sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum (nova turma)

Sidney Silveira


[leia, escreva, fale e entenda a língua de Cícero em apenas dois anos]

A próxima turma do Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum — que começa em janeiro de 2014 — terá um número menor de vagas. Portanto, aos que manifestaram interesse em se inscrever, aconselhamos que o façam logo para garantir a vaga.


Informações neste link do Instituto Angelicum: 



"Lingua Latina est via certa ad sapientiam". (Prof. William Botazzini).



O sublime é o acordo tácito entre a inteligência humana e algum aspecto do ser — que vem de Deus

Ave Maria Caccini

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Amor e sanidade


Sidney Silveira

A Martín Echavarría

O amor é o modo próprio da sanidade psíquica. Boa parte dos males da alma humana aponta para algum déficit de expansão amorosa, quando a vontade se desgoverna a ponto de prejudicar a compreensão do nexo hierárquico das coisas implicado nas escolhas humanas — dentre as quais o amor é a mais livre, pois ninguém pode ser coagido a amar. Noutras palavras, percebemos melhor o mundo, as pessoas e a nós mesmos nos atos de amor, quando a inteligência e a vontade, irmanadas, geram a virtus unitiva, expressão usada por Tomás de Aquino para designar a força agregadora desta radical inclinação da alma humana ao bem. O saudável dinamismo psicológico de uma pessoa depende de que essa tendência amorosa natural não seja obstada. Por isso, não erraria quem dissesse que muitas patologias anímicas são doenças do amor malogrado.

O amor aperfeiçoa a alma, refina-a, mas ele próprio pode e deve ser aperfeiçoado e refinado desde tenra idade com medidas que favoreçam a abertura da inteligência aos bens reais. Esta pedagogia do amor passa pela formação do caráter a partir da educação da sensibilidade, pela apresentação às crianças de coisas belas facilmente inteligíveis, como a harmonia dos sons, na boa música, e o contato com a natureza. Depois, com atos e palavras que evidenciem o valor do bem e da verdade como propriedades do amor. Alguém assim formado vai aos poucos entendendo, quase intuitivamente, que o amor é o fundamento da vida moral, na medida em que define a qualidade das ações de uma pessoa. Trata-se, é claro, de um aprendizado do intelecto prático, e não do especulativo.

A inteligibilidade do mundo aumenta na medida do amor, que potencializa os sentidos e predispõe a inteligência a lograr os seus atos próprios sem maiores impedimentos. Em resumidas contas, sabemos melhor as coisas que amamos, e mesmo o homem maligno que procura conhecer as fraquezas das outras pessoas para usá-las a seu favor está vetorizado pelo amor — um amor que é apetite desgovernado da própria excelência. Em suma, o amor é a raiz primária de todas as paixões da alma, estejam estas ordenadas ou não. Ele designa a relação real entre o ente dotado de potências intelectivo-volitivas e o bem, daí que a apetecibilidade de qualquer coisa é formalmente a sua “razão de bondade”, como salienta Patricia Astorquiza Fierro no ótimo trabalho Fundamentación Metafísica del Amor en Tomás de Aquino.

Sendo o amor o cumprimento mais ou menos satisfatório da radical orientação teleológica da alma humana ao bem, podemos dizer com o tomista Josef Pieper o seguinte: qualquer psicoterapia que ponha demasiada ênfase na auto-afirmação da pessoa será neurotizante. Levará o homem a mentir a si próprio nalgum grau para escapar às imagens inconvenientes ou dolorosas à consciência. Ocorre que esta camuflada e egolátrica fuga da verdade acaba por retroalimentar os problemas psíquicos, podendo gerar círculos viciosos de fobias e angústias quase incuráveis. Só quem se confronta consigo mesmo sem véus nem subterfúgios pode ultrapassar o umbral da sanidade. Em contrapartida, a insanidade, seja lá como a concebamos, sempre implica o naufrágio do "eu" hipertrofiado ou atrofiado, que se torna cego às coisas exteriores e, por isso, tem grande dificuldade de amar.

Tal confronto de um sujeito com o espelho de sua consciência é praticamente impossível sem que ele perceba a gradação de bens que há na realidade e compreenda o seguinte: a sua sanidade psíquica depende de que amor e bem estejam ordenadamente unidos. 

Em suma, quem ama mais intensamente, escolhe melhor. E se considerarmos que os santos amaram intensamente o que é mais amável — ou seja, Deus —, seremos obrigados a reconhecer, com Pieper, que neste mundo só os santos estão plenamente livres da neurose, ao passo que os demais homens precisam combatê-la enquanto houver vida.

A sanidade dos santos provém de que souberam hierarquizar devidamente o amor. Daí alcançarem a paz, mesmo quando em guerra.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Messianismo político, civilização terminal

Barrabás (Gustave Doré)

Sidney Silveira
Ao amigo Carlos Nougué

Universi, qui te exspectant, non confundentur, Domine.
Salmo XXIV

Quando Pôncio Pilatos volta-se à furiosa turba de judeus e pergunta quem ela quer que seja solto, Cristo ou Barrabás, está falando a homens de todos os tempos. Por trás da indagação do præfectus romano da Judéia se oculta um profundo dilema: cimentar a base social em ardilosos estratagemas humanos ou erigi-la sobre a pedra angular das leis divinas, fonte inalienável dos poderes terrenos, conforme assinala o próprio Cristo quando diz ao vacilante algoz à Sua frente que não teria nenhum poder de libertá-Lo ou de condená-Lo, se não lhe tivesse sido dado do alto. A escolha ali simbolizada é entre construir a Pólis depositando total confiança em homens facciosos — hoje o eufemismo social vigente os considera “democratas” integrantes de partidos políticos — ou na sabedoria eterna. Entre tomar como modelo das ações humanas, e portanto da política, o verdadeiro Messias ou os falsos.

Ora, toda sociedade decadente descamba para o messianismo político. Não há exceções históricas. Por esta razão, no caso de Cristo — situado entre uma Roma imperial corrompida, já afastada dos elevados princípios republicanos que a erigiram, e o elitizado e pretensioso judaísmo farisaico —, a escolha não poderia recair senão sobre Barrabás, o revolucionário zelote.[1] Cristo já o sabia por presciência divina, como também tinha a pleníssima noção de que, com o Seu sacrifício, traria ao mundo a possibilidade de reestruturar-se noutros paradigmas: a caridade, e não a cupidez, passaria a servir de fermento para o corpo social, dos estratos mais humildes e desvalidos aos governantes. O caminho foi longo até a Cristandade gerar as autoridades públicas mais sábias e prudentes de que se tem notícia. Mas ela, de acordo com os desígnios da Providência, também estava marcada para decair, e a queda foi lentamente agônica.

Nenhuma sociedade se desfaz sem perder substância espiritual — e o primeiro grande degrau nesta direção é o farisaísmo religioso, a um só tempo formalista e confiante no seu próprio saber. Tal atitude em geral consagra a letra e mata o espírito do qual ela é apenas símbolo; assim, a religião corrompe-se paulatinamente e os estudiosos das coisas divinas começam a sofisticar o discurso a ponto de se sentirem hermeneutas privilegiados das Sagradas Escrituras, embora sem haver recebido nenhum carisma para tanto. Incapazes de humildemente conservar a tradição recebida, reformam-na fazendo uso de palavras e conceitos de sua própria lavra, e após a sofisticação vem sempre a degradação. Em síntese, toda e qualquer civilização começa a ser destruída por maus teólogos, ou seja, por estudiosos novidadeiros das coisas divinas, e com a cristã não poderia ser diferente. A propósito, ponha-se na conta de dois frades franciscanos o lançamento das longínquas sementes do caos espiritual que se espraiou para o terreno da política e, séculos depois, acabou por gerar a modernidade: Duns Scot e Guilherme de Ockham.

Para se ter idéia, na opinião do Doutor Sutil o homicídio, a traição e a mentira não são coisas intrinsecamente más; elas são más tão-somente porque Deus as proibiu — e o fez por Sua libérrima vontade. Para Scot, no horizonte da moral a vontade divina é a única e exclusivíssima fonte do bem e do mal,[2] e, por esta razão, segundo o seu tresloucado parecer, apenas os dois primeiros mandamentos das Tábuas da Lei entregues a Moiséis no Sinai — referentes a Deus — são indispensáveis e universais. Todos os demais são bons apenas porque Deus quis que fossem, mas poderiam ser maus se Ele assim decidisse. Em Scot não existe nenhuma lei necessária na natureza, nem mesmo uma lei eterna da qual provenha, mas só a vontade divina a pairar como que tiranicamente acima de tudo; Ockham repetirá estes princípios voluntaristas e os aprimorará em várias passagens de sua obra. Na perspectiva deste famoso autor insubmisso ao Papado, nada pode ser propriamente inteligível na criação, já que as coisas não se predicam umas das outras, mas apenas predicam-se convencionalmente os conceitos.[3]

Entre os entes de razão e a realidade das coisas criara-se um pântano impossível de atravessar. Ora, não demoraria muito para a política ser inoculada por esta disteleologia irracionalista que foi tomando as universidades e fazendo as cabeças, geradora de um novo tipo de farisaísmo teológico insubordinado à tradição apostólica e ao Magistério da Igreja. A partir deste período, com o hiato estabelecido entre as coisas temporais e as espirituais, primeiramente sobrevirão as revoluções luterana e calvinista, com as suas inumeráveis guerras sangrentas; mais tarde virão as revoluções francesa (liberal-maçônica) e russa (comunista). O mundo escolhera definitivamente a Barrabás, malgrado as reações magisteriais da Igreja; estas porém se foram tornando impotentes perante o novo vetor materialista, libertário e humanista da história.

Os messianismos políticos multiplicam-se na exata medida em que inexistem autoridades espirituais que, de forma solene, custodiem as verdades eternas. A sagração da consciência individual dos homens como instância intocável é concomitante à dessacralização de todas as coisas, e, neste contexto, a débâcle do Magistério da Igreja a partir do Concílio Vaticano II é o acontecimento culminante do século XX, mais que as duas Grandes Guerras, pois representa o odiento fechar de olhos para as coisas políticas tomadas de assalto pelo que há de pior no gênero humano. Falseado e deturpado, o conceito de “dignidade da pessoa humana” se transforma em motor da política pós-moderna ocidental, e de todos os lados é mencionado para justificar os pleitos mais absurdos.

Hoje alguns querem fazer-nos imaginar que estamos perante uma escolha de Sofia: ou o projeto eurasiano russo, em parceria com cismáticos ortodoxos, ou os neocomunismos imperantes sobretudo na América Latina, ou o avanço europeu do Islã, religião a respeito da qual o abade Pedro, o Venerável, escrevera no distante século XII o estupendo Liber contra sectam sive haeresim sarracenorum. Como pano de fundo de todas essas possibilidades, encontram-se as premissas liberais dos que odeiam a Igreja e a querem ver afastada da instância política a todo custo, pois do contrário o reinado material do Anticristo nunca seria possível.

Em tal configuração, convém ter em vista o seguinte: todos os que põem a confiança no Senhor não serão confundidos, como afirma o Salmo que serve de epigrafe a este breve texto. Portanto, é melhor a derrota política com a cruz espiritual às costas do que a vitória política infamante.

Tal confiança verdadeiramente heróica pressupõe que os católicos não abandonem a Igreja, mesmo com a sua Hierarquia fazendo de tudo para os melhores apostatarem, e também não adiram a nenhum desses messianismos políticos, pois se trata de tentáculos do mesmo demônio.

Seja à esquerda ou à direita da depravação.
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1- Para exemplificar isto, vale frisar que Cristo — diante de Pilatos e dos judeus que O acusavam de blasfêmia — está literalmente entre a omissão culpável do poder político corrupto e a maldade espiritual da mais pérfida das elites, sendo esta última sumamente deletéria, pois se volta contra o bem maior. “Quem Me entregou a ti tem maior pecado” (Jo. XIX, 11).
2- Cfme. Duns Scot, Ordin., I, 46, I, 6.
3- “É tão impossível que uma coisa seja universal fora da alma quanto é impossível que o homem seja um asno”. Ockham, Sent. 2, 78.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Orlando Fedeli, etc.


Vi pessoalmente o Prof. Fedeli apenas uma vez — quando poucos meses antes de morrer pernoitou em minha casa e ficamos a conversar até altas horas da madrugada, após um divertido e agradável jantar com o meu amigo Carlos Nougué e o jovem Guilherme Chenta.

Lembro de lhe ter dito na ocasião o seguinte: "Prof. Orlando, há entre nós divergências tópicas e convergências utópicas". Com relação às primeiras, entre outras coisas referia-me eu ao Papa Bento XVI, sobre cuja atuação pontifícia não é meu propósito escrever aqui.

Antes de dormir, rezamos diante do crucifixo e do belo ícone de Nossa Senhora que tenho em minha sala, e a impressão que me ficou foi a de um homem piedoso, apaixonado, culto, corajoso e conhecedor do Magistério da Igreja.

Ele morreu num dia 9 de junho e foi enterrado no dia 10. Era meu aniversário, porém fiz questão de pegar a primeira ponte aérea que pude e assistir em São Paulo à Missa de corpo presente e ao seu sepultamento, pois tinha para com o falecido uma dívida de gratidão: aprendi com ele a combatividade em defesa da fé — num momento em que a Igreja deixara quase totalmente de lado a apostolicidade — e tive acesso a textos preciosos sobre outras religiões com abordagem salutarmente antiecumênica, a mesma que eu via nos Doutores, filósofos notáveis e grandes teólogos cujas obras extraordinárias tive a felicidade de ler.

Jamais fiz parte da Montfort nem de qualquer grupo católico. Por prudência, desde a minha tardia conversão preferi manter a independência e não ser gregário: optei por tentar extrair o que de bom via aqui e ali, deixando de lado o que não me interessava. E, obviamente, ter vida sacramental e esforçar-me por cumprir os preceitos.

A partir daquela época ouvi fofocas e histórias escabrosas não apenas sobre a Montfort, mas também a respeito da FSSPX brasileira, do Opus Dei, da TFP, das chamadas "comunidades amigas da Tradição" e, por fim, da Administração Apostólica S.J.M. Vianney. Se eu tivesse uma membrana nos ouvidos a fecharia para não ouvir esses presumíveis fatos que não me dizem respeito — nem próxima nem distantemente.

Em breves palavras, estas coisas não me interessam! Ademais, como jamais terei condições de aferir com os próprios olhos a imensa maioria do disse-me-disse que ouvi, há algum tempo peço às pessoas que evitem transmitir-me tais supostos acontecimentos.

Uma coisa é certa — a crise eclesial é gigantesca, ao ponto de hoje posições distintas, não raro conflitantes, serem razoavelmente defensáveis. Em tal contexto, o mínimo que o católico consciencioso deve procurar pôr em prática parece-me o seguinte: mostrar certa caridade nas divergências, saber calar e meditar muito antes de falar. 

Rezemos uns pelos outros e tenhamos a prudência de não emitir publicamente juízos temerários contra pessoas ou grupos, sempre levando em conta o fato de que responderemos por absolutamente tudo — pelo bem e pelo mal que fizermos.

Escrevo este breve texto porque recebi hoje, por conta de uma postagem de Facebook na qual fui citado, mais de 30 mensagens de pessoas contra e a favor do Prof. Fedeli. Eis aqui, portanto, a minha resposta, e se a dou em público é porque o conselho prudencial deste texto parece-me bastante útil para todos nós.

Saudações,
Sidney Silveira

P.S. Uma vez vi-me compelido a reconhecer de público alguns méritos do Prof. Orlando, e lembro-me da comovida resposta que me deu

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Indicação do Prof. Carlos Nougué

Sidney Silveira

Três livros do jurista tomista Ricardo Dip (que atualmente nos honra com sua presença no Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum)

a) "Prudência Notarial", Quinta Editorial;
b) "Segurança Jurídica e Crise Pós-Moderna", Quartier Latin;
c) "A Natureza e os Limites das Normas Judiciárias do Serviço Extrajudicial", Quartier Latin.

Vejam a dica do querido amigo Nougué no link abaixo:
http://estudostomistas.blogspot.com.br/2013/10/o-tomismo-aplicado-ao-direito-tres.html

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entre opiniões e vagidos


Sidney Silveira
Não me aborrece em absoluto ver pessoas expressarem opiniões diferentes das minhas. Jamais me verão dar chiliques por conta disso!

Já dizia o bom e velho Tomás de Aquino: opinião é o ato do intelecto que se inclina a uma proposição com temor de que a sua contraditória seja verdadeira (cfme. “Suma Teológica”, I, q. 79, art. 9, ad.4). Em síntese, a opinião é justamente o intermezzo entre a dúvida e a certeza: na dúvida o sujeito coloca-se num ponto eqüidistante entre proposições contraditórias ou aparentemente contrárias, sem se decidir por nenhuma, ao passo que na certeza o espírito adere firmemente a uma delas, em detrimento das demais.

O Aquinate distinguia dois tipos de opinião: opinio communis, pautada no bom senso, e a opinio extranea, ou seja, a bizarra, descabida ou extravagante. Esta última pode ser má ao ponto de o grande teólogo identificar-lhe um grave perigo: nalguns casos ela pode destruir os princípios universalíssimos sobre os quais se apóia toda filosofia digna deste nome.

A propósito, rio-me interiormente ao ver liberais democratas natos e hereditários espocarem feito catapora, apenas porque lhes são insuportáveis as opiniões divergentes das suas. Parecem acometidos duma doença auto-imune cujo sintoma é partir para a detração, a murmuração ou o insulto, pelo simples fato de que alguém ousa discordar deles. Em resumo, a sua é a mais tirânica das opiniões: a que se quer verdade absoluta sem deixar de ser opinião. Anômala espécie de “doxa epistêmica”.

Em geral, alguém com este perfil finge escandalizar-se com opiniões que em si não podem ser ditas extravagantes, pois se ancoram em evidências ou em premissas razoáveis. Temos aqui o sinal distintivo de um dos mais letais tipos de má-fé: a afetação — que não é outra coisa senão a falta de naturalidade na ação, algo tão denunciador quanto batom na cueca. Ora, a afetação é irmã siamesa da desonestidade intelectual, e o contato com pessoas com tal deficiência de caráter é perigosíssimo, devido ao fato de que o contágio pode ser rápido e acarretar seqüelas definitivas.

A gradação que vai da ignorância à ciência passa necessariamente pela opinio communis, e não raro pela opinio extranea. Neste último caso, trata-se de algo dialeticamente útil, pois a certeza que não considera objeções e idéias estranhas ou contrárias às suas premissas nunca deixará de ser frágil, ou então falsa. Nunca deixará de ser o signo da atitude covarde de quem precisa do consenso para manter-se protegido, qual criancinha debaixo das saias da mamãe.

Nos casos de flagrante desonestidade, ou então de desonestidade presumivelmente chegada ao limite do incurável, aquela que os cristãos sempre chamaram de “pecado contra o Espírito Santo”, o remédio é afastar-se. Gente com esta doença da alma não tem corriqueiramente opiniões erradas, pois a legítima opinião — mesmo quando errada — precisa do espírito de veracidade para existir, e tais pessoas mentem em nível patológico. 

A propósito, quem mente não opina, tergiversa maldosamente.

Em breves palavras, a opinião temerária ou apoiada em consensos fabricados tangencia a fraude, e um dos critérios para distinguir o opinador honesto do palpiteiro velhaco, cuja tendência é transformar-se em proverbial mentiroso, é levar em conta o nível de extravagância no opinar e também aferir se as opiniões expressadas são a repetição mecânica das idéias de facções ou seitas às quais alguém adere para sentir-se seguro

Nestes dois casos não há opinião em sentido próprio, mas agônicos vagidos.