domingo, 11 de agosto de 2013

A propósito de minha participação no programa “Sala de Debate”, do Canal Futura

Sidney Silveira
Negar a hegemonia do pensamento esquerdista nas universidades públicas brasileiras é tão grande estultícia — dadas as acachapantes evidências em contrário —, que só mesmo um sujeito munido de bíblica paciência pode ouvir tal disparate e conter a ira. Ora, como aponta Santo Tomás de Aquino, “paciência” é a virtude moral que torna um homem apto a moderar a tristeza perante o mal.[1] Em síntese, a pessoa paciente sabe sofrer, ou melhor, ela aprendeu a conter certos ímpetos irascíveis e se manter serena, mesmo ao deparar com a astúcia alheia.
Pois bem. Não foi sem boa dose de paciência que ouvi o acadêmico Ricardo Figueiredo de Castro, professor de História Contemporânea da UFRJ, dizer que desconhece tal hegemonia, durante o programa “Sala de Debate” do Canal Futura, do qual participei semana passada. E o seu colega Paulo Domenech Oneto, filósofo político, munido de boas maneiras fazer-lhe coro ao mostrar-se “surpreso” quando ouviu tal parecer de minha boca — como se eu estivesse a afirmar que os cangurus são peixes e nascem nos Alpes suíços, e não mamíferos marsupiais encontráveis predominantemente na Austrália.
Naquele instante, tive uma vez mais reafirmada a minha convicção interior quanto ao acerto de não ter seguido a vida acadêmica no Brasil, ao contrário do meu querido irmão Ricardo da Costa, medievalista da UFES que, após anos intermináveis de perseguição sofrida por não comungar do credo filomarxista, chegou a ter um piripaque: o AVC do qual, com a graça de Deus, recuperou-se plenamente, apesar da torcida em contrário de algumas almas benignas, por acaso professores “anti-reacionários”. Tutti buona gente.
Conheço de perto histórias inacreditáveis acerca de como funcionam os departamentos das áreas de ciências humanas nas faculdades públicas do nosso país, hoje totalmente vedados a qualquer intelectual declaradamente conservador. O aparelhamento é ostensivo e possui anticorpos muito bem adestrados em evitar qualquer presença alienígena, o que se torna bastante claro nos programas e grades de mestrado e doutorado, instâncias decisivas da trajetória acadêmica dos aspirantes a galgar um degrau na universidade.
É claro que os Lídimos Gazeteiros Brasileiros Trans-Esquerdistas (LGBT) atuantes em nosso ensino superior não formam um bloco homogêneo, quanto aos estudos que incentivam e difundem, mas estão, sim, irmanados na epidérmica ojeriza comum a qualquer pensamento que considerem “de direita”, ou então “reacionário”, expressão maleável por meio da qual profilaticamente constrangem os jovens que porventura queiram alçar vôo solo fora das bitolas da mentalidade dominante. Em síntese, da universitas medieval, local de abertura ao contraditório, sobrou o nome, mas sem correspondência com a realidade que então significava. O típico intelectual acadêmico orgânico de hoje — sobretudo nas faculdades de História — foge às objeções em seu próprio habitat, ao passo que na Idade Média era por meio da objeção que o processo dialético, método de qualquer ciência digna deste nome, se dava. Há honrosas exceções, estatisticamente pífias.
Meu conselho aos jovens que acreditem ser possível mudar o presente estado de coisas é: não digam a verdade por inteiro na hora de procurar os mestrados e doutorados dessas universidades. Dissimulem parte de suas boas intenções — o que é moralmente lícito, quando o bem se torna uma impossibilidade ontológica — e adquiram os “canudos” ao mesmo tempo em que, fora da universidade, buscam formação superior verdadeira, muito além das bibliografias indicadas por boa parte dos mestres de malícia hoje refestelados em nossa academia.
Assim, quem sabe, as coisas possam ser diferentes daqui a vinte anos, se ainda existir mundo.
Em tempo: Como jornalista com mais de uma década e meia de atuação como assessor de imprensa, entendo perfeitamente que os colegas de profissão precisam enquadrar as fontes nos formatos dos seus programas. Conheço muitíssimo bem as regras do jogo e as aceito sem o menor problema, mas sinto-me no dever de fazer um esclarecimento público em prol da verdade: não obstante incentive o florescimento de qualquer pensamento conservador digno deste nome em nosso país, não sou “consultor” da nova ARENA. Até o presente momento, dei apenas uma palestra de formação a convite de amigos, tive encontros informais com pessoas interessadas em mudar o país para melhor e participei deste programa no Canal Futura, quando me disseram que o mote era algo como o ressurgimento do conservadorismo entre parcela da juventude.
O pessoal da TV foi bastante gentil e agradeço a acolhida de todos os profissionais da redação, assim como o fato de abrirem espaço para um ET reacionário manifestar-se.
Enfim, a falta de solicitude para com a verdade chama-se “negligência”, quando nasce de certa preguiça mental, ou “malícia”, quando é voluntária e consciente. Não quero nem uma nem outra, pois os meus pecados já são inúmeros. Daí fazer este esclarecimento e encostar a cabeça no travesseiro sem maiores problemas.
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1- Cfme. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 136.