terça-feira, 16 de junho de 2015

Amizade, treva luminosa — inimizade, luz trevosa


A Vieira, palavra vivente.

Sidney Silveira

Amizade é benevolência no mistério, pois sempre haverá, entre verdadeiros amigos, zonas de sombra a serem preenchidas pelo amor. Na amizade, a escolha do bem da pessoa amada é concomitante com a impossibilidade de que esta possa ser conhecida perfeitamente por quem a ama — dado o caráter impenetrável dos corações humanos. Noutras palavras, quando uma pessoa decide entrar em comunhão amigável com outra, a vontade preenche, numa aposta confiante, as lacunas que a inteligência não consegue suprir, e por este motivo entre amigos não existe o esfíngico "decifra-me, ou te devoro", mas um bondoso "sirvo-te, porque te amo". Pelo menos esta é a tendência, conforme a amizade vai depurando-se do que pode azedá-la: vícios e incompreensão.

Estamos falando, evidentemente, da amizade humana. Esta não é elucidação de um enigma, mas livre entrega ao insondável que há no outro, pelo menos neste mundo de escuridão entremeada de luz. Só poderia haver identidade absoluta entre conhecer e amar se a inteligência de quem ama fosse capaz de esgotar o que há de inteligível no ente amado, conhecê-lo de maneira perfeitíssima. Ocorre que nenhuma pessoa humana é capaz disso, portanto o amor sempre estará, para nós, permeado de camadas de mistério. Somente uma inteligência suma, que não pode ser outra senão a de Deus, ama vendo tudo; nós amamos vislumbrando algo.

Algo que damos por bastante, pois um coração de amigo sacia-se com facilidade.

Deus, a infinita grandeza em três Pessoas, como ensina o dogma católico, torna amáveis as coisas que ama; nós, a pequenez encarnada, como aponta a evidente contingência conformadora da nossa existência, nos tornamos amáveis ao amar. Em contrapartida, quem não sabe amar vai fazendo-se odiável, e a medida de tal ódio é um egolátrico querer, fora do direito moral. Apelemos à seguinte fórmula: a amizade divina dá sem pedir, e quando pede dá;[1] a amizade humana pede ao dar, e dando sempre sonega; a inimizade exige sem poder, e não podendo usurpa. Em síntese, o amor em quem não carece de nada é entrega pura; o amor em quem carece de muitas coisas é súplica, mesmo quando entrega; por sua vez, o desamor dissimula quando oferece, e cobra quando pede. Neste último caso, trata-se do áspero caule que traz em si o fermento da desesperança, do medo e da traição.

Ora, ninguém trai sem antes ter sido amigo. Sem dúvida, trata-se de uma amizade medíocre porque feita de desconfiança, que é uma espécie de medo desgovernado; feita da negação do mistério; feita da incapacidade de esperar o bem em meio aos males inerentes à condição humana — afinal de contas, atire a primeira pedra o amigo que, numa relação longa, pode dizer em sã consciência que nunca pecou contra a amizade, seja com palavras, seja com omissões, seja com pensamentos. Mas o caso dos traidores de todos os tempos é bem mais dramático: eles tentaram amar, mas não estavam limpos o suficiente para livrar-se do egoísmo, realidade espiritual insaciável por natureza. “Porque ele sabia qual era o que o ia entregar, e por isso disse: ‘Não estais todos limpos”. (Jo. XIII, 11) Amaram com os seus defeitos, mas estes eram graves o suficiente para matar a amizade. 

Quem não percebe a diferença de gênero entre a negação de Pedro e a traição de Judas está impossibilitado de compreender o que aqui se diz.

Prova-se a amizade nas questões importantes, e não nas miudezas cotidianas, pois tantas são as falhas dos homens que se uma amizade fosse medida por coisinhas pequenas nos manteríamos todos em permanente estado de guerra. Neste ponto, estamos no núcleo da benevolência misteriosa a que se aludiu no começo deste breve texto. 

Uma benevolência semelhante ao raio de trevas luminosas, que é como o magnífico Pseudo Dionísio Areopagita se referia a Deus.

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1- Só metaforicamente se pode dizer que Deus pede algo ao homem, porque qualquer pedido Seu é preceptivo, pedagógico e moralmente imperioso, a um só tempo. O "não" de qualquer criatura a um pedido do Criador é, na prática, escravizadora desobediência a um princípio. É negação autodestrutiva, recusa da realidade. Todos os "pedidos" de Deus, constantes ou não da Escritura, são dádivas — porque o Ser qualitativamente infinito, ao agir, não pode fazê-lo senão doando algo de si.

Pois muito bem: não havendo nada fora d’Ele, porque "Deus immediate est in omnibus per essentiam, praesentiam et potentiam", pode-se dizer que a Sua ação é sempre um transbordar metafísico.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Semeadura ceifada?

Sidney Silveira

Com certeza, não fui aquinhoado com luzes especiais provenientes do Céu Empíreo. Não me julgo possuidor de dons proféticos que me habilitem a traduzir de maneira perfeita o atual estertor espiritual, moral e político do mundo. Não sou, nem quero ser, chefe de coisa nenhuma. Não aspiro a ter seguidores de qualquer tipo. Não me julgo mais inteligente que a média das pessoas relativamente inteligentes. Não tenho fórmulas pedagógicas mágicas a propor a quem queira se aventurar no pedregoso caminho do conhecimento. Não há em mim pretensões acadêmicas, por profilaxia sanitária. Não nutro esperanças de que este vale de lágrimas vá melhorar, enquanto o tempo não der lugar àquilo que metafisicamente o transcende, realidade chamada por Boécio de aeternitas, na qual se dá a posse total, simultânea e perfeita da vida interminável.

A minha única esperança política seria a política deslaicizar-se, voltar a ser católica. Mas isto só por monumental milagre poderia acontecer, e eu não creio que um milagre de tamanhas proporções esteja nos desígnios de Deus.

Não sendo nada do que ficou assinalado acima, sou apenas um jornalista divulgador da filosofia e da teologia medievais no Brasil, com ênfase em Santo Tomás de Aquino. E que crê, por razões várias, ser a obra deste gênio escolástico uma espécie de cume metafísico jamais superado. A propósito, nunca pretendi ser nada além do seguinte: um publicista competente a apontar — por intermédio dum trabalho editorial sério e da difusão de textos pela internet — para uma época na prática desconhecida por nós. E fazê-lo sem adaptações espúrias, deformantes do pensamento do Aquinate, muitas das quais ganham relevo neste momento desgraçado da história da Igreja, em que mudaram o nome das coisas espirituais para depois mudarem as coisas mesmas. Mudaram também o conceito mental delas, para depois transformá-las, por meio de tenebrosa alquimia, no seu maligno reverso.

Em 2005, a editora Sétimo Selo trazia à luz o seu primeiro trabalho — numa edição bilíngüe —, com tradução do Prof. Carlos Nougué e apresentação minha: o “De Natura Boni”, de Santo Agostinho, primeiro opúsculo na história da filosofia a dar efetiva resposta ao problema do mal, ao definir o tríplice vetor de toda natureza: ordo, species et modus. Um livro cujas premissas Santo Tomás levaria, séculos depois, nas "Questões Disputadas Sobre a Verdade", às suas inescapáveis conseqüencias.

Ao lembrar-me hoje do lançamento desta magnífica obra, aqui no Rio, indago-me se terá valido a pena o trabalho destes últimos dez anos. Ou melhor: está valendo? Conseguiu-se efetivamente algo? Terá sido a semeadura ceifada por deficiência do terreno? Noutras palavras, alguma semente pôde germinar em solo tão árido como o brasileiro dos dias de hoje, em que as pessoas apresentam crescente dificuldade de concatenar os mais precários raciocínios?

Infelizmente, não tenho respostas para tais perguntas; na verdade, seria farsesco querer tê-las.

Alguém já disse que o prêmio das boas obras é fazê-las. Neste contexto, divulgar Tomás de Aquino sem instrumentalizá-lo para apresentar bizarrices contemporâneas é boa obra, estou certo. Mas se por acaso continuarei com este trabalho inglório — repleto de percalços e deflagrador de tanta inimizade — ou escolherei virar garçom de boteco, sabe Deus.

No meu atual estado psicofísico, tudo é possível.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Jactância e “pavor de não saber”: patogenias irmãs que matam a alma

Sidney Silveira

Graças ao bom Deus, as pessoas não têm o hábito de ficar em posição de cócoras no meio da rua e evacuar à vista de todos, com ledo gesto enquanto se aliviam das fecais premências. Certo pudor natural é a barreira psíquica que as induz a resguardar a própria intimidade física e a salubridade das narinas alheias. Coisa parecida acontece com sujidades muitíssimo mais difíceis de limpar, como as do espírito: não se vê todo dia o vigarista se gabar em público das fraudes que pratica, nem o empregado desonesto roubar o patrão sem a menor cerimônia, na frente dos seus colegas. Em resumo, toda abjeção se camufla de alguma maneira, mas até entre indivíduos que ostentam a amoralidade com altivez há camuflagens quase imperceptíveis.

É comum a recorrência a subterfúgios por meio dos quais a torpeza humana se apresenta sob o disfarce de algum aspecto positivo. De modo geral, os ardis aos quais os homens apelam para escamotear ações infames variam numa escala que vai da quase inconsciência da maldade ao maquiavelismo da pior cepa. Noutras palavras, o caminho da fraqueza à malícia passa por gradações de ignorância que podem atenuar a culpa ou torná-la quase imperdoável. Seja como for, “natura non facit saltus”: não se vai da boa-fé à malícia de repente, mas por meio dum processo pelo qual a desordem das paixões vai gradativamente reduzindo a ignorância quanto ao malefício de determinados atos, tornando-os, pois, cada vez mais conscientes e imputáveis na perspectiva moral. 

Em suma, ninguém dorme Sócrates e acorda Lula.

O ódio é dessas paixões que se tem por hábito esconder, não raro por meio de um sofisticado sistema de autojustificativas, as quais, na prática, implicam o mais tenebroso artifício por cujo intermédio um homem engana-se a si mesmo. Nestes casos, cedo ou tarde o sujeito acaba por cair numa espiral de cansativas explicações sobre o seu proceder, e chega a pintar o ódio que o move em cores heróicas, justas, sublimes, mas a máscara não passa despercebida do olhar das pessoas com o mínimo de sagacidade espiritual. Para estas, um trejeito pode ser revelador; uma palavra dita em dado contexto, capaz de pôr a nu as trevas da alma do próximo.

A propósito, a jactância é uma das camuflagens do ódio. Como filha do amor exagerado da própria excelência — a que o cristianismo chamou "soberba" —, quando encarna em alguém ela se faz acompanhar invariavelmente do hábito de desmerecer as pessoas, sempre alegando razões nobilitantes. Na melhor das hipóteses, trata-se de perfeccionismo psicótico projetado, cuspido sobre a reputação dos outros, capaz de denegrir méritos reais por causa de miudezas. Chegado a este estado mental, o jactancioso se sente pessoalmente preterido em favor de quem não merece ser louvado, de acordo com o seu patológico parecer. Quem age assim não percebe que "é fraqueza entre ovelhas ser leão", como escrevera Camões num famoso verso. É gente demasiado confiante nos talentos que possui ou pensa possuir; gente susceptível, invejosa. Neste ponto, convém salientar o seguinte: a inveja é a predisposição psíquica ao ódio.

Nada mais triste do que detectar a vanglória num jovem. Isto porque, se não for aplicado o corretivo sanatório até certa idade, o vício fica tão entranhado na psique que se transforma em mal moral incurável, ou curável apenas por milagre. A criatura começa livremente apaixonada por algo abstrato — o conhecimento, por exemplo — e acaba escravizada na concreta paixão por si mesma. O seu ímpeto de saber tudo, chamado por Santo Tomás de Aquino de “curiositas”, encobre o pânico voraz de não ser reconhecida como pessoa notável em alguma coisa. Encobre o medo de ser percebida como alguém não sapiente. São João da Cruz diria que o indivíduo nesta situação lastimável precisaria com urgência passar pelas “noches oscuras” por meio das quais a vontade vai, aos poucos, educando-se, limpando-se.

Isso a que chamamos “pavor de não saber” não brota por partenogênese: ele é uma das subespécies da vanglória. Portanto, ao observarmos alguém reiteradamente se pavonear dos seus méritos em detrimento do próximo (o qual pode ser uma pessoa em particular, uma coletividade específica ou mesmo um país inteiro), tenhamos a certeza de que se trata de criatura acometida da pungente doença do espírito chamada jactância, que Santo Tomás demonstrou ser oposta à virtude da veracidade.[1] O jactancioso juvenil, que vive numa espécie de pavor onírico, é aspirante à loucura na meia-idade; uma loucura permeada de ódio. A velhice, quando chega a um sujeito nestas condições, é puro rancor.

Mas não desesperemos! Como acontece com todas as doenças morais codificadas por grandes filósofos de diferentes épocas, para esta também existe cura, a qual passa pela regra universalíssima que nos foi dada pela Escritura Sagrada: “Qui se exaltat, humiliabitur”.[2] A sabedoria popular traduziu esta verdade bíblica, proferida por Cristo em pessoa, numa fórmula interessante: “Elogio em boca própria é vitupério”. 

Deus nos livre disso.




1- Suma Teológica IIª-IIº, q. 112.
2- Lc. XIV, 11.