terça-feira, 15 de outubro de 2013

Penitência: doloroso caminho da sombra à luz



Ao jovem amigo Daniel Guilhermino

Sidney Silveira

A certa altura do clássico De Malo, Santo Tomás de Aquino afirma que as trevas não são o contrário da luz, mas a sua privação.[1] Noutras palavras, a escuridão é, em si mesma, nada — e o nada não pode ter contrários. Da mesma maneira, só podemos dizer por intermédio de uma analogia que a mentira e o erro são contrários à verdade: 

a mentira é essencialmente a negação expressa de algo sabido, e apenas acidentalmente é contrária à verdade. Em suma, que o negado conhecido seja contrário à verdade é contingente, mas não necessário: quem diga a um cego de nascença, por exemplo, que o azul do céu é vermelho não afirma algo contrário à verdade, mas diferente dela, pois as cores não têm contrários entre si.
o erro é essencialmente a ausência da adequação devida entre a inteligência e as coisas, e acidentalmente é o contrário da verdade. Muitos erros trazem inclusive verdades parciais, posteriormente aproveitáveis pela ciência no decorrer do tempo.

Expressemos as coisas com a maior simplicidade possível.

Exatamente como ocorre com a luz, a verdade não tem contrários no plano ontológico, mas tão-somente no lógico, e neste sentido se diz que o verdadeiro é contrário ao falso. E não poderia ser diferente, porque a falsidade não está nas coisas naturais ou artificiais, mas no entendimento que as julga erroneamente. Não por outro motivo, afirma o Aquinate numa famosa passagem do monumental De Veritate que as verdades das coisas são medidas pelo intelecto divino, do qual pendem. Ou seja, se tomamos como parâmetro o intelecto humano, as verdades são acidentais às coisas, pois o homem pode errar em seu julgamento e a essência das coisas continuará a ser o que é; mas se tomamos como parâmetro o intelecto divino, as verdades são intrínsecas às coisas, pois é a inteligência divina que as produz e as mantêm no ser.[2] A veracidade das coisas é, pois, reflexo da Verdade primeira, e se elas tivessem em si mescla de erro ou falsidade isto implicaria haver falhas na inteligência de Deus, o que excluímos por absurdo.

Observados estes breves pontos, digamos que uma vida espiritual genuína pressupõe o contínuo esforço do homem por manter-se na verdade. Ser veraz é, pois, árdua conquista à qual é impossível a qualquer um de nós chegar mediante esforços próprios, apenas: são necessários auxílios de ordem intelectual (aperfeiçoamento da inteligência pelo aprendizado contínuo em diferentes áreas do conhecimento), moral (aperfeiçoamento da vontade pelo aprendizado das coisas boas que devem ser escolhidas em detrimento das más), e, sobretudo, espiritual (a graça, ajuda vinda do alto). Viver na verdade é, pois, deixar-se entranhar pela Verdade primeira, Deus mesmo. E não fazê-lo é deixar-se culpavelmente vencer pelas próprias debilidades.

Neste contexto, se por pecado original entendemos a tendência do homem à mentira, ao erro e à maldade, ninguém nos peça para trazer evidências quanto a isto; negá-lo seria estupidez pura e simples (abramos uma só página de qualquer grande jornal e sintamos o odor do abismo, ou seja, da corrupção e das atrocidades dos homens). Só os estultos ou as pessoas imaturas contemplam a natureza humana com demasiado otimismo, pois todos falhamos por vícios, ignorância ou malícia. O apaixonado sucumbe às fraquezas; o ignorante perde bússolas pelas quais poderia orientar-se melhor; e o malicioso escolhe o caminho errado em troca de vantagens pessoais. Quando não há mais vantagem a obter, restam ao malicioso o desespero, o ódio e a vontade macabra de trazer os demais para a agonia em que jaz.

A mescla desigual dessas três realidades existe em cada um de nós: somos mais ou menos viciosos, mais ou menos ignorantes e mais ou menos maliciosos. Quem não enxerga que a falibilidade circunscreve toda a débil e fugaz existência humana neste vale de lágrimas é um tolo, alguém que sequer deu o primeiro passo para ficar espiritualmente de pé. E não enxergar bem a si próprio é uma maneira de enxergar mal o mundo, perder o senso de proporções e de realidade. Por sua vez, enxergar mal o mundo implica cair, cedo ou tarde, numa espécie de nostalgia ilógica do caos, deixar a mente perder o sentido de unidade que lhe é próprio e sucumbir ao desgoverno de uma imaginação cada vez mais apartada do real.

Qual é, pois, a primeira conseqüência desse estado? Assim como sucedeu ao filho pródigo, o sujeito perde a noção das prioridades, das urgências — o que é fatídico, pois toda a vida espiritual consiste justamente numa hierarquização das urgências. No fazer com que estas coincidam com as coisas importantes, e as coisas importantes coincidam com as necessárias. Esse caminho só chega a bom termo quando o homem compreende o seguinte: Deus é urgentíssimo, pois é o único verdadeiramente necessário, sem o qual nada existiria. Todas as demais urgências são relativas a esta. “Buscai primeiro o reino dos céus e a sua justiça, e tudo vos será dado em acréscimo”, ensina Nosso Senhor. Quem não entende isso está mutilado para compreender a dimensão sacrifical do amor.

Estar ciente da miséria de sua condição faz o homem chorar, e bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Daí dizer Santo Agostinho, no livro De Sermone Domini in Monte, que essa bem-aventurança expressa no Evangelho está associada ao dom da ciência. E a tal choro humilde de reconhecimento da própria pequenez os cristãos deram o nome de contrição dos pecados, estado psicológico prévio para o encontro pessoal com a misericórdia divina. Trocando em miúdos: só uma alma contrita pode obter o perdão; em contrapartida, a alma orgulhosa acaba perdendo-se neste mundo, e provavelmente também no outro, pois de pequenas prevaricações e impenitências chega ao fim da vida com o espírito fechado à ordem da graça, e então só mesmo um milagre grandioso pode evitar a morte em impenitência final.

O sacramento da penitência não é instrumento de autoconhecimento, mas o perdão objetivo de Deus, que salva a alma da perdição. O autoconhecimento mínimo das próprias debilidades é na verdade condição prévia, e não o fim a ser buscado. Até porque o cristão sabe, por fé, que no céu o conhecimento de si e do universo inteiro será perfeito, ou seja, obtido a partir da visão da Causa Primeira. Esse conhecimento será uma dádiva à qual a Igreja Católica, e com ela Santo Tomás, chama de visão beatífica da essência divina. Trata-se de uma vida na verdade, com a verdade e para a verdade.

Chegar a essa vida é de graça.

Basta pôr Deus em primeiro lugar, nunc et semper
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1- Tomás de Aquino, De Malo, I, art. 1, ad.5.
2- “Sed veritas, quae de eis dicitur in comparatione ad intellectum divinum, eis inseparabiliter concomitatur,  cum nec subsistere possint nisi per intellectum divinum eas in esse producentem”. Tomás de Aquino, De Veritate, I, art. 4, resp.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A lógica, arte serviçal da inteligência humana


Sidney Silveira
Qualquer ente de razão e qualquer raciocínio têm a ver com a propriedade comum e primeira na qual todos eles se fundam: a universalidade — fruto do processo de abstração da matéria individuada, característico do modo humano de conhecer. E a universalidade, como diz o Pe. Álvaro Calderón na densa obra Los Umbrales de la Filosofía, não é outra coisa senão a relação da qüididade de uma coisa abstraída pelo intelecto com respeito à totalidade dos indivíduos em que se dá. É uma relação de entes de razão — e, portanto, entes imateriais, como o próprio conceito de totalidade nos aponta. Assim, por exemplo, a humanidade só existe no intelecto, ou seja, como propriedade comum abstraída dos homens reais. Deixemos por ora as aporias nominalistas, que perfazem um capítulo à parte.

Em qualquer lógica, da antiga aristotélica às mais modernas, não existe raciocínio em sentido próprio que não labore com conceitos universais, ainda quando o lógico os tente negar na raiz. Sempre se tratará, em última instância, de relações de universalidade de uns conceitos a outros, desde a definição, que explica a qüididade dividindo os aspectos essenciais mais gerais até as diferenças específicas da coisa. Não há, em síntese, constructo intelectual que não esteja entretecido por essas relações de universalidade, como aponta com argúcia o Pe. Calderón na pequena obra-prima acima mencionada.

Aqui é preciso dizer, com João de Santo Tomás, que universalidade como noção lógica não é a mesma coisa que universalidade como propriedade real dos conceitos. Os medievais as distinguiram bem: uma é universalidade lógica em sentido próprio, ao passo que a outra é universalidade metafísica. A primeira vai de conceito a conceitos, a segunda tem fundamento nas coisas reais, das quais os conceitos direta ou indiretamente derivam. Diz Calderón: “O lógico refere-se à universalidade como propriedade dos conceitos, sejam genéricos ou específicos”; o metafísico, por sua vez, se refere à propriedade da qüididade pela qual “homem” se diz de Pedro, Antônio ou Sérgio, fundando-se sempre em aspectos essenciais dos seus atos de ser.

O homem entende as coisas logicamente, ou seja, raciocinando, montando relações entre conceitos a partir de coisas e extraindo, sempre progressivamente, o sumo do real.  Uma compreensão ilógica da realidade, ou alógica, só pode ser dita “humana” de maneira equívoca. Veja-se que não estamos aqui a falar de intuição das essências, pois este é outro problema gnosiológico — bastante acentuado no começo do século XX com Husserl —, mas sim de deficiências no ato raciocinante propriamente dito, como quando por exemplo se deduzem as conclusões de premissas errôneas ou mal ordenadas entre si.

Diz Santo Tomás no Comentário aos Analíticos Posteriores que a lógica é “arte diretiva dos atos próprios da razão para que o homem alcance a ciência de maneira ordenada, facilmente e sem erro”.[1] Ela é ciência racional, continua o Santo, não apenas porque seja conforme os ditames da razão, pois isto todas as ciências são, mas porque trata dos atos da razão como de sua matéria própria. Daí ser arte das artes, pelo fato de dirigir a atividade da razão da qual procedem todas as ciências ou artes. Calderón dirá que a lógica é a “ama de leite” das ciências.

Em breves palavras, trata-se de ciência serviçal, ou seja, que presta serviço a todas as demais, que nela se apóiam. Daí podermos dizer o seguinte: a lógica possui preeminência instrumental, mas não ontológica. Não por outro motivo, nem todo lógico é bom filósofo, mas todo verdadeiro filósofo há de ser bom lógico, pois a filosofia é muito mais do que simplesmente lógica. Muitos há que dominam a arte de raciocinar sem jamais se terem dedicado ao estudo do ser e do movimento, ou seja, das questões metafísicas e físicas mais universais. Pensar bem é, portanto, algo que está à mão de todos, mesmo de um analfabeto, ao passo que ser filósofo requer talentos e dons muito superiores. A propósito, a história da filosofia moderna apresenta-nos uma imponente coleção de maus lógicos, ou então de bons lógicos que foram péssimos metafísicos — razão pela qual lhes faltou o olhar panorâmico sobre os mais candentes problemas relacionados ao ser e à verdade.

A lógica, de acordo com o melhor da escola tomista, divide-se conforme as três operações da inteligência: o chamado conhecimento dos indivisíveis ou incomplexos; a composição e divisão de raciocínios; e a ação de discorrer do mais conhecido ao menos conhecido. Da primeira operação tratou Aristóteles, que nisto foi seguido por Tomás de Aquino, nas Categorias; da segunda, em Sobre a Interpretação, e da terceira nos Tópicos, na Retórica e na Poética.

Uma boa formação filosófica requer o estudo acurado destas obras aristotélicas, assim como dos Diálogos de Platão, antes de que se estudem os modernos. Desconsiderar isto é um dos muitos e graves problemas contemporâneos do ensino universitário da filosofia, o qual muitas vezes acaba por mutilar a alma de jovens que, noutro ambiente, poderiam progredir nos estudos. 

Afinal, dar-lhes de beber Nietzsche, Hume ou Kant logo nos primeiros períodos é como envenenar uma criança e, no mesmo ato, impedir que alguém lhe traga o antídoto salvador.

E tal antídoto passa necessariamente pelo domínio da arte do bem pensar, chamada lógica.


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1- “Ars directiva ipsius actus rationis, per quam homo in ipso actu rationis ordinate, faciliter et sine errore procedat”. Tomás de Aquino. In I Post. Anal., lec.1, n.2-3.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O novo site do Instituto Angelicum



Sidney Silveira

Enfim, está no ar o site do Instituto Angelicum:


Reformatamos a plataforma digital do projeto no domínio .COM.BR — mas o nosso intuito é também manter o domínio .COM, medida esta em andamento.

A partir de agora, os e-mails devem ser enviados para contato@institutoangelicum.com.br, caixa postal eletrônica que centralizará o relacionamento com o nosso público. 

Há no site seções de artigos, livros, vídeos, cursos, indicações de leitura, etc.

Quem puder, compartilhe a informação.

Abraço a todos e obrigado!


domingo, 6 de outubro de 2013

"Lingua Latina est via certa ad sapientiam" - CURSO DE LATIM DO INSTITUT...




PARA BOTAR ÁGUA NA BOCA DE VEZ

Sidney Silveira
O idioma — qualquer idioma — é mero instrumento para a inteligência ir às coisas por intermédio de signos e alcançar a região das formas inteligíveis superiores, ou seja, extrair delas a essência imaterial. Só o esteta, ou seja, o homem mutilado espiritualmente a ponto de deter-se na instância exterior e superficial das coisas, se compraz no idioma por ele mesmo. Sim, por belo que seja, qualquer idioma é de uma miséria ontológica patente se comparado ao ser, à realidade das coisas criadas por Deus, que ele se esforça por alcançar ou traduzir, sempre de maneira assintótica, parcial, limitada. 

Em suma, aprendemos um idioma para ir além dele próprio, e não para exibi-lo como um troféu. No caso do latim, a conveniência de estudá-lo é imensa, se considerarmos, mais do que a riqueza de suas possibilidades de expressão, as grandes obras da filosofia, da teologia, do direito, da medicina, da política, etc., escritas na língua de Virgílio, muitas delas perdidas em livros bolorentos e jamais reeditadas, seja no próprio latim ou em língua vernácula. Portanto, conhecer o latim clássico é uma forma de abranger as possibilidades de conhecimento ao universo riquíssimo da alta cultura.

Obras imortais são escritas em várias línguas, e são mais importantes do que as línguas mesmas de que se valeram para expressar a beleza, a verdade, a bondade e outros transcendentais do ser. Camões não foi grande por causa do português, mas o português é que se alçou a um patamar superior por causa de Camões. Ora, uma alma hierarquizada, na qual a ordem interna que procura alcançar e manter serve como vestíbulo para a percepção acurada da realidade, entende que a língua é como o pincel e as tintas: causa instrumental, apenas, a qual serve à elevação do espírito. Querer mais que isso é transformá-la em ídolo, ou seja, interromper o caminho do sensível ao inteligível na dimensão estética, como a concebia o filósofo dinamarquês Kierkegaard: instância onde o homem não transcende devidamente ao prazer mundano, imediato, servil. 

O CURSO DE LATIM CLÁSSICO com que o Instituto Angelicum reinicia as suas atividades tem isto no horizonte: trata-se de um curso de cultura clássica que tem o latim como veículo, como instrumento. Noutras palavras: mais do que apenas aprender o latim, aprender-se-ão coisas em latim, e isto só é possível quando ele se apresenta como língua viva — o que se dá perfeitamente com o método de Hans Orberg utilizado pelo jovem professor William Botazzini, talento que temos a alegria de apresentar ao grande público brasileiro.

Este é o primeiro curso de muitos que o Angelicum, com a graça de Deus, há de levar adiante. Cursos de línguas, de filosofia e de teologia — sobretudo a tomista.

Façam as suas inscrições!

Informações com Lissandra Lopes pelos e-mails contato@institutoangelicum.com ou aiqchic@gmail.com, assim como no Facebook, em: 

sábado, 5 de outubro de 2013

Tira gosto do cuso de Latim do Instituto Angelicum — a pronúncia restituída


Sidney Silveira

A pronúncia restituída

Os alunos que já RATIFICARAM A SUA INSCRIÇÃO receberão em breve esta aula magna de apresentação ao curso COMPLETA — juntamente com o texto preparado pelo Prof. William Bottazzini.

Quem ainda está em dúvida sobre se vai participar desta iniciativa civilizacional pode ficar com água na boca... 

E inscrever-se enquanto há vagas! 

O curso começa no dia 16 deste mês.

Abraço a todos e... LEIAM, ESCREVAM e FALEM O LATIM!

Informações com Lissandra Lopes pelo e-mail contato@institutoangelicum.com, e também em: 

DVDs do Instituto Angelicum



Sidney Silveira

Anteontem, achei exemplares remanescentes da coleção de DVDs do Angelicum que iremos retomar a partir de agora.

1- "Bach e a harmonia das esferas", palestra do Prof. Carlos Nougué;
2- "A Síntese Tomista (I- O tempo e a eternidade em Santo Tomás de Aquino)", aula magna do Prof. Carlos Nougué sobre estes dois temas importantes da obra do Aquinate;
3- "A Síntese Tomista (II - Aspectos da Metafísica e da Gnosiologia de Santo Tomás de Aquino)", que são trechos de diferentes aulas minhas.

CADA DVD custa R$ 45,00 (incluído o frete).

Os interessados devem mandar e-mail para Lissandra Lopes de Oliveira, em aiqchic@gmail.com, manifestando o interesse em adquiri-los.

Assim que possível, reimprimiremos mais destes DVDs e incluiremos na série "A Síntese Tomista" o curso "Manifesto das Sombras - A Política Brasileira à luz da filosofia perene", recentemente ministrado por mim.

Desde já agradeço a todos os que apoiarem este projeto com a adquisição dos DVDs.

No momento há apenas:

>  15 exemplares de "I- O Tempo e a Eternidade em Santo Tomás de Aquino"; 
> 12 exemplares de "II- Aspectos da Metafísica e da Gnosiologia de Santo Tomás de Aquino"; e 
>  16 de "Bach e a Harmonia das Esferas".

Os compradores serão os primeiros que enviarem mensagem para o e-mail acima referido.

Quem quiser ver algo sobre esta iniciativa, que agora iremos retomar, vá ao Youtube em: 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A bondade dos distraídos e a maldade na cultura


Ao amigo Carlos Nougué
Sidney Silveira
A bondade moral não é uma espécie de brotoeja repentina — algo que surja, que irrompa, que ecloda de uma hora para outra. Não é acontecimento involuntário. Não é ação isolada. Não é distração episódica chegada a bom termo. Não é fruto da imaturidade. Não é volúpia de apetites sensitivos, embora estes tendam a bens tópicos, específicos: appetitus non est nisi boni,[1] já dizia Santo Tomás de Aquino no distante século XIII. A bondade moral é a magna vitória da inteligência e da vontade na relação do homem com o mundo. É hábito espiritual adquirido de olhos abertos, e não sem esforço continuado.

No plano metafísico, a bondade é ser; no plano ontológico, a bondade é a forma dos entes; no plano cognoscitivo, a bondade é a verdade; no plano moral, é o bem apetecido pela vontade iluminada pela inteligência; no plano artístico, é a beleza. E é graças ao bem metafísico — o ser, em sentido absoluto — que os males são possíveis nos demais âmbitos. Noutra formulação, não há males sem um horizonte de bem que os possibilite. Daí dizer Santo Agostinho, no seu estilo de rara beleza retórica usada contra os maniqueus, que mesmo os demônios, para serem maus, precisam fazer uso de faculdades boas, como as de entender e querer. E que pecado não é o apetecer uma natureza má, pois nenhuma natureza o é, mas renunciar no ato a outra superior. É usar mal do bem: malum est enim male uti bono.

O mal é, pois, privação do bem devido. Por isso qualquer maldade ou deficiência — por ínfima que seja, e do tipo que for — pressupõe a realidade metafísica, física ou moral da bondade. As formas precisam do ser, mas o Próprio Ser não está circunscrito a nenhuma forma; a cárie precisa do dente, mas o dente não necessita da cárie; um câncer é nada, sem o órgão ou os órgãos em que se dá; o hipócrita só pode ser assim chamado em razão da possibilidade mesma de ser bom e virtuoso, que ele rechaça. Tudo isso porque não há maldade onde a bondade é impossível,[2] assim como não é culpado de não fazer o bem aquele que, por alguma razão, esteja circunstancialmente impedido de fazê-lo. Em contrapartida, existe bondade onde o mal não deita raízes.

Na escala das depravações humanas, vale assinalar a existência de um tipo cada vez mais corriqueiro, a que chamamos maldade cultural. Esta se apresenta em todo o seu maligno esplendor quando aquilo que se considera “arte” perde qualquer possível conexão com duas das dimensões mais importantes da pessoa humana: fazer e contemplar. Ora, se a arte sempre foi, desde a antiguidade mais remota até a ruptura iniciada na modernidade e consumada na pós-modernidade, a reta razão aplicada ao fazer as coisas (recta ratio factibilium, nas palavras de Tomás de Aquino), é porque se tratava de uma virtude especulativa elevada, que fazia toda a diferença no cômputo final da obra feita. O artista era o detentor de um hábito operativo que, por sua vez, abarcava inúmeros conhecimentos sem os quais a sua arte não alcançaria a excelência.

Neste sentido, há mais ciência numa só escultura de Michelangelo do que em todas as “instalações” (sanitárias?) dos artistas plásticos contemporâneos, somadas. Há mais arte numa só partitura de Tomás de Victoria ou Bach do que em toda a música pop do século XX. E dizemos isto não por uma espécie de elitismo besta, mas por simples constatação empírica proveniente da comparação entre as realizações artísticas aqui referidas. E perdoem-nos os neocríticos fabricadores e adoradores de ídolos, mas digamos sem constrangimento: entre uma catedral gótica e as curvas simplórias de todos os prédios de Oscar Niemeyer existe o mais intransponível dos abismos estéticos, palpável nos distintos efeitos que causam na alma de quem os contempla. De um lado, pasmo extático de pessoas verdadeiramente arrojadas a uma instância de misteriosa beleza e supina harmonia; de outro, espasmo blasé do “entendido” baba-ovo, adulador da própria imagem projetada nos artistas que comenta.

Ah, os “entendidos”! Tantas vezes são boçais engajados imiscuídos na cultura — não obstante ostentem um que outro título universitário, adquirido sabe Deus como —, e quanto mal fazem com os seus pitacos pomposos publicados na imprensa e hoje também na internet, traduzíveis na irônica expressão castelhana que ouvi recentemente do filósofo tomista e amigo Luiz Astorga: as rebuscadas opiniões desses intelectuais da cultura são... tonterías solemnes. Trata-se da arte loquaz de criar conceitos elevadíssimos a respeito do nada, do pueril, do tosco ou mesmo do bizarro, e renegar as coisas mais óbvias que não escapam ao comum dos mortais. Pau é pau, pedra é pedra, mas não na cabeça destes ilustres senhores, e se lhes dizemos que entre a genialidade artística de Dante, Camões ou mesmo Bocage e a mediocridade pretensiosa da poesia concreta dos irmãos Campos existe galáctica distância, ofendem-nos.

Agora chega a notícia de que certo artista contemporâneo, o espanhol Gonzalo Orquín, montou uma exposição de arte com fotos de casais homossexuais a beijarem-se dentro de Igrejas católicas, diante de altares e sacrários. Ao ler a reportagem sobre este extraordinário trabalho criativo e ver as fotografias dos referidos ósculos “homoafetivos”, estalados diante de verdadeiras obras-primas da arquitetura, da escultura e da pintura sacras, não pude deixar de pensar algumas coisas:

 Acometido duma espécie de patologia coletiva em escala internacional, o homem tornou-se impermeável ao influxo da beleza, ou seja: sofreu um déficit de potência contemplativa;
 O resultado da obra de arte tornou-se obsoleto, sendo em seu lugar definitivamente entronizadas as intenções subjetivas do artista, transformadas elas próprias em “arte”, dependendo da capacidade de divulgação e convencimento das cabeças pensantes ligadas à mídia cultural, ou a ela pertencentes.
>  Da arte restou uma atitude iconoclasta e tola, o desejo — em si demagógico e midiático — de permanentemente quebrar “paradigmas”, numa espiral que promete não mais parar.

Ora, arte é, por definição, uma coisa difícil de fazer. Ou, noutra proposição: o que qualquer um faz sem maiores dificuldades não pode ser considerado “artístico” sem um grande esforço de torção semântica, se levarmos em conta as grandes realizações estéticas do homem — do momento em que começou a expressar-se artística e filosoficamente até os dias atuais. Em síntese, estamos a falar da diferença entre os rabiscos inocentes e mal-formados de uma criança que desenha na escola e os trabalhos de Rembrandt gravados em chapas de metal com buril. Esta é mais ou menos a distância entre essas bitocas sacrílegas divulgadas como "manifestação artística" e o ambiente de beleza sublime, de notável realização estética, das igrejas em que elas foram canhestramente elevadas ao patamar de arte.

Fiquei a olhar essas fotos produzidas e a conceber a seguinte situação imaginária: levado pela mão do demônio ao pináculo da beleza, para ser tentado, o homem pôs-se a contemplar o próprio umbigo. Revelou-se incuravelmente míope, por não possuir mais as precondições espirituais necessárias à percepção da bondade que existe na beleza. A luz zenital da arte transformou-se em trevas, aos seus olhos.

E onde os homens são negligentes ou distraídos na observação dos bens com que deparam, a cultura não pode senão transformar-se na mais competente difusora da corrupção do espírito.

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1- "O apetite não é senão do bem".
2- No plano ontológico, a título de exemplo, uma pedra não pode ser dita má porque não vê as coisas, pois não há tal possibilidade em sua forma entitativa. No plano teológico, vale citar o exemplo dos condenados ao inferno (sejam homens ou anjos caídos): embora eles próprios estejam arrojados irremediavelmente no ódio e na maldade, o fogo que os consome e os ata é um grande bem, representativo da justiça divina. Ignis aeternus malos crucians non malus, diz Agostinho em seu “De Natura Boni”. Nesta passagem, logo após frisar que o fogo do inferno é um bem, o Bispo de Hipona usa como analogia a luz que atormenta os olhos enfermos, sem todavia ser má. Em suma, mesmo no inferno a maldade tem uma instância de bondade ontológica em que está submersa.