domingo, 24 de novembro de 2013

Segunda turma do Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum


Sidney Silveira
Com apenas um mês de aulas da primeira turma de Latim Clássico, a procura devida à divulgação boca-a-boca continuou e várias pessoas interessadas em aprender a língua de Cícero nos têm procurado, razão pela qual decidimos abrir a segunda turma — cujas aulas se iniciarão em janeiro de 2014.

Os interessados devem enviar-nos mensagem pelo seguinte link: 


Se precisarem de outras informações, escrevam para Lissandra Lopes pelo e-mail contato@institutoangelicum.com.br  

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A sedução derrotada


Sidney Silveira
O manipulador experiente é alguém muitíssimo atento às reações das suas vítimas. A partir de reflexos psicológicos e físicos induzidos nos outros por situações artificiosamente criadas, ele vai formando um quadro das preferências, ojerizas, medos e desejos — expressos ou ocultos — daqueles contra quem vai lançar a sua rede de domínio. 

Feito o diagnóstico básico dos principais vetores da psique alheia, o manipulador inicia o seu nefasto trabalho deflagrando simpatias seguras, e isto por um método mais ou menos simples de sedução: é solidário nos medos e nas preferências da vítima; elabora discursos contrários às coisas que ela mais odeia, calculando bem as palavras e o momento certo de dizê-las; insinua-se como facilitador de prazeres; e induz preocupações imaginárias para as quais se apresenta como protetor ou salvador. Com estas e outras ações, vai minando as resistências psicológicas da pessoa que é objeto do seu malefício e consegue ir ganhando, aos poucos, a sua confiança. 

Em síntese, ele faz um sumário bastante preciso das paixões alheias e estuda os mecanismos para despertá-las. Depois disso, dá vazão às tendências (boas e más) identificadas na vítima, e com tal procedimento logra conhecê-la melhor e se arma convenientemente para a sedução que tem em vista. Diga-se neste ponto o seguinte: como consumado hipócrita, o manipulador jamais mostra as suas reais intenções a princípio, pois se o fizesse perderia todo o poder encantatório. Ele só se revela quando o domínio sobre a vontade alheia está em adiantado grau, a ponto de a pessoa ficar a serviço dos seus caprichos quase sem o saber — ou então sabendo, nos casos em que se escraviza totalmente. A propósito, o manipulador despreza a vítima que chega a tão abjeto nível de entrega, razão pela qual destruí-la de uma vez por todas se lhe apresenta como a única opção, pois precisa de combustível e o encontra em novas conquistas. Em breves palavras, nenhum vampiro interessa-se por novamente atacar quem já teve todo o sangue sugado.

Eis o princípio elementar modelador das ações e pensamentos desta maldita criatura: quanto maior é a maldade planejada, mais necessária se torna a capa da hipocrisia. Ora, na escala das maldades, as que matam o mais excelente numa pessoa (a alma, com as ricas potências que nela radicam) são as que mais precisam ocultar-se, pois o inferno não seduz senão a quem já se iniciou no processo de autodestruição, seja moral ou psicológica. O manipulador sabe muito bem disso e todo o seu trabalho de compelir uma pessoa a ir na direção por ele desejada depende de que esse princípio não seja ferido. Daí se presume o quanto ele é capaz de fazer da sedução uma obra de artesanato espiritual às avessas — na qual construir é destruir.

É necessário certo discernimento das almas para identificar o manipulador, ou então experiência adquirida como vítima de algum deles. Sem a menor sombra de dúvida, trata-se de pessoa bastante hábil e conhecedora de algumas tendências universais da psique humana. Mas o nosso arquetípico personagem costuma perder a bússola diante de quem não se deixa levar por consensos e também com pessoas cuja auto-estima se baseia em critérios realistas, objetivos, e não na opinião da maioria ou em devaneios hedonísticos. Não é errôneo dizer que o poder inicial do manipulador será tanto maior quanto menos centrada for a pessoa a quem queira dominar, e tanto menor quanto mais a vítima mantenha o próprio ego em salutar equilíbrio e razoável senso de proporções. Por exemplo: mesmo o mais competente manipulador tem sérias dificuldades com pessoas humildes, e, como estas se encontram entre as que amam verdadeiramente a Deus, deduz-se daí o caráter consciente ou inconscientemente satânico de toda e qualquer manipulação.

Em nossa época, boa parte da cultura e da política é feita de grandes manipulações — repletas de mensagens subliminares e da indução pavloviana de respostas psíquicas padronizadas em larga escala. Mas este admirável mundo novo, escravizante e derrogador da consciência humana, tem o limite prefixado de domínio: a liberdade, que não é outra coisa senão a vontade quando ama.

Não por outro motivo, os santos são os homens menos manipuláveis que pode haver, pois a sua sanidade psicológica e espiritual bebe da fonte suprema do ser, Deus, instância de amor inalcançável pelo mal. Portanto, quanto mais um homem toma os santos por modelo, e quanto mais procura conhecer-lhes a vida e a obra, menos chance tem de ser manietado pelo príncipe deste mundo.

Ou por seus disciplinados soldados.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Não me venham com a problemática política, pois não vejo a "solucionática"


Sidney Silveira

Parodio o folclórico ex-jogador de futebol Dadá Maravilha para dizer o seguinte: tenho recebido e-mails e também mensagens "inbox" no Facebook exortando-me a integrar este ou aquele grupo político (e/ou também religioso).

Minha resposta, simples e direta, é a seguinte: 

Por ora, não! Muito obrigado.

Não me julgo ungido pelos céus para apresentar ou propor fórmulas de ação política para o Brasil — mesmo porque creio firmemente não haver solução possível para uma sociedade chegada a tão elevado grau de corrupção moral, em todos os seus estratos e substratos.

Os círculos concêntricos abismais fecham-se em ritmo alucinante, e, não havendo autoridades espirituais com poder (nem vontade) de inocular vestígios de sanidade no corpo político, a tendência de eclosão dos mais diversos tipos de conflitos anticivilizacionais está decisivamente configurada

Perdoem-me, amigos: entre o arremedo de direita liberal nascente e o cardápio das esquerdopatias que dominam o cenário brasileiro, no momento para mim não existe ponto de tangência. 

A direita nunca, jamais, em tempo algum foi a solução contra os abusos da esquerda, mas no máximo o contraveneno que cura uma enfermidade cujo risco de morte é iminente para substituí-la por outra, de morte lenta — exatamente aquela que serviu de pano de fundo para chegar-se às calamidades atuais.

Meu olhar baseia-se numa premissa elementar: o comunismo e os socialismos de todos os matizes são filhos bastardos paridos no século XIX pelo liberalismo revolucionário que pulverizou de vez o sentido de unidade das nações — e as afastou da sombra benemerente das verdades evangélicas custodiadas pela Igreja. São efeitos próximos de uma causa comum.

Com relação a esta minha posição vale dizer que não a vejo como absenteísmo político, mas sim como o fruto maduro de um senso de realidade adquirido pela contemplação continuada do cenário contemporâneo à luz de alguns princípios universais colhidos da obra de três filósofos, em particular: Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino.

Quem assistiu ao minicurso "Manifesto das Sombras" — por mim ministrado em setembro deste ano —, sabe que ali propus três eras sequenciais e procurei inserir o quadro brasileiro num contexto histórico muitíssimo mais amplo: a Era da Perda da Fé (que vai do século XIV ao XVIII); a Era da Perda da Esperança (séculos XIX e XX, até o Concílio Vaticano II); e a Era da Perda da Caridade (do final do século XX em diante). E procurei explicar o vetor e os pontos de referência de cada um desses períodos históricos. 

Um movimento declinante específico atravessou esses ciclos: o paulatino apartamento entre a política e os princípios espirituais que lhe dão real sentido tinha inexoravelmente de chegar ao atual momento — de agonia e sufocamento das possibilidades de cura social. O bem comum político divorciou-se do bem comum espiritual

O caso brasileiro tem agravantes particulares, é verdade, mas se insere no contexto da nova ordem mundial dominada por elites globalistas bilionárias, ou seja: as diferenças são de grau, não de substância.

Sendo assim, em escala bastante modesta — superlativamente modesta! —, e sem quaisquer pretensões políticas megalômanas (que geralmente servem apenas para catalisar dinheiro de ricaços engambeláveis e iludir incautos milenaristas políticos), atuo na divulgação do pensamento medieval naquilo que nele vejo de atual, são, benéfico, seja espiritual ou politicamente.

E ponto.

Fazer diferente seria ferir a minha própria consciência.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Tomás de Aquino e o Vaticano II

O Flautista de Hamelin

“O Concílio Vaticano II é Prometeu no ato do seu latrocínio”

Pe. Álvaro Calderón
(A Religião do Homem)
Sidney Silveira
Com a declarada intenção de não querer impor dogmaticamente nenhuma doutrina, o Concílio Vaticano II fez chegar aos ouvidos dos fiéis católicos não a voz firme e inequívoca do Bom Pastor, mas o som encantatório do Flautista de Hamelin. E, de maneira semelhante ao que sucedeu às malfadadas crianças do famoso conto medieval, as ovelhas do rebanho se precipitaram no rio e morreram — afogaram-se nas águas tormentosas do pluralismo teológico. A deliberada ambigüidade dos textos conciliares transformou em norma o diálogo entre a luz e as trevas, com funestas conseqüências para a Igreja e o mundo.

O Concílio cita Santo Tomás de Aquino, assim como o magistério de Paulo VI e o de João Paulo II também o fazem. Porém misturam numa estranha alquimia elementos irredutíveis uns aos outros, com o seguinte detalhe metodológico na disseminação do caos: aspectos tradicionais tópicos vêm acompanhados de novidades até então nunca vistas,[1] o que abre as fórmulas conciliares à possibilidade de interpretações sem fim. A propósito, a pregação contemporânea acerca da necessidade de se buscar o “verdadeiro Concílio” é a evidência maior da ambivalência dos textos — legíveis à luz de hermenêuticas excludentes entre si. Nunca um documento eclesiástico gerou materialmente tantas dúvidas a respeito do seu próprio conteúdo. E é pelos frutos que se conhece a árvore.

Nos textos do Vaticano II vêem-se vestígios da doutrina tradicional católica ao lado de teses no mínimo estranhas, como a pitoresca idéia de que a Igreja é “edificada e vivificada” por elementos exteriores a ela, contra o Magistério anterior e os Doutores, que frisaram enfaticamente a impossibilidade de sequer haver fé fora da Igreja. Diz Unitatis Redintegratio (n.3):

“Entre os elementos ou bens com que, tomados em conjunto, a própria Igreja é edificada e vivificada, alguns e até muitos e muito importantes podem existir fora do âmbito da Igreja católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis”.
Aqui, além da inaudita e errônea circunstância teológica de se colocarem as três virtudes teologais como existentes fora da Igreja, ainda que potencialmente,[2] vale dizer: trata-se da primeira e única edificação da história sustentada em algo exterior a ela própria! Nem o arquiteto Oscar Niemeyer — famoso por conceber espaços que às vezes precisavam ser redesenhados por sugestão de engenheiros calculistas — imaginaria pôr de pé uma obra com tão bizarras características... Existem incontáveis outras imprecisões, ambigüidades e equívocos similares esparzidos entre os dezesseis documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II. Não é intenção deste breve texto sumariá-los, seja com lupa, seja com água benta.

Apenas no tocante ao exemplo acima mencionado, cabe apontar a correção: a Igreja é vivificada em Cristo e edificada sobre Pedro (Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam), em quem repousa a suprema autoridade apostólica, assim como o sumo carisma magisterial, e não em elementos presumivelmente exteriores ao Corpo Místico. A propósito, com relação à falta de autoridade magisterial dos textos do Concílio Vaticano II, indicamos entusiasticamente a leitura do mais importante livro escrito nas últimas décadas: A Candeia Debaixo do Alqueire – Questão Disputada Sobre a Autoridade Doutrinal do Magistério Eclesiástico a partir do CVII, do Pe. Álvaro Calderón.

Pois muito bem.

No esforço de revestir a ambigüidade de autoridade, há anos neoteólogos de diferentes matizes tentam associar Tomás de Aquino ao Concílio Vaticano II, apoiando-se nas passageiras citações ao Aquinate num ou noutro documento conciliar, assim como em parte do magistério que se lhe seguiu — caso da famosa Encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II.[3] Esta, infelizmente, toma o Aquinate não como a autoridade doutrinal cuja filosofia e teologia devam ser preferidas em detrimento do pensamento moderno (como diferentes Papas expressamente mandaram),[4] e sim como exemplo de audácia e liberdade de espírito, ou como “precursor do novo rumo da filosofia e da cultura universal” (hã?). Tudo a fim de “conciliar a secularidade do mundo com as exigências radicais do Evangelho”.[5] Diga-se neste ponto o mínimo: a intenção de frei Tomás jamais foi essa conciliação simpliciter, mas sim enfatizar a subordinação das coisas do mundo às celestes. Em resumo, a valorização daquelas só se pode dar em ordem a estas; tal é o conceito de contemptus mundi.

Na prática, os ventos de modernidade do Concílio Vaticano II interromperam os frutos que a escola neotomista vinha dando desde o chamado de Leão XIII na Encíclica Aeterni Patris. Basta vermos a abissal diferença de nível entre os tomistas mais atuantes nos períodos anteriores e nos posteriores ao Concílio, a saber: entre Pierre Mandonnet, M.D. Roland-Gosselin, Garrigou-Lagrange, Gallus Manser, Cornelio Fabro, Santiago Ramírez, Édouard Hugon e Josef Gredt, de um lado, e Abelardo Lobato, Miguel Ángel Gonzalez, Marie-Dominique Chenu e Jean-Pierre Torrel, de outro. Chega a ser covardia. Há exceções entre estudiosos que atravessaram o período do Concílio e têm ótimos trabalhos (como Josef Pieper e Battista Mondin), mas é quase na virada do século XX para o XXI que o tomismo começa a readquirir maior viço, sobretudo em comunidades tradicionais como a FSSPX e os dominicanos de Avrillé. Na universidade, vale citar nomes contemporâneos com importantes trabalhos publicados no espírito da escola tomista, como Martín Echavarría e Jorge Martínez Barrera, para aludir a apenas dois.

Voltemos no tempo para ressaltar o seguinte: se se trata de estímulo ao estudo da obra de Santo Tomás de Aquino, nenhum Concílio pode comparar-se a Trento. Ali a Suma Teológica foi simplesmente posta ao lado da Bíblia na proclamação dos Dogmas, e, numa passagem sobre a Eucaristia (seção XXI do Concílio), os Padres chegaram a reexaminar um ponto importante apenas porque certa passagem parecia contrariar Tomás. Por sua influência em Trento, o Aquinate chegou a ser chamado de patrum Concillii Tridentini oraculum! Ora, maior estímulo aos estudos tomistas não poderia haver do que este reconhecimento notório da autoridade do Doutor Comum justamente no Concílio que deu substância doutrinal à Contra Reforma — de maneira tão solene, magistral, catedrática, enfática e impositiva, não obstante este último adjetivo fira os delicados ouvidos do católico liberal, para quem a dicotomia autoridade/liberdade é irresolvível.

Em contrapartida, Tomás de Aquino e o Concílio Vaticano II são elementos que não se podem misturar sem acarretar sérios problemas. O motivo é simples: incontáveis textos do Concílio contrariam a letra e/ou o espírito da obra de Santo Tomás — seja em questões ecumenistas fundadoras do indiferentismo religioso hoje imperante, seja em questões políticas que defendem a separação formal entre a Igreja e o Estado, seja em questões eclesiológicas instauradoras da colegialidade, etc.

Vejamos dois brevíssimos exemplos, por meras razões de economia de texto:

       > Lumen Gentium (n. 16):

O desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há de julgar os homens no último dia”.

Santo Tomás, em clave totalmente contrária a esta, deixa em primeiro lugar claro na Suma Contra os Gentios ser impossível crer nas proposições do Corão sem elevado grau de consciência culpável — tão contrárias são algumas suras à lei natural. E ali diz mais o Doutor Comum: Maomé deturpou os textos do Antigo e do Novo Testamento, entremeando-os de histórias legendárias, razão pela qual os sarracenos não podem, ao contrário do que diz o texto conciliar, professar "seguir a mesma fé de Abraão”. E ainda: Maomé fez a sua religião crescer no gume da espada e com promessas de prazeres carnais, nesta vida e na outra.[6] Isto sem falar no fato  — acrescentemos nós! — de que os muçulmanos não adoram o Deus único e misericordioso, visto não crerem na divindade de Cristo nem na Trindade! Ora, se Cristo, que é Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, vai julgar os homens no último dia, como se depreende de Jo., V, 22, e os muçulmanos não crêem na divindade de Cristo, logo, o que eles adoram não é patrimônio comum dos católicos, pois não é Deus mas um ídolo, visto que Deus é  essencialmente trinitário.

Em síntese, Tomás de Aquino e o Vaticano II não podem andar de mãos dadas por um breve caminho sem se arranharem mutuamente durante o percurso.

       >  Dignitatis Humanae (n. 2):

    “Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo ela, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites”.

     Aqui estamos diante de uma das pedras de toque da neoteologia católica: o “dogma” liberal da intocabilidade das consciências individuais. Não entremos no mérito desta tese, já abordada à exaustão no Contra Impuganantes, mas apenas mostremos que ela não pode coadunar-se com Santo Tomas, pois este afirma não menos que o seguinte: judeus e muçulmanos devem ser coagidos no sentido de não colocarem obstáculos de nenhuma ordem à fé católica; hereges e cismáticos, por sua vez, devem ser coagidos — ou até “forçados fisicamente” (corporaliter compelendi) — a cumprir o que prometeram no batismo e a manter o que uma vez aceitaram.[7]

     Concordemos ou não com esta gravíssima opinião do grande Doutor medieval, o fato é que entre Tomás de Aquino e o Vaticano II não há harmonia possível.

       Normalmente, quando um diz “A” o outro diz “B”.

Eis o trabalho que, a propósito, está para ser escrito: um catecismo das teses de Santo Tomás frontalmente contrárias aos textos conciliares. Não tive tempo de levar adiante uma empreitada desta magnitude, embora conheça de cor inúmeros pontos da divergência radical aqui aludida (os tópicos acima são modestíssimas amostras). Ocorre que escrever com organicidade é coisa que demanda tempo, saúde e disposição; e de nada disso hoje disponho como gostaria.

Um vídeo no horizonte
Este breve texto foi motivado pelo vídeo recentemente divulgado pelo Pe. Paulo Ricardo em que se diz o seguinte: “De alguma forma, o Concílio Vaticano II fez pelos estudos de Santo Tomás mais do que qualquer outro Concílio”. Para corroborar esta opinião, o atuante sacerdote brasileiro menciona as citações ao Aquinate feitas em Optatam totius (3) e Gravissimum educacionis (1), dois documentos conciliares.

No tocante a este parecer, reiteremos agora com outras palavras algo do que ficou dito acima: no contexto e na forma como estão enunciadas, estas breves e vagas recomendações (ter a Tomás como mestre dos estudos filosóficos e teológicos, etc., coisa já naquela altura dos acontecimentos arqui-sabida e reiterada por mais de 600 anos de magistério, com muito maior ênfase e detalhes do que nestas modestas passagens concilares) não poderiam ter senão o efeito prático que tiveram, a saber: nenhum! As incontáveis novidades gritaram muitísimo mais alto, e se a coisa não desandou de todo foi porque a Providência Divina deu coragem e armas espirituais a um bispo para combater em meio à tormenta: D. Marcel Lefebvre.

Entre outros fatores, indica de maneira grandiloqüente o que estamos a dizer — ou seja, o efeito nulo daquelas recomendações conciliares — o próprio ponto de partida do vídeo do Pe. Paulo Ricardo: o enorme preconceito contra o Aquinate nos seminários católicos, a ponto de o sacerdote mesmo confessar que procurou estudar com maior interesse a obra do Doutor Comum da Igreja há pouco tempo, depois de haver sido ordenado.

Não se escandalizem os amigos católicos com este texto: trata-se de matéria teologicamente opinável (a saber, se o Concílio Vaticano II ajudou ou não aos estudos tomistas), na qual é lícito a quem quer que seja — do mais simples fiel ao Papa — defender um ponto de vista, apresentar suas razões corroborantes, evidências, indícios, etc. Aliás, divergir sobre pontos acerca dos quais pairam incertezas e discutir à exaustão com o intuito de aclará-los foram as atitudes que construíram a grandeza filosófica e teológica do cristianismo. Portanto, não venham os fofoqueiros profissionais, os maledicentes contumazes, os engraçadinhos medíocres e os idiotas natos destilar o seu veneno! Nem para cima de mim, nem nos ouvidos do Pe. Paulo Ricardo.

Não reduzam uma divergência conceptual, de si lícita, à altura da sua própria incapacidade de pensar fora dos grupelhos — pois estes, ao fim e ao cabo, dão o fiel retrato de mentes medrosas e débeis, para as quais o eco dos pequenos murmúrios coletivos e das detrações de bastidor tem valor de argumento probante.

Ao Pe. Paulo Ricardo, na certeza da divergência e na convicção da caridade cristã, peço a bênção e orações por minha pessoa.



1- Como o malfadado “subsist in”, por exemplo.
2- Nem a vida da graça, nem as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade são bens que possam propriamente existir “fora do âmbito da Igreja”. Aqui, o erro vem acompanhado da formulação equívoca, dúbia. Em verdade, o hábito da fé faz o intelecto submeter-se ao império da vontade deificada: é assim que o homem confessa a Cristo como Deus e Senhor (e não apenas como pessoa bem intencionada com dons e talentos excepcionais) e dá assentimento aos preceitos evangélicos; é assim que o homem confessa a esperança no Cristo ressuscitado, pilar de toda verdadeira espera cristã; é assim que o homem ama as criaturas e a si mesmo por amor a Deus, compreendendo que o amor é pelos bens criados, e não pelo que neles falha. Daí Santo Tomás dizer na Questão Disputada sobre a Caridade: devemos amar nos homens o que é de Deus, e odiar neles o que é alheio a Deus. Isto é caridade, e ela, como as demais virtudes teologais, pressupõe a anuência do intelecto prático ao fiel depósito custodiado pela Igreja. Afirmar que essas virtudes podem dar-se “fora do âmbito da Igreja” é, se quisermos ser eufemísticos, uma formulação grandemente imprecisa. O muçulmano e o judeu, por exemplo, não têm fé porque não crêem no Evangelho; não têm esperança porque não esperam no Ressuscitado; não têm caridade porque não aceitam a Cruz redentora. Por sua vez, o herege e o cismático (nossos irmãozinhos separados, de acordo com a atual Hierarquia católica) não têm fé porque não aceitam parte da doutrina, seja deturpando-a, caso dos hereges, seja derrogando-a, caso de cismáticos como os ortodoxos, por exemplo, os quais não aceitam o Primado de Pedro.  Isto para não falar nos “evangélicos”. Também não têm esperança porque procurar a Cristo fora da Igreja é uma das piores formas de não esperar n’Ele, ou seja, desobedecendo àqueles a quem Nosso Senhor conferiu o poder de ligar e desligar, assim como o carisma de ensinar; e a desobediência, como sabemos desde Lúcifer, é pecado grave. E por fim lhes falta caridade, a virtude teologal que dá forma às demais, por motivos análogos ao que acontece com judeus e muçulmanos, pois, para tornar mais leve a Cruz de confessar perante o mundo a fé católica integralmente, preferem acomodá-la às próprias paixões e a interesses menores. Ora, desde São Paulo sabemos (por fé!) que não aceitar um só ponto da doutrina — e o modo como a Igreja magisterialmente a ensina —, implica perda da fé.
3- É imprescindível a leitura do “Comentário à Encíclica Fides et Ratio”, do Pe. Álvaro Calderón, que editamos no Brasil como apêndice à Candeia Debaixo do Alqueire. Esse texto destrói qualquer possível tentativa de fazer da referida Encíclica um documento “tomista”, próxima ou distantemente.
4- Em sentido totalmente oposto, Fides et Ratio diz que “a Igreja não propõe uma filosofia própria nem canoniza uma filosofia particular em detrimento de outras” (n.49).
5- João Paulo II. Fides et Ratio, n.43
6- Cfme. Tomas de Aquino. Suma Contra os Gentios, I, cap.6, n.7
7- Tomas de Aquino. Suma Teológica, II-II, q.X, art.8, resp.

Nova turma de latim!



Sidney Silveira

Ainda não chegamos ao final do primeiro mês do Curso de Latim Clássico e já temos fila de espera para novas turmas. Isto em parte graças à chamada divulgação "boca a boca".

Quem não quiser perder o lugar nesta segunda turma de latim, garanta-o desde já: envie e-mail para contato@institutoangelicum.com.br

Lissandra Lopes de Oliveira dará todas as informações. 

Aguardem novidades em breve: outros cursos e livros à vista!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O desamor como meta


À memória de Farias Brito.
Sidney Silveira
O amor é o êxodo da vontade em direção a um bem — atual ou potencial. Noutros termos, as coisas amáveis ou são reais ou são possíveis. Expliquemo-nos melhor: ou são reais por existirem de fato e se apresentarem a uma inteligência que as assimila e a uma vontade que as apetece, ou são possíveis no sentido de que, embora ainda não existentes, são bondades perfeitamente engendráveis em dado contexto. Com relação a estas últimas, dizia Duns Scot que Deus ama as coisas possíveis com amor ineficaz, porém amor. Em síntese, como o Absoluto que encerra em si todas as possibilidades da ordem do ser, pois nada é possível fora d’Ele, Deus estende o Seu amor às coisas que não criou, mas poderia ter criado, se quisesse. Analogamente, o homem ama o que vislumbra como possibilidade boa para si; como caminho de vida ainda não percorrido.

A propósito, o amor humano tem esta peculiaridade de atravessar o tempo. Projetado ao passado, chama-se entre nós saudade ou nostalgia; vertido ao futuro, aspiração ou desejo; atualizado no presente, felicidade ou alegria. Esta tridimensionalidade temporal do amor apóia-se, é claro, num agora. Mas não em qualquer agora: trata-se do presente que se espraia qualitativamente ao que foi e ao que será — numa imitação metafísica da eternidade. Em suma, eterno é o instante perene no qual a inteligência possui todos os bens num só ato, se seguirmos de perto a Boécio, para quem a eternidade é a posse total, completa e simultânea da vida interminável. Em certo sentido, o amor faz-nos eternos na finitude, ou seja, por ele transcendemos às efemérides, às coisas passageiras, na medida em que traz à duração da nossa vida o signo de algo situado para muito além dela. Amar é perdurar conscientemente no bem; isto por si pressupõe ultrapassarmos o aqui e agora.

Em contrapartida, quanto menos uma pessoa ama, mais dramaticamente arrojada ao presente e às coisas imediatas está. Já não se trata do presente acima aludido, pletórico e transbordante, do êxtase amoroso, mas do presente como cárcere da vontade, estupefaciente e pegajoso. Não amar é certa agonia começada, porém não de todo manifesta, espécie de cancro que rói as entranhas silenciosamente e só dá sinais dos seus efeitos deletérios quando se aproxima a metástase. O desamor tem o pervertido condão de distrair uma pessoa das coisas mais importantes, fixá-la em futilidades, fazê-la cobiçar o banal. Ora, se a alma está narcotizada por vilezas, o tempo transforma-se numa sucessão de fatos mal percebidos e, com isto, a pessoa perde o sentido de sua própria história de vida. E também a daqueles a quem poderia amar.

Não é errôneo dizer que o tempo perde em qualidade para quem não ama, pois a vida humana não é cronologia pura e simples, como se a nossa inteligência fosse o receptáculo passivo das coisas que presencia; neste caso nenhum homem teria a percepção do próprio “eu”, não identificaria os seus atos conscientes no decorrer do tempo. Ao contrário, é a cronologia que ganha inteligibilidade graças à inteligência e à vontade — e no amor essas duas potências da alma alcançam o ápice de suas possibilidades. Justamente por este motivo a felicidade perfeita é, de acordo com Santo Tomás de Aquino, um ato da inteligência elevada ao sumo inteligível, Deus, mas irmanada à vontade, que não pode não aderir a tamanho esplendor, quando o percebe sem nenhuma possibilidade de erro deliberativo. A isto os teólogos chamam de “confirmação na glória” ou “impecabilidade dos bem-aventurados”.

Quanto mais se eleva às causas primeiras, mais entranhado o conhecimento está de amor. De mesma maneira, amar uma pessoa pressupõe ir muito além do momento presente dela. É conhecer-lhe biografia, as dores que padeceu, as alegrias que viveu, o vetor predominante de sua vida espiritual, as aspirações nas quais se compraz. O amor cresce nesse ir ao íntimo, nessa troca de experiências profundamente vividas, no decurso das quais os olhos da alma se mantêm em estado de salutar tensão e de atenção máxima. Não é possível amar o que se conhece mal, e por esta razão a excelência à qual o homem é chamado só se logra no ato de plenitude amorosa. Benevolência e concupiscência estão juntas nessa entrega que dá sentido à vida.

Diferentemente do que o hedonismo contemporâneo alcança perceber, a felicidade não é a sucessão de agoras gozosos — ao modo de adição dos momentos de prazer —, mas um agora amoroso, denso, que se torna a raiz primária de todos os deleites presentes transportados também ao passado e ao futuro. Daí dizer-se que a felicidade é um estado, e não um ato ou a soma de atos. Mas tudo isso se se levar em conta o que dissemos no começo deste breve texto: o amor pressupõe a atualidade do real ou uma possibilidade real

Olhemos agora para o avesso de tudo isso: amar o irreal ou o impossível é típico das personalidades neuróticas, a maneira mais insidiosa de auto-sabotagem com que uma pessoa pode ferir-se aos poucos. E, para desgraça nossa, ter esse tipo de desamor como meta é o delírio tenaz que acossa a contemporaneidade.

Uma contemporaneidade espiritualmente mutilada, desprovida do vínculo metafísico com Deus, o que torna o mundo sem finalidade tangível.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Interpretação da Sagrada Escritura


Sidney Silveira
Recebi por estes dias um sem-número de mensagens indagando-me acerca de como devemos interpretar a Sagrada Escritura, segundo Santo Tomás. 

Serei bastante sucinto, porque estou sem tempo.

RESPOSTA:

Deve-se dizer que, na perspectiva católica, nenhum fiel tem luzes espirituais para interpretar a Sagrada Escritura. A interpretação é prerrogativa exclusivíssima do Magistério da Igreja, carisma participado por Cristo ao Papa e aos Bispos para que mantenham íntegro o fiel depósito até o final dos tempos. Só eles podem interpretar e ensinar as verdades de fé porque são detentores deste indelével selo carismático garantidor da unidade doutrinária no decorrer dos tempos. Sim, não se espantem: os textos bíblicos não são mitos simbólicos ou poéticos, não obstante possuam rico conteúdo simbólico e elevada poesia, mas perfazem uma doutrina que contém proposições adequadas ao humano modo de conhecer. Porém com um detalhe nada desprezível — a suprema autoridade magisterial (e portanto hermenêutica) é virtude conferida por Cristo à Hierarquia do Corpo Místico da Igreja, e não aos simples fiéis, sejam quem forem.

O Magistério é a única regra próxima da fé. Nem mesmo os grandes teólogos — e Santo Tomas foi o maior deles — têm autoridade para interpretar o inesgotável conteúdo espiritual dos textos bíblicos. A ciência teológica contribui de maneira auxiliar e, ademais, as suas conclusões precisam ser ratificadas exatamente pelo Magistério. Os teólogos são, na melhor das hipóteses, mestres auxiliares. Se houver divergências entre eles e o Magistério, o católico sabe que deve ficar com este último. 

Não somos protestantes. Portanto, NÃO INTERPRETEMOS a Sagrada Escritura! Se houver dúvida quanto a um ponto aparentemente obscuro, cabe ao fiel procurar a interpretação dada pelo Magistério, tanto ordinário quanto extraordinário. Depois, ver o que disseram os Santos Doutores. Por fim, consultar os grandes teólogos. Nesta ordem. Sem esquecermos que o Código de Direito Canônico também traz a resolução de algumas dúvidas relevantes... E ainda há o Catecismo. Deus do céu! 

A anuência que o fiel católico dá à Sagrada Escritura não é fruto de sua capacidade interpretativa, mas da "lumen fidei", ou seja: a luz da fé (virtude teologal infusa) é o que abre a alma do fiel a dizer "sim" aos textos sagrados e aos seus intérpretes abalizados, ou seja, o Magistério mesmo. A fé não é uma conquista árdua da razão, mas um presente de Deus, daí ser infundida na alma do fiel. Por isto Santo Tomás afirma que uma simplória velhinha com fé sabe, num certo sentido, mais que Aristóteles.

Soube do texto do Sr. Júlio Severo sobre a Inquisição. Meu conselho aos amigos católicos é muito simples: este cidadão não tem nada a ensinar a vocês — a propósito, não é bom manter ecumênicos contatos com pessoas dessas agremiações que de cristãs usurpam o nome.

Se a Igreja não tem absolutamente nada a aprender de Nicodemos, muito menos terá a aprender com Henrique VIII, Lutero, Calvino, Maomé ou, contemporaneamente, Silas Malafaia e similares.