sexta-feira, 18 de abril de 2014

Mentira, morte lenta da alma


Sidney Silveira

A MENTIRA É A DISSONÂNCIA voluntária e consciente entre palavras e conceitos. Quanto mais um homem mente, mais fragmenta e deforma a própria inteligência. E sendo, pois, deformidade de uma apetência natural (a da inteligência pela verdade), a mentira jamais poderá ser enobrecida. 

Alguém pode explicá-la, compreendê-la, mas jamais conseguirá dar-lhe ares de coisa elevada e boa. Porém o mentiroso, enganando-se, passa a vida a tentar.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vocação coletiva ao brejo das almas


Sidney Silveira

A genuína estupidez é espontânea, espécie de incompreensão instintiva com que um homem não vê as mais gritantes obviedades. Mas no Brasil contemporâneo as pessoas se tornam estúpidas por cálculo, numa crescente e misteriosa adesão macunaímica, em massa, à obtusidade estimulada pelos slogans dos donos do poder, aos quais vendem o voto e a débil consciência por um prato de lentilhas. O brasileiro tornou-se estúpido por preguiça moral, esse atávico "jeitinho" que o inviabilizou civilizacionalmente. Tolerante com o intolerável, indulgente para com a quebra de todos os princípios éticos sem os quais a vida em sociedade é quase impossível, ele tem tido notável afinco em fazer da estupidez um carnavalesco dever cívico. Caso "sui generis" na história dos povos... 

Na verdade, merecemos o PT e a oposição que temos. Merecemos os nossos governadores (escapa algum?). Merecemos todos os políticos que entronizamos, pois eles são a lídima expressão da estupidez à qual aderimos como nação — fato cujo signo-mor é ter a Srª. Dilma Rousseff como presidente da República, criatura incapaz de articular meia dúzia de frases seguidas num mesmo período sem afundar em pungentes anacolutos.

Pois bem: se há conserto para um país com tantas riquezas naturais mas também tanta miséria humana, tanta pobreza intelectual e moral, é coisa que deixo para os adivinhos, os taumaturgos ou os vagabundos resolverem. 

Enquanto isso, viva a Copa do Mundo e o Maracanã de dois bilhões de reais! Viva o recorde de assassinatos! Os desvios de verbas nos Ministérios! O mensalão! 

Mil vezes etc.!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A luz da Cruz

Sidney Silveira

A SEMANA DA PÁSCOA é o interlúdio espiritual entre a rememoração de que neste mundo as vitórias, mesmo as legitimamente conquistadas, são efêmeras (Domingo de Ramos) e a contemplação do estandarte triunfante da Cruz (Domingo da Paixão).

Em breves termos: o Domingo de Ramos é a expressão litúrgica da consciência de que as glórias outorgadas pela instabilidade do coração humano são como vento, vêm e vão; o Domingo da Paixão, por sua vez, expressa a estabilidade do verdadeiro amor, excruciante porque pressupõe entrega total, inabalável perante a dor e as traições humanas.

Trata-se de uma passagem mística de ciclo: da via iluminativa à via unitiva; das verdades assimiladas às verdades praticadas; da luz recebida à luz que se dá. 

Áspero mistério do amor que se afirma como única realidade necessária a uma vida verdadeiramente humana — pois sem amor o homem é incapaz de triunfar sobre as suas próprias debilidades.

Desejo, pois, aos amigos católicos uma Semana Santa de muita paz.

Lógica, esteio de todas as ciências


Sidney Silveira

"(...) IMPÕE-SE A NECESSIDADE da existência de uma arte da razão, pela qual o homem possa proceder, no ato de raciocinar, com ordem, com facilidade e sem incorrer em erros. ESSA ARTE É A LÓGICA, ciência da razão. E é da razão não apenas porque lhe é conformada, mas também porque versa acerca do ato mesmo de raciocinar como de sua matéria própria. 

Podemos, pois, dizer que [a lógica] é A ARTE DAS ARTES, visto que dirige o ato da razão, do qual procedem todas as demais artes".

Santo Tomás de Aquino 
(Comentário aos Analíticos Posteriores de Aristóteles, n. 2.653)


Em suma, neste breve texto o Aquinate está a salientar algo que deveria ser óbvio para todos: a lógica é disciplina propedêutica necessária ao reto desenvolvimento da inteligência. Ela é "arte auxiliar", pois está a serviço de todas as ciências. Desprezá-la seria como deixar de colocar cimento ou argamassa entre os tijolos duma parede em construção. 

Embora seja arte subalterna, a lógica é essencial. Daí o Pe. Álvaro Calderón frisar na obra "Los Umbrales da Filosofía" que se trata da ama-de-leite de todas as ciências.

domingo, 13 de abril de 2014

Justiça dos injustos: castigo dos bons


Sidney Silveira

PARA O HOMEM BOM, os bens que lhe sobrevêm são prêmios, e os males, provas de paciência, perseverança. PARA O HOMEM MAU, os males são castigo, e os bens, usurpação de um mérito que não lhes é devido. Toda noção realista de justiça consiste em dar um único vetor a esta relação: premiar os bons, castigar os maus. 

Esta é a base daquilo a que se convencionou chamar de civilização. 

Sob qualquer pretexto — seja de classe social, seja de raça, seja de ideologia, seja de preferências sexuais, etc. —, atenuar o castigo dos maus é castigar os bons; e castigar os bons acarreta a única desigualdade essencialmente injusta: a que diz respeito à distribuição de méritos e deméritos. 

As demais desigualdades podem ser boas ou más, em vista duma série de fatores.

Filosofia e escrita

Sidney Silveira

NUM FILÓSOFO, a parábola evolutiva do pensador precede necessariamente a parábola evolutiva do escritor, podendo até prescindir desta, como no caso de Sócrates. Esquecer-se disto é o primeiro passo para idolatrar a letra e matar aos poucos o espírito.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Gramática e loucura em escala social

Sidney Silveira
O VIGOR ÉTICO está para toda pujante noção de direito assim como a atenção às normas gramaticais elementares está para o pleno exercício da cidadania. Só numa sociedade demencial é difícil explicar às pessoas a necessidade de saberem concordar o sujeito com o predicado e formarem orações que encadeiem entre si pelo menos o esboço de um pensamento lógico, antes de que reclamem do governo ou adiram a um partido. 

Hordas de pessoas desarticuladas verbalmente — pessoas "anacolúticas" — não podem conformar nenhuma sociedade que não seja esquizofrênica e potencialmente homicida

E, ao fim e ao cabo, suicida.

A sintaxe psíquica garantidora da sanidade de um homem, implicada no conhecimento que tem do seu próprio universo interior e da realidade à sua volta, depende duma estruturação mínima da linguagem, a qual é organizada, codificada, ilustrada pela gramática.

Em suma: aprender a pensar e também a sentir projetando sobre os dados sensitivos a luz do intelecto natural é algo que passa pela capacidade de estruturar o discurso lógico. Só quem entende este princípio gnosiológico sabe que a gramática tem papel social preponderante e é muito mais que um mero conjunto de regrinhas de escrita.

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