sexta-feira, 5 de junho de 2015

Semeadura ceifada?

Sidney Silveira

Com certeza, não fui aquinhoado com luzes especiais provenientes do Céu Empíreo. Não me julgo possuidor de dons proféticos que me habilitem a traduzir de maneira perfeita o atual estertor espiritual, moral e político do mundo. Não sou, nem quero ser, chefe de coisa nenhuma. Não aspiro a ter seguidores de qualquer tipo. Não me julgo mais inteligente que a média das pessoas relativamente inteligentes. Não tenho fórmulas pedagógicas mágicas a propor a quem queira se aventurar no pedregoso caminho do conhecimento. Não há em mim pretensões acadêmicas, por profilaxia sanitária. Não nutro esperanças de que este vale de lágrimas vá melhorar, enquanto o tempo não der lugar àquilo que metafisicamente o transcende, realidade chamada por Boécio de aeternitas, na qual se dá a posse total, simultânea e perfeita da vida interminável.

A minha única esperança política seria a política deslaicizar-se, voltar a ser católica. Mas isto só por monumental milagre poderia acontecer, e eu não creio que um milagre de tamanhas proporções esteja nos desígnios de Deus.

Não sendo nada do que ficou assinalado acima, sou apenas um jornalista divulgador da filosofia e da teologia medievais no Brasil, com ênfase em Santo Tomás de Aquino. E que crê, por razões várias, ser a obra deste gênio escolástico uma espécie de cume metafísico jamais superado. A propósito, nunca pretendi ser nada além do seguinte: um publicista competente a apontar — por intermédio dum trabalho editorial sério e da difusão de textos pela internet — para uma época na prática desconhecida por nós. E fazê-lo sem adaptações espúrias, deformantes do pensamento do Aquinate, muitas das quais ganham relevo neste momento desgraçado da história da Igreja, em que mudaram o nome das coisas espirituais para depois mudarem as coisas mesmas. Mudaram também o conceito mental delas, para depois transformá-las, por meio de tenebrosa alquimia, no seu maligno reverso.

Em 2005, a editora Sétimo Selo trazia à luz o seu primeiro trabalho — numa edição bilíngüe —, com tradução do Prof. Carlos Nougué e apresentação minha: o “De Natura Boni”, de Santo Agostinho, primeiro opúsculo na história da filosofia a dar efetiva resposta ao problema do mal, ao definir o tríplice vetor de toda natureza: ordo, species et modus. Um livro cujas premissas Santo Tomás levaria, séculos depois, nas "Questões Disputadas Sobre a Verdade", às suas inescapáveis conseqüencias.

Ao lembrar-me hoje do lançamento desta magnífica obra, aqui no Rio, indago-me se terá valido a pena o trabalho destes últimos dez anos. Ou melhor: está valendo? Conseguiu-se efetivamente algo? Terá sido a semeadura ceifada por deficiência do terreno? Noutras palavras, alguma semente pôde germinar em solo tão árido como o brasileiro dos dias de hoje, em que as pessoas apresentam crescente dificuldade de concatenar os mais precários raciocínios?

Infelizmente, não tenho respostas para tais perguntas; na verdade, seria farsesco querer tê-las.

Alguém já disse que o prêmio das boas obras é fazê-las. Neste contexto, divulgar Tomás de Aquino sem instrumentalizá-lo para apresentar bizarrices contemporâneas é boa obra, estou certo. Mas se por acaso continuarei com este trabalho inglório — repleto de percalços e deflagrador de tanta inimizade — ou escolherei virar garçom de boteco, sabe Deus.

No meu atual estado psicofísico, tudo é possível.