terça-feira, 29 de abril de 2014

Nos estudos filosóficos, a tangente do problema moral


Sidney Silveira

A DETRAÇÃO E O INSULTO são as armas típicas das pessoas que, encafifadas no estudo da filosofia, não suportam o contraditório, a objeção. Desde os pré-socráticos até hoje, estes nefelibatas primeiro multiplicam as objeções com o propósito de sair pela tangente e não responder às que lhes são feitas, para então sacar da cartola uma dúzia de pechas que lançarão sobre a honra dos que ousaram objetar-lhes, neste ou naquele ponto. Se conseguissem olhar as próprias almas diante do espelho, morreriam de susto com o tamanho da hediondez moral em que jazem.

No Brasil, observo este fenômeno cotidianamente, sobretudo entre jovens que bradam com ar sapiencial, do alto de seus cueiros filosóficos, o que julgam ser a quintessência da sabedoria. Eles não têm maturidade para entender o abismo existente entre um polemista e um controversista. Noutras palavras, não sabem identificar os santarrões com alguma cultura filosófica e distingui-los de um Sócrates, um Platão, um Agostinho, um Alberto Magno, um Tomás de Aquino — que elevou ao ápice o procedimento dialético da disputa, método por excelência da filosofia. 

Meu conselho a muitos jovens que me procuram é: antes de se enfronharem nas questões mais técnicas e abstratas da filosofia, procurem ordenar o estudo na seguinte ordem, quase intuitivamente conhecida de antigos e medievais: 

1- domínio dos recursos expressivos próprio idioma, o que implica conhecimento da gramática e das técnicas do discurso que os antigos chamavam de retórica ou oratória;

2- desenvolvimento da capacidade dialética, ou seja: treinar raciocínios à exaustão, com vistas a pensar bem, com ordem;

3- estudo acurado dos problemas morais atinentes à condição humana; sem isto a erudição que a pessoa vier a adquirir poderá ser o seu maior algoz espiritual.

Em síntese, se o estudioso sequer tem noção do que seja, na prática, a virtude da humildade, é urgente o seu submetimento, pela mão de um mestre competente, ao mais rigoroso tirocínio moral. Ele precisa o quanto antes aprender a dobrar a espinha, a desempinar o nariz e a ter reverência para com os que o antecederam, seja nos erros ou nos acertos. Quem conhece a benemerência hermenêutica de Tomás de Aquino para com Santo Agostinho e Aristóteles entende perfeitamente o que estou dizendo.

Qualquer saber numa alma que não provou o sabor da própria pequenez, não tomou ciência da sua estatura nanica, perante os grandes sábios e santos que a antecederam na dolente caminhada sobre o pó deste mundo, se transformará em arma letal. Por isso, num filósofo digno deste nome, o desenvolvimento moral sempre precede os vôos intelectuais mais altos. 

Sem o hábito operativo do bem, chamado virtude, a alma filosófica cairá cedo ou tarde das nuvens da própria erudição nos piores vícios espirituais. E adquirirá um saber desordenado, o qual pode culminar no mais terrível tipo de cegueira, que é o esquecimento do mundo "extra mentis", o mundo real, com sua estrutura própria não assimilável completamente pela razão humana — mas apenas assintoticamente. Tal alma terá dificuldade em divisar o seguinte: entre conhecer e ser haverá sempre uma zona de sombra inabarcável pela inteligência humana.

O sujeito na situação aqui descrita está despreparado para saborear a beleza do fato objetivo de que somente uma inteligência infinita pode assimilar de maneira omnicompreensiva a ordem do ser. Mas não uma inteligência como a nossa, limitada, que precisa caminhar sobre vestígios conceptuais extraídos direta ou indiretamente das coisas, para adquirir alguma ciência.

Essa inteligência infinita é a de Deus. Nela, ser e conhecer são necessariamente a mesmíssima coisa, um só ato. Em nós, diferentemente, conhecer é mero acidente de uma potência intelectiva que luta para assimilar aspectos da ordem do ser. 

Luta entre algumas vitórias e muitas derrotas. 

O homem humilde que estuda filosofia aceita esta verdade e abre os olhos do espírito. Ou melhor: por ser moralmente evoluído e, portanto, possuir agudo senso de realidade, ele a ama de todo o coração.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A fraude intelectual da reforma ortográfica da Língua Portuguesa



Sidney Silveira

Na época do Acordo Ortográfico levado a termo durante o governo Lula, Sergio De Carvalho Pachá era Lexicógrafo-Chefe da Academia Brasileira de Letras. 

Nesta entrevista-denúncia, ele conta a história de como nasceu este monstro lingüístico e alude às absurdidades implicadas na nova lei, que não é outra coisa senão o seguinte: uma mudança no idioma feita por decreto, algo similar ao que Mussolini tentou na Itália (como o próprio Pachá comenta).

Os intelectuais portugueses — professores, escritores, editores, etc. — já enviaram um documento ao seu parlamento, para que revogue o Acordo. 

Que os brasileiros saiam do letargo e façam o mesmo.

ERRATA: Pequenos lapsos muitas vezes acontecem no decorrer de um bate-papo. No trecho em que o Prof. Pachá se refere à função diacrítica das consoantes mudas em Portugal, o correto seria dizer "para assinalar a abertura DA VOGAL QUE AS PRECEDE" e não "DA VOGAL QUE SE LHES SEGUE". Feita aqui a correção, por indicação do próprio lexicógrafo. Nada que empane o brilho e a importância desta entrevista.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Lição aprendida de um notável metafísico: o argentino Álvaro Calderón


Sidney Silveira

SÓ CHEGA AOS UMBRAIS DA FILOSOFIA o homem que compreende a seguinte ordem de coisas: a experiência é superior aos sentidos; as artes (na acepção clássica) são superiores à experiência; as ciências são superiores às artes; e a metafísica é a superior de todas ciências, pois chega ao máximo grau de abstração da matéria. 

Neste contexto lembremos o seguinte princípio: uma coisa é tanto mais cognoscível quanto mais apartada esteja da potência indeterminadora da matéria.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Brasil, conhece-te quem te viu nascer



Sidney Silveira

22 de ABRIL DE 1500: DESCOBRIMENTO 
26 de ABRIL DE 1500: ATO ESSENCIALMENTE FUNDANTE DO BRASIL

Diferentemente do que dizem alguns livretos de história, o ato fundante do Brasil foi a Missa celebrada por D. Henrique de Coimbra, no domingo 26 de abril de 1500, numa praia situada no (atual) sul do Estado da Bahia. 

Imagino o impacto, a estupefação dos índios perante o belíssimo o sacrifício ritual da Santa Missa, sucedido pela primeira vez entre nós na então chamada Terra de Vera Cruz. 

Tiremos uma idéia mais ou menos aproximada disso pelo que escreve Pero Vaz de Caminha, em sua Carta a El-Rei D. Manuel I: 

"Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo".

O famoso quadro de Victor Meirelles intitulado "Primeira Missa no Brasil" está aqui no Rio, no Museu Nacional de Belas Artes. Ao vê-lo pela primeira vez, não pude conter a comoção. Foi como se estivesse ali, de joelhos, ao lado daqueles que seriam cristianizados tempos depois pelos jesuítas.

Chorei pelas nossas potencialidades malogradas.

Mas, em bom português, agradeci a Deus, que tudo dispõe (o bem e o mal) em ordem à excelência, ainda quando não estamos capacitados a enxergá-la.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: desmascarada a vergonha


Sidney Silveira

Nesta segunda-feira (21/04) gravei uma breve entrevista com o filólogo Sergio De Carvalho Pachá, que, em 2009, era Lexicógrafo-Chefe da Academia Brasileira de Letras (ABL) e conheceu os bastidores da reforma ortográfica mais absurda de que se tem notícia entre nós. 

Pachá foi defenestrado da ABL por ter uma opinião privada (de caráter absolutamente técnico!) contrária ao acordo. Ele viu o gramático Evanildo Bechara transformar-se, num passe de mágica, de grande crítico da reforma em seu principal garoto-propaganda — para depois, com aparente sã consciência, editar um pequeno manual da nova ortografia, trazendo para as próprias algibeiras certamente mais do que as trinta moedas com que Judas vendeu Cristo.

O ridículo argumento da "união política entre os países lusófonos", como sabíamos previamente, não se cumpriu. Quem ganhou com a coisa no Brasil foram as editoras apaniguadas da "corte", que recebem milhões do governo para imprimir livros paradidáticos.

Trata-se de um depoimento histórico, dado por pessoa abalizada tanto pelo apuro do seu conhecimento lingüístico como pelos cabelos brancos e os alquebrados olhos, que a terra há de comer. Olhos de quem, como Gonçalves Dias no "I-Juca Pirama", pode muito bem dizer:

— Meninos, eu vi. 

Reitero: entrevista concedida por uma autoridade em língua portuguesa que exercia papel importante na ABL quando da concepção do acordo ortográfico. Iniciativa esta chamada por Pachá de "fraude", sem meias palavras. 

O material será apresentado ao público em breve.

O mesmo vídeo traz um tira-gosto das questões vernáculas de que o Prof. Sergio Pachá tratará no curso "A Língua Absolvida", do Instituto Angelicum, imperdível para todos os que precisamos usar bem da língua, ou seja, expressar conteúdos inteligíveis aproveitando as magníficas possibilidades do idioma de Camões. 

Aguardem! 

Enquanto isso, não percam esta oportunidade única: façam as suas inscrições na Escola Virtual do Instituto Angelicum, no seguinte link:


A língua portuguesa agradece pelo serviço que quixotescamente lhe prestamos, com o curso do Prof. Sergio Pachá.

domingo, 20 de abril de 2014

Afogados na imanência


Sidney Silveira

O DEVIR É a mais débil epifania da verdade, pois não fixa propriamente nada além do movimento. No devir a realidade liquefaz-se na imanência dos fenômenos — os quais não podem encontrar explicação suficiente em si mesmos. Dissolvido, pois, no devir que coincide com um pragmatismo suicida, não resta ao homem pós-moderno senão perder a consciência histórica. 

A razão é muito simples: a historicidade não é outra coisa senão o vislumbre de pontos estáveis em meio à torrente dos fatos.

Duns Scot contra Santo Tomás


Sidney Silveira
COM O LENTO OCASO DA IDADE MÉDIA, a reviravolta que culmina no humanismo e na filosofia moderna, com a conseqüente refundação da política em bases que, tempos depois, resultarão na funesta e assassina Revolução Francesa, tem o principal ponto de apoio na obra do frade franciscano Duns Scot, no começo do século XIV. E mais: naquilo que este pensador tem de contrário à obra do mais profundo e complexo filósofo de todos os tempos: Tomás de Aquino. 

É como diz Josep-Ignasi Saranyana, na sua (em linhas gerais péssima) obra "La Filosofía Medieval", citando a Étienne Gilson: 

"O verdadeiro destinatário das críticas do Doutor Sutil era, em última análise, Tomás de Aquino". 

Esta lição é o beabá da história da filosofia e das idéias políticas. Mas, para entendê-la, é necessário conhecer os principais vetores de ambas as obras...