segunda-feira, 22 de julho de 2013

Deu n'O Globo!

Sidney Silveira
FRASE DO DIA — dita na tarde da chegada do Papa Francisco ao Rio por uma "artista" com as tetas balouçantes e nenhum desejo de autopromoção.

"A gente não é contra nada. A gente é a favor do que a gente acredita".

Filólogos, gramáticos e lógicos entre os mais gabaritados no cenário internacional foram convocados às pressas, para interpretar — à luz de elevados conceitos da ciência hermenêutica — o conteúdo transcendente desta frase fulminante.
Veja-se o texto das duas matérias abaixo. E cada qual chegue às suas próprias conclusões a respeito desta intrincada questão metafísico-gnosiológica...

sexta-feira, 19 de julho de 2013

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Breve lição de Filosofia Moral

Rua Ataúfo de Paiva, no Leblon, tomada por "manifestantes" que destruíram parte do bairro, nesta quarta (17/07/2013)
Sidney Silveira
As depredações, os roubos e a violência de vândalos e bandidos que, em mais uma “manifestação” democrática, destruíram ontem parte do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro — local onde mora o parlapatão governador Sérgio Cabral —, fizeram-me passar por aqui rapidamente para republicar um texto há um mês veiculado gentilmente pelo Prof. Angueth em seu blog, quando o Contra Impugnantes estava fechado.
A questão começa com a proposição de um problema:
É moralmente lícito a alguém participar ordeiramente de uma ação cujos resultados presumíveis são o caos e a violência?
Resposta:
Em sentido absoluto, não!
O ato humano pode ser especificado por dois vetores: o fim bom e as circunstâncias de realização desse fim. Como a circunstância dos atos humanos é acidental, e não essencial, muitas vezes não altera moralmente o fim bom ou mau do ato. Assim, por exemplo, se um professor qualquer dá uma aula magistral, não importa a circunstância de fazê-lo num luxuoso auditório, com microfones e ar-condicionado, ou numa sala velha em péssimo estado de conservação. Da mesma forma, matar alguém pelas costas não retira o caráter nefasto da ação, seja esta realizada numa avenida ou num corredor estreito.
Noutras vezes, porém, as circunstâncias retiram do ato o seu fim bom, ou o degradam a ponto de eliminar a licitude da ação. Este é o caso de alguém realizar um ato imbuído de boas intenções, mas SABENDO DE ANTEMÃO que ele acarretará — juntamente com os bens visados — males que podem pôr em risco a vida das pessoas e também as instituições públicas e privadas.
Ora, se as grandes manifestações, nas capitais brasileiras e no interior, acabaram em destruição, vandalismo, desordem, crimes, etc. — e, portanto, se prevê com ELEVADÍSSIMO GRAU DE PROBABILIDADE que outras aglomerações reivindicadoras terminarão da mesma forma —, participar delas é MORALMENTE ILÍCITO e contrário ao bem comum e à paz social, seu sucedâneo imediato. Algo análogo a atirar contra um ladrão que está escondido atrás de uma multidão de inocentes.
Portanto, valorosos defensores da pátria amada: manifestem-se participando da política, e não contribuindo, mesmo alegando boas intenções, para culpavelmente destruir as precondições materiais e institucionais de sua existência.
Simples assim.
Em suma, contribuir ordeiramente para a desordem é um mau em si, pelas razões acima alegadas.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A supremacia da estupidez estética — e a derrota da política

Sidney Silveira
Em qualquer genuína fruição estética, dois fatores complementares estão implicados: o prazer subjetivo, provocado pelo contato com as formas belas, e certa noção — ainda que difusa, quase instintiva — dos elementos objetivos normatizadores da beleza: harmonia, ordem, proporção, integridade, clareza, funcionalidade, finalidade, entre outros. Em síntese, saber a beleza é saboreá-la em padrão elevado, visto que a intervenção da inteligência é fator distintivo essencial na apreciação das coisas belas.
Noutras palavras, esse tipo de fruição jamais é meramente sensitivo, pois não se trata de um agregado anárquico de dados empíricos captados pelos sentidos. A razão disto é de caráter gnosiológico: na experiência estética está sempre pressuposta a unificação formal dos dados sensíveis pela potência intelectiva, e se falta este elemento perde-se a sensação da beleza, pois como considerar belo o ininteligível? Há, na prática, uma ordenação qualitativa dos aspectos individuantes das coisas belas, e para o homem tal ordenação representa o selo cognitivo da beleza. Sem ele, teríamos a mesma reação dos sapos perante uma polifonia de Tomás de Victoria: coaxaríamos de tédio nos brejos e nos manguezais.
Qualquer sociedade politicamente saudável precisa de instâncias inalienáveis de beleza real. Não por outro motivo, educar para a beleza e para o bem foi a grande preocupação de Platão em quase todos os seus escritos políticos. Quem porventura leu com atenção as Leis, obra outonal do gênio grego, há de lembrar-se que o cargo político mais importante seria uma espécie de “ministério da educação”, com a incumbência de tentar evitar que as pessoas aprendessem a sentir prazer com as coisas degradantes, feias ou imorais, desde tenra idade.[1] Isto porque gozar contrariamente às leis, expressão teorética do bem comum da Pólis, seria ao mesmo tempo atentar contra as potências superiores da alma. E o ridículo, quando representado com intenções artísticas, acaba cedo ou tarde por enlamear a capacidade de apreciação.
O avesso enganoso da fruição estética é o que podemos chamar de estupidez estética. Trata-se do estado anímico no qual prevalece certa desarmonia entre entender e sentir. A sintomatologia é a seguinte: o homem odeia ou despreza as coisas nobres, boas e belas, e adora as bastardas, más, disformes. Esta verdadeira fobia à beleza não pode ser curada, se ultrapassar certos limites. É quando a substância espiritual experimenta fragorosa derrota para a frivolidade, e os instintos inferiores passam a prevalecer no olhar sobre as coisas. Ah, se o homem esteticamente estúpido pudesse contemplar a própria alma diante do espelho, morreria de susto ao ver tamanha feiúra, ou então teria o choque deflagrador de uma grandiosa reviravolta existencial. Infelizmente, tal desordem é invisível a olho nu — sobretudo para quem empacou na dificuldade de fazer o trânsito do sensível ao inteligível.
Outro achado extraordinário de Platão foi perceber que o fator de coesão de qualquer sociedade não está propriamente no equilíbrio entre governantes e governados, mas em certo equilíbrio entre o nobre e o vil. Poderíamos dizer: entre o belo e o feio, nas instâncias em que os possamos conceber: espiritual, psicológica, física, gnosiológica, etc. Em suma, quando prevalece um tipo de fealdade com pretensões de beleza, a sociedade é politicamente má. O dramático nesta situação é que a descida abismal não é percebida pela imensa maioria dos cidadãos — deformados por permanentes concessões estéticas e morais que, no decorrer do tempo, acabaram por desfazer o vínculo de amizade no tecido social e relegar os homens bem formados a uma posição adventícia, na qual perderam a voz nos espaços públicos.
Em tal estágio, a escalada da vulgaridade já não tem freio possível. Sim, pois se na apreciação do belo o subjetivo está para o objetivo assim como os sentidos estão para a inteligência — numa escala de ordenação ascendente em que o mais determina o padrão do menos —, a desintegração precisará chegar a um ponto crítico, para somente então as pessoas começarem a reagir de sua própria letargia política. E entenderem que entre Like a Virgin de Madonna e qualquer composição de Bach existe não apenas diferença de graus de beleza, mas sobretudo de capacidade de abrir os olhos e ver o mundo.
A regeneração política começa, pois, quando boa parte da população livra-se da estupidez estética.

Mas não sem cruciantes dores.
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1- Cfme. Platão, Leis, 817, b-d.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mote metodológico do breve curso "MANIFESTO DAS SOMBRAS: A POLÍTICA BRASILEIRA À LUZ DA FILOSOFIA PERENE"

Sidney Silveira
Frisa Santo Tomás, em seu profundo "Comentário ao Prólogo de S. João", que a contemplação é ampla quando alguém considera os efeitos da causa na própria causa. A saber: quando conhece não apenas a essência da causa, mas também a virtude pela qual a causa se estende a muitas coisas. A contemplação joanina foi perfeita, de acordo com o Aquinate, porque o Evangelista foi conduzido e elevado à altura da realidade contemplada.

Pois muito bem: nas oito horas de aula do curso que acontecerá em agosto, não se espere a proposição de fórmulas mágicas para resolver a lastimável crise política brasileira. Ela será abordada em alguns dos seus vetores, sem dúvida, mas a idéia-mestra é convidar todos a contemplá-la a partir da nobilíssima atalaia da filosofia política do Aquinate.
VER, com os olhos do espírito, alguns dos atuais efeitos deletérios elevando-nos às causas sem as quais nem mesmo pode haver política, em sentido estrito.
Aos muitos amigos que me escreveram pedindo o retorno do Contra Impugnantes e das atividades do Angelicum, digo: uma maneira de começar a nos ajudar a prosseguir cm o trabalho é participando deste mini-curso.
As inscrições continuam abertas, conforme indicações do cartaz acima, e também no Facebook em:

A impermeabilidade metafísica do idiota

Sidney Silveira
O genuíno idiota só consegue ter certezas coletivas.
As suas verdades são de caráter numérico, razão pela qual sente-se psicologicamente confortável apenas no rebanho a que adere.
O idiota sempre eleva a opinião da maioria ao plano das verdades intocáveis, daí ser pessoa incapaz de real diálogo e grandemente intolerante para com as objeções ou o convívio com os desiguais. Ele conduz qualquer discussão a uma infernal mistura de premissas e assuntos diversos, que reunidos compõem uma massa amorfa e avassaladora à qual é impossível responder detidamente.
O idiota é o homem-massa que idolatra a si mesmo ao querer pasteurizar tudo e todos à sua imagem e semelhança.
Qualquer certeza — por fundamentada que seja — proclamada por alguém de fora de seu grupo é tida pelo idiota como pretensão desmedida, a ser escarnecida de todas as formas.

O espírito de grupo do idiota é a prova material de sua incapacidade de elevar-se ao nível das certezas teoréticas, fruto de reflexões continuadas e paciente estudo. Seu ódio à excelência costuma esconder-se por trás das bandeiras "democráticas" com que tem a sensação vertiginosa do heroísmo e da superioridade moral e intelectual sobre os adversários.

Opinar contrariamente às evidências é prática comum do idiota, razão pela qual o melhor que uma pessoa de bom senso deve fazer é não prosseguir jamais na discussão com ele.
Seria idiotice imperdoável.
O idiota é a prova cabal do mistério que há entre o céu e a terra.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O brejo das almas do magistério contemporâneo — ou “por que consinto ser chamado de professor”

Ao amigo Carlos Nougué,
mestre por vocação.
Sidney Silveira
Não se ensina por telepatia. Nem por sugestão hipnótica. Os alunos comumente não possuem dons premonitórios ou de clarividência, e os professores são incapazes de emitir radiotelegrafias psíquicas que — por intermédio de ondas de médio alcance — comuniquem conteúdos inteligíveis à mente dos educandos, numa espécie de evento paranormal espontâneo. Na prática, entre mestre e discípulos é necessário haver uma relação de comprometimento e envolvimento pessoal, sobretudo da parte do docente, por cujo intermédio um conjunto de verdades vai aos poucos se tornando claro para os alunos, durante o processo de aprendizado. Até que estes elaborem a sua maneira própria de tirar proveito das coisas ensinadas.
O professor não é o neurocirurgião que faz uma lobotomia e escarafuncha os miolos dos alunos, para enfiar neles, fisicamente, verdades pétreas e inflexíveis. E o motivo disto é relativamente simples: toda e qualquer verdade é uma forma imaterial — e o conhecimento, hábito mental adquirido. Sendo assim, o papel do mestre é o de mediador de símbolos, os quais mantêm correspondência formal com a realidade das coisas. Como lembra o Pe. Álvaro Calderón no excelente manual introdutório Los Umbrales de la Filosofía, os conceitos são semelhanças das coisas, e os nomes, signos artificiais dos conceitos. Assim, a estrutura artificial dos signos lingüísticos busca imitar a estrutura que a inteligência constrói para assemelhar-se à realidade.[1] Exatamente aqui entra o mestre, que para Santo Tomás é um apoio externo do aprendizado, assim como o médico o é da saúde dos seus pacientes.[2] Trata-se do auxiliar de luxo que presta o melhor serviço existente sob o cortinado celeste: ser o candeeiro que partilha a luz das verdades contempladas.
Quando o ato de entender acontece, é sinal de que quaisquer acidentes radicados na matéria foram suplantados. Assim, a circunstância de um aluno estar em posição de cócoras, deitado no chão ou imobilizado numa cadeira de rodas é indiferente para a sua compreensão das coisas que o professor está a explicar em sala de aula. Apenas uma circunstância nem o mais brilhante aluno poderá driblar, se quiser realmente progredir: a existência mesma do professor, pois a ninguém é dado ser o mestre de si mesmo — visto que a ciência não preexiste no discente a ponto de ele poder ensiná-la a si próprio,[3] sem causas externas. O que existe é a virtual potência para conhecer, chamada por Aristóteles de “intelecto possível”.
Se o ensino da filosofia rebaixa-se ao nível dos balbucios tirânicos de grupos políticos sectários, como acontece em larga escala nas universidades públicas brasileiras, a saída é buscar fora da academia o alimento que ela não mais pode dar sem mescla de leite espiritual estragado. Ah, que falta faz um Santo Agostinho para hoje reescrever nova versão do seu Contra Academicos! Seria profilático e altamente salutar, pois a corrosão moral e intelectual contaminou boa parte das nossas cátedras, e o típico acadêmico brasileiro contemporâneo está preocupado com o “Currículo Lattes” — enquanto os seus textos latem feito cão raivoso... A propósito, sei de um estudioso de filosofia medieval entre nós cuja maledicência é proporcional à sua dolente incapacidade de escrever dois parágrafos sem anacolutos de lesa-língua, erros crassos de ortografia, paralogismos, falta de correspondência de tempos verbais num mesmo período, etc. E é anta pós-doutorada na Europa; cheio de si como um pavão, apesar da carinha de santo.
Pois muito bem. Este breve artigo é em deferência à benévola pessoa que me indagou o seguinte: por que motivo, sendo eu um jornalista, permito chamarem-me de “professor”, como por exemplo no cartaz do breve curso Manifesto das Sombras – A política brasileira à luz da Filosofia Perene, para o qual as inscrições estão abertas? Parafraseio o Pe. Antônio Vieira e respondo: uma coisa é o professor, outra o que ensina. E de que adianta ser professor de nome se não se faz jus ao ofício significado pelo nome? No meu modesto caso, são quase dezoito anos de leitura continuada da obra de Santo Tomás de Aquino, e tudo o que há algum tempo tenho escrito e gravado em vídeo é no espírito da escola tomista.
Digo mais: a certa altura de minha atribulada existência, optei por manter-me marginal (ou seja: fora da academia!) porque para o projeto editorial e magisterial que me propus levar adiante eu teria sérios problemas de consciência se me encastelasse numa faculdade ou num seminário modernista. Se errei na escolha, foi por acreditar que o magistério não é um truque psicótico por meio do qual o professor ludibria os alunos.
Encerro o texto com a seguinte consideração, ao modo de advertência: consinto ser chamado de “professor” por pessoas que o fazem espontaneamente (muitas delas, professores universitários pós-graduados em centros de pesquisa importantes), mas jamais pedi para ser designado desta ou daquela maneira.
Não aspiro a vanglória tão nanica.
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1- Cfme. Álvaro Calderón. Los Umbrales de la Filosofía – Cuatro Introducciones Tomistas. 2011. Ed. del Autor. p. 251.
2- Tomás de Aquino. De Anima, art. 4, ad.6
3- Cfme. Tomás de Aquino. De Magistro, art.2, ad.1