terça-feira, 8 de outubro de 2013

A lógica, arte serviçal da inteligência humana


Sidney Silveira
Qualquer ente de razão e qualquer raciocínio têm a ver com a propriedade comum e primeira na qual todos eles se fundam: a universalidade — fruto do processo de abstração da matéria individuada, característico do modo humano de conhecer. E a universalidade, como diz o Pe. Álvaro Calderón na densa obra Los Umbrales de la Filosofía, não é outra coisa senão a relação da qüididade de uma coisa abstraída pelo intelecto com respeito à totalidade dos indivíduos em que se dá. É uma relação de entes de razão — e, portanto, entes imateriais, como o próprio conceito de totalidade nos aponta. Assim, por exemplo, a humanidade só existe no intelecto, ou seja, como propriedade comum abstraída dos homens reais. Deixemos por ora as aporias nominalistas, que perfazem um capítulo à parte.

Em qualquer lógica, da antiga aristotélica às mais modernas, não existe raciocínio em sentido próprio que não labore com conceitos universais, ainda quando o lógico os tente negar na raiz. Sempre se tratará, em última instância, de relações de universalidade de uns conceitos a outros, desde a definição, que explica a qüididade dividindo os aspectos essenciais mais gerais até as diferenças específicas da coisa. Não há, em síntese, constructo intelectual que não esteja entretecido por essas relações de universalidade, como aponta com argúcia o Pe. Calderón na pequena obra-prima acima mencionada.

Aqui é preciso dizer, com João de Santo Tomás, que universalidade como noção lógica não é a mesma coisa que universalidade como propriedade real dos conceitos. Os medievais as distinguiram bem: uma é universalidade lógica em sentido próprio, ao passo que a outra é universalidade metafísica. A primeira vai de conceito a conceitos, a segunda tem fundamento nas coisas reais, das quais os conceitos direta ou indiretamente derivam. Diz Calderón: “O lógico refere-se à universalidade como propriedade dos conceitos, sejam genéricos ou específicos”; o metafísico, por sua vez, se refere à propriedade da qüididade pela qual “homem” se diz de Pedro, Antônio ou Sérgio, fundando-se sempre em aspectos essenciais dos seus atos de ser.

O homem entende as coisas logicamente, ou seja, raciocinando, montando relações entre conceitos a partir de coisas e extraindo, sempre progressivamente, o sumo do real.  Uma compreensão ilógica da realidade, ou alógica, só pode ser dita “humana” de maneira equívoca. Veja-se que não estamos aqui a falar de intuição das essências, pois este é outro problema gnosiológico — bastante acentuado no começo do século XX com Husserl —, mas sim de deficiências no ato raciocinante propriamente dito, como quando por exemplo se deduzem as conclusões de premissas errôneas ou mal ordenadas entre si.

Diz Santo Tomás no Comentário aos Analíticos Posteriores que a lógica é “arte diretiva dos atos próprios da razão para que o homem alcance a ciência de maneira ordenada, facilmente e sem erro”.[1] Ela é ciência racional, continua o Santo, não apenas porque seja conforme os ditames da razão, pois isto todas as ciências são, mas porque trata dos atos da razão como de sua matéria própria. Daí ser arte das artes, pelo fato de dirigir a atividade da razão da qual procedem todas as ciências ou artes. Calderón dirá que a lógica é a “ama de leite” das ciências.

Em breves palavras, trata-se de ciência serviçal, ou seja, que presta serviço a todas as demais, que nela se apóiam. Daí podermos dizer o seguinte: a lógica possui preeminência instrumental, mas não ontológica. Não por outro motivo, nem todo lógico é bom filósofo, mas todo verdadeiro filósofo há de ser bom lógico, pois a filosofia é muito mais do que simplesmente lógica. Muitos há que dominam a arte de raciocinar sem jamais se terem dedicado ao estudo do ser e do movimento, ou seja, das questões metafísicas e físicas mais universais. Pensar bem é, portanto, algo que está à mão de todos, mesmo de um analfabeto, ao passo que ser filósofo requer talentos e dons muito superiores. A propósito, a história da filosofia moderna apresenta-nos uma imponente coleção de maus lógicos, ou então de bons lógicos que foram péssimos metafísicos — razão pela qual lhes faltou o olhar panorâmico sobre os mais candentes problemas relacionados ao ser e à verdade.

A lógica, de acordo com o melhor da escola tomista, divide-se conforme as três operações da inteligência: o chamado conhecimento dos indivisíveis ou incomplexos; a composição e divisão de raciocínios; e a ação de discorrer do mais conhecido ao menos conhecido. Da primeira operação tratou Aristóteles, que nisto foi seguido por Tomás de Aquino, nas Categorias; da segunda, em Sobre a Interpretação, e da terceira nos Tópicos, na Retórica e na Poética.

Uma boa formação filosófica requer o estudo acurado destas obras aristotélicas, assim como dos Diálogos de Platão, antes de que se estudem os modernos. Desconsiderar isto é um dos muitos e graves problemas contemporâneos do ensino universitário da filosofia, o qual muitas vezes acaba por mutilar a alma de jovens que, noutro ambiente, poderiam progredir nos estudos. 

Afinal, dar-lhes de beber Nietzsche, Hume ou Kant logo nos primeiros períodos é como envenenar uma criança e, no mesmo ato, impedir que alguém lhe traga o antídoto salvador.

E tal antídoto passa necessariamente pelo domínio da arte do bem pensar, chamada lógica.


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1- “Ars directiva ipsius actus rationis, per quam homo in ipso actu rationis ordinate, faciliter et sine errore procedat”. Tomás de Aquino. In I Post. Anal., lec.1, n.2-3.