sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nova turma de latim!



Sidney Silveira

Ainda não chegamos ao final do primeiro mês do Curso de Latim Clássico e já temos fila de espera para novas turmas. Isto em parte graças à chamada divulgação "boca a boca".

Quem não quiser perder o lugar nesta segunda turma de latim, garanta-o desde já: envie e-mail para contato@institutoangelicum.com.br

Lissandra Lopes de Oliveira dará todas as informações. 

Aguardem novidades em breve: outros cursos e livros à vista!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O desamor como meta


À memória de Farias Brito.
Sidney Silveira
O amor é o êxodo da vontade em direção a um bem — atual ou potencial. Noutros termos, as coisas amáveis ou são reais ou são possíveis. Expliquemo-nos melhor: ou são reais por existirem de fato e se apresentarem a uma inteligência que as assimila e a uma vontade que as apetece, ou são possíveis no sentido de que, embora ainda não existentes, são bondades perfeitamente engendráveis em dado contexto. Com relação a estas últimas, dizia Duns Scot que Deus ama as coisas possíveis com amor ineficaz, porém amor. Em síntese, como o Absoluto que encerra em si todas as possibilidades da ordem do ser, pois nada é possível fora d’Ele, Deus estende o Seu amor às coisas que não criou, mas poderia ter criado, se quisesse. Analogamente, o homem ama o que vislumbra como possibilidade boa para si; como caminho de vida ainda não percorrido.

A propósito, o amor humano tem esta peculiaridade de atravessar o tempo. Projetado ao passado, chama-se entre nós saudade ou nostalgia; vertido ao futuro, aspiração ou desejo; atualizado no presente, felicidade ou alegria. Esta tridimensionalidade temporal do amor apóia-se, é claro, num agora. Mas não em qualquer agora: trata-se do presente que se espraia qualitativamente ao que foi e ao que será — numa imitação metafísica da eternidade. Em suma, eterno é o instante perene no qual a inteligência possui todos os bens num só ato, se seguirmos de perto a Boécio, para quem a eternidade é a posse total, completa e simultânea da vida interminável. Em certo sentido, o amor faz-nos eternos na finitude, ou seja, por ele transcendemos às efemérides, às coisas passageiras, na medida em que traz à duração da nossa vida o signo de algo situado para muito além dela. Amar é perdurar conscientemente no bem; isto por si pressupõe ultrapassarmos o aqui e agora.

Em contrapartida, quanto menos uma pessoa ama, mais dramaticamente arrojada ao presente e às coisas imediatas está. Já não se trata do presente acima aludido, pletórico e transbordante, do êxtase amoroso, mas do presente como cárcere da vontade, estupefaciente e pegajoso. Não amar é certa agonia começada, porém não de todo manifesta, espécie de cancro que rói as entranhas silenciosamente e só dá sinais dos seus efeitos deletérios quando se aproxima a metástase. O desamor tem o pervertido condão de distrair uma pessoa das coisas mais importantes, fixá-la em futilidades, fazê-la cobiçar o banal. Ora, se a alma está narcotizada por vilezas, o tempo transforma-se numa sucessão de fatos mal percebidos e, com isto, a pessoa perde o sentido de sua própria história de vida. E também a daqueles a quem poderia amar.

Não é errôneo dizer que o tempo perde em qualidade para quem não ama, pois a vida humana não é cronologia pura e simples, como se a nossa inteligência fosse o receptáculo passivo das coisas que presencia; neste caso nenhum homem teria a percepção do próprio “eu”, não identificaria os seus atos conscientes no decorrer do tempo. Ao contrário, é a cronologia que ganha inteligibilidade graças à inteligência e à vontade — e no amor essas duas potências da alma alcançam o ápice de suas possibilidades. Justamente por este motivo a felicidade perfeita é, de acordo com Santo Tomás de Aquino, um ato da inteligência elevada ao sumo inteligível, Deus, mas irmanada à vontade, que não pode não aderir a tamanho esplendor, quando o percebe sem nenhuma possibilidade de erro deliberativo. A isto os teólogos chamam de “confirmação na glória” ou “impecabilidade dos bem-aventurados”.

Quanto mais se eleva às causas primeiras, mais entranhado o conhecimento está de amor. De mesma maneira, amar uma pessoa pressupõe ir muito além do momento presente dela. É conhecer-lhe biografia, as dores que padeceu, as alegrias que viveu, o vetor predominante de sua vida espiritual, as aspirações nas quais se compraz. O amor cresce nesse ir ao íntimo, nessa troca de experiências profundamente vividas, no decurso das quais os olhos da alma se mantêm em estado de salutar tensão e de atenção máxima. Não é possível amar o que se conhece mal, e por esta razão a excelência à qual o homem é chamado só se logra no ato de plenitude amorosa. Benevolência e concupiscência estão juntas nessa entrega que dá sentido à vida.

Diferentemente do que o hedonismo contemporâneo alcança perceber, a felicidade não é a sucessão de agoras gozosos — ao modo de adição dos momentos de prazer —, mas um agora amoroso, denso, que se torna a raiz primária de todos os deleites presentes transportados também ao passado e ao futuro. Daí dizer-se que a felicidade é um estado, e não um ato ou a soma de atos. Mas tudo isso se se levar em conta o que dissemos no começo deste breve texto: o amor pressupõe a atualidade do real ou uma possibilidade real

Olhemos agora para o avesso de tudo isso: amar o irreal ou o impossível é típico das personalidades neuróticas, a maneira mais insidiosa de auto-sabotagem com que uma pessoa pode ferir-se aos poucos. E, para desgraça nossa, ter esse tipo de desamor como meta é o delírio tenaz que acossa a contemporaneidade.

Uma contemporaneidade espiritualmente mutilada, desprovida do vínculo metafísico com Deus, o que torna o mundo sem finalidade tangível.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Interpretação da Sagrada Escritura


Sidney Silveira
Recebi por estes dias um sem-número de mensagens indagando-me acerca de como devemos interpretar a Sagrada Escritura, segundo Santo Tomás. 

Serei bastante sucinto, porque estou sem tempo.

RESPOSTA:

Deve-se dizer que, na perspectiva católica, nenhum fiel tem luzes espirituais para interpretar a Sagrada Escritura. A interpretação é prerrogativa exclusivíssima do Magistério da Igreja, carisma participado por Cristo ao Papa e aos Bispos para que mantenham íntegro o fiel depósito até o final dos tempos. Só eles podem interpretar e ensinar as verdades de fé porque são detentores deste indelével selo carismático garantidor da unidade doutrinária no decorrer dos tempos. Sim, não se espantem: os textos bíblicos não são mitos simbólicos ou poéticos, não obstante possuam rico conteúdo simbólico e elevada poesia, mas perfazem uma doutrina que contém proposições adequadas ao humano modo de conhecer. Porém com um detalhe nada desprezível — a suprema autoridade magisterial (e portanto hermenêutica) é virtude conferida por Cristo à Hierarquia do Corpo Místico da Igreja, e não aos simples fiéis, sejam quem forem.

O Magistério é a única regra próxima da fé. Nem mesmo os grandes teólogos — e Santo Tomas foi o maior deles — têm autoridade para interpretar o inesgotável conteúdo espiritual dos textos bíblicos. A ciência teológica contribui de maneira auxiliar e, ademais, as suas conclusões precisam ser ratificadas exatamente pelo Magistério. Os teólogos são, na melhor das hipóteses, mestres auxiliares. Se houver divergências entre eles e o Magistério, o católico sabe que deve ficar com este último. 

Não somos protestantes. Portanto, NÃO INTERPRETEMOS a Sagrada Escritura! Se houver dúvida quanto a um ponto aparentemente obscuro, cabe ao fiel procurar a interpretação dada pelo Magistério, tanto ordinário quanto extraordinário. Depois, ver o que disseram os Santos Doutores. Por fim, consultar os grandes teólogos. Nesta ordem. Sem esquecermos que o Código de Direito Canônico também traz a resolução de algumas dúvidas relevantes... E ainda há o Catecismo. Deus do céu! 

A anuência que o fiel católico dá à Sagrada Escritura não é fruto de sua capacidade interpretativa, mas da "lumen fidei", ou seja: a luz da fé (virtude teologal infusa) é o que abre a alma do fiel a dizer "sim" aos textos sagrados e aos seus intérpretes abalizados, ou seja, o Magistério mesmo. A fé não é uma conquista árdua da razão, mas um presente de Deus, daí ser infundida na alma do fiel. Por isto Santo Tomás afirma que uma simplória velhinha com fé sabe, num certo sentido, mais que Aristóteles.

Soube do texto do Sr. Júlio Severo sobre a Inquisição. Meu conselho aos amigos católicos é muito simples: este cidadão não tem nada a ensinar a vocês — a propósito, não é bom manter ecumênicos contatos com pessoas dessas agremiações que de cristãs usurpam o nome.

Se a Igreja não tem absolutamente nada a aprender de Nicodemos, muito menos terá a aprender com Henrique VIII, Lutero, Calvino, Maomé ou, contemporaneamente, Silas Malafaia e similares.

sábado, 19 de outubro de 2013

Chico, Caetano e Dorian Gray



Ao amigo Vítor Pimentel, jurista nato.
Sidney Silveira                                       
A honra, segundo Santo Tomás de Aquino, é maximum inter bona externa, ou seja, o maior dos bens exteriores do homem. E o é na medida em que inclui o direito à boa fama e à preservação da própria intimidade — que todos têm. Não por outro motivo, a difamação é uma espécie de grave roubo da reputação alheia cujos malefícios podem destruir a vida de uma pessoa. Daí dizer o grande tomista Domingo de Soto, na esteira do mestre medieval, que a boa fama é causa da honra, a qual, por sua vez, não é outra coisa senão a ordenada estimação do próprio bem perante os outros. Se casualmente essa auto-estima se desordena, transforma-se em ambição, em vanglória.

O comedido zelo pela própria reputação é fruto do pudor natural, aqui entendido como instinto protetor que torna o homem precavido contra a exposição indevida de sua privacidade. A propósito, quando falta esse pudor natural (aidos, na terminologia de Aristóteles), o caráter se deteriora. A pessoa então se torna incapaz daquele recolhimento sem o qual ter vida interior é quase impossível. Mas não percamos o fio da meada, para o que nos interessa destacar neste breve texto: mesmo as pessoas públicas têm o direito a não deixar a sua vida particular ser devassada, e, mais ainda, cabe-lhes a decisão intransferível de escolher que instâncias de suas vidas elas querem ou não tornar públicas. Isto nada — absolutamente nada — tem a ver com “censura”, no sentido político do termo.

Uma sociedade liberal que idolatra a liberdade de expressão e a confunde tristemente com licenciosidade e desrespeito ao próximo não consegue entender o seguinte: a vida privada de uma pessoa, entendida como o universo de atos e fatos particulares conscientes, é inviolável em si mesma, conforme estabelece o Artigo 21 do Código Civil brasileiro, ao passo que a liberdade de expressão pode e deve ser restringida em várias circunstâncias, seja por razões de ordem moral ou legal, para desespero de filósofos e juristas liberais. Assim, a título de mero exemplo, ninguém tem o direito de — no exercício de sua liberdade de expressão — prestar falso testemunho para lesar o próximo. Como se pode deduzir, no que tange aos atos da razão prática, instância deliberativa reitora da ética (ciência do bem agir), o direito a preservar a própria intimidade é mais fundamental que o direito à liberdade de expressão, sobre a qual falaremos adiante.

E ele é mais universal no que diz respeito às ordens gnosiológica e moral, pois o íntimo do homem é justamente o que distingue a sua essência, a saber, os atos da inteligência e da vontade: entender e querer. Portanto, se uma pessoa, no exercício dessas faculdades superiores de sua alma, delibera manter parte da própria vida oculta do grande público, tal decisão é por si, e em si, intocável. A liberdade de expressão de quem quer que seja não pode ultrapassar este limite, o que implicaria invadir a liberdade alheia, e nunca é demais lembrar que a liberdade de um começa quando termina a de outro. No dia em que a lei permitir isto, será o agônico sinal de que a privacidade das pessoas se tornou uma impossibilidade política, e o direito universal à xeretagem, à bisbilhotagem, virou norma jurídica. Por aí vemos como a questão é gravíssima, pois está em jogo a liberdade em sua real acepção.

Com vistas a tornar a questão um pouco mais clara, formulemos um princípio de fundo axiológico no espírito da escola tomista: em caso de colisão entre dois direitos fundamentais, prevaleça o que mais se aproxime da lei natural, pois este valerá mais. Ora, a lei natural tem como insumo a sindérese — hábito inato dos primeiros princípios da razão prática —, segundo a qual o homem fundamentalmente busca para si o bem e procura fugir do mal. Levando-se em conta este fator evidentíssimo, torna-se claro que zelar pelo próprio nome é circunstância completamente afim à lei natural, assim como o dever de não sujar o nome alheio. Por sua vez, a liberdade de expressão sequer pode ser considerada um “princípio”, seja especulativo ou prático. Vejamos os porquês.

Confundir “liberdade” com “liberdade de expressão” é análogo a confundir a forma do ente com uma de suas operações, ou seja, é tomar uma parte pelo todo, o acidental pelo substancial. Erro metafísico primário! Em breves palavras, o homem não é livre porque se expressa, mas se expressa — ou não — porque é livre. Não troquemos, pois, a verdadeira liberdade, cuja instância inexpugnável é a vontade, apetite intelectivo do bem, por um de seus aspectos exteriores e metafisicamente contingentes: a expressão de atos livres. A propósito, é este um dos maiores dramas das sociedades contemporâneas, tataranetas do paleoliberalismo pré-Revolução Francesa: ter da liberdade a mais equívoca das noções, confundir a sua sublime essência com uma das propriedades que emanam dela.

Formulemos de outra maneira: o essencial da liberdade não é escolher, mas poder escolher, de acordo com critérios subministrados pela inteligência. Em suma, o que distingue a liberdade é essa potência tendencial intelectiva de eleger voluntariamente isto ou aquilo — e confundi-la com o seu ato próprio é como supor que o cavalo é cavalo porque relincha, e não o contrário, que o homem é homem porque fala por meios de signos inteligíveis, e não o contrário.  Reiteremos: a liberdade, por radicar na vontade, não pode ser coagida em sua imaterialidade. Um torturador pode até constranger alguém a confessar o que não fez, ou então a calar-se, mas não pode coagir a sua vítima a não amar o próprio filho, por exemplo. A vontade, dada a sua natureza, é livre em absoluto porque ninguém pode constrangê-la. Daí que a liberdade de expressão possa na prática ser violentada, mas a verdadeira liberdade humana é incoagível, não pode ser ferida em sua essência imaterial, não pode ser movida exteriormente a fórceps, por ninguém. Nem mesmo Deus o pode fazer; Ele pode, isto sim, é movê-la necessariamente apresentando-lhe um bem sumo, irresistível, e a isto os teólogos chamaram de præmotio divina.

Sou absolutamente insuspeito para defender qualquer coisa em comum com os Srs. Chico Buarque e Caetano Veloso — pessoas por quem não nutro nenhuma admiração. Mas diga-se que a sua grita contra as chamadas “biografias não autorizadas” nada tem de censura, pois diz respeito a algo distinto e bem mais fundamental: o direito de toda pessoa a preservar no âmbito da intimidade alguns fatos de sua própria vida. Foi, por exemplo, no exercício desse direito natural que Machado de Assis mandou uma jovem parenta destruir enorme quantidade de cartas que estavam nalgumas caixas. A posteridade jamais conhecerá alguns fatos da vida do Bruxo do Cosme Velho relatados neste epistolário perdido, porque assim ele livremente decidiu. E nem por isso devemos nós chamá-lo de “censor”.

Suponhamos, a mero título de procedimento dialético, que os Srs. Chico Buarque e Caetano Veloso guardem vexatórios esqueletos dentro do armário. Esta é uma escolha inalienável deles! A propósito, durante anos Dorian Gray manteve no sótão a pintura hedionda que representava a sua deformidade moral, e não foi obrigado a expô-la aos olhos do mundo. Ninguém senão o próprio Dorian tinha o direito de destruir o quadro, apunhalá-lo na tentativa desesperada de apagar a consciência dos seus atos moralmente maus, ali retratados em aspecto macabro.

Tiremos, pois, a seguinte lição da obra-prima de Oscar Wilde: a hipocrisia é a última fortaleza dos homens de má-consciência.

Mas nem mesmo a hipocrisia, que radica na liberdade humana defraudada por hábitos viciosos, pode ser invadida em nome da liberdade de expressão. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Amanhã vai ser outro dia...



Sidney Silveira

Certa vez, há cerca de vinte anos, numa rodinha de samba entre amigos criou-se verdadeira celeuma porque um deles se saíra com a fatídica frase, dita com aquele olhar de certeza estupefaciente deveras comum nos bêbados convictos, quando opinam: 

— Chico Buarque é um gênio!

Respondi, depois de sorver um gole de cerveja gelada, que tal opinião era exagero em toda a linha. Chico era bom letrista, bom sambista, e ponto; eu mesmo crescera ouvindo e cantarolando muitas de suas músicas e gostava bastante de algumas delas. Mas “gênio” era adjetivo a ser usado com parcimônia, pois a humanidade não os produz aos montes, e geralmente se trata de homens realizadores de feitos extraordinários. Citei então alguns gênios da filosofia, da literatura, da ciência, da pintura, da oratória, da escultura e da música, e quase levei com o pandeiro na cabeça.

No decorrer da conversa, mostrei conhecer melhor as músicas do referido compositor que o meu etílico conversador de botequim — e apontei como o popularesco delas esbarrava não raro em erros de português e de estilo, como também imprecisão no uso das vozes verbais e mistura das pessoas gramaticais em versos de uma mesma composição. Afirmei isto sem deixar de reconhecer-lhe o engenho nas rimas e o artesanato na escolha das palavras, sobretudo em suas músicas mais antigas, nas quais há metáforas bem urdidas e agradável melodia e harmonia, porém reafirmei que isso era pouco para alguém ser considerado gênio.

E mais: Chico era então recém-estreado no romance e acabara de receber o nunca assaz superdimensionado Prêmio Jabuti, oba-oba literário multiplicador de egos e propulsor de vendas de livros. Aproveitei, pois, a ocasião para dizer que, em se tratando de arte da prosa literária, Chico deixava muito, muitíssimo a desejar, seja em enredo, seja em técnica de composição, em estilo e várias outras coisas muito bem apontadas pelo competente crítico Wilson Martins, em resenha que feriu as susceptibilidades da “tchurma” dos aduladores beócios, a ponto de Caetano Veloso naquela ocasião espernear feito primadona ofendida, em defesa do confrade.

A propósito, diga-se de passagem que a perda do senso de proporções é uma das notas distintivas das sociedades voltadas para o próprio umbigo em atitude reverente — signo de que a decadência chegou ao ponto decisivo de inflexão do qual é quase completamente impossível haver volta. Foi o que eu tentei, com breves palavras, explicar ao meu já enfurecido opositor, mas julguei ser melhor recolher-me a um canto e deixá-lo no exercício pleno de sua convicção irrevogável, de sua opinião dogmática impermeável a quaisquer evidências apresentadas em contrário.

O tempo passou e o meu parecer de vinte anos atrás não apenas continua o mesmo, mas se tornou ainda mais crítico. Chico continua a ser o autor dos bons sambas e das boas letras do passado, e as suas idéias, sobretudo as políticas, são parcas como os gambitos nos quais se equilibra, exibidos agora em entrevista na qual o biógrafo Paulo César de Araújo, que já estava a levar pecha de mentiroso na polêmica sobre a censura das biografias não autorizadas, mostra que quem faltava com a verdade era o autor de “A Banda”, em recente artigo publicado n’O Globo. E — Deus do céu! — num texto com fumos de superioridade moral incompatível com a própria maneira de agir do famoso escriba.

Agora, ao ver o zum-zum-zum em torno de personagens que ainda continuam a ser referência para a cultura brasileira, como Chico e Caetano, “neoblack blocs” incensados por uma esquerda política festiva, lembro-me da entrevista em que o próprio Chico dizia o seguinte: o seu pai, Sérgio Buarque de Holanda — este sim, intelectual na acepção da palavra — quase o desprezara até um dia entrever que o filho era capaz de realizações artísticas, como a citada música “A Banda”. 

Em verdade, Sergio foi homem cordial com Chico. E se Chico ainda continua tão presente em nosso folhetim é porque o ambiente da cultura brasileira é como o das mulheres que só dizem “sim”; vendem-se por uma coisa à toa, uma noitada boa.

Cantarolemos, pois, as suas trovas e as entoemos no compasso da boa MPB, porém sem fazer delas um altar — sob o risco de irritarmos alguns dos gênios universais da música.

O que é bom, é bom. Mas nem tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto pode alçar-se além de sua própria estatura. Querer fazer isto, como diria o velho Noel, pode transformar-se num palpite infeliz.

________________ 
1- Veja-se aqui um trecho da entrevista que Chico disse nunca ter acontecido: 
http://oglobo.globo.com/cultura/exclusivo-video-mostra-entrevista-de-chico-buarque-autor-de-biografia-de-roberto-carlos-10394660

2- Ouçam aqui Chico na época do apogeu de suas letras, que durou uns 15 anos de versos criativos, sobretudo em músicas com intenções políticas:
http://www.youtube.com/watch?v=R7xRtSUunEY

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Penitência: doloroso caminho da sombra à luz



Ao jovem amigo Daniel Guilhermino

Sidney Silveira

A certa altura do clássico De Malo, Santo Tomás de Aquino afirma que as trevas não são o contrário da luz, mas a sua privação.[1] Noutras palavras, a escuridão é, em si mesma, nada — e o nada não pode ter contrários. Da mesma maneira, só podemos dizer por intermédio de uma analogia que a mentira e o erro são contrários à verdade: 

a mentira é essencialmente a negação expressa de algo sabido, e apenas acidentalmente é contrária à verdade. Em suma, que o negado conhecido seja contrário à verdade é contingente, mas não necessário: quem diga a um cego de nascença, por exemplo, que o azul do céu é vermelho não afirma algo contrário à verdade, mas diferente dela, pois as cores não têm contrários entre si.
o erro é essencialmente a ausência da adequação devida entre a inteligência e as coisas, e acidentalmente é o contrário da verdade. Muitos erros trazem inclusive verdades parciais, posteriormente aproveitáveis pela ciência no decorrer do tempo.

Expressemos as coisas com a maior simplicidade possível.

Exatamente como ocorre com a luz, a verdade não tem contrários no plano ontológico, mas tão-somente no lógico, e neste sentido se diz que o verdadeiro é contrário ao falso. E não poderia ser diferente, porque a falsidade não está nas coisas naturais ou artificiais, mas no entendimento que as julga erroneamente. Não por outro motivo, afirma o Aquinate numa famosa passagem do monumental De Veritate que as verdades das coisas são medidas pelo intelecto divino, do qual pendem. Ou seja, se tomamos como parâmetro o intelecto humano, as verdades são acidentais às coisas, pois o homem pode errar em seu julgamento e a essência das coisas continuará a ser o que é; mas se tomamos como parâmetro o intelecto divino, as verdades são intrínsecas às coisas, pois é a inteligência divina que as produz e as mantêm no ser.[2] A veracidade das coisas é, pois, reflexo da Verdade primeira, e se elas tivessem em si mescla de erro ou falsidade isto implicaria haver falhas na inteligência de Deus, o que excluímos por absurdo.

Observados estes breves pontos, digamos que uma vida espiritual genuína pressupõe o contínuo esforço do homem por manter-se na verdade. Ser veraz é, pois, árdua conquista à qual é impossível a qualquer um de nós chegar mediante esforços próprios, apenas: são necessários auxílios de ordem intelectual (aperfeiçoamento da inteligência pelo aprendizado contínuo em diferentes áreas do conhecimento), moral (aperfeiçoamento da vontade pelo aprendizado das coisas boas que devem ser escolhidas em detrimento das más), e, sobretudo, espiritual (a graça, ajuda vinda do alto). Viver na verdade é, pois, deixar-se entranhar pela Verdade primeira, Deus mesmo. E não fazê-lo é deixar-se culpavelmente vencer pelas próprias debilidades.

Neste contexto, se por pecado original entendemos a tendência do homem à mentira, ao erro e à maldade, ninguém nos peça para trazer evidências quanto a isto; negá-lo seria estupidez pura e simples (abramos uma só página de qualquer grande jornal e sintamos o odor do abismo, ou seja, da corrupção e das atrocidades dos homens). Só os estultos ou as pessoas imaturas contemplam a natureza humana com demasiado otimismo, pois todos falhamos por vícios, ignorância ou malícia. O apaixonado sucumbe às fraquezas; o ignorante perde bússolas pelas quais poderia orientar-se melhor; e o malicioso escolhe o caminho errado em troca de vantagens pessoais. Quando não há mais vantagem a obter, restam ao malicioso o desespero, o ódio e a vontade macabra de trazer os demais para a agonia em que jaz.

A mescla desigual dessas três realidades existe em cada um de nós: somos mais ou menos viciosos, mais ou menos ignorantes e mais ou menos maliciosos. Quem não enxerga que a falibilidade circunscreve toda a débil e fugaz existência humana neste vale de lágrimas é um tolo, alguém que sequer deu o primeiro passo para ficar espiritualmente de pé. E não enxergar bem a si próprio é uma maneira de enxergar mal o mundo, perder o senso de proporções e de realidade. Por sua vez, enxergar mal o mundo implica cair, cedo ou tarde, numa espécie de nostalgia ilógica do caos, deixar a mente perder o sentido de unidade que lhe é próprio e sucumbir ao desgoverno de uma imaginação cada vez mais apartada do real.

Qual é, pois, a primeira conseqüência desse estado? Assim como sucedeu ao filho pródigo, o sujeito perde a noção das prioridades, das urgências — o que é fatídico, pois toda a vida espiritual consiste justamente numa hierarquização das urgências. No fazer com que estas coincidam com as coisas importantes, e as coisas importantes coincidam com as necessárias. Esse caminho só chega a bom termo quando o homem compreende o seguinte: Deus é urgentíssimo, pois é o único verdadeiramente necessário, sem o qual nada existiria. Todas as demais urgências são relativas a esta. “Buscai primeiro o reino dos céus e a sua justiça, e tudo vos será dado em acréscimo”, ensina Nosso Senhor. Quem não entende isso está mutilado para compreender a dimensão sacrifical do amor.

Estar ciente da miséria de sua condição faz o homem chorar, e bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Daí dizer Santo Agostinho, no livro De Sermone Domini in Monte, que essa bem-aventurança expressa no Evangelho está associada ao dom da ciência. E a tal choro humilde de reconhecimento da própria pequenez os cristãos deram o nome de contrição dos pecados, estado psicológico prévio para o encontro pessoal com a misericórdia divina. Trocando em miúdos: só uma alma contrita pode obter o perdão; em contrapartida, a alma orgulhosa acaba perdendo-se neste mundo, e provavelmente também no outro, pois de pequenas prevaricações e impenitências chega ao fim da vida com o espírito fechado à ordem da graça, e então só mesmo um milagre grandioso pode evitar a morte em impenitência final.

O sacramento da penitência não é instrumento de autoconhecimento, mas o perdão objetivo de Deus, que salva a alma da perdição. O autoconhecimento mínimo das próprias debilidades é na verdade condição prévia, e não o fim a ser buscado. Até porque o cristão sabe, por fé, que no céu o conhecimento de si e do universo inteiro será perfeito, ou seja, obtido a partir da visão da Causa Primeira. Esse conhecimento será uma dádiva à qual a Igreja Católica, e com ela Santo Tomás, chama de visão beatífica da essência divina. Trata-se de uma vida na verdade, com a verdade e para a verdade.

Chegar a essa vida é de graça.

Basta pôr Deus em primeiro lugar, nunc et semper
_________________________________________
1- Tomás de Aquino, De Malo, I, art. 1, ad.5.
2- “Sed veritas, quae de eis dicitur in comparatione ad intellectum divinum, eis inseparabiliter concomitatur,  cum nec subsistere possint nisi per intellectum divinum eas in esse producentem”. Tomás de Aquino, De Veritate, I, art. 4, resp.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A lógica, arte serviçal da inteligência humana


Sidney Silveira
Qualquer ente de razão e qualquer raciocínio têm a ver com a propriedade comum e primeira na qual todos eles se fundam: a universalidade — fruto do processo de abstração da matéria individuada, característico do modo humano de conhecer. E a universalidade, como diz o Pe. Álvaro Calderón na densa obra Los Umbrales de la Filosofía, não é outra coisa senão a relação da qüididade de uma coisa abstraída pelo intelecto com respeito à totalidade dos indivíduos em que se dá. É uma relação de entes de razão — e, portanto, entes imateriais, como o próprio conceito de totalidade nos aponta. Assim, por exemplo, a humanidade só existe no intelecto, ou seja, como propriedade comum abstraída dos homens reais. Deixemos por ora as aporias nominalistas, que perfazem um capítulo à parte.

Em qualquer lógica, da antiga aristotélica às mais modernas, não existe raciocínio em sentido próprio que não labore com conceitos universais, ainda quando o lógico os tente negar na raiz. Sempre se tratará, em última instância, de relações de universalidade de uns conceitos a outros, desde a definição, que explica a qüididade dividindo os aspectos essenciais mais gerais até as diferenças específicas da coisa. Não há, em síntese, constructo intelectual que não esteja entretecido por essas relações de universalidade, como aponta com argúcia o Pe. Calderón na pequena obra-prima acima mencionada.

Aqui é preciso dizer, com João de Santo Tomás, que universalidade como noção lógica não é a mesma coisa que universalidade como propriedade real dos conceitos. Os medievais as distinguiram bem: uma é universalidade lógica em sentido próprio, ao passo que a outra é universalidade metafísica. A primeira vai de conceito a conceitos, a segunda tem fundamento nas coisas reais, das quais os conceitos direta ou indiretamente derivam. Diz Calderón: “O lógico refere-se à universalidade como propriedade dos conceitos, sejam genéricos ou específicos”; o metafísico, por sua vez, se refere à propriedade da qüididade pela qual “homem” se diz de Pedro, Antônio ou Sérgio, fundando-se sempre em aspectos essenciais dos seus atos de ser.

O homem entende as coisas logicamente, ou seja, raciocinando, montando relações entre conceitos a partir de coisas e extraindo, sempre progressivamente, o sumo do real.  Uma compreensão ilógica da realidade, ou alógica, só pode ser dita “humana” de maneira equívoca. Veja-se que não estamos aqui a falar de intuição das essências, pois este é outro problema gnosiológico — bastante acentuado no começo do século XX com Husserl —, mas sim de deficiências no ato raciocinante propriamente dito, como quando por exemplo se deduzem as conclusões de premissas errôneas ou mal ordenadas entre si.

Diz Santo Tomás no Comentário aos Analíticos Posteriores que a lógica é “arte diretiva dos atos próprios da razão para que o homem alcance a ciência de maneira ordenada, facilmente e sem erro”.[1] Ela é ciência racional, continua o Santo, não apenas porque seja conforme os ditames da razão, pois isto todas as ciências são, mas porque trata dos atos da razão como de sua matéria própria. Daí ser arte das artes, pelo fato de dirigir a atividade da razão da qual procedem todas as ciências ou artes. Calderón dirá que a lógica é a “ama de leite” das ciências.

Em breves palavras, trata-se de ciência serviçal, ou seja, que presta serviço a todas as demais, que nela se apóiam. Daí podermos dizer o seguinte: a lógica possui preeminência instrumental, mas não ontológica. Não por outro motivo, nem todo lógico é bom filósofo, mas todo verdadeiro filósofo há de ser bom lógico, pois a filosofia é muito mais do que simplesmente lógica. Muitos há que dominam a arte de raciocinar sem jamais se terem dedicado ao estudo do ser e do movimento, ou seja, das questões metafísicas e físicas mais universais. Pensar bem é, portanto, algo que está à mão de todos, mesmo de um analfabeto, ao passo que ser filósofo requer talentos e dons muito superiores. A propósito, a história da filosofia moderna apresenta-nos uma imponente coleção de maus lógicos, ou então de bons lógicos que foram péssimos metafísicos — razão pela qual lhes faltou o olhar panorâmico sobre os mais candentes problemas relacionados ao ser e à verdade.

A lógica, de acordo com o melhor da escola tomista, divide-se conforme as três operações da inteligência: o chamado conhecimento dos indivisíveis ou incomplexos; a composição e divisão de raciocínios; e a ação de discorrer do mais conhecido ao menos conhecido. Da primeira operação tratou Aristóteles, que nisto foi seguido por Tomás de Aquino, nas Categorias; da segunda, em Sobre a Interpretação, e da terceira nos Tópicos, na Retórica e na Poética.

Uma boa formação filosófica requer o estudo acurado destas obras aristotélicas, assim como dos Diálogos de Platão, antes de que se estudem os modernos. Desconsiderar isto é um dos muitos e graves problemas contemporâneos do ensino universitário da filosofia, o qual muitas vezes acaba por mutilar a alma de jovens que, noutro ambiente, poderiam progredir nos estudos. 

Afinal, dar-lhes de beber Nietzsche, Hume ou Kant logo nos primeiros períodos é como envenenar uma criança e, no mesmo ato, impedir que alguém lhe traga o antídoto salvador.

E tal antídoto passa necessariamente pelo domínio da arte do bem pensar, chamada lógica.


____________________________________
1- “Ars directiva ipsius actus rationis, per quam homo in ipso actu rationis ordinate, faciliter et sine errore procedat”. Tomás de Aquino. In I Post. Anal., lec.1, n.2-3.