sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O passado é de quem ama



Sidney Silveira

RECORDAR EXIGE CORAGEM. Coragem de ser, e coragem de haver sido. O covarde, o apático moral, o morno, quando a idade avança recorda-se mal porque viveu pela metade, entregou-se pela metade, sofreu pela metade.

Quem hesita entre o bem e o mal e imagina que a hesitação é prudência, quem é omisso, quem não se expõe quando é preciso fazê-lo, quem é incapaz de amizade genuína, de amor veraz, de compaixão, acaba cedo ou tarde sabotando a própria memória para não se enxergar no espelho da consciência.

Mentiu no passado, e mente ao revivê-lo. Ou melhor, revive-o mentindo.

Enfatizemos: lembra-se mal porque viveu mal. O seu presente é o pior tipo de auto-engano. Ora, o que espera um homem acometido desta indolência espiritual é uma velhice tão falsificada quanto a juventude o fora.

Os covardes são sabotadores profissionais. Mentem tanto para si mesmos que acabam neuróticos. E, vamos e venhamos, o neurótico é e sempre será alguém cego para a vida interior e também para as coisas exteriores naquilo que elas têm de excelente, de intrinsecamente amável. Não lhe resta atitude coisa senão recriar um mundo à imagem e semelhança da sua própria tibieza.

Triste naufrágio moral e psíquico, o de alguém assim.

Estou na meia idade, uma meia idade mais dificultosa financeiramente do que eu quisera, e com muros bastante altos diante de mim, fraquejando o corpo para saltá-los. Mas nesta quase penúria Deus me agracia com a companhia de homens que valem pelo que viveram, e vivem mostrando-nos o quanto a vida vale, apesar de tudo.

Um desses homens é o caríssimo Sergio Pachá, ao lado de quem me sinto honrado ao levar adiante projetos como este que agora caminha para o fim: o curso "A Língua Absolvida".

Nesta postagem trago para os amigos um trecho da 27ª aula do referido curso, a qual irá ao ar no site do Instituto Angelicum amanhã, para os nossos alunos. Aula que acabou com a bela recitação, feita pelo Prof. Sergio, de um poema de Manuel Bandeira.

Recitação que lhe trouxe lágrimas aos olhos fisicamente alquebrados, mas que não cansaram de amar. E não cansaram pelo simples fato de que o amor, o verdadeiro, é incansável.

Lágrimas de quem tem coragem de lembrar porque teve coragem de viver.

Obrigado, meu amigo.