sexta-feira, 12 de julho de 2013

O amplexo de Satã: a política como fonte de ódio entre os homens e o Brasil do PT

Sidney Silveira
Não existe ciência do irrepetível. A razão é simples: sem um conjunto de experiências e dados devidamente catalogados pela inteligência, não pode haver conhecimento em sentido estrito. Isto acontece em qualquer área de estudos, mesmo naquelas em que a certeza alcançável é de natureza interpretativa — às vezes cambiante —, como no caso da ciência histórica, sempre imperfeita na reconstrução do passado porque depende de fontes que, no decorrer do tempo, podem mostrar-se insuficientes, quando cotejadas com descobertas recentes ou analisadas a partir de novos métodos hermenêuticos. Seja como for, não é o ato de compulsar mil documentos o que faz um historiador; mas o compulsá-los à luz de princípios interpretativos seguros.
Com a ciência política passa-se algo análogo. Participar da política por meio de um ativismo desordenado não é ser político, na expressão forte do termo, assim como não é o ato de fornicar com dez clientes por dia o que dá a uma prostituta a clara visão do que seja o sexo, em sua rica dimensão psicossomática e espiritual. Em suma, repetir o irreal é uma forma maligna de irrepetibilidade metafísica — maneira eficaz de jogar a verdade científica para uma instância inalcançável, porque a inteligência naufragou na tentativa de divisar o uno no múltiplo, a essência em meio aos acidentes. Numa situação tal, dar testemunho da verdade é impossível até quando os dados estão cristalinamente diante do sujeito; então, as evidências tornam-se inevidentes por uma espécie de hipoplasia da potência intelectiva. E a pessoa não entende a densidade do real porque se incapacitou para tanto.
Este déficit cognitivo torna-se patologia coletiva quando a política, as artes e a religião se desvinculam dos princípios universais configuradores daquilo que chamamos de “civilização”. Então os homens de bem vivem o pior infortúnio possível: suportar a corrupção em nível alarmante e patógeno, e assim terem o seu campo de ação pública reduzido. Advirta-se que tomamos a expressão “ação pública” não no sentido de atuação partidária, distintiva das caóticas democracias liberais em que nos cabe sobreviver — nas quais as leis deixaram de ser regra da razão ordenada ao bem, para expressar a vontade ou os interesses de grupos de pressão. Ação pública, nesta configuração, é alçar a voz a uma altura suficiente para fazer sair do letargo moral as pessoas com poder decisório. Mas isto, numa sociedade da informação, é difícil quando os canais da imprensa estão vedados ao Spoudaios, o homem maduro para a compreensão das verdades mais elevadas, segundo Aristóteles, pois desenvolveu as suas potencialidades em grau de excelência.
Em síntese, quando o ódio à excelência se dissemina no tecido social a ponto de aniquilar a cultura superior, a unidade somática da Pólis se desfaz num processo de putrefação similar ao que acontece com um corpo sem vida. A esta altura, o verdadeiro sábio compreende que a raison d’être do povo — que é ordenar-se aos bens superiores, e destes a Deus — se esfumou completamente. E o seu papel passa a ser o de fazer a descida ao caos para abrir nele fendas por onde possa penetrar a luz das verdades imperecíveis, e os homens possam dela voltar a alimentar-se.
O simbolismo dessa descida representa um sacrifício de vida cuja nobreza sequer pode ser reconhecida pelos beneficiários da ação, agonicamente presos na situação acima descrita, de incompreensão acerca das verdades mais elementares. Eles então ridicularizarão o sábio e o tomarão por tolo, por hipócrita ou por maligno, e poucos deles estarão aptos a compreender o estupendo bem recebido — mas só após terem massacrado o homem de valor que os favorecera. A propósito, é esta a advertência de Sócrates àqueles que o condenaram injustamente: os atenienses não mais teriam quem os defendesse de seus próprios erros e taras políticas.
Sócrates e os gregos antigos não conheceram o sacrifício universal da Cruz, feito com o sangue meritório pelo qual o próprio Deus Encarnado remiu o homem. Não conheceram o fato de que a política alcança a sua verdadeira razão de ser tão-somente quando se deixa conduzir pelas verdades divinamente reveladas, com as quais Deus rega os montes das alturas e com os frutos de Sua sabedoria sacia a terra, conforme afirma o Salmo 104, comentado esplendidamente por Santo Tomás de Aquino.
Sem essa sabedoria divina a governar os homens, a inimizade política torna-se o único caminho possível. E este leva ao ódio e à dissolução social de que se valem os políticos maquiavélicos para manterem tiranicamente o poder e o butim dos bens públicos, com um descaro semelhante ao do atual governador do Rio de Janeiro (apenas a título de exemplo), santarrão que gasta milhões para andar de helicóptero com o dinheiro do contribuinte e alega não cometer nada de impróprio.
A propósito, o Brasil atual vem sendo governado por um grupo político que, em toda a linha, trabalha para destruir os pilares da civilização — e nisto se distingue de todos os grupos letalmente corruptos que até então estiveram no poder em nosso país: distingue-se pela capacidade de aparelhar o Estado; distingue-se pela organização de uma militância disposta a qualquer coisa para cumprir os desígnios da Nomenklatura; distingue-se pelos braços internacionais de fomento à agenda globalista; distingue-se por usar da mentira política com a sistematicidade típica de quem procura perpetuar-se no poder recontando a história do país à imagem e semelhança dos seus falsos princípios; distingue-se pelo incentivo, direto ou camuflado, a todos os tipos de profanação das coisas religiosas.
Esta é, pois, a hora de alguns homens de bem e de formação intelectual e moral superior sacrificarem o próprio conforto, em favor da sociedade em adiantado estado de decomposição na qual desgraçadamente vivem. Arriscarem tomar partido em favor da civilização, mesmo à custa da perda de seus empregos; mesmo à custa das difamações; mesmo à custa de calúnias e de todos os tipos de martírio moral.
É claro que só podem fazer isto subindo à altura dos valores universais que abrem os olhos do espírito e impedem a disseminação do sonambulismo moral que gera situações políticas como a nossa. E não com caras pintadas e palavras de ordem ensaiadas por engenheiros sociais que fazem a formidável mágica de transformar multidões em agrupamentos teleguiados.
Que a antevisão da derrota pessoal e política não lhes arrefeça o ânimo. Afinal, só o alimento da sabedoria pode construir um dique à sociedade corrupta, e, como ensina Platão, estar a alma enganada ou ignorar o ser verdadeiro das coisas significa que a mentira tomou posse da parte mais elevada da pessoa.[1]
Ora, quando na política prevalecem homens tais, é melhor sucumbir na luta do que na omissão.
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1- Cfme. Platão. República, 382a-b.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quem secou o pranto, pode novamente amar — a retomada do blog


Sidney Silveira
O tomista Luiz Astorga, parceiro de várias empreitadas editoriais filosóficas nos últimos anos, chamou-me a atenção com rude franqueza. O grande amigo e tradutor Carlos Nougué, amante da obra de Santo Tomás, disse-me que eu me precipitei, ao encerrar o Contra Impugnantes. Sacerdotes pediram-me que reconsiderasse a decisão. O Prof. Antonio Angueth, que mantém ótimo espaço na internet, lamentou o fato e se dispôs a ajudar-me a sair da situação financeira difícil em que sucumbi, após a cirurgia cardíaca. Olavo de Carvalho mandou rezar Missas em intenção de minha recuperação em Richmond, e juntamente com a sua esposa Roxane manifestou o desejo de ajudar-me de alguma maneira a não encerrar o blog. Tudo isso me comoveu imensamente, e se trago a público algumas dessas manifestações generosas é para que estas e outras pessoas saibam o quanto influenciaram na minha reconsideração. 
Continuo, após quase um mês e meio da postagem em que me despedia dos leitores, a receber mensagens. Depoimentos de conversão ao Catolicismo. Relatos de verdadeira reorientação existencial, como o do rapaz que, após ler uma postagem do blog, se esforçou por largar o vício da pornografia na internet — e, com a árdua vitória, se foram os vários sintomas psicossomáticos em que a sua vida se consumia. Escritos de sincero agradecimento e de orações pela minha saúde, espiritual e financeira, assim como verdadeiros puxões de orelha, acabaram fazendo o efeito da constância da água mole em pedra dura.
O esgotamento espiritual se foi, com a graça de Deus, e as dificuldades materiais talvez não vão embora até o fim de minha vida, dado o ponto que alcançaram. Enfim, chegou o momento em que disse a mim mesmo: e daí? Percebi que esta iniciativa não mais me pertence por inteiro, e apesar das dificuldades pessoais o trabalho deve continuar, tanto aqui como no Instituto Angelicum, o qual finalmente terá em breve um site e retomará as suas atividades editoriais e de cursos.
Recomeço com o mesmo espírito de fé e de amor à Igreja e a Santo Tomás de Aquino com que o Contra Impugnantes iniciou, em 2008. As postagens virão no compasso do meu tempo disponível para escrever, pois continuo a ter que ganhar o pão.
Mas virão, nesta nova roupagem que tem uma parte de minha estante da sala como pano de fundo.

Muito obrigado a vocês.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Fim do "Contra Impugnantes"


Sidney Silveira
O Contra Impugnantes está encerrando as suas postagens a partir de hoje. Foram cinco anos em que julgo ter cumprido um papel com este modesto espaço na internet: fomentar o interesse na obra de Santo Tomás no Brasil. Sei de várias pessoas que hoje estão fazendo monografias ou teses de mestrado e doutorado (algumas, a propósito, sob minha orientação informal).
Encerrar o blog no momento em que está com a melhor média de acessos diários é quase irônico. Coincide com o fato de eu estar espiritualmente esgotado e financeiramente na penúria, desde a época da cirurgia cardíaca por que passei. Aceito a derrota. Aceito-a com a certeza de ter cumprido um dever, ou melhor, um preceito de Cristo: dar de graça o que recebi de graça.
Quanto às outras iniciativas — a menos que aconteça um milagre — também estão suspensas até segunda ordem. Refiro-me aos livros do Instituto Angelicum. Uma pena, porque algumas são obras de real valor que já estavam traduzidas. Verei se o meu parceiro nesta iniciativa toma a frente do trabalho e o leva adiante. A menos, repito, que algo muito excepcional aconteça em breve.
Conheci pessoas maravilhosas nestes anos de blog, mas também vi de perto o pior que pode haver: inveja espiritual, calúnias, detrações, murmurações e até crimes. Posso, pois, dizer que alguns católicos estão entre os piores espécimes humanos que tive o desprazer de conhecer em minha vida: covardes, traiçoeiros, incapazes de amizade verdadeira, cúpidos, sectários, obstinados e, por fim, burros. Pessoas de almas impermeavelmente opacas, algumas delas padres. Eu as perdôo porque é obrigação cristã, mas perdôo com certa comiseração de ver que é quase impossível mudarem, pois alguns de seus pecados são contra a verdade.
Outras iniciativas continuarão sem problemas, como a coordenação de livros para a coleção Medievalia, da editora É Realizações. As duas primeiras obras — Questões Disputadas Sobre a Alma, de Santo Tomás, e Protréptico, de Clemente de Alexandria — ficaram um primor. Novas coisas virão.
Aos leitores fiéis do Contra Impugnantes ao longo destes cinco anos, agradeço de coração.
Abraço a todos e vida que segue.
P.S. Peço aos interessados nos textos que os copiem, pois não é impossível que eu desative o blog; antes eu mesmo quero copiar algumas coisas, quando tiver tempo e paciência para tanto. Mais à frente, editarei em livro os que julgar de algum valor.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Corpus Christi



Hóstia viva. Amor sacrifical perfeito e sumamente meritório. Entrega total. Luz do mundo. O preceito manda-nos adorá-Lo neste dia.

terça-feira, 28 de maio de 2013

“A lei e os fins da política”, breve conferência a realizar-se no dia 08/06


Sidney Silveira
A convite do diretório estadual da Aliança Renovadora Nacional – ARENA no Rio de Janeiro, proferirei no próximo dia 08 de junho (sábado) a mini-palestra intitulada A lei e os fins da política.
Tratar-se-á de uma breve fala em defesa dos princípios civilizacionais sem os quais sequer pode haver política, em sentido próprio.
Ø  Local: Auditório da Associação Comercial, Rua da Quitanda, 191, 10º andar, Centro, Rio de Janeiro
Ø  Horário do evento: 9h às 12h.
Os amigos do Rio e adjacências estão convidados.
Para maiores informações, os interessados podem entrar em contato com Claudio Henrique Mota Melo.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Deus, pilar metafísico do matrimônio


A Carla Gomes
“Um amor não firmado em Deus, por mais que viva, vive a morrer”.
Sidney Silveira
Dizia Santa Teresa d’Ávila que este mundo é uma hospedaria barata, razão pela qual não podemos levá-lo demasiadamente a sério, nem nos deixar prender por seus laços, sobretudo quando estes nos afastam de Deus, pelo pecado — malogro da inteligência e da vontade desviadas dos seus objetos formais: a verdade e o bem.
Para a notável mística do Carmelo, assim como para o Magistério da Igreja, somos peregrinos rumo a uma dimensão que transcende à corruptibilidade — instância onde o amor de Deus mantém as coisas no ser. A propósito, o advérbio “onde” é impreciso para definir tal realidade, pois o Todo que é tudo não cabe em lugares: Deus é absolutamente trans-total, supra-local. É a totalidade sem partes quantitativas, meta-dimensional, super-essencial. Trata-se, pois, de uma analogia, ou seja, o recurso de denominar pelo mesmo nome — no caso, a palavra “onde” — realidades distintas quanto à essência, porém relacionadas segundo certa proporção conceptual. Ocorre que, em Si mesmo, Deus é o agora eterno impossível de circunscrever-se pelo espaço. N’Ele não existe onde.
Pois bem. Na medíocre hospedaria do mundo alberga-se o amor humano, que, como insinuava o Padre Antônio Vieira, é feito de corações de cera. Por isso o tempo atreve-se a gastá-lo, a maltratá-lo, a impor-lhe as fadigas do uso continuado, a letargia do tédio. Em síntese, um amor não firmado em Deus, por mais que arda, é fagulha; por mais que cresça, é nanico; por mais que satisfaça, não sacia; por mais que apraza, dói; por mais que preencha, tem lacunas; por mais que viva, vive a morrer. Assim é o amor humano: ele só se torna perdurável, perene, ao ancorar-se n’Aquele que está além de todas as durações. Caso contrário acaba tornando-se um grilhão, e muitas vezes o justificamos apelando culpavelmente às nossas próprias debilidades.
O amor que tem como pilar a Deus não é fuga em busca de conforto psicológico ou de catarses fisiológicas, mas o êxodo das potências superiores da alma em direção ao mistério. E isto não são trevas, pois o amor mesmo é a luz que dá sentido às coisas, sem contudo revelar como haure o seu próprio sentido. Ora, se a medida do amor é amar sem medida, como dizia Santo Agostinho, leve-se em conta que a sua semelhança com Deus é ser partícipe da infinitude, quer dizer, do Incomensurável não passível de ser medido. Noutra formulação, o amor é a infinitude de Deus participada às criaturas dotadas de inteligência e vontade abertas ao influxo deste “raio de trevas luminosas”, expressão com que se referia a Deus o Pseudo Dionísio Areopagita, grande neoplatônico cristão. No amor, e somente nele, o homem chega à interseção entre o tempo e a eternidade.
Se as coisas são como aqui se descrevem, é lógico deduzir que o sentido do verdadeiro amor conjugal — como de qualquer outro amor — é Deus. Assim, não pode haver casamento, em sentido próprio, fora do sagrado amor de Deus; pode, isto sim, haver entendimento circunstancial entre os corpos, união civil, união até de almas, porém frágil porque baseada no que é instável, e nada tão instável e sujeito a crises como o coração humano, quando abandona-se a si mesmo.
Profanar o matrimônio tem sido prática continuada das sociedades de nossa era globalista, na qual só um cristianismo fake pode ter lugar, como o das seitas evangélicas e o de uma Igreja Católica magisterialmente tíbia, infiltrada por elementos alienígenas que a minam por dentro. Era fechada ao mistério e, portanto, à luz benemerente do amor.
Que chamemos, pois, a qualquer união entre duas (ou mais) pessoas de “casamento”, é apenas um dentre tantos signos distintivos do declínio civilizacional em que caminhamos. Da perda da noção de que o matrimônio tem como pilar metafísico o Próprio Ser Subsistente, daí que alcance uma intimidade para muito além da dos corpos, embora também abarque este plano físico, que tem a sua bondade e a sua funcionalidade próprias.
Numa época tão materialista e hedonista, consolam-nos as palavras de São Paulo segundo as quais “o amor jamais acabará”. Ele é maior que o mundo.
É a razão de ser do mundo.