quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A sedução derrotada


Sidney Silveira
O manipulador experiente é alguém muitíssimo atento às reações das suas vítimas. A partir de reflexos psicológicos e físicos induzidos nos outros por situações artificiosamente criadas, ele vai formando um quadro das preferências, ojerizas, medos e desejos — expressos ou ocultos — daqueles contra quem vai lançar a sua rede de domínio. 

Feito o diagnóstico básico dos principais vetores da psique alheia, o manipulador inicia o seu nefasto trabalho deflagrando simpatias seguras, e isto por um método mais ou menos simples de sedução: é solidário nos medos e nas preferências da vítima; elabora discursos contrários às coisas que ela mais odeia, calculando bem as palavras e o momento certo de dizê-las; insinua-se como facilitador de prazeres; e induz preocupações imaginárias para as quais se apresenta como protetor ou salvador. Com estas e outras ações, vai minando as resistências psicológicas da pessoa que é objeto do seu malefício e consegue ir ganhando, aos poucos, a sua confiança. 

Em síntese, ele faz um sumário bastante preciso das paixões alheias e estuda os mecanismos para despertá-las. Depois disso, dá vazão às tendências (boas e más) identificadas na vítima, e com tal procedimento logra conhecê-la melhor e se arma convenientemente para a sedução que tem em vista. Diga-se neste ponto o seguinte: como consumado hipócrita, o manipulador jamais mostra as suas reais intenções a princípio, pois se o fizesse perderia todo o poder encantatório. Ele só se revela quando o domínio sobre a vontade alheia está em adiantado grau, a ponto de a pessoa ficar a serviço dos seus caprichos quase sem o saber — ou então sabendo, nos casos em que se escraviza totalmente. A propósito, o manipulador despreza a vítima que chega a tão abjeto nível de entrega, razão pela qual destruí-la de uma vez por todas se lhe apresenta como a única opção, pois precisa de combustível e o encontra em novas conquistas. Em breves palavras, nenhum vampiro interessa-se por novamente atacar quem já teve todo o sangue sugado.

Eis o princípio elementar modelador das ações e pensamentos desta maldita criatura: quanto maior é a maldade planejada, mais necessária se torna a capa da hipocrisia. Ora, na escala das maldades, as que matam o mais excelente numa pessoa (a alma, com as ricas potências que nela radicam) são as que mais precisam ocultar-se, pois o inferno não seduz senão a quem já se iniciou no processo de autodestruição, seja moral ou psicológica. O manipulador sabe muito bem disso e todo o seu trabalho de compelir uma pessoa a ir na direção por ele desejada depende de que esse princípio não seja ferido. Daí se presume o quanto ele é capaz de fazer da sedução uma obra de artesanato espiritual às avessas — na qual construir é destruir.

É necessário certo discernimento das almas para identificar o manipulador, ou então experiência adquirida como vítima de algum deles. Sem a menor sombra de dúvida, trata-se de pessoa bastante hábil e conhecedora de algumas tendências universais da psique humana. Mas o nosso arquetípico personagem costuma perder a bússola diante de quem não se deixa levar por consensos e também com pessoas cuja auto-estima se baseia em critérios realistas, objetivos, e não na opinião da maioria ou em devaneios hedonísticos. Não é errôneo dizer que o poder inicial do manipulador será tanto maior quanto menos centrada for a pessoa a quem queira dominar, e tanto menor quanto mais a vítima mantenha o próprio ego em salutar equilíbrio e razoável senso de proporções. Por exemplo: mesmo o mais competente manipulador tem sérias dificuldades com pessoas humildes, e, como estas se encontram entre as que amam verdadeiramente a Deus, deduz-se daí o caráter consciente ou inconscientemente satânico de toda e qualquer manipulação.

Em nossa época, boa parte da cultura e da política é feita de grandes manipulações — repletas de mensagens subliminares e da indução pavloviana de respostas psíquicas padronizadas em larga escala. Mas este admirável mundo novo, escravizante e derrogador da consciência humana, tem o limite prefixado de domínio: a liberdade, que não é outra coisa senão a vontade quando ama.

Não por outro motivo, os santos são os homens menos manipuláveis que pode haver, pois a sua sanidade psicológica e espiritual bebe da fonte suprema do ser, Deus, instância de amor inalcançável pelo mal. Portanto, quanto mais um homem toma os santos por modelo, e quanto mais procura conhecer-lhes a vida e a obra, menos chance tem de ser manietado pelo príncipe deste mundo.

Ou por seus disciplinados soldados.