quinta-feira, 26 de abril de 2012

Enfim, o livro "Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino"




Sidney Silveira

Disse eu há algumas semanas que o Contra Impugnantes só seria eventualmente atualizado, nos próximos meses, para dar notícias de livros, cursos, etc. É o presente caso: com muita alegria informo que, finalmente, está prestes de vir à luz a obra Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino, de Celestino Pires — como primeiro livro do Instituto Angelicum. Faremos venda direta; darei em breve informações aos interessados em adquirir o livro.

Trata-se de uma obra-prima da melhor cepa teológica tomista, sem quaisquer concessões ao modernismo.

Já dei alguns tira-gostos dessa obra noutras postagens do blog. Abaixo, mais uma: a breve apresentação, da lavra do próprio Celestino.


Introdução



Este livro estuda o seguinte problema em Santo Tomás de Aquino.[1] Desde Sócrates a filosofia se ocupa com a questão de saber se a ação má é fruto da ignorância ou provém só da pura liberdade finita. Sócrates identificou ciência com virtude. Quem sabe o que é o bem, não faz o mal. A conclusão imediata é que, para a formação do homem, basta a instrução que cultiva a inteligência; a educação da vontade ou se abandona por desnecessária ou passa para segundo plano. O problema da relação entre ciência e virtude, entre o papel da inteligência e da vontade na ação má, recebeu-o Santo Tomás da filosofia antiga através de Aristóteles, que o elaborou na Ética a Nicomaco. Contudo, o progresso de Aristóteles não basta ainda. O Estagirita não chegou a elaborar a teoria da liberdade indispensável para a plena e clara solução do problema.

Trata-se, por conseguinte, de determinar a causalidade peculiar da inteligência na ação má. O problema, na sua forma mais simples, é o seguinte. O pecado é um ato da vontade; mas a vontade tende ao bem e só ao bem. Se tende ao mal é porque o homem não conhece o verdadeiro bem. O pecado na vontade proviria de um erro na inteligência.

Santo Tomás refere-se ao problema em muitas passagens da sua obra teológica. Quase todos os comentadores passam por cima sem lhe prestar atenção particular. E, contudo, cremos que está no centro de muitas questões interessantes de teologia, de filosofia e psicologia. Toda a complexidade da ação humana como liberdade, paixões, hábitos, virtudes morais e dons sobrenaturais, o dinamismo fundamental do homem para o último fim, se revela na análise desta ação misteriosa que é o pecado.

Em geral, os chamados tomistas admitem, sem crítica, que no pecado se pressupõe um erro e pensam assim seguir a doutrina do mestre. V. Cathrein, em 1930, ao escrever o seu artigo do “Gregorianum” dizia que tinha encontrado pouca bibliografia sobre o assunto “talvez porque se trata de uma questão difícil e obscura”. E depois de 1930, que trate diretamente e com algum desenvolvimento do tema encontramos apenas parte de um capítulo de uma tese sobre o pecado de Adão, e, menos diretamente, o vigoroso artigo de J. de Blic sobre o intelectualismo moral de Santo Tomás de Aquino a propósito do pecado dos Anjos.[2] Indiretamente, ou porque refutam as posições de de Blic ou porque, a propósito do problema da pecabilidade, se encontram várias alusões ou posições aceites, em geral, sem as discutir e confrontar com os textos.

As duas posições extremas personificam-se em de Blic e Jacques Maritain. O primeiro sustenta que Santo Tomás é um intelectualista exagerado, mais ainda que Aristóteles, e renova, nos princípios que admite, a teoria de Sócrates. De Blic apóia a sua interpretação numa massa imponente de textos e faz, em última análise, de Santo Tomás um determinista.[3] Por outro lado Maritain, em nome da concepção da liberdade que diz ser a autêntica de Santo Tomás, nega que para o pecado seja necessário admitir qualquer espécie de erro ou ignorância e que, quem não entende isto, conserva a palavra liberdade, mas não sabe nada do que ela é. Maritain não se demora a acumular e analisar textos contentando-se com indicações sumárias.[4] As posições são claras e decididas. De Blic, falando de determinismo moral, recusa-se a aceitar as posições de Santo Tomás em nome da liberdade; Maritain em nome da concepção de liberdade própria da filosofia e teologia do Angélico nega-se a aceitar a interpretação de de Blic.

Não pomos o problema nestes termos. O problema é mais geral e mais radical. Perguntamos pela causalidade da inteligência no pecado. O pecado é um ato humano; e os atos humanos são atos da inteligência e da vontade. Ou, doutro modo, mas que vem a dar no mesmo, o pecado é ato da vontade e a vontade pressupõe sempre a atividade da inteligência. É a natureza desta atividade e a causalidade que exerce no ato humano que é o pecado o que nos propomos a estudar.

Estudamos o problema em Santo Tomás. E isto quer dizer que nos sujeitamos à sua perspectiva, que é uma perspectiva teológica e não puramente filosófica. Todos os elementos da filosofia da ação entram nesta perspectiva. Sem perder em reflexão racional, ganha em amplidão e em verdade. O pecado não é tema puramente filosófico. É sobretudo problema teológico. Ao estudar as relações da inteligência e da vontade no pecado podemos tomar dois pontos de perspectiva: ou estudar a influência do pecado na inteligência ou da inteligência no pecado. A primeira perspectiva, mais teológica, trataria da influência que a ação má tem na inteligência, diria em que sentido o pecado diminui a capacidade do homem para atingir a verdade moral e religiosa. A segunda estuda o influxo da inteligência na ação má. Em Santo Tomás encontramos as duas perspectivas, mas aqui a atenção incide principalmente sobre o último aspecto. O primeiro aparece enquanto pode iluminar o segundo.

Estudar o problema em Santo Tomás não significa estudá-lo com interesse exclusivamente histórico. O que interessa é a coisa mesma, o problema considerado em si. Estudar o problema em Santo Tomás significa estudá-lo através do seu espírito, aceitá-lo como mestre. E o mestre autêntico não guia para si, mas para a verdade das coisas. Por isso a leitura que prescinda dos textos citados, que não verifique e não confronte, a leitura que não obrigue a pensar e a dialogar, não terá a recompensa do encontro com o pensamento do mestre.

Um tal leitor não se encontrará a pensar, simplesmente porque não pensa, em rigor nem sequer lê.

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1- Foi escrito como tese para o Doutoramento em Teologia Dogmática na faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana. Esta finalidade explica algumas das suas características. Aparece agora com ligeiras modificações.

2- E. J. Fitzpatrick, The Sin of Adam in the Writings of St. Thomas Aquinas, Saint Mary of the Lake Seminary, Mundelein, Illionois, U.S.A., 1950, ch. IV: The Casuality of the Sin, The Role of the Intellect, pp. 78-108. J. de Blic, Saint Thomas et l’Intellectualisme moral, à propos de l´Impéccabilité des Anges, “Mélanges de Science Religieuse”, 1944, pp. 241-280.

3- J. de Blic, o. c., pp. 264, 265, 266, 274 e nota 90.

4- J. Maritain, Le Péché de l’Ange, Revue Thomiste (1956), 197-239; cfr. pp. 198-201.