quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A mulher para Freud e para a Igreja


Sidney Silveira 
Entre as muitas coisas de que a Igreja é acusada está o ter desvalorizado a mulher. Em síntese, teria sido a mulher durante séculos relegada a um plano muitíssimo inferior ao do homem, tolhida em sua liberdade, reprimida em sua sexualidade, obstada em seu acesso à cultura, constrangida a um papel social subalterno, etc. Tratar-se-ia, portanto, de alguém sem voz política, sem prazer, sem lazer, sem vida interior e, para dizer o mínimo, um mero capacho do homem. Alguém com incontáveis deveres massacrantes e secundários, porém quase sem direitos. 

Ignora quem compra de maneira acrítica esta visão que, por exemplo, durante a Idade Média a mulher chegou a ser rainha e senhora do destino de povos inteiros, princesa, administradora de vastas terras, politicamente influente, artesã, poetisa, escritora, educadora, guerreira, mística, Santa. E não apenas no medievo, mas tanto antes como depois, graças ao influxo dos valores evangélicos custodiados pela Igreja, a mulher exerceu papel histórico notável, de extraordinária influência espiritual e política: Isabel de Castela, Santa Joana D’Arc, Santa Rita de Cássia, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santa Brígida da Suécia e incontáveis outras grandes mulheres dão-nos exemplos marcantes da condição feminina durante o longo período da Cristandade católica. 

Diga-se que algumas religiosas do medievo eram extremamente instruídas e rivalizavam em saber com os sábios monges de então, educadores do mundo. Quem não leu o clássico La femme au temps des cathédrales, de Règine Pernoud, é analfabeto na matéria e deveria calar o bico antes de dizer aberrações como, por exemplo, a de que a mulher segundo a Igreja não tinha alma. Naquela e noutras obras mostra a grande historiadora francesa que as mulheres exerciam, até mesmo na vida laica, um poder que deixaria os homens de hoje boquiabertos. E ademais chegaram a ser artistas de grande talento, além de poliglotas. Heloísa, diz-nos Régine Pernoud, ensinava às suas monjas o grego e o hebraico. É dessa época uma boa quantidade de obras literárias escritas por mulheres, como seis conhecidas comédias em prosa rimada atribuídas à abadessa Hrostsvitha. 

O mundo contemporâneo, erigido sob os auspícios de Nietzsche, Freud e Marx – ou seja, niilismo, psicanálise e comunismo – se jacta de ter redescoberto a mulher, revalorizado as suas potencialidades, trazido a ela, enfim, um papel ativo na vida social. Mas se porventura olhamos de perto o que era a mulher na concepção destes ilustríssimos construtores da mentalidade hodierna, caímos literalmente para trás, estupefatos com tamanhas barbaridades. Contentemo-nos neste breve artigo com Freud, e comecemos dizendo que, para o ilustre doutor de Viena, o desenvolvimento psíquico da mulher é torto, muito mais problemático que o do homem, devido ao fato de que a mulher precisa mudar o objeto sexual “natural” inicial, ou seja, a mãe, e trocá-lo pelo pai, gerando com isto o complexo de Édipo invertido.

Lembra-nos Martín Echavarría no excepcional Corrientes de Psicología Contemporánea que, segundo Freud, a mulher não chega a desenvolver uma consciência moral sólida, nem é capaz de fazer uso elevado da razão, motivo pelo qual não teria trazido nenhuma contribuição relevante para a história da humanidade, em particular devido ao influxo da falta do pênis em sua estrutura psicossomática. Em síntese, o motivo pelo qual as mulheres jamais poderiam desenvolver-se completamente como seres humanos estaria no fato de que não possuem o chamado “temor à castração”, embora tragam em seu íntimo uma ontológica e primacial inveja do pênis. 

A certa altura das Novas Conferências sobre a Psicanálise, lê-se em Freud esta famosa passagem: “O fato de que seja preciso atribuir à mulher escasso sentido de justiça tem íntima relação com o predomínio da inveja [do pênis] em sua vida anímica”. Noutra parte diz-nos o Dr. Sigmund que as mulheres, devido ao fato de terem um superego deficitário, possuem interesses sociais débeis e pouca ou nenhuma aptidão para a sublimação. Ora, mais divertido do que tais fantasmáticas considerações com roupagem científica é ler algumas páginas de Jacques Derrida sobre o que ele considera a concepção logofalocêntrica de Freud. Nas vezes em que fiz isto tive a clara sensação de que a minha massa encefálica escapulia por algum libidinoso orifício. 

Outra conhecidíssima idéia freudiana é a de que a mulher, chegando aos 30 anos, nada mais tem a desenvolver. Em palavras simples: as balzaquianas de qualquer época seriam entes quase estéreis, impossíveis de modificar. Nada haveria nelas de reais potencialidades a explorar, razão pela qual a mulher a partir desta idade mal poderia ser psicanalisada, ao passo que o homem aos 30 anos ainda possuiria uma dinâmica psíquica considerável. Em vista disso, com doce ironia nos recorda Martín Echavarría que, para desgraça de Freud, a maior parcela de seus discípulos foi composta de mulheres – sendo a imensa maioria de seus pacientes... mulheres neuróticas![1] 

Destas e de outras passagens da obra de Freud se depreende – isto se unirmos, com a frieza da boa e velha lógica, as principais premissas às conclusões – o seguinte: de acordo com o Dr. Vienense, a mulher possui dignidade muito inferior à do homem, devido a um problema radical absolutamente insanável. Ela é um ente incapaz de assumir qualquer papel de relevância nas sociedades, e, o que ainda é mais dramático, tem a alma mutilada, inapta para perceber a beleza moral ou assimilar os conceitos mais abstratos. 

Para a Igreja, em contrapartida, a mulher se eleva à dignidade de Mãe do próprio Deus, modelo de feminilidade e de fortaleza incomparáveis, que, ao ser imitado com fervor ao longo de séculos, acabou por gerar um sem-número de mulheres notáveis e de grande influência espiritual e política – cujas obras denotam riquíssimo universo psicológico e invulgar capacidade intelectual. 

Freud seria com toda razão barrado no Castelo Interior de Santa Teresa de Ávila, por estar previamente incapacitado para compreendê-lo em seus elevados princípios. E o seria justamente porque nele não existem moradas para quem por vontade própria embotou a alma com conceitos auto-referentes – que vão das vicissitudes de uma sexualidade infantil perversa à formal incapacidade de amor desinteressado, não libidinoso; da impossibilidade de educar o espírito ao fato de que, em sua teoria, o homem é um ente malogrado, no qual a única “felicidade” possível é a tomada de consciência do radical desejo de satisfação que o constitui. 

Desejo que, em suas conhecidas palavras, representa a aspiração do homem a ocupar o lugar do Pai, equivalente simbólico de Deus.

(Escrito no Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio, durante internação pré-cirúrgica) 

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1- Martín Echavarría. Corrientes de Psicología Contemporánea. La Plata: 2011, p. 64.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Internação e cirurgia


Sidney Silveira
Aos amigos e leitores do blog informo que, enfim, fui chamado pelo Hospital de Laranjeiras aqui do Rio para internação e posterior cirurgia cardíaca. Saio de casa neste exato momento.

Agradeço imensamente pelas mensagens de apoio que recebi nos últimos dois meses, assim como pela preces — que me são muito caras.

Que seja feita a vontade de Deus.

Abraço a todos,

Sidney Silveira

sábado, 13 de outubro de 2012

Problemas de ética e escatologia em Platão


Sidney Silveira
Trecho de uma aula magistral do meu querido amigo Carlos Nougué, no curso que há três anos nós dois ministramos no CCBB do Rio. A propósito,  revendo hoje a ementa desse conjunto de palestras me vieram à mente ótimas recordações.

Advertência: ao dizer, no começo deste vídeo, que Sócrates não deixara nenhuma prova da imortalidade da alma, Nougué está, evidentemente, dando por pressuposto que as teses do Fédon são de Platão...

sábado, 6 de outubro de 2012

O boçal engajado e a máquina de devorar consciências


Sidney Silveira


A falta continuada de contato com coisas belas e elevadas mutila a alma. Os dois sintomas mais evidentes de que uma pessoa chegou a tal dramático estado são os seguintes: extasiar-se com tolices e ser indiferente ao sublime. Não raro, são sintomas concomitantes num mesmo sujeito — que se superexcita com ninharias, futilidades ou torpezas, enquanto se mostra apático diante de qualquer beleza de ordem superior. Trata-se de alguém capaz de se entediar mortalmente ouvindo uma sinfonia de Bach ou lendo um parágrafo de Vieira, ao passo que sente arrepios de entusiasmo beatífico ao ouvir uma rima bem feita cantada em ritmo sincopado.

Estamos falando de um arquétipo contemporâneo: o boçal engajado. Pessoa de espírito lânguido, em geral ávida consumidora de produtos culturais alternativos cuja esterilidade artística pode ser medida pela tola pretensão de originalidade. Não se trata, propriamente, de um iletrado ou de alguém oriundo das camadas sociais menos favorecidas. Não: o boçal engajado é homem de classe média, habitué de feiras literárias, freqüentador de bienais de livros, encontros artísticos performáticos e exposições. Tem interesse por leitura, sim, mas sem jamais arriscar-se em autores que ou exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo, ou fujam ao limitado universo estético-político em que se embrenhou.

É, no fundo, uma personalidade timorata que precisa apoiar-se na opinião de grupos ou facções, em meio às quais se sente encorajado a manter o dedo em riste para o mundo, sobretudo como crítico da cultura e da política. As suas convicções são, pois, tanto mais altissonantes quanto mais estejam protegidas pela coletividade a que aderiu apaixonadamente. Palavras gastas como “reacionário” e “careta” ainda são recorrentes nos lábios do boçal engajado — em geral um sujeito simpático a ideologias socialistas e que defende todos os tópicos da agenda globalista contemporânea: aborto, casamento homossexual, ecumenismo, marcha das vadias, aquecimento global, etc. E ai de quem esboçar objeções ao que ele jura de pés juntos serem convicções suas!

Em verdade, o boçal engajado nem de longe imagina ser o produto acabado da sociedade orwelliana em que nos coube viver. É, pois, um autômato a repetir slogans, palavras de ordem e conceitos produzidos pela engenharia social que se apossou da sua consciência, não obstante dando-lhe a febril ilusão de liberdade, capacidade decisória e autonomia espiritual. Neste contexto, malgrado a sua patente curiosidade — medida pela busca constante por se informar até a embriaguez acerca de coisas “interessantes”—, a imersão do boçal engajado em baladas culturais é o fiel retrato de uma candente incapacidade reflexiva, pois o padrão mental em que sucumbe está enquadrado nas bitolas pré-moldadas por certa indústria do entretenimento, voltada a públicos com pretensões vanguardistas e libertárias.

Mentalidade adubada no espírito libertino procedente dos iconoclastismos revolucionários da década de 60, ele considera verdadeiramente geniais autores como Marcuse, Lacan, Deleuze, Sartre, Paulo Freire e diversos outros conformadores das últimas gerações. Mas se porventura o inquirimos com o intuito de aquilatar o seu nível de conhecimento a respeito da obra destas ilustres figuras, constatamos não passar de leituras esparsas de pensamentos ou conceitos isolados, geralmente feitas de segunda ou terceira mão, ou seja: em livros de comentadores que repetem os “dogmas” dos seus ídolos como mantras irredutíveis a qualquer análise um pouco mais criteriosa.

Se o boçal engajado ouve, por exemplo, um lacaniano dizer que o único e verdadeiro amor de uma mãe pelo seu filho acontece quando ela morre no parto, acha isto de uma criatividade sem tamanho. Ou então se vê um sartreano proclamar que a liberdade do homem é construir o seu próprio ser, e que o “Em-si” muitas vezes decai num processo de nadificação em direção ao “Para-si”, cai fulminado de amor místico diante do Ininteligível. Tais frases são edulcoradas numa espécie de psicodélica beberagem, e depois saboreadas, sorvidas, degustadas pelo boçal engajado como um olímpico manjar. A idéia que ele faz da filosofia é, como se pode deduzir, a de doidões fumando ópio e exercitando a inebriante debilidade das suas próprias inteligências.

A irreligião do boçal engajado é um bloco de conceitos auto-referentes, contemporaneamente pinçados dos livros de um Richard Dawkins ou de um Michel Onfray, autores da moda cuja leitura, de sua parte, é tão ou mais superficial do que a que teve a oportunidade de experimentar dos gurus acima mencionados. Portanto, quando ateu, o boçal engajado é o materialista que usa o espírito para perpetrar toda sorte de negações, a ponto de ter o próprio bom senso esmagado pela massa assimétrica de idéias avulsas que, repetidas à exaustão, formam uma imagem inexpugnável em sua mente: a de que a religião é algo irracional. Imaginemos, pois, o que acontece se algum desavisado lhe mostra que uma parcela grandíssima das maiores criações humanas — na filosofia, na música, na arquitetura, na pintura, na escultura, no direito, na poesia, na ciência, etc. — provém do mais profundo espírito religioso...

O fragor de sua inépcia mental tem como invólucro um insano otimismo, sobretudo com relação à reforma política das sociedades a partir das idéias que defende — as quais, de antemão, elevou à condição de verdades universais intocáveis. Assim, com a psique emparedada em tal universo, não é tão raro o boçal engajado subir de degrau na escala da esquizofrenia e se transformar num boçal engajante, ou seja: alguém com discurso violento a arregimentar prosélitos e incautos, não raro apelando ao expediente da detração dos adversários, aos quais são aplicadas as etiquetas que ele julgar apropriadas, conforme as situações se forem apresentando.

Quando apóia campanhas de desarmamento, o boçal engajado se sente um Mahatma Gandhi redivivo a pregar a não-violência, enquanto consome e propagandeia todo tipo de filme, música ou literatura em que a violência beira o infernal, alimentando as potências superiores de sua alma — inteligência e vontade — com imagens prenhes das mais macabras e hediondas possibilidades humanas, que, expostas “artisticamente”, acabam por se difundir nas sociedades. Acontece que, como entronizou a liberdade de expressão como ditame fundamental de sua febril existência, o boçal engajado quebra lanças quando, por exemplo, alguma autoridade sensata proíbe a exibição de películas como A Serbian Film, na qual a mais inocente cena é a do estupro de um bebê que acaba de sair da barriga de sua mãe.

Em síntese, a mente deste opiniático personagem é uma selva impossível de debastar, porque foi alimentada com todo tipo de filosofias da insanidade e de estéticas surreais — em que o belo é uma espécie “antitranscendental” do ser, pois tem pouco ou nada a ver com a realidade das coisas e do espírito. Daí o fato de o boçal engajado não conseguir perceber, por exemplo, que uma sociedade em que nada é censurável está fadada à autodestruição; não será sequer uma “sociedade”, na acepção da palavra, mas o vale-tudo hobbesiano que acaba por deflagrar a luta de todos contra todos. Com a advertência de que, em Hobbes, este é absurdamente o estado “natural” do homem, mas na verdade tipifica o estágio em que a natureza humana se desfez quase por completo, sobrando-lhe apenas a casca de suas reais potências.

O boçal engajado é pan, metro, supra, homo, meta, pluri, hiper-sexual. Noutras palavras: a sua capacidade de protagonizar façanhas eróticas jamais vistas desde a criação do mundo é simetricamente proporcional à sua incapacidade de ordenar a mente. E isto não é uma metáfora, pois a neurociência tem mostrado o quanto a devoção à pornografia e a um erotismo exagerado causam uma pavloviana supermemória — canalizada apenas para dar vazão ao sexo transformado em vício. Resultado: a estimulação mental quase sem descanso ao sexo causa graves deficiências no córtex frontal, área do cérebro ativada quando o homem engendra raciocínios lógicos ou cognições mais complexas, toma decisões importantes, organiza seu discurso, etc.[1] Daí as freqüentes depressões, insatisfações existenciais, dificuldades de concentração, ansiedade e falta de motivação em uma pessoa com o perfil do boçal engajado, que metaforicamente ejacula o cérebro no samsara pornográfico em que jaz.

Haveria muitas outras características a destacar a respeito deste arquetípico homem do nosso tempo, como por exemplo a sua maior propensão a ser manipulado pelas técnicas de propaganda política — tão usuais desde que o mundo se transformou numa sociedade de massas. Mas encerremos este texto apenas observando que o boçal engajado é, fundamentalmente, a subespécie de um boçal muito mais refinado, e por isso superiormente deletério: o boçal liberal. Este último é a indômita e caótica mescla de várias idéias revolucionárias norteadoras dos séculos XX e XXI.

Entre outras coisas, o boçal engajado é irreligioso, como acima apontamos, mas o boçal liberal é o corruptor dos princípios da religião e da civilização, com a promessa de que, se o homem contemporâneo comer dos frutos por ele oferecidos, será livre, autônomo, poderoso. O seu primeiro princípio é retirar Deus das sociedades, na forma da lei, defendendo que os planos material e espiritual são realidades separadas por um abismo infinito. Ora, se o homem pode governar-se autonomamente, por que também não o podem as sociedades? 

Assim pensa este sujeito que, consciente ou inconscientemente, opera a máquina de devorar consciências concebida pelo espírito maligno que — segundo dizem — reside entre o tempo e a eternidade. 

E atende pelo nome de 666.
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1- Recomenda-se, para entender este mecanismo, a leitura do site Your Brain on Porn, onde há uma excelente bibliografia indicada. Nesta mesma linha, sobre o processo de estupidificação a partir das deformações da sexualidade humana, um grande amigo recomenda o livro Sexual Sabotage, de Judith Reisman.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Palestra sobre ética de Jordán Bruno Genta, tomista argentino


Sidney Silveira
Indico a todos os nossos leitores esta palestra sobre ética do tomista argentino Jodán Bruno Genta, que morreu em odium fidei — como mártir assassinado por extremistas de esquerda do Ejército Revolucionario del Pueblo, em 1974, no momento em que saída para a Missa com sua família.

Como bom tomista, ensina ele que "a experiência moral é uma experiência metafísica".

Bem, a palestra disponível  no Youtube está dividida assim (além do trecho acima, que é o primeiro):

Parte 10:
http://www.youtube.com/watch?v=gdChK03_BrM&feature=relmfu
Parte 11:
http://www.youtube.com/watch?v=v5sd00zVGZk&feature=relmfu

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Teologia tomista politicamente incorreta


Sidney Silveira
Aos assistentes deste pequeno trecho de aula, faço a seguinte ressalva: a definição de que "a arte é algo difícil de fazer" é, evidentemente, de Platão. No decorrer da palestra eu a citava como "minha", mas estava referindo-me apenas à frase por meio da qual eu expressara esta elevada premissa platônica, e só. Lapsus aulae.

De resto, os conceitos de natureza caída, de limbo, etc., foram todos retirados diretamente de Santo Tomás ou do Magistério. Outras idéias (como a de que a Virgem Maria participa instrumentalmente da ordem hipostática, etc.), são achados teológicos de tomistas importantes. 

A "Iniciação à Filosofia de Santo Tomás", de H Gardeil

Sidney Silveira
No blog "Estudos Tomistas" estão disponíveis os quatro volumes da obra citada no título desta postagem: Introdução à Metafísica, Introdução à Lógica, Introdução à Cosmologia e Introdução à Psicologia.

Apesar de algumas imprecisões terminológicas — encontradiças nas obras do tomista Gardeil —, trata-se de um bom estudo introdutório a Santo Tomás.
 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"O amor é o ato nobre da vontade na escolha efetiva do bem"


Sidney Silveira
Pequeno e bem-humorado trecho de aula em que se faz alusão à fé ao amor, em  clave tomista.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Escuridão na cidade dos homens: a despótica quimera de Thomas Hobbes


“Vi descer do céu outro Anjo, dotado de grande poder, e a terra iluminou-se com sua glória. Clamou ele em alta voz, dizendo: ‘Caiu, caiu a grande Babilônia. Tornou-se morada de demônios, prisão de espíritos imundos e de aves abomináveis e impuras’”.
(Apocalipse, XVIII, 1-3)
Sidney Silveira
Homo homini lupus,[1] pontifica Thomas Hobbes na base de sua teoria política. À luz desta máxima, e tendo em vista o inegável fato de que os homens vivem a se engalfinhar e a se trair uns aos outros, parece que Hobbes é um filósofo absolutamente realista. Em síntese, poucos duvidam de que, em qualquer época, a amizade é menos comum entre os homens do que a inveja, o ódio e a cobiça — razão pela qual uma teoria política minimamente razoável deveria levar em conta essa evidente “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), outra famosa expressão de Hobbes, para quem o homem é, inegavelmente, o lobo do homem.
Tais evidências depõem firmemente contra a tese de Santo Tomás de que “o homem é amigo do homem” (homo homini amicus),[2] a qual o frade dominicano assimilou da política de Aristóteles e incorporou à teologia católica, que diz o seguinte: Deus fez os homens para amarem a Ele próprio, acima de tudo, mas também para se amarem uns aos outros — finalidade desviada de maneira dramática com o pecado original, porém reconstituída pela redenção trazida por Cristo e deixada a todos como mandamento universal. Seja como for, parece que o amor não é natural entre os homens, pois se o fosse a concórdia seria regra comum no seio das sociedades, e a discórdia, as sedições, as guerras e os malefícios de todo tipo, exceções topicamente explicáveis.
Estamos aqui numa encruzilhada nada desprezível: a construção de uma teoria política sobre a premissa da amizade ou da inimizade entre os homens, como tendência fundamental; sobre o altruísmo ou sobre o egoísmo; sobre o bem comum ou sobre os bens individuais atomicamente dispersos. A proposta de Hobbes, neste contexto, é incisiva: a vida humana é uma corrida em que não existe outro prêmio senão superar os outros e chegar em primeiro lugar. Nela, cada indivíduo procura a honra e a glória para si mesmo, não importando se são conquistadas à custa da desonra e do infortúnio alheios.
A cupidez do homem concebido por Hobbes é semelhante à do super-homem nietzschiano, com a diferença de que, em Hobbes, o homem “natural” — indômito, homicida e incapaz de amizade — é proposto como algo a ser superado pelo homem civil, ao passo que, em Nietzsche, ele é louvado ditirambicamente como modelo de saúde do espírito. Entre eles há, no entanto, uma radical identidade: ambos tipificam a volúpia cega da vontade humana transformada em máquina insaciável de desejos de auto-satisfação e destruição, característica esta que só pode fazer das relações de uma pessoa com as demais um jogo de forças no qual só a vitória vale.
Neste inamistoso cenário, o que o teórico inglês da política considera como lei “natural” ganha conformação sui generis, a saber: no estado da natureza, todo homem tem direito a tudo, até o direito de dispor dos corpos de outros homens.[3] A vontade individual seria, como se aludiu acima, a virtude tirânica pela qual o homem-indivíduo quer absolutamente tudo para si, em firme oposição ao restante da humanidade, vista como potencial obstáculo à consecução de seus objetivos. Neste ponto nos é lícito perguntar: se as coisas são assim, como poderia haver propriamente “bem comum” político? Ou melhor: seria mesmo possível a existência de coletividades humanas?
A resposta de Hobbes não deixa margem a dúvidas. Congruente com os princípios de que parte, ele concebe a lei como a espada autoritária por meio da qual o Estado põe um freio à natureza depravada dos homens,[4] incapazes de viver em grupo. Em palavras simples: a sociedade nasce com o Estado, sobrevive por ele e se orienta a ele como a seu fim último. Sem a governança estatal não haveria comunidade possível, e o destino dos homens, dado o seu caráter belicoso, seria destruírem-se uns aos outros, razão pela qual devem eles abdicar a suas vontades individuais, por meio de um quimérico pacto social, em favor da vontade coletiva encarnada no Estado. Homo homini lupus. O famoso contratualismo de Hobbes — como o de todos os liberais seus herdeiros — nasce deste suposto realismo.
Ocorre que, se olhamos mais de perto, de imediato constatamos que o realismo de Hobbes é tão ou mais falso que o de Maquiavel. Em verdade ambos pecam, entre vários outros fatores, por fazer de dados empíricos estatisticamente considerados um critério de verdade a ser projetado sobre o universo da política. Para agravar a coisa, no caso de Hobbes os argumentos antropológicos que servem de pano de fundo à sua teoria são tão primários, as suas premissas são tão arbitrárias e inconsistentes, que não poderiam gerar senão uma concepção política monstruosa. Somadas todas as coisas, a idéia de que os indivíduos só podem conviver se estiverem submetidos a um poder absoluto, centralizado, é caudatária de sua deturpada visão da natureza do homem. Em suma, como assinalamos noutras ocasiões, por trás de toda má teoria política há uma antropologia malograda.
Para alcançar-se uma razoável percepção da política em Hobbes não basta ler o seu opus magnum — o Leviatã. Outros três livros devem ser devidamente estudados, para que se tenha uma clara noção dos conceitos antropológicos que servem de insumo à sua proposta de Estado: De Corpore, De Homine e o famoso Tratado sobre a Natureza Humana. Entre outras coisas, nestas obras ele nos dá claras mostras de sua psicologia corporalista e mecanicista, a qual parte da premissa de que, em toda a realidade, só existem corpos, sendo o próprio Deus uma substância corpórea. Em suma, acredita piamente Hobbes que a filosofia só trata de corpos, e nada mais;[5] e como tudo se resume, em última instância, a corpos, o método da geometria deve ser aplicado simpliciter à realidade por inteiro.
Por essa geometrização da filosofia já se percebe que Hobbes — não obstante criar uma sofisticada divisão das ciências — desconhece a elementar noção de que as ciências possuem princípios próprios, os quais manifestam relações necessárias entre as propriedades específicas e as causas que as definem; e princípios comuns que manifestam relações necessárias entre as propriedades genéricas e o gênero próximo delas, os quais podem ser evidentes ou tomados de empréstimo de outra ciência.[6] E mais: parece Hobbes desconhecer por completo que a filosofia da natureza se distingue especificamente das ciências da natureza, pois em várias ocasiões coloca as premissas de uma e de outras num mesmo contexto, numa mescla quase indiscernível.
Se a psicologia hobbesiana parte de noções equívocas e contraditórias, como por exemplo a idéia de que a alma humana é espírito corpóreo,[7] de sua gnosiologia não se pode afirmar coisa muito diferente. Nela frisa Hobbes com acerto que todo conhecimento humano passa pelos sentidos, mas a meio caminho ele se complica e proclama que as qualidades sensíveis captadas pelos sentidos humanos são puras aparências subjetivas, quase sem nenhuma realidade extra mentis (é bastante conhecida, neste contexto, a sua proposição de que a luz não é outra coisa senão uma perturbação mecânica do olho humano). Diz Hobbes: “As coisas podem ser consideradas como acidentes internos da nossa mente (...), não como existindo realmente, mas apenas parecendo ter uma existência fora de nós”.[8]
Não é difícil adivinhar que, retirando à realidade extramental quase todo o seu estatuto ontológico, Hobbes seja um nominalista da melhor cepa. E o é, na exata medida em que a sua teoria do conhecimento aniquila ou, na melhor das hipóteses, deturpa a relação da inteligência com os entes reais — chegando ele ao ponto de proclamar, num flagrante sestro ockhamista, que “a verdade não consiste nas coisas, mas em palavras” (veritas in dicto, non in re consistit).[9] Ocorre que o problema não pára por aqui, pois o filósofo inglês afirma que a ciência é puro cálculo mental feito de palavras, sempre balizada pelos procedimentos e regras da aritmética. Neste horizonte, os conceitos universais não são, nem poderiam ser, mais do que meros nomes (genus et universale, nominum, non rerum, nomina sunt).[10]
O determinismo psicológico de Hobbes parte da premissa de que tudo obedece a leis análogas às que governam o mundo corpóreo. Assim, a liberdade humana não estaria propriamente na vontade, que, como ensinavam os medievais, é uma potência imaterial livre no ato de escolha, mas nos objetos externos ao homem que a determinam necessariamente, quase como se não tivéssemos o condão de dizer “sim” ou “não” a eles. Escapa ao nosso filósofo a preciosa distinção de que apenas um bem absoluto e infinito poderia impor-se à vontade necessariamente, de maneira que ela não pudesse recusá-lo, dada a sua excelência e perfeição absolutas. Os bens contingentes, por sua vez, são sempre passíveis de ser preteridos em favor de outros, razão pela qual a vontade não os escolhe com necessidade. A relação dela com as coisas não é como a que há entre um corpo e outro.
Impressiona como escapou ao nosso filósofo o fato — tão constrangedoramente elementar — de que, se a vontade é movida necessariamente pelos bens externos, ela em verdade não é livre, mas sim escrava. Não espanta, pois, ler em Hobbes que “a liberdade é a ausência de obstáculos ou de impedimentos à ação humana”,[11] sendo esta um mero joguete do prazer ou do desprazer, do agradável ou do desagradável a que os homens estão sujeitos.[12] Em resumo, a vontade em Hobbes, malgrado a sua confusa distinção entre ato livre e ato necessário, não deixa de ser sempre o produto de uma série de causas mecânicas externas que a determinam necessariamente. Não existe aquilo que, com acerto, os escolásticos chamavam de liberdade de indiferença.
Tendo em vista estas e outras teses, impõe-se a conclusão de que o aspecto tirânico do Leviatã parte fundamentalmente do pressuposto de que o homem, no estado “natural”, é prisioneiro dos seus próprios apetites, tem contato deficiente com o universo exterior pelos sentidos e jamais alcança os conceitos universais, ou por outra: estes são, na melhor das hipóteses, o pálido reflexo de um precário mundo de palavras ou símbolos desconectados do mundo real, os quais residem de forma quase solipsística na mente humana. Daí viver o homem sem nenhuma segurança psicológica e, por conseguinte, em conflito permanente com os seus semelhantes, em verdade inimigos potenciais.
Se observarmos com atenção, concluiremos que o caráter belicoso do homem hobbesiano é condizente com a cegueira da vontade e da inteligência em que jaz. E, para domar esse monstro deterministicamente teleguiado por insaciáveis e homéricos apetites, só mesmo a ação “civilizatória” do Estado — transformado, por uma satânica alquimia, no surreal espelho da vontade coletiva à qual todas as vontades individuais devem submeter-se. Um Estado onipotente em que o soberano possui um poder inviolável e inquestionável.[13] Como se vê, entre o Meinf Kampf de Hitler e o Leviatã de Hobbes existem mais pontos de convergência do que a princípio possa parecer.
E muito pior que isto: na agenda globalista totalitária à qual os países vão hoje se dobrando — à revelia da vontade da maioria dos seus cidadãos —, há traços desse espectral mundo hobbesiano.
Um mundo semelhante à grande Babilônia do Apocalipse de João, cujo destino é cair fragorosamente perante a justiça divina.

Amizade e bem comum político
O percurso histórico entre o fim da Idade Média e o mundo contemporâneo é o retrato da paulatina deturpação da noção de bem comum — sem a qual não há, nem pode haver, política em sentido próprio. Na obra mesma de Hobbes este conceito é formulado problematicamente, devido às premissas de que parte o pensador inglês, assim como pela solução tirânica e aporética que propõe.
Quando, pois, Santo Tomás de Aquino afirma que “o homem é amigo do homem”,[14] refere-se não apenas a uma noção teológica, como a que destacamos acima, mas a algo constatável pelo senso comum: os homens necessitam do auxílio uns dos outros para alcançar diversos fins, e da mútua cooperação entre eles no decorrer do tempo nasce, naturalmente, a amizade. Primeiro no seio da família, depois entre vizinhos e, por fim, quando se associam para lograr diversos bens voltados ao usufruto de um conjunto maior de pessoas.
Ao concebermos neste breve texto a política como algo aristotelicamente fundado na amizade natural entre os homens, nós o fazemos tendo em vista a seguinte analogia: assim como as trevas não são o contrário da luz, mas a sua privação,[15] assim também a inimizade não é formalmente o contrário da amizade, mas a patológica ausência de uma apetência natural colocada por Deus no coração humano.
Ademais, uma política que sirva de instrumento civilizacional não pode ser fruto de uma tão grave doença da alma, como a inimizade, mas sim da busca perene do bem, da verdade e da unidade — aspectos transcendentais do ser que o homem é capaz de enxergar nos seus semelhantes.
Seus amigos.
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1- “O homem é o lobo do homem”. Thomas Hobbes, De Cive, cap. I
2- “O homem é amigo do homem”. Cfme. Tomás de Aquino.  Suma Contra os Gentios, III, 117: “(...) homo omni homini esset naturaliter familiaris et amicus”.
3- Cfme. Thomas Hobbes, Leviatã, cap. XIV.
4- “Depravada”, aqui, fica por nossa conta, pois Hobbes pressupõe que no estado natural nada existe de propriamente imoral, pois os homens podem absolutamente tudo. Como se vê, trata-se de uma mitologia idêntica à do estado pré-moral na genealogia de Nietzsche.
5- Thomas Hobbes. De Corpore, I, c.1, 8.
6- Cfme. Pe. Álvaro Calderón, Los Umbrales de la Filosofía – Cuatro Introducciones Tomistas, Edição de Autor, p. 431.
7- Thomas Hobbes. Tratado sobre a Natureza Humana, c.2, 4.
8- Thomas Hobbes. De Corpore, VII, c.1.
9- Thomas Hobbes. De Corpore, I, 3, 7-8.
10- Thomas Hobbes. De Corpore, ibid.
11- Liberty is the absence of all the impediments to action”. Thomas Hobbes. Liberty and Necessity, Excerpt 1, Fifthly.
12- Cfme. Thomas Hobbes. Tratado sobre a Natureza Humana, c.7, 4.
13- Thomas Hobbes. De Cive, VI, 3.
14- Há, de acordo com Santo Tomás, cinco tipos de amizade: a) amizade entre familiares, fundada na consangüinidade; b) amizade entre trabalhadores, fundada na divisão de tarefas em vista da obtenção de diversos fins; c) amizade entre cidadãos, enquanto partícipes da vida política em vista do bem comum; d) amizade cristã, fundada no Corpo Místico da Igreja; e e) amizade de caridade (amicitia caritatis), fundada na graça eficaz que leva um homem a amar seus inimigos, em Cristo. Cfme. Batistta Mondin. Dizionario Enciclopedico del pensiero di San Tommaso d’Aquino. Bologna: 2000: Edizioni Studio Domenicano, pp. 33-34
15- Tomás de Aquino. De Malo, I, art. 1, ad 5.