sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O que é conhecer?


Sidney Silveira
Posto aqui um brevíssimo vídeo antigo em resposta à indagação feita por um amigo a respeito do que é conhecer, para uma inteligência humana. Entre outras coisas, destacam-se acima duas propriedades do conhecimento:

a) é a posse imaterial dos entes; e
b) é movimento acidental da potência intelectiva.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Com a magnífica obra-prima!

Sidney Silveira

Ontem, finalmente, tive em mãos o livro que acaba de ser lançado em luxuosa e acurada edição bilíngüe pela editora É: as Questões Disputadas Sobre a Alma, de Santo Tomás — com ótimo preço, dada a qualidade da edição: R$ 59,00.

Estou, pois, lambendo a cria e, em breve, postarei por aqui mais alguns textos sobre o tema da alma em Santo Tomás de Aquino.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Pretensões do neoateísmo cientificista (I), etc.

Sidney Silveira
Novidades:

> Postei neste link do Youtube  um vídeo sobre neoateísmo, para os amigos que nos acompanham verem — se tiverem interesse. É o primeiro de uma pequena série.

> Tenho recebido inúmeros e-mails pedindo-me que comente a abdicação do Papa Bento XVI. Aviso: não farei nenhum comentário público sobre este assunto gravíssimo pelo menos até o dia 28 de fevereiro, data prevista para a sua saída. 

> Aos que estão fazendo o curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo, informo: gravei  vídeos novos, mas estou tentando achar em que pendrive foram parar. Esta semana teremos, enfim, novidades.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Hipnose coletiva: seitas cristãs e caos espiritual e político

Santo Ambrósio impede o imperador Teodósio I de entrar na igreja 
     "O esplendor cativa a inteligência, mesmo quando entrevisto pelo véu das nossas debilidades".
Sidney Silveira                            
Despojar-se do senso de ridículo é um dos traços característicos do demagogo. A sua perseverança na fraude tem como precondições psicológicas certos vícios mentais que o embriagam num universo de certezas invencíveis, sem correspondência na realidade. Noutras palavras: para manter indefinidamente as suas mentiras dolosas, o demagogo precisa antes de tudo enganar-se a si mesmo, despersonalizar-se a ponto de a psique naufragar nas mais violentas neuroses. Para os desatentos, este seu destemor de cair no ridículo acaba passando a ilusória imagem de firmeza de ideais, mas é a ponta do iceberg de uma grave situação espiritual cuja cura só poderia vir pela negação dos falsos princípios de sua avidez de poder.
Ao usarmos a palavra “poder”, semanticamente tão gasta, alguém poderia supor que nos referimos ao demagogo político. Não. Em geral, este vende a sua dignidade por ninharias, satisfaz-se com ganhos materiais e, embora tenha a alma avarenta, é menos daninho que o demagogo religioso, profanador de tradições denominado pela Igreja, em épocas passadas, como heresiarca. É particularmente ao heresiarca neoprotestante que aludimos, homem apaixonado pela firme vontade de conformar o mundo às suas próprias idéias. Na prática, ser adorado por zumbis hipnotizados — ou seja: por gente cuja consciência estilhaçou-se a ponto de perder a natural bússola psicológica do senso comum — é o máximo a que chega esse tipo de demagogo. Seu princípio é o mesmo do demônio d’O Paraíso Perdido, de Milton: “É melhor reinar no inferno do que servir no céu”.[1]Ainda que não creia no céu e faça desta vida um inferno.[2]
Encontrável em todas as épocas, o demagogo religioso prefere viver de confrontos e catástrofes a suportar a desilusão ou o insucesso pessoal. Na verdade, ele é o catastrofista profissional que incute nos ouvintes um permanente estado de pânico ou insegurança, sem o qual não poderia apresentar-se como viés para a resolução dos problemas da sociedade, e pior: para os dramas espirituais e morais daqueles a quem serve de modelo. Este é o caso de inúmeros líderes de seitas evangélicas, tataranetos de Lutero e Calvino. Deturpam a Bíblia com os seus “livres exames” — geradores de uma entropia sem fim, comprovada pela multiplicação ao infinito das agremiações “cristãs” — e se valem de interpretações pessoais da Escritura para crescer no mundo.
Alguns deles justificam a sua riqueza pela ação benemérita de hipnotizar os fiéis com técnicas de neurolingüística, e, protegidos constitucionalmente pelo princípio liberal da liberdade de culto, vigente no Ocidente outrora católico, não pararão de crescer em número até o final dos tempos. Sob quaisquer aspectos, equiparar esses grupos à Igreja Católica Apostólica Romana, formadora da cultura ocidental no que teve de melhor e de mais elevado, é piada ou má-fé; se eles hoje tomam a dianteira na defesa de alguns itens da lei natural, dada a defecção da Igreja no plano político, é antes o signo da omissão espiritual daqueles que preferem dialogar a ensinar as verdades em matéria de fé e costumes. É signo também da degeneração na formação filosófica e teológica nos seminários católicos, circunstancialmente incapazes de formar inteligências aptas a responder ao cientificismo contemporâneo, ao ateísmo militante e aos slogans da nova ordem mundial ecumenista e laicista, já assentada em seus princípios.
Na escalada rumo ao sucesso, o líder neoprotestante precisa, antes de tudo, de um núcleo de seguidores, ou seja: de uma camarilha. Ele estabelece periódicas reuniões ritualísticas, que depois ganharão forma semelhante à de um culto; bola uma hierarquia que contemple a ascensão gradual dos iniciados, com prêmios proporcionais aos ganhos de novos adeptos e à manutenção dos antigos; cria celebrações de datas, para congregar as consciências em torno dos objetivos do grupo; busca certificar-se pessoalmente da lealdade dos seus subordinados imediatos; e incute nos fiéis excêntricas esperanças de prosperidade, invertendo o pólo do ensinamento tradicional da Igreja, para o qual a prosperidade, na melhor das hipóteses, sempre foi instrumento, e não um fim a ser buscado. Ou por outra: neste mundo, a prosperidade é mais temível que amável, pelo perigo de tornar-se empecilho à vida cristã. Por este motivo ressaltava Santo Tomás, em seu Contra Impugnantes, o quão honorável é desprezar os bens temporais, “para o espírito livrar-se da solicitude das riquezas”.[3]
É óbvio que não se trata de apologia do pauperismo, no sentido de todos serem vocacionados ao voto de pobreza, pois, como diz Tomás de Aquino no mesmo livro, “a pobreza forçada leva consigo muitos perigos, que estão distantes de quem assume a pobreza voluntária”.[4] Trata-se, isto sim, de grave advertência feita reiteradas vezes pelos Doutores e pelo Magistério: a de que a apetência por abundância produz freqüentemente um distanciamento da justiça. Não por outra razão, pregava Santo Ambrósio a seus alunos e dirigidos espirituais: em si mesmas, as riquezas não prestam serviço algum para uma vida feliz (nullum adminiculum praestant divitiae ad vitam beatam).[5] Duras palavras para o espírito liberal protestante, ou para o católico protestantizado litúrgica e doutrinalmente.
Voltemos ao nosso demagogo. O seu egocentrismo radical o torna incapaz do amor que é a fonte primária de todas as paixões da alma. Tal homem só consegue enamorar-se das próprias idéias e não reconhece nenhuma autoridade exterior; portanto, quando imiscuído nos assuntos atinentes a Deus, sentirá a incoercível necessidade de fundar a sua religião, o que requererá certa capacidade de convencimento. Astuto, compreende logo que não se deve incutir no subconsciente dos seguidores mais de um inimigo por vez, para mantê-los numa tensão sempre presa a um ponto central de combate, sem dissipar a mente à vista de muitos objetivos. Para alcançar este fim, apela a certo virtuosismo retórico, possui frieza calculista, tem noção tática dos movimentos a realizar, conhecimento de algumas técnicas de lavagem cerebral e capacidade de transformar eventos corriqueiros em catástrofes metafísicas. E, é claro, prega em nome de Cristo e vive a citar “a autoridade da Palavra”.
Não tenhamos nós meias palavras: só é possível chamar um líder neoprotestante de “teólogo” por meio de analogias forçosas, a menos que confundamos a elevada ciência teológica — a um só tempo sabedoria especulativa e prática — com bate-bocas entre rufiões que vivem a citar a Bíblia na exata proporção em que são incapazes de raciocinar retamente, assim como de inteligir as verdades mais excelsas da ordem do ser. Ora, o esplendor cativa a inteligência mesmo quando entrevisto pelo véu das nossas debilidades, mas com uma advertência: no caso dos próceres dessas facções evangélicas herdeiras de Lutero, que salpicam no tecido social como catapora, falta não apenas o sentido maior do mistério; falta-lhes acima de tudo a Eucaristia, fonte da vida verdadeiramente cristã, raiz da graça sacramental e, portanto, de luzes divinas para a inteligência e de forças suplementares para a vontade afastar-se dos pecados mais graves.
Muitos católicos formados na mentalidade pós-conciliar põem sua esperança em esforços políticos pan-cristãos para combater a new order, ou seja, que congreguem essas forças evangélicas e a de leigos católicos (já que, para eles, a hierarquia da Igreja serve para tratar de coisas internas e ratificar magisterialmente o sentir comum dos fiéis). Não se importam com o fato de que a existência do inimigo comum de hoje só se tenha tornado possível graças ao esfacelamento do cristianismo — cuja evidência está bem à sua frente, materializada nessas incontáveis agremiações que levam o nome de cristãs, renegam a sucessão apostólica, o Magistério e os dogmas. E pior: cujo crescimento em progressão geométrica depende da tibieza ou da carência de apostolicidade numa Igreja que, nas últimas décadas, cedeu à tentação do ecumenismo e à da “sã” laicidade, assim como a um lânguido mau gosto estético, na música, na arquitetura, na liturgia. A propósito, como as escolhas neste campo dependem do papel que se atribua à política, boa sorte a vocês!
De nossa parte, preferimos ficar acantonados na defesa do Magistério tradicional e na divulgação de filósofos e Doutores da Igreja, de acordo com nossas parcas possibilidades e exíguos meios materiais. Preferimos a derrota pessoal, manifestada pelo desdém de falsos amigos e pelo fracasso financeiro. Preferimos a solidão. Preferimos a incompreensão. Preferimos o ostracismo político e a murmuração dos nossos pares. E se, circunstancialmente, somos levados a defender pontos em comum com líderes evangélicos, tomamos o cuidado de jamais fazer parecer que firmamos com eles qualquer tipo de aliança; trata-se, tão-somente, de ações tópicas e coincidentes numa situação de extrema gravidade, o que não representa união política e muito menos espiritual, mas mero senso de sobrevivência, sempre acompanhado da clara consciência de que o espírito liberal do qual surgiram e que os sustém é a fonte comum da descristianização do Ocidente.
Perdoem-nos os queridos amigos católicos tarados pela unidade e os otimistas linhas-médias, mas em tão grave matéria a história da Igreja nos mostra o seguinte: de concessões em concessões, acaba-se por fazer do mal menor político o pior dos males espirituais — o que impede a regeneração mesma da política. Como dissemos noutra oportunidade, quando o mal triunfa, não se resolvem problemas políticos por meio da política, mas apelando aos princípios civilizacionais sem os quais sequer poderia haver política. Em palavras simples e diretas, resolvem-se pela reinserção das verdades divinas entre as coisas humanas.
Antes de encerrar, façamos uso de uma analogia para explicar isto. De acordo com a escola tomista, a vontade de Deus é incomovível, ou seja, é imutável porque se identifica em absoluto com o Seu Próprio Ser. Por isso, é impossível que seja movida por algo externo — quer dizer: por qualquer criatura. Assim, as nossas orações não têm o condão de mudar a vontade de Deus, visto que esta não se inclina nem metafisicamente se move; quando, pois, uma prece é atendida, é a nossa vontade que se deifica e se une à d’Ele. Conforme destaca lindamente o Pe. Garrigou-Lagrange na obra-prima As Três Idades da Vida Interior, passamos então a querer, no tempo, o que Deus quis desde a eternidade. Assim também, nas épocas de caos espiritual as leis humanas só podem mudar beneficamente a política se se conformarem à Lei eterna. Por isso, acordos políticos fora da fé ou da doutrina não nos interessam; seus efeitos são deletérios. Embora possa haver coincidência na defesa comum da lei natural, aqui e ali.
Por fim, cabe uma advertência importantíssima: não nos referimos aos fiéis evangélicos, a grande maioria dos quais estaria na Igreja se os ventos pós-conciliares não tivessem aberto flancos para a multiplicação das seitas. Entre estes, há gente boníssima, piedosa e que busca sinceramente a Deus, mesmo numa situação de ignorância invencível com relação às verdades de fé, cuja regra próxima é o Magistério da Igreja. Referimo-nos a seus líderes,  inventores de novas religiões cristãs que, na prática, demonstram repugnância voluntária pelo bem espiritual superior. Parecem-nos claramente dirigidas a eles as duras palavras de Cristo, ao ouvir dizer que falaram em Seu nome:
“Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt. VII, 23).
Sejam quem forem estes homens mencionados por Nosso Senhor, não lhes restará outra coisa senão cair numa salmodia blasfematória e sacrílega, da qual será impossível sair. 

Signo perfeito do ódio eterno dos réprobos.
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1- O Paraíso Perdido, Livro I, 260-265.
2- Hitler encarna bem o tipo, e antes que alguém aponte contradição com o fato de afirmarmos não nos referir ao demagogo político, digamos desde logo: o nazismo foi, acima de tudo, um movimento gnóstico que se valeu da política e de circunstâncias históricas para impor-se como religião do misticismo do sangue baseada num prometéico pan-germanismo pagão. 
Alguns de seus principais inspiradores foram:
Ø  Jörg Lanz, grão-mestre da ordem ocultista Ordo Novi Templi, renegado monge cisterciense para quem a idade de ouro da humanidade ressurgiria pela supremacia do sangue ariano. O insano eugenismo de Lanz foi seguido à risca pela SS nazista, assim como vários outros “conselhos” de seu jornal Ostara (colecionado por Hitler), que não vale a pena enumerar;
Ø  o necromante racista Guido Von Lizt, com suas “visões” do passado em que fora iniciado nos ritos de antigas tribos teutônicas. Para Lizt, as runas encerravam um alfabeto de símbolos mágico-esotéricos (usados à exaustão pelo nazismo) e a suástica era o signo da vitória do homem ariano;
Ø  a teósofa telepática Madame Blavatsky, que, em A doutrina secreta, descreve a supremacia da raça ariana e pontifica: ela será única no planeta, em detrimento de todas as demais. A sua doutrina dos “eleitos ocultos” (a Grande Irmandade Branca) teve influência na formação da mentalidade de elites alemãs que, mais tarde, cerrariam fileiras entre os nazistas; e
Ø  Houston Stewart Chamberlain, autor do inacreditável Os Fundamentos do Século XIX, inspirado em alguns “místicos” anti-semitas. Se, para Marx, a chave para a compreensão da história era a luta de classes, para Chamberlain era a ascensão e posterior queda das raças. Para ele, a mente alemã guiaria os povos de sangue ariano à dominação do mundo. Já bem idoso, após encontrar-se com Hitler na casa que fora do compositor Richard Wagner, escreveu Chamberlain com intenções proféticas: Hitler é um grande “criador”; o homem que salvará a situação numa hora de extrema gravidade.
3- Tomás de Aquino, Contra Impugnantes Dei cultum et religionem, c. 6.
4- Tomás de Aquino, Op. cit., c.6.
5- Ambrósio, De Officiis, II, c.4, n. 15.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O link para compra pela internet das "Questões Disputadas sobre a Alma"

Sidney Silveira
A editora É acaba de colocar o link para a compra pela internet da obra "Questões Disputadas Sobre a Alma" — que custará R$ 59,00. Os interessados devem acessar http://www.erealizacoes.com.br/ecom/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=1409, onde podem colocar no carrinho de compras o livro e ter acesso a informações técnicas.

Não percam a oportunidade: o preço está ótimo!

A beleza da mulher e o reino do inteligível

 Psique abre a caixa de Perséfone
“A mulher bela é uma presença que se impõe à inteligência e aos sentidos de maneira visceral".
Sidney Silveira                                                                                
Tal é o esplendor das coisas belas, que deparar com elas inunda as potências superiores da alma humana, com marcantes reflexos também no plano sensitivo: mudança no padrão dos batimentos cardíacos, elevação da pressão sanguínea, benéficas alterações químicas no sistema neurotransmissor, aguçamento da visão, que se compraz na percepção da harmonia, etc. Entre o espírito e a beleza existe certa conaturalidade metafísica, em virtude da manifestação dos aspectos transcendentais do ser (como unidade, integridade, simetria, inteligibilidade e esplendor formal) passíveis de ser identificados em qualquer ente que esteja no pleno ato de sua perfeição ontológica.
O impacto resultante do contato da inteligência com a beleza invade o universo onírico, contagia a imaginação, aguça a memória, potencializa os sentidos, atiça a vontade. Noutras palavras, todas as instâncias do ente humano são afetadas pela visão das coisas belas, quando percebidas como tal, ou seja: trata-se de uma relação que pressupõe pró-atividade do espírito, sem a qual não se sairia da inércia típica dos momentos em que o homem não presencia a beleza, ou então quando esta simplesmente inexiste. Em suma, até para perceber o belo das coisas sensíveis é necessário adentrar o reino do inteligível, ainda que de forma rasa — caso de gente embotada a quem escapam as minúcias e sutilezas que tornam a beleza mais bela.
O êxtase, neste mundo, é uma exceção na vida das pessoas por duas razões principais:
Ø  ou a inteligência humana se debilita por conta de obstáculos psicológicos, gnosiológicos e morais, que a impedem de se maravilhar tanto quanto poderia;
Ø  ou se vê diante de coisas feias e deploráveis, que a narcotizam.
Poderíamos acrescentar a circunstância de o homem se encontrar — na maior parte de sua existência terrena — entre coisas nem bonitas nem repugnantes, mas excluímos esta hipótese pelo seguinte motivo:  em verdade, neste caso trata-se de uma espécie de astigmatismo espiritual que o faz ver o mundo por meio de refrações enganadoras, as quais lhe desfocam a percepção. A beleza está diante dele, preciosa e radiante, mas ele é incapaz de dar testemunho dela, pois, como o personagem acorrentado ao fundo da Caverna de Platão (livro VII da República), vê espectros da realidade e não alcança a instância metafísica em que radica.
Santo Alberto Magno, em seu comentário ao De divinis nominibus — obra do místico neoplatônico Pseudo Dionísio Areopagita —, define a beleza como “esplendor das formas substanciais ou acidentais visto em suas partes materiais que revelam proporção e medida”.[1] O Doctor Universalis não considerava a beleza como um dos transcendentais do ser, talvez por enfatizar como uma de suas características essenciais a “boa disposição entre as partes”. Ora, isto exclui do universo da beleza os anjos, entes sem matéria em sua composição entitativa e, portanto, sem partes, assim como Deus, perfeição simplíssima sem composição de espécie alguma.
Por sua vez, Tomás de Aquino, discípulo de Alberto, enfatizava: Deus, primeiro princípio ativo universal da ordem do ser, é ato supremo e, por conseguinte, maximamente perfeito.[2] Sendo assim, em Deus se encontra a razão de beleza, na medida em que o ser é a precondição fundamental de qualquer beleza, e Deus é o ser perfeitíssimo – do qual pendem as perfeições das criaturas. Todas as belezas são, pois, partícipes da omniperfeição divina, e tão mais belas serão quanto melhor a espelharem.[3] Deus é, para o Aquinate, beleza mensurante, ao passo que as criaturas são belezas mensuradas, pois Ele” é belo em si mesmo e não sob um particular aspecto; (...) é belo sempre e uniformemente, e d’Ele se exclui qualquer defeito quanto à beleza, a começar pela mutabilidade, que é o seu primeiro defeito. (...) Deus é a causa da beleza em todas as criaturas; suas irradiações são “pulcríficas” (ista traditiones sunt pulchrificae)”.[4] Ou seja: Ele embeleza as coisas emprestando-lhes certo fulgor.
Entre os entes compostos de matéria e forma, a beleza da mulher sobeja. Não à toa, “formosura” é a expressão que cabe, com grande precisão semântica, à mulher bela, muito mais do que ao homem ou a qualquer outro ente belo. Tendo a mesma natureza corpóreo-espiritual do homem, a mulher – no tocante ao aspecto material-sensível de que fala Santo Alberto Magno em seu conceito de beleza –, quando é linda, torna-se capaz de causar eventos cataclísmicos. Por ela perdeu-se Tróia; por ela Otelo tornou-se um criminoso; por ela o mitológico deus Eros se apaixonou, e Afrodite, sua mãe enciumada, teve inveja e decidiu vingar-se; induzido por ela caiu o homem em pecado. A mulher bela é uma presença que se impõe aos sentidos e à inteligência de maneira visceral; difícil é não olhá-la, difícil é não ser atingindo, como por uma flecha, pela imagem viva que ela deixa na alma de quem a vê. Difícil é, diante dela, não se reduzir ao silêncio, modo próprio de contemplar a beleza.
Partimos da pressuposição teológica de que o homem, no presente estado de natureza decaída pelo pecado, não está espiritualmente preparado para receber a beleza. E nem para possuí-la, no sentido metafísico do termo. No primeiro caso, despertam-se a inveja e a cobiça e se acendem as paixões; no segundo caso, tende-se à vaidade desmedida e à jactância, que dela decorre. Daí a beleza despertar contendas, ciúmes, desconfianças, mortes e, não raro, solidão. Assim sucedeu com a linda pastora Marcela, no monumental Dom Quixote — moça que, ao ser vista, fazia os homens bendizer a Deus. Nas palavras de Cervantes, a jovem de beleza invulgar “causa mais danos nesta terra do que se por ela entrasse a peste, porque sua afabilidade e formosura atraem os corações dos que com ela convivem, fazendo-os servi-la e amá-la; mas seu desdém e desengano os conduz ao extremo do desespero”.
Por ela suicidou-se o desvairado Crisóstomo, mas, no enterro deste, para defender-se Marcela admoesta aos presentes que a culpavam pelo ato do pobre homem:
— Assim como não tem culpa a víbora pela peçonha que traz, embora mortífera (...), assim tampouco mereço ser repreendida por formosa, porque a formosura, na mulher honesta, é como o fogo distante ou a espada afiada: nem ele queima, nem ela corta a quem não se lhes aproxima. A honra e as virtudes são adornos da alma, sem as quais não deve o corpo parecer formoso, ainda que o seja. E se a honestidade é uma das virtudes (...), por que há de perdê-la quem é amada por formosa, apenas para corresponder à intenção dos que, por capricho e usando de todas as forças e indústrias, deseja que a perca? (...) Se a Crisóstomo matou sua impaciência e arrojado desejo, por que se há de culpar o meu recatado e honesto proceder?
Esta passagem de Cervantes (Dom Quixote, livro I, cap. XIV) nos remete à crise habitualmente suscitada pela beleza neste mundo espectral — tão carente dela nos corações humanos. Em resumidas contas, a beleza física tende a ofuscar a beleza espiritual e fazer-nos enxergar a realidade pelo avesso. Esta é uma das causas da impossibilidade de amarmos perfeitamente nesta vida: sequer conseguimos aquilatar a beleza em seu real valor e profundidade, como inserida numa hierarquia de belezas materiais e espirituais cujo cume é Deus, o Próprio Ser, que, como vimos, é a razão de beleza sem a qual nada poderia ser dito propriamente belo, pois são de empréstimo as belezas deste mundo submetido ao movimento e à corruptibilidade.
A mulher bonita — por ser fulgurante e agradar à vista de maneira às vezes irresistível — parece-nos o ponto de inflexão propício para buscarmos uma razoável analogia para o trânsito da fruição das coisas sensíveis às inteligíveis, ou melhor: da fruição do inteligível no sensível. Não nos referimos, aqui, às precondições para algo ser dito belo, assinaladas no primeiro parágrafo, mas à necessidade de buscar um ponto arquimédico que nos forneça anticorpos para suportar a beleza, compreendê-la como dádiva divina, e não ficar sob o seu jugo. Platão conseguira indicar um caminho no Banquete, onde Eros está para as apetências humanas assim como as realidades matemáticas estão para a vida do espírito. Ali, é evidente a necessidade de ascese interior, para que as coisas sejam amáveis de acordo com a sua importância na escala dos bens que há na realidade.
Mas demos um passo adiante, para consignar o seguinte: para apreciar a beleza sem perder-se por ela, é preciso vestir-se com a armadura da virtude chamada pelos cristãos de castidade. Pureza interior é precondição para o entendimento das belezas exteriores (incluídas aqui as belezas noéticas e as produzidas pela arte), pelo menos se não pretendemos reduzir a beleza a seu aspecto visível radicado na matéria. Neste último caso, acaba-se não apenas por não compreendê-la, mas sobretudo por distorcê-la a ponto de transformá-la numa coisa esquisita, artificial, forçada. Modelos anoréxicas que hoje são estampadas nas capas das revistas — com a boca entreaberta fazendo cara de sagüi excitado — nos dão uma caricata mostra disso.
O sentido maior da castidade foi enfatizado por Santo Tomás ao lembrar-nos o seguinte: se, no homem, a atividade intelectual consiste na abstração das imagens das coisas sensíveis, “quanto mais o intelecto se libere dessas imagens (...), tanto mais se tornará capaz de considerar devidamente os inteligíveis e ordenar os sensíveis”.[5] Em síntese, em si mesma, a beleza está no plano inteligível, mas não como forma arquetípica subsistente, ao modo platônico, e sim como conquista da inteligência na inquirição das coisas — com exceção da beleza de Deus, a qual se identifica em sentido absoluto com o Seu ser imaterial e está muito além da capacidade humana de conhecimento, pois somente um intelecto infinito poderia conhecer o que é de per si infinito.
Neste contexto, diga-se que a alma casta está em vantagem não apenas para apreciar a beleza em sua real dimensão, mas também para possuí-la sem se deixar cair na vaidade ou sucumbir à cobiça desenfreada dos homens, como nos dá exemplo a linda pastora Marcela, no clássico Dom Quixote.
Caluniada pelos que a desejaram, odiada pelos que rejeitou, mas justa, honrada e livre, como um arquétipo da verdadeira beleza.[6]
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1- Alberto Magno, Super Dionysii De divinis nominibus, q. 5
2- Cfme. Suma Teológica, I, q,4, art 1, corpus.
3- Certamente, o ateu há de negar o fato de em Deus dar-se a ratio da beleza, em relação à qual todas as demais belezas são relativas. Mas como o ateísmo é a patologia que tem por fundamento uma negação aporética e contrária ao senso comum, e a sua cura se dá ou por milagre ou pela paciência bíblica de algum sábio e santo homem que explique ao ateu as razões pelas quais não pode haver ruptura no ser — e que todas as coisas da realidade são contingências metafísicas que pressupõem a indefectibilidade de um ser superlativamente perfeito e infinito —, deixemo-lo por ora de lado. Ele não é objeto do presente texto, embora valha a pena lembrar o seguinte: por mutilar culpavelmente a própria inteligência, o ateu é alguém dotado de reduzida capacidade de extasiar-se perante as coisas belas. Ele tenderá a instrumentalizá-las, em vez de fruí-las naquilo que têm de sublime.
4- Tomás de Aquino, In Div. Nom., IV, lectio 5.
5- Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 15, art.3
6- Alguns cervantinos ressaltaram a ambivalência da pastora Marcela, chegando a ver nesta personagem do Quixote uma feminista avant la lettre. Preferimos ficar com aqueles para quem Marcela representa o ideal da beleza que, sendo livre, não se deixa prender pelos laços das paixões e desvarios humanos.