sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A simulação “artística” do mal


Sidney Silveira
Dizer que a cultura contemporânea é difusora de incontáveis anomalias anímicas, mutilações espirituais e traumas psicológicos em escala jamais vista é fazer referência indireta a um princípio aceito por qualquer antropologia digna deste nome: há, no homem, uma aptidão radical a realizar em si mesmo o bem, a começar pelos bens a que tende a vida, os quais, no seu caso, abarcam todas as potências e apetites sensitivos que possui e culminam na esfera volitiva e intelectiva.[1] Do prazer da comida e do sexo ao êxtase místico ou à compreensão de elevadas verdades da ciência e da filosofia; do desejo ou avidez pelas coisas sensíveis, de per si boas, à fruição do inteligível, cujo ápice é o verdadeiro amor, que aguça a inteligência e abrasa a vontade.

Na cultura, passamos de um estágio de maldade a outro, nas últimas décadas: transitamos da hipocrisia ao escracho total, dos malefícios ocultos ou com aparência de bem às maldades escancaradas. Lembremos aqui que o hipócrita ainda possui certa preocupação de parecer bom, sinal de que ainda resta alguma medida moral no seu horizonte de cogitações, resquício de pudor natural que o impede de revelar-se completamente. Já o imoralista escrachado perdeu o vínculo com princípios e valores humanos universais, tal é a inversão das tendências constitutivas de sua psique.

No caso do rock, objeto deste brevíssimo texto, já vai muito longe o tempo em que a adesão ao mal era simulada. Já vai longe a época em que as mensagens satânicas eram mais ou menos cifradas, em músicas como Hotel California, da banda The Eagles, referência à sede da Church of Satan, ou então Sympathy for the Devil, dos Stones. E muitíssimas outras mais! De lá para cá, chegou-se a Marylin Manson, a Lady Gaga e a outros representantes de correntes satanistas absolutamente explícitas.

Pois muito bem: na noite de hoje, no Rock in Rio, foi a vez do grupo Ghost fazer as honras dos devotos da maldade. O show da banda sueca foi a literal simulação de uma missa negra, ou seja, de um culto a Lúcifer — que, na vida real, pode chegar a incluir sacrifícios humanos, embora na maior parte das vezes consista em blasfemar contra Deus e reafirmar ritualisticamente um compromisso com os piores tipos de maldade.

Ver as imagens destes literais pobres-diabos, com cruzes invertidas, máscaras sinistras, cálices, símbolos esotéricos satânicos, etc., não foi o pior. O mais triste foi constatar, uma vez mais, como o jornalismo degradou-se a ponto de abordar a coisa com reportagens em tom de cobertura “cultural”, sem nem sequer perceber o significado macabro de uma pretensa arte que se volta para o mal não mais simulando um bem, mas simulando o próprio mal, o que requer requintes de perversão.

O genial Aristóteles, muito antes de Cristo, já nos ensinava que o homem é um animal que imita, por isso não convém à arte dar destaque a maldades nem caricaturar o bem. Que diria então o grande filósofo grego de uma representação como esta senão que se trata duma espécie de loucura voluntária altamente culpável, signo gritante da mais profunda depravação psicológica?

Pobres jovens, que, se estão ali, adorando esta monstruosidade, já é sinal de não terem tido a providencial fortuna de encontrar quem lhes apresentasse outro caminho.

Pobres vidas que se voltam contra a vida! O seu futuro é a agonia, a angústia existencial, o desespero, o ódio. 

A menos que se dê um milagre.

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1- O tomista argentino Martín Echavarría, psicólogo e filósofo, possui alguns trabalhos em que aponta com grande acerto para o caráter patógeno da cultura contemporânea.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Nova chamada para o curso de latim do Insituto Angelicum



Desta vez, o próprio William Botazzini fala sumariamente do método a ser empregado no curso.

As inscrições continuam pelo e-mail contato@institutoangelicum.com, com Lissandra Lopes de Oliveira, ou com ela própria pelo Facebook, onde há várias outras informações sobre este curso de dois anos, em: 


O método de Hans Orberg, quando adotado por um professor de talento, produz frutos excepcionais em tempo relativamente curto, para quem queira aprender de verdade o latim.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exercicio de Teologia da História: a Igreja durante a Grande Apostasia


Sidney Silveira
O que diz Sto. Tomás de Aquino acerca do curto reinado do Anticristo e da situação da Igreja quando ele cumprir-se?

Vídeo extraído de um pequeno trecho de aula do curso "Manifesto das Sombras", do Instituto Angelicum

Quem tiver interesse em ler o Comentário de Sto. Tomás citado no vídeo, veja-o em: 


A Urgência de uma Filosofia Tomista - TERCEIRO VÍDEO DE APRESENTAÇÃO


Sidney Silveira
Informações para este curso do meu amigo Carlos Nougué no blog Estudos Tomistas.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Por uma filosofia tomista

Sidney Silveira
Neste link, o informações sobre o curso do meu querido amigo Carlos Nougué!

Penso que é chegada a hora de estas iniciativas ganharem maior terreno no Brasil, em prol de uma formação verdadeira, que vá além da mesquinhez predominante entre nós.

CURSO DE LATIM - INSTITUTO ANGELICUM


CURSO DE LATIM
Instituto Angelicum

Para uma formação cultural e intelectual sólida, é fundamental o estudo da cultura clássica naquilo que ela nos legou de mais precioso. Diversas são as disciplinas que fazem parte de uma legítima formação clássica: a filosofia, os mitos, a história da civilização greco-romana, a literatura, entre outros. Mas nenhuma delas pode ser verdadeiramente compreendida sem o estudo daquela língua que foi o instrumento de criação de muito destes saberes e que hoje é a chave-mestra para uma interpretação mais acurada do que o tesouro dos clássicos pode oferecer-nos. Esta língua é o latim. Saber latim é ter diante de si a possibilidade de um enriquecimento cultural e intelectual ímpar. É poder dialogar com mais de dois mil anos do melhor da cultura ocidental: Cícero, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Tito Lívio, Virgílio, César Barônio, Plauto, Fedro, e muitos outros.
Para levar o aluno à fluência na leitura dos clássicos, trabalhamos com um material de excelente qualidade, utilizado nos melhores centros de estudos latinos do mundo, que dispensa o uso do vernáculo, isto é, os textos são inteiramente em latim desde a primeira aula. O método não se restringe apenas à formação linguística, mas é enriquecido com diversos elementos culturais do mundo greco-romano.
Na verdade, não se trata apenas de um curso de latim: é um também um curso de cultura clássica dado na língua latina que, por sua vez, será apresentada paulatinamente aos alunos no decorrer do curso. Nada de decorar tabelas e traduzir frases sem sentido, descontextualizadas.
Aprenda latim de verdade, com textos informativos e ricos de significado.
Faça sua matrícula! Vagas limitadas.

·         O curso será ministrado pelo prof. William Bottazzini que leciona latim há sete anos e já traduziu diversas obras, além de ser um dos poucos no Brasil que utiliza o latim como língua viva.

EMENTA DO CURSO
CURSO DE LATIM – Instituto Angelicum
Prof. William Botazzini
1º semestre
Gramática
- Os seis casos no singular e no plural (nominativo, acusativo, genitivo, ablativo, dativo e vocativo)
- As duas primeiras declinações (gen. sing. em –ae e –i)
- Adjetivos da 1ª classe - partículas interrogativas -ne, num, nonne.
- Pronomes quis/qui, quae, quid/quod; hic, haec, hoc ; is, ea, id
- Os quatro grupos verbais nas terceiras pessoas (voz passiva e voz ativa)
- Imperativo presente (singular e plural) - locativo - as preposições de acusativo e de ablativo - ablativo de instrumento e ablativo de preço.
- Conjunções
Cultura
- O império romano, suas províncias e aspectos hidrográficos elementares
- As villae romanas
- As estradas romanas
- A estrutura familiar romana

2º semestre
Gramática
- Terceira, quarta e quinta declinações no singular e no plural (gen. sing. em –is; -us; -ei respectivamente).
- Ablativo de modo, ablativo de tempo, ablativo de diferença
- Introdução à formação de palavras (preposição + verbo)
- Comparativo e superlativo
- Acusativo com infinitivo
- Numerais ordinais e numerais cardinais
- Dativo de interesse
- Particípio presente
- Conjugação verbal completa no presente do indicativo das vozes ativa e passiva - Declinação dos pronomes pessoais e possessivos
- Verbos depoentes
- Verbos impessoais
- Formação de advérbio
- Numerais multiplicativos
Cultura
- O exército romano
- Introdução à mitologia
- O calendário romano
- Introdução à medicina na antiguidade
- A rotina no mundo romano
- A vida escolar na Roma antiga
- Sistema monetário romano

3º Semestre
Gramática
- Pretérito imperfeito do indicativo, voz passiva e voz ativa.
- Futuro do indicativo (voz passiva e voz ativa)
- Pretérito perfeito do indicativo, voz passiva e voz ativa.
- Supino (ativo e passivo)
- Estilo epistolar
- Ablativo absoluto
- Particípio e infinitivo futuro
- Mais que perfeito do indicativo, voz passiva e voz ativa.
- Imperativo dos verbos depoentes
- Gerúndio
Cultura
A vida conjugal na Roma antiga Introdução às fábulas (mitos de Teseu e o Minotauro e de Dédalo e Ícaro).

4º semestre
Gramática
- Presente do subjuntivo (ativo e passivo)
- Imperfeito do subjuntivo (ativo e passivo)
- “ut” e “ne” + subjuntivo
- Futuro perfeito do indicativo (ativo e passivo)
- Gerundivo
- Perfeito do subjuntivo (ativo e passivo)
- Mais que perfeito do subjuntivo (ativo e passivo)
- Métrica latina (trochaeus, iambus, dactylus, spondeus)
- Imperativo futuro
Cultura
- Introdução à Vulgata
- Introdução à poesia latina.

Faça a sua inscrição aqui.

Veja o material didático e outras informações no evento do curso no Facebook, com Lissandra Lopes.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sublime comunhão de trapaceiros, vestíbulo do Anticristo


Sidney Silveira
A civilização pós-cristã contemporânea sepultou a idéia de virtude, seja no plano individual, seja no coletivo. Após as violentas assertivas de Nietzsche, Freud e Marx — e, posteriormente, de seus epígonos filosóficos e ventríloquos universitários ao longo do século XX —, o bom caráter acabou por tornar-se uma espécie de impossibilidade sociológica, cultural. Os parâmetros estabelecidos à luz da obra desses mestres da prestidigitação teorética, e também da de alguns dos seus antepassados, como Hobbes e Maquiavel, passaram a ser sobretudo três: o insaciável império da vontade, o governo tirânico e libidinoso do inconsciente e a luta entre grupos vetorizados pelo critério material. De maneira decisiva e em nível até então inimaginável, a arte perdeu o vínculo com o belo e a política com o bem, dois transcendentais do ser.

Tornamo-nos sociedades de tarados impacientes, pessoas que exigem sem demora o cumprimento estrito de absolutamente todos os seus caprichos, pondo a culpa de qualquer infortúnio pessoal ou desejo insatisfeito nas injustiças sócio-políticas, nas desavenças de classe e no “preconceito”, palavrinha mágica hoje capaz de auferir benesses estatais vultosíssimas em favor de quem a souber manipular — sempre a título do pagamento de dívidas atávicas que podem remontar ao paraíso adâmico. A máxima sartreana erigiu-se em norma pétrea: o inferno são os outros, mas numa conformação em que a tolerância à adversidade é zero. Em síntese, não apenas desacreditamos da virtude, mas lhe pusemos gigantescos obstáculos políticos, impedindo que aflore no tecido social, com as cada vez mais honrosas e miraculosas exceções.

Criamos uma cultura patógena, ou seja, fomentadora de enfermidades psíquicas em larga escala, como costuma afirmar o filósofo tomista Martín Echavarría, prolífico autor contemporâneo de importantes estudos na área da psicologia. Por sua vez, o espírito liberal engendrou no Ocidente um cenário no qual a norma é aprovar leis multiplicadoras dos confrontos entre grupos e indivíduos, na prática um fomento legislativo à inimizade, à divisão das sociedades em minorias cada vez mais numerosas que se odeiam com monolítica reciprocidade.

Como não poderia deixar de ser à vista do acima exposto, o homem contemporâneo é tribal, precisa afirmar-se nalgum agressivo grupo identitário excludente de todos os demais, com o luxuoso apoio do Estado. A um só tempo, ele é espiritualmente emasculado, moralmente tíbio e fisicamente violento. Sobretudo o homem da geração neta do “é proibido proibir”, expressão parida, formulada, concebida na nunca assaz incensada anarquia do Maio de 68. A propósito deste evento de falsas intenções libertárias, dizia Raymond Aron que o seu propósito era, acima de tudo, criar uma máquina de guerra para destruir as universidades como centros de ensino e atacar a ordem social inteira. Um radicalismo itinerante que hoje reencarna no Brasil, na pele dos grupos de “manifestantes” financiados indiretamente pelo governo federal para galvanizar toda a política e evitar o nascimento de qualquer verdadeira oposição.

Ora, retirado do sofrimento humano o seu sentido transcendente, que o cristianismo tão benevolamente trouxera ao mundo, não restam senão desespero e agonia, cupidez e desordem, maldade e desonra. Extirpada do horizonte social a noção de culpa, assim como as virtudes teologais — fé, esperança e caridade —, substituídas pela revolucionária tríade fraternidade-igualdade-liberdade, as pessoas tendem a criar mecanismos de autocomiseração e desculpar-se previamente a si próprias, arrolando estapafúrdias justificativas para os mais hediondos atos, sempre tendo à mão algum intelectual, jurista ou parlamentar para lhes dar suporte.

Em verdade, a marcha da insanidade é, na acepção do termo, política: o Estado transformou-se no difusor maior da maldade, na medida em que ele próprio se pretende normatizador do certo e do errado moral, bem ao modo hegeliano. Ele é babá de caprichos e taras potencialmente multiplicáveis ao infinito, garantidor do fundamental direito de jogar todos contra todos e indomável inimigo dos resquícios de cristianismo — principalmente do cristianismo católico tradicional, aquele que defende dogmas bimilenares e a exclusividade salvífica da Igreja.

Na Nova Ordem Mundial, só um arremedo de religião ecumênica poderá ter lugar, e a própria Igreja pós-Vaticano II ajudou a erigir o presente estado de coisas, com gravíssimas omissões políticas e um neomagistério dialogado feito de encomenda para não ferir susceptibilidades. Mas se — como diz Santo Tomás de Aquino no clássico De Maloum pecado é tanto mais grave quanto maior é o bem a que se opõe, quão enorme culpa têm essas autoridades eclesiásticas prevaricadoras do seu múnus espiritual! Descumpridoras da norma segundo a qual, como dizia Leão XIII, o Estado sem a Igreja é um corpo sem alma. Ou, noutras palavras: a matéria sem um espírito que a vivifique é decomponível de per si.

Se a política é hoje esta sublime comunhão de trapaceiros cujo objetivo é manter-se no poder a qualquer custo, tenhamos em vista que a natureza não dá saltos e que para chegarmos a este padrão de degradação foi preciso transformar a política em algo com princípio e fim em si mesma. Desvinculá-la de quaisquer pilares espirituais.

Coisa inédita desde a Antiguidade mais remota.