terça-feira, 31 de dezembro de 2013


Sidney Silveira

A felicidade humana não se faz pelo somatório de vontadezinhas satisfeitas nem se mede por projetos de vida realizados no decorrer de determinado período. Mais importante é o estado de impassibilidade espiritual nas vitórias e nas derrotas. 

Portanto, os meus votos de "Feliz 2014" implicam não o sucesso e o aplauso dos homens — que, em geral, fazem mais mal que bem à alma —, e sim a sabedoria adquirida nas derrotas, pela qual o pó que somos se alça à máxima dignidade possível.

Em 2014 desejo a todos a proximidade do ideal da grande mística do Carmelo, Santa Teresa de Ávila, enunciado num dos mais belos poemas já escritos na língua de Cervantes — do qual destaco os versos iniciais:

“ Vivo sin vivir en mí,
y tan alta vida espero,
que muero porque no muero”.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Porta dos Fundos — conhecida por dicionaristas e lexicógrafos daqui e d’além-mar como “olho do cu”



Sidney Silveira
Aprendemos nas aulas de biologia que alguns bichos, como o escaravelho, se alimentam de merda. Há espécies deles, como o popular escaravelho vira-bosta, que parecem comprazer-se sumamente em suas atividades excrementícias, pois juntam considerável quantidade de cocô alheio — não raro muito superior ao peso do próprio corpo — e rolam essas volumosas bolas de fezes até as suas tocas, onde se empanzinam de esterco ao ponto de se sentirem repletos e regalados como os mais insaciáveis glutões de que se tem notícia. Por exemplo? O rico romano Trimalcião, personagem do Satyricon de Petrônio, que, para exibir-se perante comensais devoradores de chouriços e lingüiças, manda estripar um porco à frente de todos. Em resumo, degustar dejetos é a natural apetência desse escaravelho, êxtase merdoso no qual a sua vida alcança o ápice.

Ora, que besouros esquisitos comam dejetos até a repleção, vá; assim cumprem certa função na natureza e contribuem para o equilíbrio de alguns ecossistemas. Mas que homens se empanturrem de cocô mental, encontrando nesta infausta atividade alguma graça, por menor que seja, é um mistério absolutamente irresolvível para os maiores gênios que a filosofia já produziu, desde a Antiguidade mais remota aos tempos atuais.

Refiro-me ao grupo de “humoristas” chamado Porta dos Fundos, cujo sucesso é um dos vários signos distintivos do oceano de insanidade em que o Brasil se afoga. Trata-se de jovens flagrantemente estúpidos que se imaginam intelectuais a fazer humor “crítico”, em boa parte voltado contra a religião — particularmente a católica. Pelas entrevistas de algumas dessas criaturas em programas não menos lamentáveis que o tipo de “humor” que pensam praticar, de imediato se aquilata o quanto se irmanam nestas cabeças-de-bagre duas coisas que, juntas, são sempre nitroglicerina: soberba e ignorância. O rapazola chamado Gregório Duvivier a falar sobre ateísmo, por exemplo, deixaria os ateus teóricos de antanho vexados! Certamente lhe chutariam os fundilhos e o expulsariam pela porta dos fundos do seu clube.

Infelizmente, não estou à frente de um programa de entrevistas desses, pois reduziria a pó-de-mico o discurso desses pobres-diabos, com requintes de crueldade intelectual. Mas, como isto jamais acontecerá, limito-me a fazer referência a alguns dos últimos episódios desta camarilha de ignaros pretensiosos — sobretudo o blasfemo e sacrílego especial de Natal — para dizer o seguinte: todos os advogados, juízes, representantes do Ministério Público, procuradores e desembargadores católicos em geral, gente que conhece bem os trâmites do Judiciário, têm o DEVER de encher essas pessoas com tantos processos que elas passem o próximo ano tendo imenso trabalho para responder um a um. Os crimes que cometeram, sob o falso pretexto da “liberdade de expressão”, constam do Código Penal brasileiro.

Mas não basta isto: a idéia de levar adiante campanhas de boicote aos patrocinadores dessa turma é excelente, pois a dor no bolso é a melhor medida para pôr à prova as convicções de tais personagens. Um dos patrocinadores é a Cerveja Itaipava! Sugiro que entupam os e-mails da empresa (pelo link http://www.cervejaitaipava.com.br/, onde há uma área de contato), assim como o telefone de atendimento 08007279998, alertando para o fato de que, a continuar o patrocínio, o grupo que produz a cerveja pode ter reveses jurídicos e, o que é pior, problemas com a sua imagem institucional.

Quanto a Fábio Porchat, um dos mais conhecidos da trupe, não resistiria a cinco minutos de sabatina com um bom entrevistador que questionasse o ataque sistemático que, sob a falsa capa do humor, o grupo anda fazendo à religião por cujo intermédio foram lançadas todas as bases da civilização que, por várias razões, hoje rui tendo como símbolo da queda pessoinhas como ele, culturalmente patéticas porém de um esperto senso de oportunismo. Ele passará; ela não.

Pela portinha dos fundos desse pessoal sai uma bosta que nem o mais faminto escaravelho suportaria comer...

P.S. Perdoem os amigos pela referência chula, desta vez inescapável, no título deste breve texto. A analogia pareceu-me necessária e pertinente.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Noite feliz

Sidney Silveira

Nasceu o menino Deus.

"Miraculum omnium miraculorum", diz Tomás de Aquino fazendo referência a São João Damasceno. Milagre de todos os milagres, mistério inefável da união entre a natureza humana e a divina na Pessoa do Verbo Encarnado, Jesus Cristo.

Eis o sentido do Natal, a ser contemplado acima de todos os demais: "Verbum caro factum est" — o Verbo se fez carne. Todos os outros aspectos celebrados neste supremo ato da misericórdia divina para com a corrompida natureza humana estão ordenados ao mistério do amor infinito que, em sua epifania maior, se manifesta entre as coisas finitas. Dádiva das dádivas, gloriosa humildade e projeto de deificação do homem. 

Para apontar isto, cito as palavras do Doutor Comum da Igreja em seu "Comentário ao Credo" que indicam o caráter deificante da Encarnação: "Et sic factus est homo, ut hominem faceret Deum" (E se fez homem, para o homem fazer-se Deus). 

Com o nascimento de Jesus, a eternidade elevou o tempo à sua plenitude.

Nenhum indício da caridade divina pode ser mais evidente que o de Deus Se fazer homem para resgatar o homem, levá-lo à plenitude máxima. O contato com o triunfante amor infinito era a única maneira de regenerar o homem, fazê-lo compreender o quanto se degrada por todos os atos, palavras, pensamentos e omissões que o afastam de Deus. Daí a excelsa conveniência da Encarnação.

Oh! Vinde todos e adoremos o Salvador. 

Este é o único verdadeiro voto de Feliz Natal.

Que nesta noite então nos deixemos entranhar por esta verdade de incomparável beleza: 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Qual a diferença entre remorso e arrependimento?

Quincas Borba expõe a Brás Cubas — com o olhar rútilo dos loucos convictos — os princípios do seu "humanitismo"
Sidney Silveira

Pergunta-me um amigo reservadamente o que vai acima, e como talvez não seja de todo inútil a resposta, sobretudo para as pessoas que habitualmente me lêem e se dedicam à contemplação das mazelas humanas, respondo de público. 

Desta vez, faço-o sem recorrer à sabedoria escolástica de Santo Tomás de Aquino, a quem tanto amo, mas citando o ensandecido "filósofo" Quincas Borba — o mesmo que, certa vez, ao observar a inanidade de todas as aspirações nas quais os homens se afadigam debaixo do sol, fazendo de suas convicções a mal-disfarçada máscara do auto-enlevo em que a alma infla e se perde, dissera: 

"Ao vencedor, as batatas".

Pois bem: vejamos o que diz o peculiar Quincas Borba a respeito de um tópico da pergunta que dá título a esta postagem:

"(...) Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda".
(MACHADO DE ASSIS, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo CXLIX).

Com certo atrevimento, acrescento a esta precisa e concisa definição algumas brevíssimas palavras: o remorso pode ser, na melhor das hipóteses, uma covardia alimentada pelo pavor das conseqüências das más ações; o arrependimento, por sua vez, é a corajosa ida as causas dessas mesmas ações moralmente deficitárias — no reconhecimento de que o mal feito precisa ser reparado, de alguma maneira.

Eis a distinção entre o fardo e o alívio da consciência. 

Entre seguir o halo da luz — ainda quando venha da mais insignificante vela que crepita — e sucumbir às trevas.

EM TEMPO: Vale ainda dizer que a vitória sobre o remorso só se pode dar quando o vetor espiritual fixa-se em valores perenes calcados n'Aquele que não só vale mais que tudo — mas é também a medida do valor de todas as coisas que há: Deus. Aristóteles, que não conheceu a fé, dizia na Ética a Nicômaco: o homem, após depravar-se (ou seja, após ultrapassar certos limites), não tem mais como curar a alma. E humanamente tinha razão o Estagirita. Mas os cristãos, remidos pelo sacrifício da Cruz, viram que a graça aperfeiçoa a natureza e pode fazer o pior dos homens abrir os olhos do espírito, mesmo depois de chegar a baixíssimos escalões de imoralidade, de maldade, de insanidade. E, assim, reencontrar a bússola perdida com o exílio do paraíso — do qual todos temos nostalgia, consciente ou inconscientemente.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Via ad sapientiam - Pagina interretialis in qua tractantur omnia ea quae ad Latinitatis studium pertinent.


Blog todo em latim

Um presentinho do William Bottazzini!

Sirva de estímulo a quem quer aprender a língua de Cícero. 

Confiram-no aqui:


A propósito, AS INSCRIÇÕES PARA A PRÓXIMA TURMA DO CURSO DE LATIM DO INSTITUTO ANGELICUM CONTINUAM ABERTAS em:


P.S. Em breve daremos notícia de outros cursos do Angelicum programados para 2014
P.S.2. Fale, entenda, escreva e leia em latim — em dois anos, apenas: 




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Aos amantes do velho esporte bretão que torcem pelo Flu, e aos idiotas da objetividade


Sidney Silveira

O sofisma futebolístico do final de ano

Moralmente, futebol se ganha no campo. (PREMISSA MAIOR) 
Ora, o Fluminense foi beneficiado por uma decisão extra-campo. (PREMISSA MENOR)
Logo, ganhou imoralmente. (CONCLUSÃO)



Defende Santo Tomás de Aquino em seu "Comentário aos Analíticos Posteriores" de Aristóteles que o verdadeiro silogismo demonstrativo não pode induzir à ignorância nem ao engano. E pontua que um silogismo pode ser falso de duas maneiras principais: ou porque a forma silogística é má, e então se dá apenas silogismo aparente; ou porque faz uso de proposições falsas (e um dos modos da falsidade é omitir elementos importantes duma premissa que só poderia valer se se dessem as circunstâncias devidas). Por favor, não nos venham acusar de estar usando tão elevada filosofia para tratar de assunto desimportante como o futebol. Na verdade, a lógica é a arte do bem pensar e em todas as ocasiões da vida em que sustentamos um ponto de vista convém fazê-lo de acordo com as regras da boa lógica. A cabeça bem ordenada é como uma casa limpa e arrumada; assim é sempre melhor.

O sofisma em questão consiste em omitir que futebol se ganha no campo de acordo com regras preestabelecidas. A propósito, perdoem-me as pessoas de moralidade emotiva e mutável como a direção do vento por lembrá-las de que a existência mesma do futebol como esporte praticado num campo retangular gramado, com padrão de 4.136 metros quadrados, duas balizas com 2,44 metros de altura e 7,32 metros de comprimento, duas linhas laterais ao longo do terreno e outras duas linhas ao fundo, um círculo central de 9,15 metros de diâmetro cortado por uma linha que divide geometricamente o retângulo do campo em dois quadrados, etc., tudo isso é assim por conta da existência de regras “extra-campo”. Em linguagem aristotélica, as regras são a causa final do jogo. A sua ratio ou razão de ser.

Quando o torcedor apaixonado grita “gol”, bem poderia ter em mente que o próprio conceito de “gol” é filho das regras do jogo: de acordo com estas, o escore** da partida de futebol muda quando a bola (cujo peso e medida são também definidos por regras!) entra numa das balizas, obviamente sem que na jogada aconteça um lance... contrário às regras! Em síntese, futebol se ganha no campo, sim, mas tudo nele — inclusive as vitórias — depende do estrito cumprimento das regras. Qualquer resultado que descumpra leis ou normas previamente aceitas pelos participantes da competição é imoral! Usemos de uma analogia jocosa para mostrar como, aqui, a premissa oculta é relevante: omitir isto seria mais ou menos como uma dedicada esposa dizer à sua mãe, numa conversa em privado, que o sofá de sua sala está com problemas, mas sem informar que tais problemas consistem no fato de que o seu amado marido mantém, sobre o sofá, noturnas atividades pélvicas lúbricas com a empregada da casa, em ritmo frenético, ao ponto de quebrarem o estrado do sofá. Em suma, a omissão dum fator importante em qualquer proposição nunca conduz à verdade.

E a verdade, caros amigos — nuazinha como Adão e Eva antes da queda original —, é que a vitória do Fluminense ontem no STJD foi a vitória da moralidade. E esta, no caso do futebol, está atrelada ao estrito cumprimento de normas e regras, como muito bem salientou o advogado Mário Bittencourt ao lembrar àquela corte que o princípio da moralidade, no caso em questão, é afim ao princípio da legalidade. Apartar o legal do moral, a propósito, foi obra do positivismo jurídico e este, por sua vez...  Bem, voltemos ao futebol!

Se o que suscitou o problema foi um erro crasso de adversários, vejo um elemento ainda mais interessante: o fado, diriam os gregos; a Providência Divina, digo como cristão. O Fluminense estava fadado a permanecer na série A! E, se a minha intuição não me engana, parece predestinado a vencer espetacularmente o campeonato brasileiro de 2014, contra tudo e contra todos.

Não lisonjeemos, pois, os nossos acusadores falsamente moralistas — dando-lhes razões indevidas. Mais do que nunca gritemos a pleníssimos pulmões:

“NEEENSE”!


P.S. Respeito os tricolores que pensam diferente, mas lhes digo: a vitória na justiça, da maneira como se deu, só fez aumentar o meu amor ao tricolor — ao pavilhão das três cores que traduzem tradição.

P.S.2. Tricolores, compartilhem!
** Uso o anglicismo "escore" de propósito, em homenagem aos inventores do futebol.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Pairam pirilampos na floresta...



Sidney Silveira

Um querido amigo pergunta-me qual seria a música representativa dos últimos 10 anos de PT no comando do país. A única que me ocorre de imediato é “O Vira” dos Secos e Molhados, grupo de grande sucesso na minha infância.

A explicação é simples:

Por uma "alquimia" muitíssimo bem tramada, o Partid(ão) fez com que boa parte da população brasileira acreditasse politicamente em sacis, fadas e pirilampos mágicos. Ou pior: fingisse acreditar. Transformou-nos numa mistura de “Sítio do Picapau Amarelo” com “Alice no País das Maravilhas”. Mundo surreal em que hoje uma ventríloqua semiletrada faz as vezes da Rainha de Copas — cortando não as cabeças, por mera desnecessidade, mas as consciências de uma parcela da população suficiente para reeleger a patota “ad nauseam”.

Nem com um rebolado mais feérico que o de Ney Matogrosso no vídeo abaixo o povão tem hoje saída, pois as demais opções além do Partid(ão) com alguma chance de ascender ao poder oscilam entre o psicodelicamente macabro e o eticamente mefistofélico.

Assim, passemos ou não com o gato preto debaixo da escada, o fato é que não há “santo” capaz de fazer o milagre de (re)civilizar o povo brasileiro a médio prazo.

Dá para começar de novo?

https://www.youtube.com/watch?v=vDvjecJOpa4