domingo, 8 de junho de 2014

A impermeabilidade do Amor — ou “por que sou católico”


Sidney Silveira
Ao frisar que o amor é o ato perfeito e supremo da vontade, aponto para a liberdade das ações amorosas, pois ninguém é, nem pode ser, coagido a amar. Da mesma maneira, nenhuma pessoa deixa de amar sob ameaça — ainda que submetida a lancinantes torturas psicológicas, ou mesmo físicas. Se um hipotético sujeito encostasse o cano frio duma pistola 9mm nas têmporas de outro e dissesse “Deixa de amar a tua mãe agora, ou eu te mato!”, nem assim teria o condão de fazer valer o fortíssimo argumento da arma de fogo, pois o amor é realidade impermeável a tiranias de qualquer tipo. A total intangibilidade do amor assegura-lhe a liberdade, à qual podemos atribuir o caráter de infinitude fazendo uso do grandioso instrumento metafísico da analogia entis. Em breves palavras, o amor é a vontade no exercício translúcido e pleno de sua mais absoluta impenetrabilidade.
Se o amor se transforma em hábito, podemos dizer que a liberdade humana realizou-se superiormente. Mas ninguém chega a tal ápice sem vencer obstáculos inescapáveis, como por exemplo tentações, fraquezas, ignorância. A famosa e bela máxima de Plutarco segundo a qual “nem Deus pode dar nem o homem pode receber nada mais excelente que a verdade” vale ainda mais para o amor, pois este não é outra coisa senão a verdade em ato assimilada pela inteligência e querida pela vontade. Em suma, no amor dá-se a comunhão destas duas potências superiores da alma na escolha efetiva do bem. Por isso, as ações humanas ou se orientam a abarcar os transcendentais verum e bonum, ou se degradam progressivamente. Porque sem verdade e sem bondade o amor se transforma na mais cabal das impossibilidades, cedo ou tarde.
Se o universo das relações afetivas de uma pessoa não possui o vetor amoroso, logo ela cai na degradação moral da inconstância, da tibieza, da falsidade. Ao contrário, quem ama acaba por se tornar constante, forte e veraz. O “sim” e o “não” do verdadeiro amante não obedecem a condicionamentos acidentais, ao contrário do “sim” e do “não” de homens que se colocaram culpavelmente em situação de desamor. Estes agem de acordo com momentâneas conveniências, razão pela qual não são confiáveis em hipótese nenhuma. Na realidade, eles pioraram por não amar, e jamais poderão culpar a quem quer que seja por isto. Não há desculpas nem justificativas para a simulação de auto-indulgência que culmina em maldade.
No sentido sublime aqui aludido, nenhum homem é capaz de, sem o auxílio divino, amar. E tal auxílio não vem de outro modelo senão do próprio Verbo Encarnado — que nos revelou de maneira cristalina e objetiva o caminho, a verdade, a vida. Quando penso, pois, por que sou católico, penso nisto: o amor em estado puro dá-Se a mim por completo, sem que eu mereça. Faz-Se humildemente tangível para elevar-me a uma condição superior, intangível. A Sua entrega benevolente não conhece condicionamentos. Ela não é mérito meu, nem apetite d’Ele. É libérrima e eficacíssima.
Jamais conseguirei, nesta vida ou na outra, fazer jus ao amor perfeito de que sou objeto. Amor que honra o desonrado e dignifica o indigno. Que perdoa o imperdoável e eleva o vil. Amor absolutamente impermeável a todos os seus possíveis contrários. E por isso mesmo eterno.
Até nas ocasiões em que, ritualmente, desce ao tempo na forma de hóstia viva e se faz Presença Real, fonte infinita de bens. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

O alcance das leis más

Ao desembargador Ricardo Dip
Sidney Silveira
Desde Aristóteles, sabemos que a lei é um dos princípios extrínsecos da vida moral do homem. Sua pedagogia não é outra senão orientar a coletividade ao bem comum, esteio da paz social, e fazê-la minimamente discernir o seu valor. Mas, para tanto, a lei precisa ser boa em essência, ou seja: deve tratar-se duma regra da razão prática que ordena as ações humanas ao bem. Ora, qualquer regra genuína necessita de um princípio que sirva de medida para o universo das coisas de que trata — assim como, de maneira análoga, a unidade é princípio da numeração e o primeiro movimento é princípio dos que se lhe seguem. No caso do homem, tal medida reitora do bem chama-se, em sentido lato, "razão".
Vamos a um exemplo extraído duma prosaica situação em que a norma legislativa acaba por induzir ações moralmente más. Certa vez, andava eu de metrô aqui no Rio, coisa que não fazia há tempos. No trajeto entre a estação onde peguei o trem e a seguinte, todos ouviram a aveludada voz duma jovem a transmitir o seguinte enunciado pelos alto-falantes:
“Os assentos de cor laranja são preferencialmente destinados a idosos, gestantes, pessoas acompanhadas de crianças com até cinco anos de idade e deficientes físicos”.[1]
De imediato, o absurdo da proposição feriu-me os ouvidos. Na verdade, se a norma — ancorada numa decisão de nossa pândega Câmara dos Vereadores — quisesse ser justa e ensinar algo, a frase deveria ser: “TODOS OS ASSENTOS são preferencialmente destinados a idosos, gestantes, etc.” Mais ou menos como acontecia no tempo em que o grau de civilidade predominante fazia as pessoas espontaneamente cederem os seus lugares a idosos e gestantes nos transportes coletivos, sem que lei nenhuma lhes apontasse o cumprimento deste dever moral. A propósito, o presente texto não se destina a demonstrar a tragédia que é o Estado se meter a este ponto nas relações interpessoais, e ademais fazê-lo deseducando as pessoas.
Naquela ocasião, logo pude aferir o resultado prático da tal norma, duas estações adiante: como os assentos de cor laranja estivessem todos ocupados por idosos, adentrou o vagão onde eu estava uma gestante — e ninguém, ninguém foi capaz de lhe ceder o lugar, pois os demais assentos, de acordo com os pressupostos da funesta lei da municipalidade carioca, não são preferencialmente destinados a estas pessoas. Estava eu de pé e cutuquei uma jovem que subitamente fingiu dormir, com o intuito de ver se a criatura cedia lugar à grávida. Mas o conveniente sono da má-criação é profundo, sobretudo quando tem a lei como maior cúmplice.
No Brasil, boçais politicamente engajados sequer conseguem entender a distinção fundamental entre lei (ditame da razão prática), direito (ars boni et aequi, a qual traz sempre consigo o pressuposto do justo natural) e justiça (virtude moral e social), porém cerram rumorosas fileiras na defesa de teses fundantes do caos contemporâneo, com apoio financeiro e político de um governo mancomunado com as elites globalistas. Não por outro motivo, multiplicam-se ao infinito os “direitos”, pulveriza-se completamente a noção de deveres, ao passo que a idéia de justiça simplesmente desaparece — no turbilhão de normas e regras que de leis, ou seja, de propriamente legislativas, guardam apenas certo invólucro semântico.
Quando Tomás de Aquino indaga, na Suma Teológica, se o efeito comum da lei é tornar os homens bons (utrum effectus legis sit facere homines bonos), a resposta afirmativa às objeções é simples e objetiva — sempre a partir do pressuposto de que uma lei tirânica, por não ser conforme a razão, não é propriamente lei, mas perversão da lei. Em síntese: é impossível que o indivíduo seja bom se não guarda certa proporção com o bem comum da cidade onde vive.
Ora, sendo o bem comum o principal fim da lei, torna-se evidente que as verdadeiras leis têm o condão de melhorar os atos humanos. De que maneira? Entre outras coisas proibindo e castigando o mal e, por conseguinte, induzindo os homens ao bem.
A nossa equidistância cósmica deste princípio elementar define o atual padrão civilizacional em que jazemos, no qual maldades de todos os tipos vão sendo prescritas nas leis positivas. 
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1- Depois o politicamente correto gerou a semanticamente monstruosa expressão “portadores de necessidades especiais”, que pode dizer tudo ou nada.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O papel da crítica literária



Sidney Silveira 

Trecho de aula do curso "A LÍNGUA ABSOLVIDA", ministrado pelo lexicógrafo Sergio De Carvalho Pachá.

A propósito, as INSCRIÇÕES CONTINUAM ABERTAS em:

terça-feira, 27 de maio de 2014

Gruta da Natividade em chamas



Sidney Silveira

AOS AMIGOS CATÓLICOS

Quase toda semana, recebo inúmeras mensagens de pessoas a indagar-me por que não tenho comentado ultimamente, no Contra Impugnantes, assuntos relativos à Igreja Católica, como, por exemplo, a recente viagem do Papa Bergoglio à Terra Santa e suas dialogantes peripécias ecumenistas. Coisicas como a visita reverencial do Papa ao túmulo do fundador do sionismo político moderno, Theodor Herzl.

RESPOSTA: por irrevogável tristeza, nada mais. Ou melhor, também por prudência, pois os tempos atuais exigem-na em grau elevadíssimo. 

Continuarei por um tempo sem comentar.

Mas hoje não me furto a compartilhar uma notícia que não me parece irrelevante: a Gruta da Natividade, em Belém, acidentalmente pegou fogo após a visita do Papa, quando uma candeia de azeite lambeu as cortinas e as paredes daquele lugar santo. Para quem não sabe, o azeite tem o sentido bíblico da unção de Deus, signo da presença do Seu divino Espírito.

Como não há acidente (em sentido metafísico) que escape à Divina Providência, tal acontecimento não pode deixar de levar os católicos de boa vontade pelo menos a refletir a respeito dos rumos duma Igreja que teima em ter uma pregação tão antiapostólica, ou seja, em não querer converter ninguém, e eriça-se com funesta diplomacia para não ferir susceptibilidades.

Mais não digo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Beliscões criminosos e abortos consagrados em lei



Sidney Silveira

QUALQUER IMBECIL com dois dedos de miolos sabe muitíssimo bem a diferença entre uma palmada pedagógica em meninos levados e quaisquer maus tratos físicos, criminosos, de adultos contra crianças — os quais, a propósito, estão abarcados devidamente pelo nosso Código Penal.

Mas pôr as duas coisas no mesmo saco não é pura e simples imbecilidade, apesar de ser veemente signo dum agônico estado de obliteração mental. Em verdade, implica a pior espécie de má-fé: a do cego voluntário politicamente correto que, nos dias atuais, cerra fileiras entre os próceres da engenharia social globalista cuja urgência maior é destruir as tradições ocidentais, mormente as cristãs.

Tais idiotas inúteis serão levados de roldão por quem os instrumentaliza como a animais pavlovianos obedientes, que salivam perante slogans baratos.

Muitos deles serão literalmente devorados pela geração de monstros que hoje alimentam, com falsas boas intenções. E digo "falsas" porque, contrariamente ao que afirma o ditado popular, o inferno está repleto de tudo, menos de boas intenções!

Quando deduzo o futuro dos próximos 20 anos à luz do quadro atual, sou acometido da certeza de que homeschooling se tornou absoluta necessidade para quem queira formar trincheiras efetivas de sobrevivência, no ambiente inóspito e insalubre da idiotia consagrada como lei universal.

Idiotia criminosa do mundo em que beliscões são crime inafiançável e abortos são prática incentivada pelos governos.

Quando releio na antiga Regra de S. Bento qualquer referência direta ou indireta à caridade sanatória dos castigos moderados impingidos aos pueri oblati, ou seja, às crianças que os pais levavam aos mosteiros a fim de se educarem e, possivelmente, se tornarem monges, e contemplo os nossos legisladores-pedagogos contemporâneos, tenho imediatamente a clara visão da vaca atolada num brejo dos infernos...

P.S. O formato desse homeschooling, ou seja, as suas premissas e vetores, é um problema que não abordo aqui. 

domingo, 25 de maio de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

IMAGINAÇÃO DESGOVERNADA: o intemperante e o incontinente


Sidney Silveira

SOB O IMPÉRIO DAS PAIXÕES o homem fica imantado ao presente, perde a dimensão da temporalidade. 

Isto ocorre quando as paixões o solicitam com tal veemência que ele é acometido duma espécie de ignorância culposa com relação a vários aspectos implicados nas suas ações. Neste sentido, diz o senso comum que "a paixão oblitera a razão" — sobretudo quando se trata de fazer referência à paixão como fonte de escolhas equivocadas ou más. Em ocasiões tais, o presente adquire um valor de absoluto na consciência do apaixonado, imobilizando a torrente do tempo na psique.

Um pequeno conjunto de imagens começa então a ter recorrência patológica, a ponto de prejudicar a dinâmica das potências psíquicas do sujeito, que passa a não vislumbrar o presente com categorias de futuro, como fazem as pessoas relativamente saudáveis. Em suma, alguém neste estado tem dificuldade de projetar o tempo com mínima lógica, ou seja, enxergar conexões razoáveis entre os atos presentes e as vindouras conseqüências neles implicadas ou latentes.

Esse tipo de ignorância fruto da paixão — que faz o sujeito concentrar tenazmente a sua atenção no momento presente, de modo a lançar cinzentas nuvens sobre o futuro — já havia sido associado por Aristóteles aos vícios da "intemperança" e da "incontinência", sendo a distinção principal entre elas que uma é mais próxima do ato, enquanto a outra é hábito. No incontinente a cegueira dura enquanto dura a imagem sensível que deflagra a paixão; no intemperante ela dura mais, ou melhor, dura longamente devido à permanência do mau hábito mental arraigado.

Num e noutro caso, o tratamento espiritual deve começar por exercícios de continência da imaginação. Depois, passar ao direcionamento terapêutico, gradual, da potência imaginativa a outros objetos que não os recorrentes, assim como à meditação acerca dos malefícios desta fixação doentia em poucas imagens.

Entre incontinentes estão estupradores, por exemplo; entre intemperantes estão suicidas. Curar a uns e a outros pode e deve passar por uma reeducação da inteligência e da vontade, o que muitas vezes é capaz de tornar desnecessário o uso de psicotrópicos.

Mas somente um psicólogo com boa formação filosófica, mormente metafísica, pode alcançar esta verdade: a inclinação veemente do apetite desordenado — chamada em termos aristotélico-tomistas de "paixão" — pode ser consideravelmente minimizada, expurgada de seus excessos

Um psicólogo da estirpe do tomista Martín Federico Echavarría.

Infelizmente, estudiosos da alma humana com este perfil são hoje mais difíceis de encontrar que o homem honesto ao qual o velho Diógenes estava à cata, com sua famosa lanterna.

À luz do dia.