segunda-feira, 14 de julho de 2014

A importância da IIª-IIª da "Suma Teológica"


"VIRTUOSO NÃO É QUEM mais luta para conseguir agir bem, mas justamente o contrário: é quem — por ter a virtude já formada, quer dizer, certa conaturalidade [psíquica] com o bem — possui menor dificuldade para agir retamente".

Martín Federico Echavarría, filósofo e psicólogo tomista

Sidney Silveira

O Prof. Martín Echavarría — ao comentar o modo de superioridade da temperança em relação à continência, no livro "La Formación del Carácter por las Virtudes" — refere-se a uma passagem de Santo Tomás na IIªIIª da "Suma Teológica. 

Em síntese, uma virtude é principal (no caso, cardeal) não em razão da matéria de que trata, nem do seu sujeito, mas do modo de ordenar os atos humanos em vista do bem. Cada virtude cardeal abarca virtudes auxiliares ou partes potenciais de uma mesma virtude. 

Não por outro motivo, a TEMPERANÇA tem subordinadas a si, entre outras: 

> a MANSIDÃO, moderadora do apetite de vingança
> a CLEMÊNCIA, moderadora do apetite de aplicação dos castigos, ainda que sejam justos; 
> a ESTUDIOSIDADE, moderadora do apetite de saber, no sentido de que este não se desordene nem se desvie para temas inúteis e nocivos, como geralmente ocorre com o mero curioso imiscuído nas coisas filosóficas;
> a MODÉSTIA, moderadora de atos exteriores relacionados ao corpo;
> a EUTRAPELIA, moderadora das ações levadas a termo no tempo livre, relativas a jogos e distrações em geral, virtude que preserva o homem de qualquer tendência aos excessos (como, a propósito, ocorre com o Brasil inteiro quando se trata de Copa, ocasiões em que imperam o destempero e a desrazão);
> etc.

Costumo dizer o seguinte: quem se dedica há tempos ao estudo da filosofia e não leu, não releu e não meditou os textos da IIª-IIª da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, é um sujeito atual ou potencialmente estúpido, e desconhece de maneira cabal o que seja o animal homem. 

E que, por isso, logo perderá a queda de braço contra as suas próprias debilidades.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Lições de Metafísica, por Ruben Calderón Bouchet


Sidney Silveira
"Esta tendência irrefreável [de parte da ciência moderna] a matematizar as coisas faz com que as coisas sofram, de alguma maneira, uma amputação fundamental em sua realidade".
(Calderón Bouchet)

Tira-gosto da palestra do grande escritor argentino Calderón Bouchet, pai do notável tomista Álvaro Calderón.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A virtude, o tempo e o vento

Sidney Silveira
Por serem uma força espiritual que se realiza num dado percurso de vida e estarem hierarquizadas pelos graus de abrangência do influxo sobre as potências superiores da alma — inteligência e vontade —, as virtudes requerem esforço e visão para deitar as suas benéficas raízes no caráter de uma pessoa. Em breves palavras, virtudes não espocam como bolhas epidérmicas de catapora, pois exigem planificação, ordem em vista de um fim ao qual, preliminarmente, chamaremos felicidade. Neste contexto, frise-se desde logo que nenhuma virtude é a justaposição ocasional de boas ações, ainda que estas sejam inumeráveis, mas o hábito predisponente ao agir bem. Como dizia o filósofo alemão Josef Pieper, a virtude não se define pela honradez ou probidade de ações isoladas. 

Podemos, pois, dizer com total segurança:

> Ninguém é subitamente virtuoso.
> Ninguém é circunstancialmente virtuoso.
> Ninguém é involuntariamente virtuoso.
> Ninguém é seletivamente virtuoso.
> Ninguém é inconscientemente virtuoso.
> Ninguém é topicamente virtuoso.

A virtude é um projeto. E aqui não nos custa lembrar que o vocábulo “projeto” tem o seguinte étimo: vem do latim projectus, cujo significado é “ação de se lançar para diante, de se estender”. Daí dizermos nós que a virtude é o projetar-se sobre as situações da vida sob a luz da sabedoria. E esta, por sua vez, caracteriza-se pela clara visão do sentido de unidade dos saberes a partir duma ordenação hierárquica — a qual leva em conta os princípios que um saber toma de empréstimo de outro. Quem entende, por exemplo, as razões por que a perspectiva depende da geometria, a nutrição da biologia, a lógica da metafísica e a música da aritmética não terá nenhuma dificuldade para compreender a natureza arquitetônica da sabedoria. “La sagesse c’est architectonique”, dizia com acerto um tomista canadense.

Quando pensamos com mínima argúcia, logo concluímos que, para o homem, não existe melhor e mais inteligente projeto de vida que o de buscar a virtude, ou seja, vetorizar a alma pela excelência, não obstante tal projeto esteja fadado ao malogro nalgum grau — pois, nesta vida, a virtude perfeita é, material e formalmente, inexeqüível. Mas, neste ponto, seja feita com ditosa contundência a seguinte ressalva: a curto e médio prazos, pouco ou nada importa o êxito prático da empreitada; o simples colocar-se a caminho já pressupõe a entrada numa espiral de conceitos e hábitos que, de maneira assintótica e paulatina, fortalecerá o espírito e moldará o temperamento às exigências e à dinâmica da vida cotidiana.

Como ficou dito, uma virtude é tanto mais excelente quanto maior é a abrangência do seu influxo sobre as potências superiores da alma. Daí também estarem elas hierarquizadas. Por exemplo, no tocante à razão prática, as chamadas virtudes cardeais possuem precedência ontológica sobre as demais por abarcarem-nas, mas também devido ao fato de que o seu selo indelével é muito mais decisivo. Como se pode deduzir, existe uma imbricação metafísica e gnosiológica entre todas as virtudes, por isso Santo Tomás indica incontáveis vezes em sua monumental obra que vícios e virtudes nunca andam desacompanhados.

Vamos em frente. Sem prudência, que é virtude principal no âmbito do agir humano, é impossível a uma pessoa adquirir o hábito da justiça, pois o justo não é o sujeito que realiza uma boa ação como quem, por sorte, ganha na loteria; sem justiça, a fortaleza acaba por se transformar num trampolim para a maldade, espécie de fraqueza anabolizada, disfarçada por todos os tipos de bravatas. E assim ocorre com todas as demais virtudes, que se vão engendrando e retroalimentando com notável funcionalidade, até definirem o norte da alma: fazerem com que o homem seja habitualmente inclinado ao bem, a ponto de defendê-lo mesmo quando, por conta disso, sofra funestas conseqüências. 

No começo deste breve artigo, falou-se da felicidade como o fim das virtudes. Agora, em vista do esclarecimento da virtude como inclinação habitual da alma ao bem, é possível entender as gradações de felicidade a partir da perenidade dos bens adquiridos. Em resumo: quanto mais imateriais são os bens possuídos intencionalmente pela alma, mais inexpugnável é a felicidade, quer dizer, menos tendente a mudar por conta das intempéries e dos contratempos da vida. “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça, pois deles é o reino dos céus”, disse Cristo.

Podemos resumir a trajetória humana por este vale de infortúnios e injustiças por um breve raciocínio disjuntivo: ou o homem busca a virtude, ou toda a sua vida é um tempo vão

Vão como um vento maligno que sopra sempre na direção da agonia.

P.S. O livro que ilustra esta postagem, “La Formación del Carácter por Las Virtudes” — Vol. I: Templanza e intemperancia, propuestas terapêuticas y educativas”, foi coordenado pelo amigo Martín Echavarría, a meu ver o psicólogo tomista mais importante da atualidade. 

Leitura utilíssima para quem queira compreender a importância das virtudes para uma vida bem vivida.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A causa culpável: o inferno real e os infernados deste vale de lágrimas

Sidney Silveira
Entre muitas outras coisas, o inferno é a rememoração perpétua dos males cometidos, espécie de zurzir eterno do remorso que fustiga a consciência, a ponto de deixar espaço apenas para o ódio transformado em ímpeto perene. A alma, em tal estado, infelicita-se sumamente e sucumbe ao macabro mecanismo de co-responsabilizar a todos por sua infelicidade, a começar por Deus, objeto do ódio maior.

Diferentemente do que sucede às pessoas más deste mundo, o réprobo não tem a possibilidade de fazer do esquecimento um ardil psíquico com que possa cauterizar a consciência e apagar as culpas, nalgum grau e durante tempos intermitentes. Não! A dor do condenado é a memória transformada em castigo — consciência de culpa imune a terapias ou a justificativas de qualquer tipo.
Se fosse possível nesta vida aquilatar a latitude desse sofrimento que lembra para sempre das suas próprias causas culpáveis, talvez antes de chegarem ao estágio em que a cura da alma é impossível muitas pessoas emendassem a vida. E aqui, quando dizemos causa culpável, estamos acrescentando um vetor às formas clássicas de causalidade codificadas sobretudo por Aristóteles e por Santo Tomás de Aquino, seja no plano metafísico, seja no teológico: causa material, causa eficiente, causa formal, causa final, causa modelar, causa instrumental, causa meritória, etc.
Diga-se, antes de tudo, que a causa culpável só se aplica aos entes dotados de inteligência. No caso humano, ela aflora nos atos levados a cabo com maior ou menor negligência voluntária na averiguação da verdade, mas pode chegar à malícia, que não é outra coisa senão a maldade praticada com certa ciência, com certa indústria e por livre escolha. No caso diabólico, muitíssimo mais grave, a causa culpável aflora na ciência antecedente e na deliberação efetiva — e plena — do malefício implicado na ação, a saber: ela emerge na intenção de acarretar o maior mal possível a outrem. Em sua formulação mais generalista, a causa é culpável quando o agente poderia evitar os efeitos maus dela decorrentes. E será mais ou menos culpável numa escala que vai da maior ou menor ignorância negligente à perfeita consciência do influxo causal inerente ao ato.
Na perspectiva teológica, podemos dizer que o demônio é a causa culpável remota dos maus atos humanos. Na perspectiva psicológica, como o homem é dotado de livre-arbítrio — incoercível potência de escolha que radica na vontade —, tal causa remota não pode ser absoluta, pois há e haverá sempre a possibilidade de ele recusar o mal, não consentir. Portanto, o próprio homem é causa culpável próxima de sua infelicidade. E, diga-se a propósito, a infelicidade é o signo perdurável da vontade que frustrou o fim ao qual tende por natureza: o bem. Qualquer bem? Claro que não. Falamos do bem retamente assimilado e hierarquizado pela inteligência e, por conseguinte, apetecido de maneira ordenada pela vontade.
A vida espiritual genuína pressupõe uma crescente visão das causas culpáveis, e posterior afastamento delas. Crescer espiritualmente é, pois, enxergar cada vez mais e melhor a realidade, até chegar à compreensão de que a caridade ocupa o seu ápice. Em contrapartida, a falta de vida espiritual de um homem caracteriza-se por atos enceguecidos quanto ao universo causal em que se dão. O final dessa mortífera escada de Jacó às avessas é a incapacidade de abranger a visão à própria história pessoal, contemplada na perspectiva do seu conjunto.
Em síntese, no inferno, o conjunto das causas culpáveis estará dolorosamente iluminado na consciência de cada um. Ao passo que, nesta vida, o truque satânico que uma pessoa pode realizar contra si própria é viver na superfície das pequenas satisfações e insatisfações cotidianasviver alheia às conseqüências dos seus atos. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Para além da gramática


Sidney Silveira
QUEM NÃO CONSEGUE apreciar as dissonâncias oriundas das quebras conscientes de algumas normas gramaticais em prol da expressividade ou da clareza jamais poderá ser verdadeiro escritor. O motivo é elementar: o uso virtuoso de um idioma jamais se limita aos ditames da ciência normativa da linguagem, à qual chamamos gramática, mas pressupõe o domínio de algo que lhe é anterior, a saber, a índole mesma da língua, constitutivo formal de que a própria gramática se vale para codificar tendências e potências jazentes na estrutura mental de uma coletividade de falantes e escreventes de qualquer língua que seja. Não se chega, portanto, a um nível de compreensão superior de nenhum idioma apenas com a leitura dos bons gramáticos, pois esta deve ser complementada pela inescapável recorrência aos grandes poetas e prosadores, que elevaram o padrão da linguagem conotativa ao estado da arte. Por isso a boa regra gramatical jamais deve ser uma camisa-de-força semântica nem sintática, mas o razoável ponto de apoio para que a língua possa realizar de maneira plena as suas virtualidades expressivas. Não por outro motivo, diz o filósofo tomista Álvaro Calderón que a gramática serve à linguagem, e não o contrário.

Onde Tiriricas legislam



Sidney Silveira
O FATO DE A POLÍTICA NÃO TER FIM EM SI MESMA, mas subordinar-se a algo que lhe é superior e anterior — a saber: ao conjunto de valores universais pelos quais qualquer civilização se distingue de todas as formas de barbárie —, é, ou deveria ser, o indicador de que só está preparado para tratar com alguma competência das coisas políticas o homem alçado a um ponto teorético que lhe permita contemplar a Pólis a partir dos seus princípios conformadores.

Qualquer situação em que prevaleça politicamente a opinião do indouto sobre a do douto, a do estúpido sobre a do sapiente, a do malicioso sobre a do virtuoso ou a do cúpido sobre a do prudente aponta para um fato aterrador: o bem comum tornou-se uma impossibilidade ontológica, e de tal configuração não poderá advir outra coisa que não seja a mais dramática espiral de caos e violência. Este é o caso particular das democracias liberais, nas quais se consagra a cabal vitória do reino avassaladoramente tirânico da quantidade.

A propósito, ao contemplarmos a incapacidade até mesmo de articulação verbal básica de enormíssima parcela dos que hoje ocupam cargos legislativos no Brasil, ou seja, das pessoas responsáveis por criar e aprovar as nossas leis, de imediato somos levados a ver como a vaca está a mugir no brejo das almas.

Se porventura fossem inquiridos acerca do que seja a lei, em sua essência, os nossos parlamentares — ou boa parte deles — talvez fossem acometidos duma espécie de vácuo mental análogo ao das pessoas cognitivamente incapacitadas por causa de algum dano cerebral, físico.

Sem desdouro nenhum ao notável Tiririca como palhaço, o fato é que a sociedade brasileira merece tê-lo como alguém cujo ofício é aprovar leis. 

Epítome da calamidade que resiste ao otimismo irresponsável dos idiotas que da política só conseguem ver, miopemente, os partidos.

domingo, 22 de junho de 2014

Filologia



Sidney Silveira
Eis, neste vídeo, um trecho da aula do curso do Instituto Angelicum "A Língua Absolvida", ministrado pelo Prof. Sergio De Carvalho Pachá, que irá ao ar em breve no site do Angelicum, para os alunos matriculados.

A propósito, as inscrições continuam abertas em: