segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O desamor como meta


À memória de Farias Brito.
Sidney Silveira
O amor é o êxodo da vontade em direção a um bem — atual ou potencial. Noutros termos, as coisas amáveis ou são reais ou são possíveis. Expliquemo-nos melhor: ou são reais por existirem de fato e se apresentarem a uma inteligência que as assimila e a uma vontade que as apetece, ou são possíveis no sentido de que, embora ainda não existentes, são bondades perfeitamente engendráveis em dado contexto. Com relação a estas últimas, dizia Duns Scot que Deus ama as coisas possíveis com amor ineficaz, porém amor. Em síntese, como o Absoluto que encerra em si todas as possibilidades da ordem do ser, pois nada é possível fora d’Ele, Deus estende o Seu amor às coisas que não criou, mas poderia ter criado, se quisesse. Analogamente, o homem ama o que vislumbra como possibilidade boa para si; como caminho de vida ainda não percorrido.

A propósito, o amor humano tem esta peculiaridade de atravessar o tempo. Projetado ao passado, chama-se entre nós saudade ou nostalgia; vertido ao futuro, aspiração ou desejo; atualizado no presente, felicidade ou alegria. Esta tridimensionalidade temporal do amor apóia-se, é claro, num agora. Mas não em qualquer agora: trata-se do presente que se espraia qualitativamente ao que foi e ao que será — numa imitação metafísica da eternidade. Em suma, eterno é o instante perene no qual a inteligência possui todos os bens num só ato, se seguirmos de perto a Boécio, para quem a eternidade é a posse total, completa e simultânea da vida interminável. Em certo sentido, o amor faz-nos eternos na finitude, ou seja, por ele transcendemos às efemérides, às coisas passageiras, na medida em que traz à duração da nossa vida o signo de algo situado para muito além dela. Amar é perdurar conscientemente no bem; isto por si pressupõe ultrapassarmos o aqui e agora.

Em contrapartida, quanto menos uma pessoa ama, mais dramaticamente arrojada ao presente e às coisas imediatas está. Já não se trata do presente acima aludido, pletórico e transbordante, do êxtase amoroso, mas do presente como cárcere da vontade, estupefaciente e pegajoso. Não amar é certa agonia começada, porém não de todo manifesta, espécie de cancro que rói as entranhas silenciosamente e só dá sinais dos seus efeitos deletérios quando se aproxima a metástase. O desamor tem o pervertido condão de distrair uma pessoa das coisas mais importantes, fixá-la em futilidades, fazê-la cobiçar o banal. Ora, se a alma está narcotizada por vilezas, o tempo transforma-se numa sucessão de fatos mal percebidos e, com isto, a pessoa perde o sentido de sua própria história de vida. E também a daqueles a quem poderia amar.

Não é errôneo dizer que o tempo perde em qualidade para quem não ama, pois a vida humana não é cronologia pura e simples, como se a nossa inteligência fosse o receptáculo passivo das coisas que presencia; neste caso nenhum homem teria a percepção do próprio “eu”, não identificaria os seus atos conscientes no decorrer do tempo. Ao contrário, é a cronologia que ganha inteligibilidade graças à inteligência e à vontade — e no amor essas duas potências da alma alcançam o ápice de suas possibilidades. Justamente por este motivo a felicidade perfeita é, de acordo com Santo Tomás de Aquino, um ato da inteligência elevada ao sumo inteligível, Deus, mas irmanada à vontade, que não pode não aderir a tamanho esplendor, quando o percebe sem nenhuma possibilidade de erro deliberativo. A isto os teólogos chamam de “confirmação na glória” ou “impecabilidade dos bem-aventurados”.

Quanto mais se eleva às causas primeiras, mais entranhado o conhecimento está de amor. De mesma maneira, amar uma pessoa pressupõe ir muito além do momento presente dela. É conhecer-lhe biografia, as dores que padeceu, as alegrias que viveu, o vetor predominante de sua vida espiritual, as aspirações nas quais se compraz. O amor cresce nesse ir ao íntimo, nessa troca de experiências profundamente vividas, no decurso das quais os olhos da alma se mantêm em estado de salutar tensão e de atenção máxima. Não é possível amar o que se conhece mal, e por esta razão a excelência à qual o homem é chamado só se logra no ato de plenitude amorosa. Benevolência e concupiscência estão juntas nessa entrega que dá sentido à vida.

Diferentemente do que o hedonismo contemporâneo alcança perceber, a felicidade não é a sucessão de agoras gozosos — ao modo de adição dos momentos de prazer —, mas um agora amoroso, denso, que se torna a raiz primária de todos os deleites presentes transportados também ao passado e ao futuro. Daí dizer-se que a felicidade é um estado, e não um ato ou a soma de atos. Mas tudo isso se se levar em conta o que dissemos no começo deste breve texto: o amor pressupõe a atualidade do real ou uma possibilidade real

Olhemos agora para o avesso de tudo isso: amar o irreal ou o impossível é típico das personalidades neuróticas, a maneira mais insidiosa de auto-sabotagem com que uma pessoa pode ferir-se aos poucos. E, para desgraça nossa, ter esse tipo de desamor como meta é o delírio tenaz que acossa a contemporaneidade.

Uma contemporaneidade espiritualmente mutilada, desprovida do vínculo metafísico com Deus, o que torna o mundo sem finalidade tangível.