terça-feira, 14 de julho de 2015

Dos delitos contra a amizade: a ingratidão


Sidney Silveira

A ingratidão é o atestado de óbito da amizade por lesão gravíssima, seja qual for o grau de intencionalidade com que é levada a cabo: da fraqueza moral chamada comumente de “covardia” à cegueira da mente pura e simples — por cujo intermédio os benefícios recebidos vão esmaecendo, vão desaparecendo de maneira culpável da consciência do ingrato. Para este, o esquecimento mais ou menos voluntário dos bens com os quais foi aquinhoado serve de ferramenta para as mais sofisticadas autojustificativas, maligna indulgência relativa ao seu imoral proceder. Trata-se de muletas psíquicas pelas quais uma pessoa tenta desculpar-se a si própria e acaba por inculpar a quem lhe fez o bem. Como se pode adivinhar, o fim da carreira do ingrato é se transformar num mau-caráter de estrita observância.

À luz do que se disse acima, é importante prestar atenção a um detalhe: não é que o ingrato deixe de enxergar os benefícios auferidos nalgum momento de sua relação com um amigo, mas tende a minimizá-los acalentando a imagem de que ou não eram tão excelentes, ou de alguma maneira já estavam devidamente retribuídos. Esta radical incapacidade de ajuizar objetivamente os bens permutados numa amizade faz da ingratidão um pecado contra a ordem da justiça, ars boni et aequi. Na prática, o ingrato tende a desespiritualizar a amizade e sucumbe a diferentes tipos de materialismo, em geral camuflados. A propósito, não nos custa lembrar que Judas Iscariotes, o ingrato-mor, era administrador da bolsa comum dos apóstolos.

O ingrato não emerge do nada, nem surge por partenogênese. No Brasil contemporâneo — no qual a ingratidão é multitudinária —, não me parece ocioso lembrar que ninguém dorme São João e acorda Stalin: o ingrato começa a se desencaminhar a partir de mecanismos sutis que, aos poucos, o levam a perder o senso de proporções, a enfraquecer a capacidade de aquilatar a hierarquia de bens e males que há na realidade. O nutriente básico desta sua atitude desagradecida é um secreto complexo de inferioridade moral, permeado da conseqüente sensação errônea de ser injustiçado porque imagina dar mais do que recebe. Como se vê, o ingrato é péssimo psicólogo e instintivamente propenso a se aproximar dos medíocres. Propenso a tornar-se medíocre. Um escolástico diria que o pecado capital da acídia o fez recusar a excelência.

Outra nota distintiva do caráter do ingrato é a eriçada susceptibilidade, capaz de fazê-lo, por exemplo, jogar fora uma amizade por circunstâncias provenientes das mazelas humanas. Em síntese, ele é implacável nas miudezas e relapso nas coisas mais importantes; não por outro motivo, uma palavra dita em qualquer contexto um pouco mais tenso pode fazer esta criatura gelatinosa sentir-se mortalmente atingida, razão pela qual quem lida com gente assim não pode esquecer as luvas de pelica para o trato habitual. Ora, em vista desta invencível prontidão para se ofender, compreende-se porque o ingrato é, o mais das vezes, vingativo. Ou melhor, é o vingador das ofensas imaginárias ou superdimensionadas que o desequilibram, e este seu obscuro universo onírico é o samsara do qual não consegue livrar-se. Não exageraria quem dissesse o seguinte: o ingrato tem morte psíquica ao apaixonar-se pela própria dor.

Vale ainda dizer que o arrependimento não é algo normalmente observável nas pessoas ingratas. Por quê? Bem, a explicação é simples: arrepender-se, e por conseguinte pedir perdão, implicaria extirpar os mecanismos de autovitimização com os quais o ingrato alimenta a sua alma. Seria, literalmente, curar-se. Ocorre que o vetor moral do ingrato é no sentido do remorso, realidade psíquica distinta — em gênero — do arrependimento. Em breves palavras, digamos que ao remordido de consciência falta a coragem de ir às causas do seu dramático estado; ele se condói porque os efeitos de alguma maneira o atingem. Por sua vez, o arrependido abre os olhos para as causas e busca removê-las, suportando com grande dificuldade a dor de contemplá-las. A dor de um mata; a dor de outro cura.

É atribuída a Alexandre Dumas a seguinte frase: “Grandes favores só podem ser pagos com a ingratidão”. Ela reflete, de maneira perfeita, o complexo de inferioridade moral que carcome a alma do ingrato, ao qual se fez alusão acima.

Não recorramos a circunlóquios e encerremos este breve texto sem dar margem a dúvidas de nenhum tipo: o ingrato é, sim, covarde, e a sua covardia é uma picada de escorpião.