distante da nossa, uma atitude de prudência é aconselhável se nos aproximamos do Doutor Angélico com o propósito de vislumbrar a harmoniosa justaposição dos elementos de seu vasto sistema, no qual cada parte se ordena e é proporcionada a um fim específico, e cada um desses fins, por sua vez, conduz a outros, no horizonte metafísico que tem Deus como princípio e fim último de todos os entes. Convém, como metodologia, seguir o conselho do próprio Tomás, que em seu pequeno texto De modo studendi recomenda: os estudiosos não devem pronunciar-se de forma apressada acerca do que pesquisam [3]; quem não põe em prática este conselho corre o risco de não cumprir a vocação à sabedoria própria da natureza racional do homem, pois, como nos lembra Aristóteles (384 a.C – 322 a. C), logo na primeira frase da sua Metafísica, os homens desejam, naturalmente, saber. [4]

Este pequeno estudo sobre a morte em Tomás de Aquino parte de duas linhas mestras orientadoras. A primeira, no movimento que o teólogo dominicano M-D Chenu apontou no plano da Suma Teológica: a Prima Pars trata da proveniência das coisas a partir de Deus; a Secunda Pars refere-se ao retorno de tudo ao seu princípio criador e ordenador, ou seja, o próprio Deus; e a Tertia Pars estuda as condições cristãs para esse retorno, no caso particular do homem[5]. O exemplarismo divino e o retorno da imagem (homem) ao seu modelo (Deus) constituem o eixo dos escritos morais de Santo Tomás, e frise-se aqui que o ato propriamente humano, para o Aquinate, é orientado pela vontade, [6] a qual por sua vez é movida primacialmente pela razão, ou, nas palavras do Aquinate, pela ratio boni.[7] Ora, como é natural no homem agir com algum grau de conhecimento do fim pelo qual age, de qualquer um dos seus atos só poderá dizer-se “bom” ou “mau” quando for voluntário, pois uma ação involuntária — não movida pelo apetite racional, expressão com que Santo Tomás designa a vontade — só pode ser considerada mal moral por analogia.[8] E aqui nos deparamos com a segunda linha mestra: a da morte humana como conseqüência do mal moral que a tradição judaico-cristã convencionou chamar de “pecado”, o qual é sempre uma livre escolha, pois requer o concurso da vontade e da razão.

Para Santo Tomás, a vida eterna não é outra coisa senão a própria bem-aventurança[9] à qual o homem foi destinado por Deus, mas, para alcançá-la, requer-se da criatura racional a retidão da vontade,[10] que tem a sua consecução nos atos livres — e por isso o Aquinate afirma que é essencial para qualquer pena ser contrária à vontade do infrator[11], e, por conseguinte, à liberdade que é o seu sucedâneo.[12] No chamado “estado original” ou de “inocência”, ao homem eram concedidos os dons preternaturais que o auxiliavam a evitar o pecado[13] e a cumprir, pelo exercício da liberdade, o seu destino de beatitude eterna, escolhendo os verdadeiros bens — dentre estes a vida, fonte de todos os demais — e afastando-se do mal. Com relação especificamente ao mal, Santo Tomás distingue entre o mal que consiste na privação de uma forma (ato primeiro, que é o simples ato de ser de cada ente) e o mal que consiste na orientação de uma ação (ato segundo, atinente às intenções).[14] A morte corresponde à primeira dessas distinções, referente à privação da forma, pois é ela privação, no corpo humano, da sua forma substancial: a alma. É o chamado “mal de pena”. À segunda distinção corresponde o chamado “mal de culpa”, que é uma desorientação da vontade,[15] ou seja: quando esta escolhe falsos bens, ou bens contingentes, que obstam a verdadeira felicidade, embora sejam sempre portadores de um quantum de prazer e de bem, pois todos os entes, pelo seu radical ato de ser, são portadores de algum bem,[16] sendo este último um dos transcendentais do Ser.

Neste contexto, a vida e a morte do homem são avaliadas a partir do fato de provirem de Deus e a ele retornarem posteriormente. Em termos concretos, o homem vive a partir de sua alma, que é princípio do movimento e primeiro ato natural de um corpo organizado, [17] e esta procede de Deus, [18] que a cria [19] no momento do nascimento e não antes, pois convém a ela estar unida ao corpo.[20] Vivendo a partir de uma alma incorruptível unida a um corpo corruptível, o homem morre, de acordo com Santo Tomás, por ter-se tornado naturalmente incapaz de manter-se no estado de justiça original em que operavam, sob o controle da razão, todas as faculdades de sua alma sem desordem alguma,[21] sendo nesse estado perfeita a ordenação da faculdade intelectiva da alma ao bem supremo, que é Deus. A desordem na vontade e o ofuscamento da razão começam com o pecado. Em suma, o homem tornou-se mortal porque, por sua livre vontade e com pleno entendimento – ou seja, moralmente –, escolheu o erro de querer para si uma falsa autonomia, buscando a felicidade longe da fonte perene de todos os bens possíveis e da própria vida (ou seja, Deus mesmo). Portanto, em certo sentido a morte não seria natural no homem, e o grande Doutor da Igreja salienta isso frisando que a alma racional, de acordo com a sua incorruptibilidade, está adaptada a seu fim específico, que é a bem-aventurança perpétua [22] — a permanência no Ser em grau excelente, sob a luz da glória. Na perspectiva teológica, vale lembrar que é na economia da salvação das almas e de sua recondução a Deus que se insere a encarnação do Verbo, pois é na pessoa do Cristo (que por união hipostática reúne em si as naturezas humana e divina, deificando a carne pela união com o Verbo) [23] que ao homem é dada a oportunidade de recuperar a possibilidade de re-unir-se a Criador.

Uma das dificuldades de abordar em filosofia, e mesmo em teologia, o tema da morte é que se trata do único evento na vida humana não suscetível de se transformar em experiência. Como bem frisara Aristóteles, das recordações nasce a experiência, e muitas recordações de uma mesma coisa chegam a constituir uma experiência.[24] Mas vale indagar: como poderíamos recordar de algo irrepetível, episódio ímpar que a cada um acontece apenas uma vez e, in actu exercito, põe fim à existência? O Padre Henrique de Lima Vaz salienta que duas coisas concorrem para qualquer tipo de conhecimento, e particularmente o filosófico: anámnesis (recordação) e nóesis (pensamento).[25] Por isso, a morte pode tão-somente ser pensada, testemunhada, observada, etc., mas nunca “experienciada, e isto faz dela um mistério para qualquer campo do conhecimento. Na melhor das hipóteses, o homem está condenado a ter um simulacro de experiência da morte a partir da que sobrevém aos seus semelhantes, mas não uma experiência do quid est da morte, de sua essência. Como frisa José Ignácio Murillo, a resposta ao enigma da morte acaba por se dar, em geral, no âmbito da religião.[26] Mas isto não implica dizer que a filosofia não possa dizer nada a respeito do fato inquestionável da finitude da vida. E o Aquinate o faz com grande competência.

Para Santo Tomás, a morte pode ser natural no tocante ao corpo, mas não com respeito à alma. Neste ponto, na tentativa de dimensionar o problema da morte como sendo em primeiro lugar a do corpo, lembremos o seguinte: ontologicamente, o mal físico que decorre da corrupção do corpo e faz o homem sofrer — e cujo grau máximo é a morte, com a conseqüente perda da forma substancial do corpo — não é a negação de um bem possível, mas a privação de um bem natural, isto é, de uma perfeição devida à natureza de determinado ente, como escreve Leonel Franca.[27] Por esta razão, não é um mal físico para uma pedra não ter pernas, pois naturalmente não as tem. Nela, não ter pernas é negação; mas no homem, perder a vida é privação de um bem específico integrante de sua natureza vivente.[28] Para Leonel Franca, a morte não entrou no mundo pela corruptibilidade intrínseca (e filosoficamente inquestionável) da matéria, mas por uma iniciativa infeliz do espírito, o qual perdeu o dom preternatural gratuito, próprio do estado de justiça original, de preservar o corpo da corrupção. “Não foi o corpo que fez pecar o espírito, mas o espírito que fez morrer o corpo”, diz Leonel Franca, citando uma frase conhecida de Étienne Gilson,[29] de nítida orientação tomista.

Com relação à incorruptibilidade da alma espiritual, em contraposição à corruptibilidade material do corpo, Santo Tomás demonstra-a de várias maneiras. Uma delas é a partir da premissa de que nenhuma coisa se corrompe exatamente naquilo em que se aperfeiçoa, porque as mudanças para a perfeição e para a corrupção são contrárias, e a alma humana se aperfeiçoa pela ciência e pela virtude[30], às quais tende por natureza e para as quais o corpo corruptível é apenas um instrumento; isto é um indício de sua incorruptibilidade ontológica. O filósofo medieval também argumenta, contra os que dizem que nenhuma operação pode permanecer na alma separada do corpo, que há operações da alma humana totalmente independentes, como a intelecção e a volição[31]. Para Santo Tomás, o intelecto apreende a coisa abstraindo as quididades sensíveis da matéria, que é princípio da individuação, o que não acontece com os sentidos, pois estes se referem às coisas particulares, e o intelecto alcança os universais pela abstração da matéria individual;[32] por exemplo: a inteligência logra o conceito universal de “homem” e de “cadeira”, enquanto os sentidos captam apenas este homem e esta cadeira. Da total imaterialidade destas duas operações da alma — o entendimento e a vontade —, o Aquinate acaba por conduzir-nos às substâncias separadas da matéria, os anjos.[33] Acerca da existência destas últimas, conclui ele que, se há algo imperfeito em algum gênero, haverá, antes dele, por prioridade de natureza, algo perfeito, pois o mais perfeito tem prioridade sobre o menos perfeito. No caso dos anjos ou substâncias separadas, a operação máxima — que é a intelecção direta das essências — não proviria dos sentidos materiais, pois os anjos não estão substancialmente unidos a nenhum corpo.[34]

Um conjunto de artigos da Suma contra os Gentios conduz à demonstração da incorruptibilidade das substâncias separadas a partir de várias premissas, como por exemplo do fato de serem tais substâncias subsistentes, pois assim como o sensível é objeto próprio dos sentidos, o inteligível é objeto do intelecto, e, num ente sem composição de matéria, como são os anjos, a inteligência não pode fenecer, dada a sua radical imaterialidade. Assinala Tomás de Aquino, neste contexto, que os sentidos podem corromper-se pela excelência do seu objeto, como acontece com o olho humano ao contemplar um objeto excessivamente luminoso; neste caso ele pode cegar. Entretanto, o intelecto jamais se corrompe pela excelência do objeto inteligível, mas, ao contrário, nele aperfeiçoa-se, pois o inteligível é a própria perfeição do intelecto.[35] E este é justamente o caso dos anjos, cujo intelecto tem certa conaturalidade com a essência de todas as coisas criadas.

Como a substância intelectual, no caso do homem, está unida ao corpo, alguns filósofos anteriores ao Aquinate pensaram que todas as operações da alma humana eram comuns às operações do corpo, ou então que a união corpo/alma não era substancial, mas acidental, como Platão nos induz a concluir com a famosa proposição de que a alma se encontra no corpo como o piloto em seu navio e, por isso, a alma apenas servir-se-ia do corpo como faz o piloto com o navio, no sentido de que este o conduz ao seu fim.[36]

Tem-se aqui um esboço sumário da doutrina tomista sobre a morte humana,[37] que parte de uma perspectiva teológica — a da morte como decorrência do pecado original — e se consuma na análise da estrutura ontológica da alma racional, em duas (dentre várias) obras em que Santo Tomás aborda o tema, com diferentes demonstrações acerca da impossibilidade de sua extinção, pelo fato de ser ela intrinsecamente incorruptível e subsistente. Em resumo, fomos criados para ser eternos, ou seja, para participar da eternidade de Deus, e perdemos tal prerrogativa pelo pecado. Por outro lado, mesmo com o advento do pecado, a nossa alma, por ser ontologicamente incorruptível, não pode morrer, não pode ser alijada do ser, a menos que Deus de potentia absoluta a aniquile. A questão é saber se o seu destino final será de beatitude ou de sofrimento eternos. A propósito, com relação ao fim da alma após a morte, Tomás aborda a questão em diferentes escritos, mas se trata de um assunto que faz parte de um tema que foge ao escopo deste breve artigo: o da escatologia.


[1] TOMÁS DE AQUINO, A unidade do intelecto contra os averroístas. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1999, p.155.

[2] LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Escritos de Filosofia I – Problemas de Fronteira. São Paulo: Edições Loyola, 1998, p. 37.

[3] Tardiloquum te esse iubeo et tarde ad locutorium accedentem. TOMÁS DE AQUINO – De modo studendi, § 3 (tradução para o português do filósofo Paulo Faitanin [UFF], em versão ainda não editada, gentilmente cedida pelo autor).

[4] ARISTÓTELES, Metafísica, I, 1, 980a., Madrid, Editorial Gredos, 1998, p.2.

[5] Suma Teológica, Biblioteca de Autores Cristianos (BAC). Internet: http://www.dominicos.org/biblioteca/suma/suma1.htm, p. 34 (acesso no dia 25/11/2004). Santiago Ramírez, em outra edição da Suma Teológica da BAC, de modo similar afirma que, na primeira parte da Suma, Tomás de Aquino apresenta Deus como é em si mesmo — uno em essência e trino em pessoas —, além de criador, conservador e governador de todas as coisas; na segunda parte investiga e analisa os meios adequados para conduzir as criaturas racionais e livres à posse do fim último e supremo que é Deus, assim como os obstáculos e tropeços que podem apartá-las desse ditoso fim; e, na terceira parte, assinala o caminho que leva a Deus, na pessoa do Cristo. Vide TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Salamanca, Espanha: Biblioteca de Autores Cristianos, 1947, Introdução, p.2-3.

[6] Suma Teológica, IªIIª, q. 1. a. 1, Resp.; Suma Teológica, IªIIª, q. 6. a. 1., Resp.

[7] Suma Teológica, IªIIª, q. 9. a. 1. Para Tomás de Aquino, no tocante às suas operações, a vontade, que ontologicamente é perfeita para querer sempre o bem, pode dizer-se imperfeita quando a razão, que a alimenta, está em erro e leva o agente a inclinar-se a um bem (ou falso bem) que lhe seja impróprio (“Praecedit igitur in voluntate peccatum accionis defectus ordinis ad rationem”, Suma Contra os Gentios, III, Cap. 10, 9).

[8] Suma Contra os Gentios, III, Cap. X, 6.

[9] Suma Teológica, I, q. 64. a. 2, Resp.

[10]Suma Teológica, IªIIª, q. 4. a. 4. . Ressalve-se que, embora necessária à beatitude ou bem-aventurança, a reta vontade é apenas um ponto de partida, pois, para Santo Tomás, a bem-aventurança é uma operação da parte intelectiva da alma humana, porque, após alcançá-la, a vontade repousa e como que pára de querer, pois se move buscando o fim somente quando este não está presente. Assim, a essência da bem-aventurança consiste em um ato do entendimento (Suma Teológica, IªIIº q. 3. a. 4), quando a vontade gozosa descansa no fim já conseguido. A infelicidade máxima, em contrapartida, seria a impossibilidade formal de alcançar a bem-aventurança, caso dos demônios e dos condenados à pena eterna, que tanto mais sofrem porque neles ainda permanece a inclinação natural à virtude e o desejo de beatitude. Trata-se do apetite racional do bem associado à impossibilidade de alcançá-lo.Vide Suma Teológica, IªIIº q. 85. a. 2, Ad.3.

[11] Suma Teológica, I, q. 94. a. 3, Resp..

[12] Ao longo da Prima Secundae da Suma, há uma explicação circunstanciada das causas que desembocam no “ato livre”: a razão é causa formal do ato livre humano, enquanto as paixões do apetite sensível influem sobre a maneira pela qual o objeto se apresenta à vontade. Por fim, a vontade é movida em função do fim que persegue, que é a beatitude perfeita, o bem supremo que é Deus. Vide. TORREL. Jean-Pierre, OP. Iniciação a Santo Tomás de Aquino — sua pessoa e sua obra. São Paulo: Edições Loyola. 2004, p. 285.

[13] Suma Teológica, I, q. 94. a. 4.

[13] Suma Teológica, IªIIª, q. 4. a. 4.

[14] Suma Teológica, I, q. 48 a. 6.

[15] Há um consenso entre pensadores de orientação tomista de que as paixões diminuem a liberdade humana, pelo ofuscamento da razão, embora os atos continuem sendo voluntários. Neste sentido se pode dizer que o ato propriamente humano (voluntário e racional) pode não se dar em sua perfeição, por impedimentos próximos ou remotos. Os impedimentos próximos seriam: a) cognoscitivos (ignorância, inadvertência, erro e esquecimento); b) volitivos (concupiscência, medo, paixões e hábitos); c) executivos (violência). Já os impedimentos remotos seriam: a) naturais (temperamento, caráter, herança, idade e sexo) b) patológicos (neurastenia, histeria e epilepsia, etc.); c) sociológicos (educação, ambiente social, etc.). MARIN, Antonio Royo. Teología moral para seglares. Madrid: Biblioteca de autores cristianos (BAC), 1957, p. 49-65.

[16] Como a culpa consiste em um ato desordenado da vontade, e a pena, na privação de algumas das coisas de que a vontade se utiliza para operar, Santo Tomás diz que a culpa tem maior razão de mal do que a pena, sendo esta uma determinada privação da graça e da glória. Suma Teológica, I, q. 48 a. 6.

[17] TOMÁS DE AQUINO, A unidade do intelecto contra os averroístas. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1999, p.47; e ARISTÓTELES, De anima, II, 1, 412 b.

[18] Para Santo Tomás, nas processões divinas, tudo o que procede do Verbo se chama geração. Mas ele adverte que usa o termo em dois sentidos: no primeiro, trata-se da passagem de algo do não-ser ao ser, chamada criação; no segundo, trata-se da origem de um ser vivente a partir do seu princípio vital e de movimento. A este último tipo de geração, dá o nome de nascimento. (Sciendum est quod nomine generationis dupliciter utimur. Uno modo, communiter ad omnia generabilia et corruptibilia, et sic generatio nihil aliud est quam mutatio de non esse ad esse. Alio modo, proprie in viventibus, et sic generatio significat originem alicuius viventis a principio vivente coniuncto. Et haec proprie dicitur nativitas, Suma Teológica, I, q. 27. a. 2. Resp.).

[19] Suma Teológica, I, q. 90. a. 2. Resp.(“Respondeo dicendum quod anima rationalis non potest fieri nisi per creationem”).

[20] Suma Teológica, I, q. 90. a. 4. (Anima autem, cum sit pars humanae naturae, non habet naturalem perfectionem nisi secundum quod est corpori unita. Unde non fuisset conveniens animam sine corpore creari.). O Aquinate ressalta que, sendo o homem um composto de forma e matéria, no qual a alma é (única) forma substancial, a alma humana só será perfeita quando unida ao corpo, embora possa subsistir de modo imperfeito sem ele, por ser incorruptível. Por esta razão, não seria congruente que a alma fosse criada antes do corpo, mas juntamente com ele, porque Deus cria tudo sempre visando à perfeição. Ela não recebe o existir antes de estar unida ao corpo (Non igitur competit naturae ordini quod anima fuerit prius creata a corpore exuta, quan corpori unita, Suma Contra os Gentios, II, Cap. 83, 1660).

[21] Suma Teológica, IªIIª, q. 85. a. 5. (“...per peccatum primi parentis sublata est originalis iustitia, per quam non solum inferiores animae vires continebantur sub ratione absque omni deordinatione, sed totum corpus continebatur sub anima absque omni defectu, ut in primo habitum est”).

[22] Suma Teológica, III, q. 2. a. 2. Ad. 3.

[23] Suma Teológica, I, q. 48 a. 6.

[24] ARISTÓTELES, Metafísica., I, 1, 981ª.

[25] “A filosofia assume como tarefa pensar tematicamente o seu próprio passado — unir anámnesis e nóesis — e nesta rememoração pensante, reinventar os problemas que lhe deram origem”. PERINE, Marcelo (Org.). Diálogos com a cultura contemporânea – homenagem ao Pde. Henrique C. de Lima Vaz, S. São Paulo. Edições Loyola, 2003, p. 66.

[26] MURILLO, José Ignácio. El valor revelador de la muerte – estudio desde Santo Tomás de Aquino. Navarra, Espanha: Cuadernos de Anuario Filosófico de la Universidad de Navarra. 1999, p.13.

[27] FRANCA, Leonel. A psicologia da fé – O problema de Deus. São Paulo, Edições Loyola, 2001, p.316.

[28] “La naturaleza (...) no es otra cosa que la realidad irreductible de algo, en cuanto principio de actividad. En el caso del hombre, la naturaleza es la unión de un alma espiritual con un cuerpo que necesita para llevar a cabo su actividad propia, entender”. MURILLO, José Ignácio. Op. Cit., p.55.

[29] FRANCA, Leonel. Op. Cit. P. 327.

[30] Suma Contra os Gentios, II, Cap. 79, 1599.

[31] Suma Contra os Gentios, II, Cap. 79, 1624.

[32] Suma Contra os Gentios, II, Cap. 82, 1641 e 1642.

[33] Suma Contra os Gentios, II, Cap. 91.

[34] Suma Contra os Gentios, II, Cap. 96, 1812.

[35] TOMÁS DE AQUINO, Suma contra os Gentios, II, cap. 55, 1306-1307.

[36] No artigo intitulado “Tese de Platão sobre a união da alma intelectiva com o corpo” (Positio platonis de unione animae intelectualis ad corpus), na Suma Contra os Gentios (II, 57, 1326), Santo Tomás cita ad tertium a tese de Platão de que a alma está no corpo como o marinheiro no navio, concluindo que, sendo assim, a união de ambos se daria por um contato apenas virtual, mas não substancial. Cumpre observar, contudo, que não obstante esta fundamental diferença ontológica, que resultará em teses diametralmente opostas, como a de que a alma é mais perfeita e conhece melhor quando despojada do corpo (Platão), e a de que a alma humana, sem o corpo, subsiste de modo imperfeito (Santo Tomás), há aproximações entre os dois filósofos. Uma delas consiste na tese — desenvolvida n’A República — de que os males próprios de cada ente os corrompe. Mas, no caso da alma humana, o seu mal, que é o vício, por maior que seja, não a destrói nem a corrompe, pois, mesmo na maldade, a alma continua a existir. Por isto, se a alma não pode ser destruída pelo mal do corpo, que lhe é totalmente alheio, nem pelo seu próprio mal, que é o vício, ela será, portanto, indestrutível. Ver, PLATÃO, A República, 610-611a.

[37] Com respeito à morte dos animais irracionais, o ponto de vista de Santo Tomás é totalmente diverso, pois a alma deles, para o Angélico, não sendo capaz de efetivar nenhuma operação sem a intermediação de algum órgão corporal, é necessariamente, mortal, e se extingue juntamente com o próprio corpo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ajuda ao Prof. Angueth

Sidney Silveira

O Prof. Angueth, querido amigo, professor católico de Belo Horizonte — que tive a alegria de conhecer pessoalmente no ano passado, quando estive em BH a convite do pessoal do Index Bonorvm —, sofreu um acidente doméstico e está com problemas quanto a uma cama hospitalar, que não encontra. Aos que puderem ajudar, favor responder ao e-mail que se segue:

Deus lhes pague.

“No dia 26 de dezembro o meu marido caiu na garagem de casa e machucou os dois joelhos. Por ser obeso, cerca de 160Kg, e muito grande, com 1,90m, precisei chamar o RESGATE para levá-lo a um atendimento de emergência. Como os joelhos estavam muito inchados, não foi possível diagnosticar o problema e retornamos para casa de ambulância. Somente um mês depois, após varias sessões de fisioterapia, conseguimos tirá-lo do quarto para levá-lo à consulta de retorno. Todo esse processo foi muito custoso, uma vez que é necessário descer uma escada para sair de casa. Constatou-se então o rompimento total dos tendões do quadríceps de ambos os joelhos.

Ao retornamos para casa ele caiu novamente e, mais uma vez, foi necessário chamar o RESGATE para levá-lo ao hospital. Desta vez, ele foi internado e submetido a uma cirurgia reparadora de urgência com sucesso. Agora ele passará de seis a oito semanas com os dois joelhos imobilizados, ou seja, com as longas pernas completamente esticadas. Por causa de suas medidas muito acima do normal, estou com uma dificuldade: PRECISO ALUGAR UMA CAMA HOSPITALAR MOTORIZADA.

Somente uma cama que possa subir em altura proporcionará condições, com conforto e segurança, para que ele possa ficar de pé e, assim, andar com auxilio de um andador. Isso facilitaria muito na realização das necessidades básicas do dia-a-dia. Infelizmente, já pesquisamos em todas as lojas do ramo, em Belo Horizonte, e não encontramos uma cama adequada.

Faço um apelo a quem possa me ajudar nesse sentido, que entre em contato comigo. Por favor, repasse esse e-mail para outras pessoas. Agradeço antecipadamente em meu nome e em nome de meu marido,

Ângela Maciel”

(atelie.angela.maciel@gmail.com)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A tratégia em Friburgo: Sermão de D. Tomás de Aquino, prior do Mosteiro da Santa Cruz

Carlos Nougué

Concordo integralmente com as palavras do Sermão abaixo.

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PAX

III DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – 2011
APÓS AS GRANDES CHUVAS QUE SE ABATERAM SOBRE NOVA FRIBURGO



Nesta tragédia que se abateu sobre nossa cidade, nós devemos procurar a causa do mal, de tal maneira que possamos evitar uma nova calamidade. Mas, objetarão alguns: como evitar no futuro o que é obra do acaso? Como evitar aquilo que não é senão o efeito das forças naturais? Quem é dono do acaso? Quem é dono dos ventos, das chuvas e de todas as coisas?

A pergunta por si só nos dá a resposta.

O dono de todas as coisas é Deus. O autor das leis da natureza é Deus. O acaso pode ser acaso para nós, mas não para Deus, pois tudo está em suas mãos. “Todas as coisas, Senhor, dependem de vossa vontade e nada há que vos possa resistir” canta a Santa Igreja no Intróito da missa do XXIº Domingo depois de Pentecostes. Tudo está nas mãos de Deus e nem uma folha, nem uma gota, nem um fio de cabelo cai sem sua permissão, pois Deus governa todos os seres, dos maiores aos menores e nada, absolutamente nada, escapa ao seu governo.

Mas alguns poderão ainda dizer: “Não foi Deus; foi o demônio!”

Assim como no caso de Jó, foi o demônio que causou todas as desgraças que caíram sobre Jó, e, em particular, que fez desabar a casa onde estavam os seus filhos e nenhum deles escapou. Esta objeção não é comum hoje em dia, mas merece uma resposta. Jó, ao ter notícia deste acontecimento, ficou muito aflito, rasgou suas vestes, como era costume no Oriente, raspou a cabeça, prostrou-se por terra, adorou o Senhor e disse:

“O Senhor o deu, o Senhor o tirou.”

Jó não diz: “O Senhor me deu e o demônio me tirou.” Mesmo se o demônio é que fez desabar a casa, Jó sabe que nada, absolutamente nada, acontece sem a permissão de Deus.

Por isto, ele acrescenta: “Como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu; bendito seja o nome do Senhor.” Mas tendo visto que todos os acontecimentos estão sob o governo de Deus, que permite uns e realiza outros, procuremos a causa destes mesmos acontecimentos. Qual é a razão dos flagelos, das tragédias, dos sofrimentos, quer venham das forças naturais, quer do demônio, quer dos homens diretamente? No caso de Jó, a razão da permissão divina era a de aumentar a santidade de Jó. No caso de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós, a causa da permissão divina era a nossa Redenção. No caso de Nova Friburgo, qual é ela? Interroguemos a Revelação, que se exprime pela Tradição e pelas Sagradas Escrituras.

A Tradição encontra sua principal expressão na Santa Liturgia. É a ela, primeiramente, que vamos recorrer.

A Tradição se encontra também nos escritos e vida dos Santos, especialmente dos Santos Doutores. Vamos, pois, dividir nosso sermão em três pontos:

O que diz a Santa Liturgia.
O que dizem as Escrituras.
O que vemos na vida dos Santos.

1º ponto.

O que diz a Santa Liturgia. Numa das orações do missal que devem ser ditas por ocasião de um terremoto nós lemos: “por vossa misericórdia firmai a terra que vemos tremer sob o peso de nossas iniqüidades, a fim de que os mortais saibam que tais flagelos são castigo de vossa mão e a sua cessação o efeito de vossa misericórdia.”

Logo, todos os mortais, todos nós, somos avisados por este texto de que tais flagelos são um castigo das mãos de Deus. Na oração para pedir o bom tempo, a Santa Igreja reza dizendo: “...Concedei-nos bom tempo, a fim de que, punidos justamente pelos nossos pecados, possamos sentir, por vossa misericórdia, os efeitos de vossa clemência.”

“Punidos justamente pelos nossos pecados.”

Eis aí o que a Tradição nos ensina pela Santa Liturgia, que é, ela mesma, uma regra segura de nossa Fé, pois a regra da oração é a regra do que devemos crer. Passemos ao segundo ponto de nosso sermão ou segunda fonte de nossa investigação que são as Sagradas Escrituras.

2º ponto.

Que dizem os autores sagrados? Que nos revela Deus nos livros inspirados? “A terra será maldita por tua causa” diz Deus a Adão. E por quê? Por causa do pecado de desobediência de Adão. A terra abriu a sua boca e recebeu da tua mão o sangue de teu irmão. Quando a cultivares, ela não te dará os seus frutos.” disse Deus a Caim. E por quê? Porque Caim matou o seu próprio irmão, Abel. “Exterminarei da face da terra o homem que criei.” disse Deus antes do dilúvio. “Tudo o que há sobre a terra será consumido.” E por qual razão? Por causa do pecado dos homens. Sempre a mesma causa.

O pecado merece uma pena e onde há pena é porque houve um pecado, mesmo se a pena é sofrida por outro, como o foi na nossa Redenção, na qual Nosso Senhor tomou sobre si a pena de nossos pecados. Mas continuemos:

“Maldito seja Canaã; ele será escravo dos escravos de seus irmãos.” diz Noé. E por quê? Porque Cam pecou contra o mandamento de honrar pai e mãe. “Faze sair desta cidade todos que te pertencem, dizem os anjos a Lot, porque nós vamos destruir este lugar”, a saber, Sodoma e Gomorra. E por qual razão?

São os anjos mesmo que nos explicam:

“Visto que, dizem eles, o clamor de seus crimes aumentou diante do Senhor, O qual nos enviou para os exterminar.” E foi o que aconteceu. Sodoma e Gomorra foram consumidas pelo fogo e só escaparam Lot com suas duas filhas. Qual era o pecado de Sodoma e Gomorra? O homossexualismo.

Dez pragas caíram sobre a terra do Egito devastando tudo e desolando todo o país, no tempo de Moisés. Qual foi a causa? A obstinação do Faraó. Trinta mil homens pereceram em combate contra um inimigo muito inferior, no tempo de Josué. Qual foi a causa? Foi o pecado de um só homem. Um pecado de desobediência e de avareza. O pecado de Acham, que tomou para si o que Deus dissera para ser destruído, escondendo ouro e prata tomada ao inimigo contra a ordem dada por Josué daparte de Deus.

Assim vemos que tanto os flagelos naturais como o dilúvio, as pragas do Egito, a destruição de Sodoma e Gomorra têm por causa os pecados dos homens. O mesmo se vê no caso de Nínive, cuja destruição foi predita pelo profeta Jonas e que devido à conversão e penitência de seus habitantes foi finalmente poupada.

Mas alguns dirão: Isto era no Antigo Testamento. No Novo Testamento, na Nova Lei, na lei da caridade isto não acontece mais. Grave engano. A caridade consiste em amar o bem e não em tolerar o mal, acabando por aprová-lo. Pensar que Deus substituiu a pena pelo perdão sem exigir a conversão é um grande engano. É uma verdadeira heresia.

Deus abrandou o peso de sua mão, mas com uma condição: a conversão. A Nova Lei não se caracteriza pela facilidade, mas pela caridade, o que é bem diferente. Por acaso foi fácil a vida dos cristãos nos primeiros séculos? Nos tempos de perseguição dos imperadores romanos?

Fácil sim, mas pela caridade, pois “quem ama não pena e se pena, ama a sua pena.” Fácil, mas não como o mundo entende a facilidade. Fácil por causa do ardor da caridade, que é bem diferente da facilidade que o mundo deseja. A Nova Lei se caracteriza pelo amor, mas o amor da cruz. A grande diferença entre a Lei Antiga e a Nova Lei está na maior abundância da graça divina e, portanto, numa maior santidade dos verdadeiros católicos. Pensar que a Nova Lei se caracteriza pela falta de punição dos pecados cometidos pelos homens é um grave equívoco.

Mas para dar um exemplo concreto tirado dos tempos da Nova Lei eis o que lemos na vida de Santo Afonso de Ligório, Doutor da Igreja, no século XVIII. Assim passamos ao terceiro ponto.

3º ponto.

Conta-se que no ano de 1779 a cidade de Nocera padecia as conseqüências de uma prolongada seca que, se se prolongasse, destruiria todas as colheitas e deixaria a população da cidade e dos arredores sem alimentos. Santo Afonso, diante daquela calamidade, deplorava os pecados do povo que, diz o seu biógrafo, são a causa destes flagelos. Por esta razão, no domingo 15 de maio daquele ano de 1779 Santo Afonso empreendeu uma procissão de penitência para abrandar a cólera divina.

Revestiu-se de seus hábitos roxos, cobriu-se de cinzas e com a corda no pescoço, dirigiu-se com seus religiosos para a matriz a fim de lá levantar uma grande cruz. Toda a cidade assistiu a essa comovente cerimônia. O Santo ancião quis aproveitar da ocasião para exortar os pecadores ao arrependimento. Por mais de uma hora o santo invectivou contra o pecado mortal, que não só ofende a Deus, mas também atrai sobre uma população inteira os mais terríveis castigos.

Eis aí, mais uma vez, afirmado que as calamidades têm por causa os pecados dos homens. E se alguém disser que Santo Afonso é um caso isolado, então se lembre que Nosso Senhor chorou sobre Jerusalém e predisse a sua ruína, que se deu no ano 70 da nossa era, na era da Nova Lei.

Não ficou pedra sobre pedra na cidade de Jerusalém e algumas mães comeram seus próprios filhos durante o cerco da cidade, tal a desolação e desespero da população. Só mesmo os cegos e obcecados podem negar que Deus pune já na terra os pecados dos homens. Para uns já é o início das penas do inferno, mas, habitualmente, são avisos de Deus para que os homens se convertam.

Por esta razão, eu convido para, durante três dias, fazermos uma procissão de penitência. Ela sairá hoje do mosteiro às 15h rumo à capela São Miguel e voltará até o mosteiro.

Iremos cantando a ladainha de todos os Santos e rezando o terço. Amanhã e terça-feira ela sairá do mosteiro após a missa das 6h30 e fará o mesmo percurso. É pela oração e a penitência que nós podemos obter o perdão de nossos pecados e obter para Nova Friburgo a proteção divina. Quantos pecados dos quais nós mesmos nos tornamos culpados! Quantos pecados, além dos nossos, que mancham nossa cidade, que seria inútil fazer a lista aqui.

Lembremos apenas que não falta em nossa cidade nem o pecado de Caim nem o de Sodoma e Gomorra, nem o dos judeus que abandonaram Nosso Senhor e tiveram sua capital destruída pelos romanos. Pecados contra a Fé, pecados contra a caridade, pecados contra a castidade, pecados contra Deus, o próximo e contra si mesmo.

Triste ladainha, à qual temos que opor nossos sacrifícios e nossas orações. Toda oração bem feita é atendida. É ela, sobretudo, que pode nos obter o perdão e salvação do flagelo muito maior do que aconteceu em nossa cidade. Muito pior do que esta inundação é a morte eterna das almas, é o mar de fogo do inferno.

Rezemos, pois, primeiramente pela nossa própria conversão, pedindo as graças divinas, as virtudes e os dons sobrenaturais. E peçamos com humildade, confiança e perseverança. Que estes acontecimentos despertem em nós o zelo pela glória de Deus, pela santificação pessoal e pela conversão de nosso próximo.

Quantas almas, nessa confusão gerada por essa calamidade, permanecem sem saber a razão deste acontecimento. Quem entende que tais flagelos, como diz a Santa Igreja nas suas orações, são castigos das mãos de Deus?

Mas, como diz uma das orações do Missal Romano. “Convertei, Senhor, os flagelos de vossa ira em remédios de salvação.” Todos aqueles que foram ajudar os acidentados sentiram a verdade dessas palavras. Os flagelos, Deus os converte em remédios. “Deus só permite o mal porque Ele é bastante poderoso e misericordioso para do mal tirar um bem maior.”

Que a vossa caridade continue a socorrer os acidentados materialmente e espiritualmente. Para isto, convidamos a todos que puderem, a participar desta procissão de penitência e oração, pois é de Deus, antes de tudo, que devemos esperar a cessação de nossos males, sobretudo a cessação do mal supremo que é o pecado.

Nem o exército, nem a prefeitura, nem o auxílio, aliás tão precioso, dos tratoristas e dos voluntários pode fazer cessarem os flagelos. Só Deus pode fazê-lo. Só Deus governa os elementos, as forças da natureza. Devemos, pois, recorrer a Ele em primeiro lugar para que Ele converta os flagelos de sua ira em remédios de salvação, através da conversão desta cidade ao verdadeiro e único Senhor Jesus Cristo e à sua Mãe Santíssima, isto é, devemos pedir a conversão da população de Nova Friburgo à Santa Igreja Católica em sua verdadeira Tradição recebida dos Apóstolos e defendida por Dom Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer e conservada pelos Bispos da Fraternidade São Pio X e por todos aqueles que têm o verdadeiro zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas.

Que Nossa Senhora escute nossas orações e nos obtenha o que esperamos de sua bondade e de sua misericórdia.

Assim seja.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O óbvio ululante

Sidney Silveira
Quando eu disse, noutro texto, que só mesmo um milagre extraordinário poderia curar a Igreja da metástase modernista em que jaz, e que até o ponto que a vista humana alcança só poderíamos esperar a multiplicação de escândalos doutrinais, pastorais, morais/sexuais, etc., referia-me a coisas como esta. É daí para muito pior, para tristeza nossa...