segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A coragem pelo avesso


Sidney Silveira
ADIANTADO na leitura da extensa e bem documentada biografia do filósofo basco Xavier Zubiri, começo a ter uma visão de conjunto das influências que, no final das contas, se refletiram nos vários problemas de sua gnosiologia e no arremedo de teologia que ele literalmente esganiçou, em tardias e duradouras dores de parto. Espécie de luta mal-disfarçada contra o tomismo — responsável indireto, via Magistério da Igreja, pela excomunhão que Zubiri sofreu quando ainda era sacerdote, da qual nunca se recobrou totalmente.

À luz dessa notável biografia intelectual, lida no vetor das mais conhecidas doutrinas de Zubiri, fica evidente para mim a natureza do drama por que o espanhol passou antes de completar 30 anos. 

Drama análogo ao de muitos jovens brilhantes que, por falta de boa orientação espiritual, acabam por descambar numa erudição desordenada e sucumbem ao anseio de originalidade que — como demonstra abundantemente a história da filosofia — sempre acaba mal e se torna quase impossível de curar, ultrapassado certo ponto.

Há alguns anos eu prometera aos leitores do blog Contra Impugnantes uma série de textos sobre Zubiri. 

Agora aproxima-se o momento de escrevê-la.

domingo, 3 de agosto de 2014

Fraternidade assassina e catolicismo “distraído” — breves palavras sobre a guerra entre Israel e o Hamas


Sidney Silveira
Há irmãos de sangue, irmãos políticos e irmãos espirituais. Nos dois últimos casos, a palavra “irmão” é usada com analogia de atribuição, na qual um mesmo conceito — no caso, fraternidade (ou irmandade) — é atribuído a coisas distintas a partir de certa similitude. Como deveria ser evidente para quem tem dois dedos de miolos, “irmão” não pode ser termo unívoco aplicado a realidades de natureza díspar, e aqui reside a riqueza da analogia, presente em todas as instâncias da vida humana, desde os falares coloquiais do povão à ciência mais elevada: como nenhuma linguagem esgota o ser, é preciso que todas elas se valham de semelhanças e diferenças a partir das quais a realidade vai crescentemente adquirindo sentido. Se as comparações analógicas não existissem, até hoje o homem não teria inventado a roda.
Se não caminham juntos, estes tipos de fraternidade — familiar, política e espiritual — acabam por gerar frágeis razões de amizade, de identidade e de unidade. A fraternidade meramente política, por exemplo, produz seitas, ideologias, facções, tiranos, revoluções, genocidas. A fraternidade meramente sangüínea é a mãe das máfias, do compadrio, dos favorecimentos ilícitos e de um sentido de lealdade igual ao estabelecido entre comparsas no crime. Existe aí verdadeira amizade? Não. A menos que usemos a palavra “amizade” em sentido equívoco, no qual os conceitos referidos à mesma palavra não guardam entre si nenhuma semelhança.
Ou a amizade política e a amizade sangüínea baseiam-se na verdadeira fraternidade espiritual — aqui entendida não apenas no sentido religioso, mas sobretudo noético, de amor à verdade —, ou acabam um dia por descambar em horrores de todos os matizes. A cínica fraternidade da Revolução Francesa, por exemplo, produziu uma igualdade em que os desiguais foram silenciados na baioneta e na guilhotina, e uma unidade de consciências tão falsa que logo o Terror mandou para o beleléu os próprios revolucionários. A fraternidade de famiglias de imigrantes italianos convulsionou os EUA durante décadas, que o digam Charles “Lucky” Luciano e, depois, Al Capone. O mesmo se pode dizer do coronelismo das oligarquias familiares brasileiras e de outros incontáveis exemplos históricos colhidos da Enciclopédia da Suma Sem-Vergonhice, obra aberta e apátrida.
Como católico do tipo “tradicionalista”, gente detestada com particular ênfase por católicos da espécie liberal-conservadora, ao olhar a guerra entre o Hamas e Israel prefiro recorrer à luz do Magistério eclesiástico e tê-lo como referência para uma tomada de posição, pois se trata “apenas” do carisma participado por Jesus Cristo para que a Igreja por ele fundada ensinasse as verdades da fé, cuja sombra benfazeja civilizou o mundo na literatura, na arquitetura, na filosofia, na teologia, no direito, na ciência, na música, na política. Ora, não sendo uma vitoriosa aquisição da consciência individual em suas inquirições acerca da finalidade do universo, do sentido da vida ou da natureza das coisas, mas uma força espiritual infundida por Deus na consciência à revelia desta (lembremos aqui da conversão fulminante de São Paulo, à guisa de exemplo),[1] a fé enraíza na alma do católico novos critérios, novas maneiras de julgar as coisas e, portanto, de agir.
Em suma, a fé custodiada pela Igreja sempre ensinou que os muçulmanos e os judeus não são irmãos políticos dos católicos, não são irmãos de sangue dos católicos e não são irmãos espirituais dos católicos. Os judeus não aceitaram — e continuam a não aceitar — o Messias anunciado pelos profetas. E os sarracenos, bem... quem quiser informe-se um pouco acerca deles no livro “Contra sectam Sarracenorum”, do grande abade Pedro, o Venerável, dê uma lambida no Magistério eclesiástico de sempre e leia o que sobre eles escreveu um tal de Santo Tomás de Aquino, cuja obra a Igreja elevou ao patamar de doutrina comum.
Pois bem.
Estabelecida — sempre à luz da fé custodiada pela Igreja, reiteremos até morrer — a impossibilidade de existir qualquer tipo de verdadeira irmandade de católicos com judeus ou com muçulmanos, não obstante possa haver convivência e tolerância, mormente com os judeus, pois socialmente o islamismo é violentamente impermeável a tudo o que lhe é estranho, isto não implica a impossibilidade de aquilatar o atual conflito entre Israel e Hamas. Mas sem nunca perder de vista, é claro, o quão firmemente a Igreja se posicionou, com São Pio X, Bento XV e Pio XII, contra o sionismo, no tocante ao estabelecimento de Israel como Estado; sem nunca perder de vista o fato de o Islã, em qualquer linha, ser inimigo figadal da civilização cristã. Ou melhor: da civilização em geral, como mostrou genialmente o escritor argentino Rubén Calderón Bouchet num breve livro intitulado “El Islam, una ideología religiosa”.
O fato inelutável é que o Estado de Israel hoje existe. E está incrustado no meio de inimigos cujo objetivo é não menos que dizimá-lo, aniquilá-lo, pulverizá-lo. Quem leu trechos do estatuto do Hamas conhece o caráter intrinsecamente mau e belicoso desse tipo de fanatismo cuja escala de maldade é imensurável para o homem ocidental distraído, emasculado, culpavelmente cego, sem Deus no coração. Homem para cujo lastimável estado espiritual contribuiu de maneira efetiva a Igreja pós-Vaticano II. Aqui, para ser econômico, cito apenas o inacreditável beijo ecumênico que João Paulo II deu publicamente no Corão.
Ao contemplar a guerra acima aludida, o católico sabor “teologia da libertação” defende o Hamas. A sua idiotice é um bloco granítico inexpugnável e discutir com ele é tolice. O católico sabor “liberal-conservador” defende Israel valendo-se de argumentos vários. O problema é que uma defesa e outra geralmente amputam as razões históricas e principalmente as teológicas — coisa que, por exemplo, São Pio X tinha de maneira clara em mente ao dizer a Theodor Herzl que os judeus não tinham nenhum direito sobre a Terra Santa, a qual foi santificada por Cristo e somente por Cristo.
Os israelenses provavelmente acabarão por ser culpabilizados pelo mundo ocidental manietado pela ONU, ficarão politicamente sozinhos e acuados, em vista do fato de se defenderem de um inimigo nefasto em si. Um inimigo mau em si. Um inimigo da razão. Um inimigo completamente fanático e violento. Um inimigo que, em nome de “Deus” ou do demônio, não hesita em sacrificar as suas próprias mulheres e crianças, em vez de protegê-las.
Em tal contexto, dada a atitude religiosa e politicamente nula do Papa Francisco diante do assassinato em massa, por meios os mais cruéis, de católicos na Síria, no Iraque, no Egito, etc.,  assim como os seus atos públicos recentes no sentido de colocar a cereja do bolo na obra do Concílio Vaticano II — malgrado o árduo trabalho do exército de católicos conservadores, sempre de prontidão para explicar o inexplicável vindo da hierarquia atual da Igreja e desvincular o Concílio de seus frutos mais evidentes —, quem sabe esta geração ou a próxima veja a conversão dos judeus, prévia ao retorno do Messias? 

Na verdade, só Deus sabe. Mas Ele também nos disse para ficarmos atentos aos sinais dos tempos.
Seja como for, só quem — estando fora da fé — não acredita no caráter omniabarcante da Divina Providência pode supor que a Gruta de Belém pegou fogo por “acaso”, logo após as peripécias recentes do Papa Francisco na Terra Santa. Eu não consigo não ver neste fato e em vários outros epifanias eloqüentes, avisos do céu de que a vaca está a mugir furiosamente no brejo.
Enfim,  mais do que tomar partido de maneira acrítica ou apoiando-se em razões mutiladas, para o católico a urgência parece-me ser a de redobrar a vigília e a oração, pois o Dia do Senhor virá de noite, como um ladrão. 
Mais ou menos como diz São Paulo na Epístola aos Tessalonicenses (I, 5, 2).

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1- Antes de tudo, lembremos que as verdades da fé não são objeto de especulações filosóficas. Não se prova a Virgindade Perpétua de Maria por meio de lucubrações fulgurantes oriundas da mais fina lógica, mas se crê nisto (que para a razão é intrinsecamente inescrutável) por fé! Não se prova por equação matemática que Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, mas se crê nisto graças à virtude teologal da fé, essa força espiritual vinda do alto. Falemos de maneira sumária e desagradável para a maioria dos católicos liberais: a consciência não pode dizer “sim” a algo que está para além dos conteúdos inteligíveis a que ela mesma pode chegar. Por isso, quando se afirma que Deus infunde a fé na consciência à revelia desta se está dizendo algo muito, muito simples: que, pela graça, a consciência passou a aceitar um conjunto de conteúdos inteligíveis aos quais sequer poderia ter acesso como conclusão de especulações racionais. A consciência é, pois, iluminada pela fé. Por isso diz Santo Tomás que uma ignorante velhinha com fé, em certo sentido, sabe mais que Aristóteles...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Conjecturas infernais


Sidney Silveira
Compor e dividir raciocínios — que é o modo propriamente humano de inteligir — traz consigo, em estado germinal, a capacidade de prever alguns eventos. Não por outro motivo a ciência, ao estabelecer-se como vitoriosa inquirição da verdade nalgum tópico de um campo de pesquisa, dá-nos a presciência de certos fatos futuros. Assim, quem conhece o Princípio de Arquimedes, famoso pela fórmula I = gVp, é capaz de antever, por exemplo, os movimentos de determinado corpo imerso n’água, considerando-se a massa e o volume do corpo, a densidade do fluido, a força de impulsão, a aceleração da gravidade, entre outros fatores cujo influxo causal esteja devidamente considerado no cálculo.
À luz deste caráter raciocinante da inteligência do homem, podemos dizer o seguinte:
Futuro NECESSÁRIO é o que se infere do pleno conhecimento de causas essencialmente ordenadas.
Futuro CONJECTURAL é quando as causas apontam predominantemente para um vetor, porém sem se fechar de todo a outras possibilidades.
Futuro LIVRE é o que radica nas escolhas humanas.
O primeiro é próprio das ciências axiomáticas, que estatuem normas universais a partir de elevados graus de abstração; o segundo, das ciências empírico-esquemáticas, assim como das chamadas "ciências humanas"; o terceiro é contingente e incerto ao ponto de não ser decifrado por nenhuma ciência, porque lida com a radical imponderabilidade da vontade no exercício dos seus atos livres. É, portanto, possível prever o movimento de um corpo imerso num fluido líquido ou gasoso, mas não se um menino de quatro anos será jogador de futebol ou engenheiro; se escolherá isto ou aquilo a determinada altura de sua trajetória existencial.
Com relação ao que aqui chamamos de “futuro livre”, afirme-se: nem mesmo uma inteligência intuitiva, que chegasse à verdade sem passar pelos escolhos do plano sensitivo, ou seja, sem abstrair os conceitos das notas individuantes da matéria, poderia prever os futuros contingentes, não obstante pudesse ter deles notável estimativa — pois quanto mais universal é a causa conhecida, e quanto mais perfeito é o modo de inteligir, maior número de efeitos o sujeito cognoscente vislumbra. Por isso diz Santo Tomás que o demônio, entidade espiritual que está na posse de elevadíssimas espécies inteligíveis, não pode conhecer os futuros provenientes de causas absolutamente acidentais, embora tenha capacidade dedutiva e indutiva de deixar qualquer lógico de quatro, a mastigar alfafa.
Só Deus, cuja inteligência causa o ser dos entes, pode dizer “Eureca!” com relação ao que poderia ser ou não ser.
Pois muito bem. Quanto ao futuro de uma nação, a certeza possível será sempre de natureza conjectural, numa escala que pode ir da abstrusa opinião contrária às evidências históricas à probabilidade mais elevada e argutamente vislumbrada, em meio a variantes de difícil interpretação. No caso brasileiro, uma análise básica dos elementos educacionais, sociais, morais, econômicos e políticos contemporâneos nos capacita a conjecturar o seguinte: se a curto ou médio prazo não emergir uma merda ainda mais fenomenal do que a convulsão coletiva vigente, geradora de cinqüenta mil assassinatos por ano, é porque ou um poderoso e inusitado elemento entrou em cena, de maneira abrupta e avassaladora, ou um milagre se deu.
Ora, não é necessário ter luzes proféticas para saber que Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, fenótipo literário do “homo brasilianus modernus”, não pode virar Aristóteles num passe de mágica, a menos que desenvolvesse faculdades metapsíquicas nunca antes vistas em wonderland; que o caos não é dotado de potências intrínsecas, nem inclinação natural, para a ordem; que a cupidez imoralista dos nossos parlamentares e dos homens do Poder Executivo em geral, expressão eloqüente da corrupção média oriunda do atávico "jeitinho" brasileiro, não se transmutará em altruísmo — como se num belo dia cada senador, cada deputado, cada vereador, cada prefeito, cada governador virasse um Péricles, um Carlos Magno, um São Luís de França ou qualquer outro personagem político imbuído de elevado sentido do bem comum.
Ex nihilo nihil fit”.
Seja como for, para o que interessa apontar neste breve texto, chamo “conjectura infernal” não àquela que acerta na previsão de fatos potencialmente contidos na massa pluriforme e indomável em que se transformou a sociedade brasileira. Mas àquela que, contemplando a realidade, conclui adocicada ou estupidamente com o espírito do Dr. Pangloss, de Pollyana ou do insuportável Fernão Capelo Gaivota.
Quem faz isso é gente acometida duma cegueira mais ou menos voluntária. Gente que ri o riso fátuo das almas automutiladas.

A tais pessoas poderíamos dizer: desventurosos os que não choram, quando deveriam chorar, porque não terão nem mesmo a verdade como consolo.

O "comunismo" dos infantes

Sidney Silveira
AO COMENTAR uma passagem da "Política" de Aristóteles, Tomás de Aquino frisa que o homem afastado das coisas da Pólis é:

> INSOCIAL, porque não consegue estabelecer verdadeiros vínculos de amizade;
> ILEGAL (ou anômico), porque não consegue sujeitar-se de maneira nenhuma aos ditames da lei; e
> INFELIZ, porque não se rege pela regra da reta razão, e sim por paixões desgovernadas.

Poderíamos acrescentar que, em contrapartida, o meter-se na política sem mínima base intelectual e moral — e também sem a maturidade que só a idade e a experiência acumulada podem trazer — também é catastrófico, pois implica reunir, em sumo grau, a insociabilidade, a aversão à lei e a infelicidade. 

Se esses jovens que têm a fada Sininho como líder carismática (no sentido mais canhestro do termo) fossem sabatinados por verdadeiros intelectuais, a sua total incompreensão acerca do que seja a natureza da política seria desnudada, e eles perderiam parte da projeção que hoje possuem. 

A propósito, tal projeção retrata o quanto a nossa vaca está atolada no brejo das almas, mugindo num idioleto maluco que do português guarda certas semelhanças sintáticas, mas possui um vocabulário limitado e, por conseguinte, conceitos mentais paupérrimos repetidos como um mantra narcótico.

A nossa vocação metafísica para o fundo do poço civilizacional atualiza-se a cada dia. Quem duvida, ouça a musiquinha entoada ao final deste vídeo pelos novos "heróis" nacionais.

Enquanto isso, na falta de cicuta, vou ali tomar um arsênico.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Achado e promoção!


Sidney Silveira

Ao fazer uma limpeza em casa, achei nada menos que 60 exemplares do esgotadíssimo livro de Santo Agostinho sobre a natureza do bem, escrito contra maniqueus, lançado em edição bilíngüe em 2005 (os exemplares são da reimpressão feita por nós em 2006).

Os interessados em adquirir a obra devem enviar e-mail para:


Na mensagem, devem indicar nome e endereço completo (para calcularmos o frete). Responderemos dando o número da conta para depósito.

A PROMOÇÃO É: 

Compre o livro de Agostinho por apenas R$ 40,00, ou pague R$ 70 e adquira também um exemplar de "A Inocência do Padre Brown" — edição luxuosa desta obra de Chesterton magistralmente traduzida por Carlos Nougué.

Neste último caso, cada livro sai por R$ 35.

O frete é por conta do Instituto Angelicum. 

Por favor, informem no e-mail se pretendem adquirir ambas as obras ou apenas uma.

P.S. Estamos, enfim, preparando a edição do livro "As Heresias de Pedro Abelardo", de São Bernardo de Claraval. Em breve darei notícias desta retomada editorial do Instituto Angelicum.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Aonde vai a zona de sombrada contemporaneidade?


Sidney Silveira

Na acepção do termo, épocas são períodos históricos diferenciáveis entre si, conforme frisa Erwin Panofsky em seu hoje clássico Arquitetura Gótica e Escolástica. Mas para que, de fato, as épocas se diferenciem é preciso haver vetores de unidade e de identidade distintos a lhes dar esta ou aquela forma predominante. Seja como for, um historiador só pode aferir tais traços demarcadores de distintas etapas históricas comparando-as em seus principais tópicos: religião, artes em geral, filosofia, política, ciência, arquitetura, etc. 

Em sociedades que perderam totalmente o sentido de unidade e de identidade, como as contemporâneas, o historiador e o cientista político são literalmente esmagados pela multiplicidade indomável de fontes colidentes entre si. Precisam ser quase profetas a buscar luzes para além do perímetro da sociedade que estudam — cuja inteligibilidade, em seu conjunto, dá-se antes pelos vestígios da grandeza perdida do que pelo caos demarcador do seu epitáfio.

Assim são as épocas se transição: zonas de sombra potencialmente moldáveis a várias formas

A zona de sombra deste começo de século XXI, em particular, caracteriza-se pela abrangência dos tentáculos em luta pelo poder (sobretudo islamismo, globalismo ocidental e eurasianismo), como também pela tentativa artificiosa de destruição das diferenças, sem as quais nenhum genuíno vetor de unidade ou de identidade é possível. 

Ou vocês acham factível que, por decreto da ONU, sobrevenha uma sociedade global a um só tempo ecumênica, pancristã, transnacional, atéia, islâmica, judaica, abortista, socialista, pacifista, plurissexual, pedófila e multiculturalista?

Apertem os cintos. O piloto do avião sumiu e pouca gente é capaz de dar testemunho desse sumiço.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Leal ao céu, veraz na terra


Sidney Silveira

A LEALDADE é filha da veracidade.

Quem não é veraz jamais conseguirá ser leal. Noutras palavras, alguém que não tenha a verdade como critério pode, no máximo, ser leal a uma causa — nunca a uma pessoa. Ocorre que essa lealdade a grupos em detrimento dos indivíduos objetivamente considerados é tão falsa quanto uma nota de três dólares, pois não se funda na amizade, que tende à perdurabilidade, e sim no interesse, que tende à inconstância.

Em suma, não é lícito ser desleal nem mesmo para com os inimigos, pelo simples fato de que a deslealdade é balizada pela simulação de veracidade à qual chamamos hipocrisia. Sendo assim, ainda que o inimigo seja um "demônio", nenhuma justificativa há para jogar sujo com ele, pois quem assim procede acaba assemelhando-se ao que de pior tem o inimigo. O melhor é enfrentá-lo face a face, mas sem expedientes escusos, ou afastar-se levando n'alma o aprendizado possível. E aqui não confundamos estratagemas com vale-tudo maquiavélico: existem limites morais nas contendas, ultrapassados os quais é melhor perder que vencer. Sabemos disso desde Sócrates.

Como a veracidade decorre da virtude cardeal da justiça, o homem leal, sendo verdadeiro, "a fortiori" precisa também ser minimamente justo. Mas não pode ser justo quem substitui as amizades reais por ações programáticas em prol de um suposto objetivo coletivo, pois o ato próprio da justiça é dar a cada um conforme os seus merecimentos, e não dobrar-se — numa espécie de "amém" cego — aos projetos de um grupo, qualquer que seja, e por presumivelmente bom que seja. Quem faz isso, cedo ou tarde, acaba por cometer perjúrio contra o próximo para demonstrar lealdade ao grupo.

A pessoa que conjuga demasiada e artificialmente o "nós", acaba por desprezar o "eu" e o "tu", retirando das costas, por meio de justificativas mil, as responsabilidades pessoais para lançá-las sobre o primeiro bode expiatório que estiver à mão.

No momento em que o Facebook e outras redes sociais servem para fomentar atos totalmente contrários à lealdade, nos parâmetros aqui explicitados — ou seja, como o salutar hábito de fidelidade à verdade —, nunca é demais lembrar que, de uma maneira ou de outra, acabamos ainda nesta vida por pagar o elevado preço dos atos perpetrados sem o critério da veracidade, que, como dissemos, é a mãe da lealdade.

Seja como for, apenas quem crê em Deus entende o alcance da proposição "não devemos ser desleais nem mesmo com os nossos inimigos", pois o pressuposto dela é o dever de lealdade para com Aquele de quem procedem todas as verdades.

Ou isso, ou a trôpega e vertiginosa descida pelos degraus da demagogia. Ou isso, ou os acordos obscuros em vista de objetivos em geral funestos, como seja, por exemplo, o de destruir a honra alheia, direta ou indiretamente, ainda que buscando explicações sofisticadas para as mais vergonhosas ações.

Umas vezes, ser leal é a conquista do homem em luta titânica contra as suas próprias fraquezas. Outras vezes, é dádiva do céu. Dádiva que, se ainda não recebemos, podemos e devemos pedir em súplice oração. 

Porque a genuína lealdade de um homem em relação ao seu próximo — seja amigo ou inimigo — é o prêmio da confiança em Deus.