sábado, 2 de março de 2013

Renúncia simbólica ao poder espiritual, em um mundo sem fé


Problemas teológicos, canônicos, filosóficos e morais resultantes da abdicação do Papa Bento XVI


“A mediocridade é o justo meio hesitante entre o bem e o mal”. (Garrigou-Lagrange)

Sidney Silveira
“A consciência apresenta-se como o baluarte da liberdade frente às limitações impostas pela autoridade”, escrevia o então Cardeal Ratzinger em 1991, referindo-se a uma controvérsia no meio católico. Nesse escrito bastante conhecido, o teólogo alemão afirmava: “Estão contrapostas [nesta disputa] duas concepções de catolicismo. De um lado, uma compreensão renovada de sua essência, que explica a fé cristã a partir da liberdade e como princípio da liberdade, e de outro, um modelo superado, ‘pré-conciliar’, que sujeita a existência cristã à autoridade”. Nas palavras do Cardeal Ratzinger, a moral da consciência e a moral da autoridade pareciam, em tal contexto, eliminar-se mutuamente, sendo a consciência a norma suprema que o homem deve seguir, mesmo quando o faz voltar-se contra autoridade. O teólogo alemão citava em tom crítico a fórmula — fiel à tradição filosófico-teológica moderna — de que a consciência é “infalível”.
Diz mais aquele texto de Sua Eminência Reverendíssima, o Cardeal: naquela visão, a autoridade (leia-se, literalmente, Magistério da Igreja) poderia até falar sobre moral, mas no máximo caberia a ela propor elementos para a formação dos juízos autônomos da consciência, a qual teria sempre a última palavra. Mas o ponto decisivo, para o que nos interessa apontar, vem do seguinte trecho: “Vivemos de uma maneira completamente nova a força da recordação [da fé] e a verdade da palavra apostólica. O verdadeiro sentido da autoridade doutrinal do Papa reside em que ele é o guardião da memória cristã. O Papa não impõe [a fé] desde fora, senão que desenvolve a memória cristã e a defende. (...) Sem consciência não haveria Papado. Todo o poder do Papado é o poder da consciência”.[1]
Se levarmos a premissa ratzingeriana às últimas conseqüências, veremos que, na sua concepção, a autoridade eclesiástica jamais se impõe pelo ensino da verdade, que os fiéis recebem ex auditu e à qual anuem por obediência à autoridade de Cristo, em cujo nome falam os Papas e o Magistério; ela no máximo dialoga com a consciência individual autônoma. O subjetivismo desta posição é patente, e não a troco de nada os anátemas quase desapareceram, tanto neste como nos Pontificados anteriores que remontam a João XXIII.
Respondamos a isto dizendo que a consciência não se forma por partenogênese. Ela não é infalível nem autônoma, pois, como demonstrara Santo Tomás, ela é regra regulada e não regra regulante, e para ser infalível infalíveis e perfeitas deveriam ser as espécies inteligíveis humanas, o que não é correto dizer, porque somos incapazes de esgotar a verdade. Para nós, pobres mortais, a verdade (mesmo a científica) é uma assíntota e comporta graus: assim, definir o homem como bípede vertebrado sem escamas é menos verdadeiro do que defini-lo como animal racional; embora ambas as proposições estejam certas, uma alcança o âmago da essência humana, a outra mira aspectos acidentais, em sentido metafísico. Traduzamos tudo isso num axioma de nossa lavra: ciência limitada, consciência imperfeita. Portanto, a expressão de que o Papado depende da consciência é absolutamente imprópria. O Papado, na doutrina tradicional, depende diretamente do carisma outorgado por Deus. A sua aceitação ou não pelos indivíduos é que, sim, pode radicar na consciência.
A consciência humana precisa ser formada e começa a sê-lo justamente pela autoridade. Mas que autoridade? A primeira delas é dos mestres e professores que nos ensinam as verdades em suas matérias. Afirmemos, pois, sem nenhum prurido eufemístico: a contraposição autoridade/liberdade é falsa, sobretudo quando se entende erroneamente a consciência como “baluarte da liberdade”, como advertia Ratzinger, visto que esta última reside na vontade — apetite intelectivo do bem — e não na consciência, pois os veredictos desta são falíveis. O problema é que, apesar de dominar as premissas, o teólogo alemão não supera a própria dicotomia que denuncia.
É assim em qualquer caso:

Ø  Um soldado não forma a sua consciência militar questionando os generais, pois, se tivesse elementos e capacidade de julgar e repudiar cada ordem dada pelo superior, cairia o Exército.
Ø  Um menino não forma a sua consciência cristã contestando o catequista.
Ø  Um matemático não molda a sua consciência argüindo, desde o princípio, os experts na matéria.
Ø  Um teólogo não “discute” com Santo Tomás de Aquino nos primeiros anos de Seminário.
Ø  Um candidato a filósofo não refuta Aristóteles na primeira aula; somente depois de adquirir solidíssima formação ele deve atrever-se a fazê-lo, e com todo o respeito, toda a deferência devida ao Estagirita, chamado pelos medievais de O Filósofo.

Repitamos, pois, a seguinte regra, para guardá-la bem na memória: a consciência começa a se formar por anuência à autoridade, e esta é balizada pelo conhecimento da verdade. Neste sentido, todo magistério autêntico exige submissão do intelecto. Assim, se o professor ensina que 2+2=4, a nossa consciência não é “livre” para considerar que o resultado desta adição é 5. Que nos perdoe, uma vez mais, o teólogo Ratzinger, mas a sua concepção de liberdade e de autoridade (mantida durante todo o período em que foi Pontífice) é herdeira dos liberalismos da melhor cepa.
Pois bem. É justamente por dever de consciência que seguiremos à risca o conselho do então Cardeal Ratzinger: mesmo que as autoridades digam o contrário, não pecaremos contra a nossa consciência católica omitindo verdades em matéria gravíssima e em momento histórico tão delicado. Iremos, pois, contra a boiada, sem endeusar a própria consciência como se fosse uma Bastilha inexpugnável, pois ela é falível, porém muito seguros de tê-la formado no estudo continuado da obra de Santo Tomás de Aquino, Doutor Comum da Igreja.
Advirta-se que o dever de consciência, quando é necessário voltar-se publicamente contra alguma autoridade, se aplica nos casos de erros patentes em matéria grave; então o silêncio seria pecado de omissão. Assim explica Santo Tomás, no fabuloso De Veritate, o fato de São Paulo confrontar São Pedro in faciem, ou seja, contrariar o Papa frente a frente, diante de todos. Trata-se de ocasiões excepcionalíssimas, como a atual — fruto maduro das mudanças radicadas nos ambíguos textos do Concílio Vaticano II. Desde então, o Magistério da Igreja assumiu uma inédita linguagem resvaladiça aberta a várias interpretações, em contraposição aos documentos anteriores da Tradição bimilenar, cuja simplicidade e forma direta de se expressar não davam margem a qualquer dúvida sobre o seu próprio conteúdo.
Elegias mundanas a uma abdicação
A nossa primeira observação diz respeito à renúncia ao ministério petrino feita pelo Papa Bento XVI. É a seguinte: o ofício de um Papa não se exaure em sua humanidade, por se tratar do homem que, como Vigário de Cristo, é a suma ponte com a divindade. Se tivermos, pois, a clara consciência de que o Papado não é ofício político ou diplomático, e sim um poder instituído pelo céu, saberemos tratar-se de uma realidade espiritual que, dada a sua universalidade, abarca todas as demais coisas no tocante ao fim último do homem: Deus. Trata-se, pois, de um poder omniabarcante, em relação ao qual todos os demais poderes estão ordenados. Se estes se voltam contra o fim último, a Igreja militante, cuja cabeça visível é o Papa, tem autoridade para intervir. “Não terias nenhum poder sobre mim se não tivesse sido dado do Alto”, ensina Cristo a Pilatos. Esta é a tradicional doutrina dos dois gládios, tão repudiada pelos modernistas católicos denunciados por São Pio X e por seus herdeiros contemporâneos.
O Papa é o homem a quem estão dirigidas as palavras ditas pessoalmente por Nosso Senhor a Pedro: “Tudo que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Homem a quem é conferido o carisma sobrenatural da infalibilidade no exercício de seu poder de ensinar (potestas docendi), no tocante a questões de fé e costumes. Homem que possui o pleno poder de jurisdição na Igreja universal. Por isso, dizia o ab-rogado Código de Direito Canônico de 1917: “O Romano Pontífice legitimamente eleito, ao aceitar a eleição, recebe de imediato — por direito divino (iure divino) — a plenitude da jurisdição suprema”.[2]
Somente num catolicismo que, desgraçadamente, perdeu ou distorceu a noção de direito divino se poderia conceber a hipótese de haver um Papa emérito, sem a jurisdição suprema que o distingue, como agora nos querem impor; isto dá margem a confusões magisteriais, canônicas e teológicas tremendas, como se não bastassem as que já nos assolam. Somente num catolicismo naturalista se pode elogiar a decisão humana de um Papa de abdicar à sua autoridade magisterial e ao supremo primado apostólico, sob alegação de cansaço por conta da idade — em descontinuidade com a Tradição e a prática da Igreja, como diz o historiador Roberto de Mattei. Isto não obstante o seguinte (digamos sem meias palavras): não nos surpreende tal decisão pelos motivos alegados, vinda de quem possui do Magistério uma noção tão tímida perante as consciências individuais.
A propósito, no artigo intitulado Considerações sobre o ato de renúncia de Bento XVI, o mesmo historiador indaga: “O bem-estar físico nunca foi critério de governo na Igreja. Se-lo-á a partir de Bento XVI?”. Ora, o próprio Roberto de Mattei nos chamava a atenção, quando do anúncio da renúncia histórica de Ratzinger, para o fato de que as faculdades intelectuais do Papa abdicante estavam plenamente íntegras, e o estado de sua saúde era “geralmente bom”, de acordo com o porta-voz da Santa Sé, Frederico Lombardi. Ademais, carregar a Cruz até o fim, com confiança em Deus, é o heroísmo que caracteriza o cristão. Por isso há deveres de estado para leigos solteiros, leigos casados, sacerdotes, monges, freiras, bispos e... para o Papa!
Exemplifiquemos da forma mais didática possível, até para ficar claro que não estamos contrariando o princípio Romanus Pontifex a nemine iudicatur, pois o ato da renúncia de um Papa, como ensina o Código de Direito Canônico, não precisa ser aceito nem mesmo pelos Cardeais, dada a supremacia do poder papal. Portanto, não nos resta senão respeitosamente aceitá-lo, acatá-lo, mas o legislador canônico não quer com isto dizer que não possamos discordar dele. Vamos lá: se um marido, alegando cansaço, tristeza ou qualquer outra coisa, deixa habitualmente de cumprir para com a sua esposa o débito conjugal, cujo efeito próximo é aplacar a concupiscência, estando ambos em plenas condições de consumar o ato, peca. Se o leigo solteiro deixa de guardar a castidade, peca. Se o monge ou a freira quebram os votos perpétuos, pecam. Se os bispos não ensinam o que é conforme à Tradição, pecam. E algo análogo serve com relação ao Papa: há deveres inalienáveis que ele é chamado a cumprir. Somente um catolicismo aggiornato pode imaginar que um Papa é impecável, alguém transformado em Anjo imaculado ao assumir a sua missão. Somente um catolicismo água-com-açúcar pode imaginar que um Papa não é passível de críticas de nenhum tipo, mesmo quando feitas em vista do bem comum da Igreja e tendo como base a Tradição. Nunca foi assim.
Ademais, a história está aí para nos mostrar Papas moralmente indignos do supremo múnus que lhes foi confiado. Eles passaram e a Igreja permaneceu, apesar dos seus pecados. Papas simoníacos, nepotistas, gananciosos e imorais. Leiam a monumental Histoire Universelle de l’Église Catholique, do Pe. Rohrbacher, para ter a mínima noção de que há Papas que Deus nos impinge para cumprir os Seus inescrutáveis desígnios. Ora, para compreender como Deus se serve de males em vista de bens infinitamente superiores, é preciso ter em mente que não há comensurabilidade possível entre os pecados humanos (mesmo de um Papa) e a Providência Divina. A vontade de Deus sempre se cumpre, mesmo quando os homens falham.
A propósito, a coexistência de dois Papas indicava desde sempre que, na verdade, um deles era antipapa e a ameaça de cisma era iminente. Como a imaginação modernista é magicamente infinita, agora deparamos com uma circunstância impossível de resolver, jurídica ou teologicamente, sem cair nalguma contradição, considerados os princípios configuradores do poder papal: o fato inédito de haver dois Papas vivos, um com a jurisdição suprema e o outro emérito, sem ela. Isto afora a circunstância de que, tradicionalmente, só o Papa reinante usava as vestes totalmente brancas, representativas da pureza espiritual do cargo que lhe foi confiado. Agora há dois homens de branco aludindo de maneira simbólica ao Pontificado. Por sua vez, os que renunciaram anteriormente — com toda a razão! — se tornaram ex-Papas ainda em vida.
Primeira confusão decorrente da presente situação: como era de se esperar, já começa a circular nos meios progressistas o murmúrio de um reinado papal duplo, ou seja, de um possível governo bipartido em que o Papa emérito continuaria a exercer o ministério petrino “espiritualmente”. Alerta o vaticanista Robert Moynihan, em artigo publicado por esses dias: as recentes palavras do Papa Bento XVI deixam em aberto a interpretação de que, no futuro, poderia haver uma dupla regência petrina. E isto é só o começo, caros: o modernismo católico tem o condão de transformar qualquer escrito ou ato solene em algo anfíbio, aberto a infinitas interpretações divergentes. É exatamente isto que o padre Álvaro Calderón — maior tomista vivo — chama de “consenso plurânime dos teólogos”, ou seja: uma babel em que todos detêm a verdade justamente porque não há verdades em sentido estrito, apenas visões particulares.
Reiteremos: a decisão de criar a distinção de “Papa emérito”, deixando-nos perante dois sucessores de Pedro vivos sob o título de Papa, embora um deles tenha abdicado formalmente ao poder, é uma monstruosidade doutrinal. Nenhum outro Papa renunciante virou emérito, até pelo risco de acarretar um cisma, razão pela qual Bento XVI se viu na contingência de jurar obediência e reverência ao futuro Papa, ciente dos problemas implicados na situação (mas aparentemente sem imaginar que alguém pode não julgar assim e propor algo contrário aos fins da Igreja. Há precedentes). Perdoem-nos as almas cândidas, mas recusar-se após a renúncia a ser chamado de Sua Santidade, Bento XVI, e vestir-se como religioso comum, isto sim, seria um ato de humildade. E não nos venham dizer que se trata de juízo temerário ou desrespeitoso; é evidente.
Até mesmo  exegetas do novo Código de Direito Canônico, como na coleção organizada por A. Marzoa, J. Miras e R. Rodríguez-Ocaña, responsáveis pelo Comentario Exegético al Código de Derecho Canónico, editado em vários volumes pela EUNSA, teriam dificuldade de explicar tão anômala novidade. Ensinam eles que existe íntima conexão entre o munus petrinum e o poder do Papa — que é a um só tempo ordinário, supremo, pleno, imediato e universal. Portanto, a existência de dois Papas, sendo um deles emérito, fato não previsto pelos melhores canonistas, cria vários dilemas a resolver.
Por exemplo:
Ø  Que tipo de assistência do Espírito Santo o ex-Papa, ou melhor, o Papa emérito, passa a ter?
Ø  Qual o seu papel no governo da Igreja, mesmo estando recluso?
Ø  Sendo ainda Papa, resta-lhe algum vestígio ou elemento, mesmo que adventício, do supremo poder papal? Se sim, em que sentido?
Ø  Em relação ao novo Papa, como fica a plenitudo potestatis pontifícia (expressão usada pelos canonistas para explicar que o Papa possui a totalidade do poder que Cristo delegou à sua Igreja)?
Ø  Mil etcéteras!

Na prática, com a renúncia pelos motivos alegados, a percepção do mundo (este mesmo que, antigamente, a Igreja chamava virilmente à conversão) é de que se trata de um governo político humano como outro qualquer. E mais: com a inaudita fórmula “Papa emérito”, presta-se um desserviço à compreensão da real dimensão monárquica (e divina) do Papado, abrindo-se flancos para, em breve, algum Cardeal ter a linda idéia de propor um governo colegiado ou repartido entre dois ou mais Bispos de Roma. Se isto não representa um precedente perigoso para a criação de uma Igreja bicéfala, além de um enfraquecimento ainda maior do caráter do Primado de Pedro — já tão diminuído pela colegialidade vaticano-segunda —, não sabemos mais o que pode significar.
No momento em que a nova ordem mundial mostra a sua ojeriza à Igreja e ao Papado, com manifestações públicas as mais vis de repúdio e desrespeito aos católicos; no momento em que a Igreja é humilhada por escândalos de pedofilia, homossexualismo e por evidências de corrupção política e financeira, direta ou indiretamente decorrentes da débâcle doutrinal; no momento em que forças internacionais fazem pressão para a Igreja mudar o seu Magistério; no momento em que, entre os próprios católicos, leigos ou sacerdotes, muitos não crêem no ensinamento tradicional; em suma, num momento gravíssimo como o presente, contemplada de um ponto de vista não mundano, a renúncia de um Papa — sem menção evidente a nenhum motivo sobrenatural — ganha o caráter de simbólica deposição do poder espiritual, que se omite diante da desgraça (em sentido teológico) reinante.
O que virá em seguida, não sabemos. Mas sabemos que só um milagre de proporções gigantescas pode mudar o deplorável quadro eclesiástico atual. A propósito, temos diante de nós a profecia de La Salette, que nos diz “apenas” o seguinte: os sacerdotes serão cloacas de impureza e Roma se transformará na sede do Anticristo. Será agora, com o próximo Papa? Será daqui a 50 ou 100 anos? Repitamos: é impossível saber e nos cabe rezar para cumprir-se a vontade de Deus de forma a iluminar as consciências dos mornos, dos tíbios, dos que aderem a uma cegueira voluntária. Seja como for, o fato é que todos somos chamados pelo próprio Cristo, e também por São Paulo, a ler os sinais dos tempos.
Cada um chegue à sua conclusão.
A lenda do santo desertor
Acrescentemos outra coisa, antes de encerrar. Não deixa de ser irritante, e em alguns casos ridícula, a postura de alguns padres e também de diletantes metidos a teólogos de dizer que o católico verdadeiro não pode criticar a abdicação do Papa Bento XVI — agora na prática ex-Papa, apesar dos malabarismos canônico-dialéticos das autoridades romanas.  E mais: afirmando com ar de sapiência infusa que este foi um “santo ato de coragem e humildade”. Desculpem-me, amigos: acordem da letargia! Saiam da aurea mediocritas de que falava Horácio, aquela atitude que macaqueia o justo meio das virtudes, sem o ser, pois nas sábias palavras de Garrigou-Lagrange a mediocridade é o justo meio hesitante entre o bem e o mal. Assim, se por acaso ainda não temos todos os elementos para emitir um juízo definitivo, todavia nós os temos em grau suficiente para, à luz da Tradição, considerar essa abdicação, da maneira como foi feita, o ato solene que presta um desserviço ao Papado, mesmo inserindo-se no plano da Divina Providência. Como Bento XVI não mudou o discurso até o fim, somente um claro sinal dos céus que o justificasse poderia dar-lhe outra dimensão. Será que o teremos?
Não nos custa aqui aludir a um critério ensinado por grandes teólogos ao falar da importância do conselho como dom do Espírito Santo: assim como a virtude da prudência não se identifica com a pura inação, que aconselha sempre a não agir e a não empreender coisas de importância, a fim de evitar incômodos ou dificuldades —  pois muitas vezes o prudente é avançar, realizar, mover-se ao ataque quando a situação o exige —, assim também os juízos temerários não se dão  apenas nas críticas, sobretudo quando o temerário é calar, omitir. Eles podem materializar-se nos elogios irresponsáveis, aduladores ou cínicos, em ocasiões nas quais o juízo da razão prática não se baseia em nenhuma evidência plausível. Ora, se o critério para não incorrer em juízo temerário, neste caso, é justamente considerar a regra próxima da fé, que é o Magistério, assim como a História da Igreja, temos maior quantidade de elementos para criticar do que para louvar esta renúncia, da maneira como foi feita.
Portanto, o elogio beócio e babão é mais irresponsável e condenável do que a crítica construtiva — e mostremos isto lembrando do ocorrido com Celestino V, único Papa que, a exemplo de Bento XVI, renunciou por vontade própria; todos os demais abdicantes o fizeram premidos por diferentes situações, políticas ou eclesiais. Vale mencionar Celestino V justamente porque alguns, para encomiar o ato de Bento XVI, ficam por aí citando o fato de Celestino V ter sido um Papa santo. Sim, caros, é verdade, mas não foi santo enquanto Papa. Expliquemo-nos melhor.
Primeira observação: dentre os Papas santos, Celestino V é uma espécie de justificada exceção. A sua bula de canonização nos informa que ele foi canonizado como Pedro de Morrone, e não como Celestino V, ao contrário dos demais Papas santos, que foram canonizados com o seu nome papal — como São Gregório Magno, São Leão Magno, São Pio V, São Pio X, etc. Para compreender os porquês disto, remontemos às conclusões de numa série de textos inacabada, sobre Bonifácio VIII (que em breve retomaremos), cujas fontes foram todas apontadas nos respectivos artigos:
Ø  Bonifácio VIII não foi o articulador da renúncia de Celestino V;
Ø  Bonifácio VIII não mandou assassinar Celestino V;
Ø  Bonifácio VIII não mandou torturar Celestino V, que, segundo fontes primárias, se manteve em “honesta reclusão”, levando vida contemplativa até morrer em 19 de maio de 1296;
Ø  Celestino V foi eleito Papa — no que tange aos negotia secularia dos quais Deus muitas vezes se vale, para fazer cumprir os Seus desígnios — graças aos ardis de um político inescrupuloso e à pressão de fanáticos franciscanos de uma linha “espiritualista” e sectária condenada pelo Magistério, dado o seu falso messianismo à Joaquim de Fiore;
Ø  Celestino V, no curtíssimo tempo de seu pontificado, concedeu benesses indevidas a membros da Cúria apaniguados da corte de Carlos II;
Ø  Celestino V colocou injustificadamente homens de Carlos II nos Estados pontifícios;
Ø  Celestino V foi subserviente ao poder político por cujo influxo se elegera Papa, chegando a nomear cardeais indicados por Carlos II e indo residir, por ordem expressa do rei, não em Roma e sim em Nápoles, onde poderia ser melhor manipulado;
Ø  Celestino V queria, como Papa, continuar vivendo vida de anacoreta, algo absolutamente incompatível com as exigências do cargo;
Ø  Logo após a renúncia formal de Celestino V, a família Colonna e os “espirituais” franciscanos tentaram responsabilizar Bonifácio VIII pela abdicação do Papa anterior, e começaram a espalhar que a renúncia fora canonicamente inválida;
Ø  A encarniçada campanha sedevacantista desses sequazes ditos “espirituais” materializou-se na publicação de inúmeros panfletos satíricos contra Bonifácio VIII. Nesses textos, entre inúmeras outras coisas dizia-se que Celestino V continuava Papa, sendo Bonifácio VIII um anticristo usurpador.

Continuaremos a falar de Bonifácio VIII quando retomarmos a série, mas vale dizer uma coisa que nenhum historiador sério da Igreja ignora: a canonização de Celestino V se deu em circunstâncias altamente duvidosas de pressão política da parte do rei Felipe, o Belo. Neste contexto, advirta-se o seguinte: nem de longe estamos afirmando que Pedro de Morrone não tenha sido santo. Também não estamos afirmando que a sua inclusão entre os santos reconhecidos pela Igreja se tenha dado por um processo inválido. Mas não paira a menor sombra de dúvida de que, como ressalta Luigi Tosti a certa altura de sua Storia di Bonifazio VIII e de’ suoi tempi, Pedro de Morrone foi elevado aos altares graças ao empenho tenaz dos inimigos de Bonifácio VIII, os quais por força queriam declará-lo “mártir” e, ao mesmo tempo, inculpar Bonifácio VIII por sua morte. Graças a Deus, o frágil e subserviente Clemente V não chegou a tanto: canonizou o ex-Papa como Pedro de Morrone e não como mártir, e sim como Santo Confessor.
Como a Igreja, ao canonizar alguém, propõe o Santo como modelo a ser imitado, o simples fato de que Celestino V não foi canonizado com o seu nome papal indica que não é um modelo de Papa, embora possa sê-lo com relação a suas virtudes piedosas ou a quaisquer outros fatores de sua vida. Curiosamente, Dante — a quem tantas críticas fazemos, com relação à sua idéia de Igreja — o “condena” ao Inferno (Il gran rifiuto, no famoso verso). Seja como for, caros, se querem elogiar a renúncia de Bento XVI, não o façam aludindo a Celestino V, mascarando o intuito consciente ou inconsciente de, em breve, propor o Papa Ratzinger como mais um beato, a exemplo de João Paulo II e, agora, Paulo VI, cuja beatificação desponta no horizonte...
Por fim, não se ofendam as almas sensíveis ao ler uma crítica firme como esta. Nem Bento XVI nem João Paulo II se escandalizariam com ela; afinal, em diferentes alocuções elogiaram publicamente ao sedevacantista medieval Jacopone de Todi — que os franciscanos consideram beato, com celebração em 25 de dezembro no Martirológio da Ordem dos Frades Menores. E o fizeram apesar de saber o seguinte: Todi é o notório autor das mais injuriosas, infames e imorais sátiras jamais escritas contra um Papa. No caso, Bonifácio VIII, chamado por Todi (e por outros) de coisas como demônio, sodomita, satanista, blasfemo, sacrílego, ladrão...
Quanto a nós, com total respeito à pessoa do Cardeal Ratzinger — hoje Papa emérito, neste incrível "achado" da nova teologia —, apenas estamos apontando para o significado de sua renúncia, à luz de uma visão não mundana, não modernista, não covarde.
Com relação ao que virá a partir de agora, Deus nos proteja e à Sua Igreja. 
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1- “Oggi noi, proprio nella crisi attuale della Chiesa, stiamo sperimentando in modo nuovo la forza di questa memoria e la verità della parola apostolica: più delle direttive della gerarchia è la capacità di orientamento della memoria della fede semplice che porta al discernimento degli spiriti. Solo in tale contesto si può comprendere correttamente il primato del Papa e la sua correlazione con la coscienza cristiana. Il significato autentico dell’autorità dottrinale del Papa consiste nel fatto che egli è il garante della memoria cristiana. Il Papa non impone dall’esterno, ma sviluppa la memoria cristiana e la difende. Per questo il brindisi per la coscienza deve precedere quello per il Papa, perché senza coscienza non ci sarebbe nessun papato. Tutto il potere che egli ha è potere della coscienza”.
2- “Romanus Pontifex, legitime electus, statim ab acceptata electione obtine, iure divino, plenam supremae iurisdictionis potestatem”, can. 219. Entre as várias incongruências do novo Código de Direito Canônico para com a Tradição está a lastimável supressão da expressão “direito divino” no cânon que trata da eleição do Romano Pontífice (can. 332). O giro antropocêntrico instaurado pelo Vaticano II, e por tudo o que doutrinalmente se lhe seguiu, alcançou o Direito Canônico, cujo novo Código inverte os pólos: até então, o direito divino era o ponto analogante máximo em relação a todos os demais direitos, pois se funda no direito absoluto de Deus sobre todas as criaturas, dada a hierarquia ontológica entre elas e a supremacia metafísica d'Ele. Agora, o direito divino é que passa a ser o direito analogado em relação ao direito positivo humano.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O que é conhecer?


Sidney Silveira
Posto aqui um brevíssimo vídeo antigo em resposta à indagação feita por um amigo a respeito do que é conhecer, para uma inteligência humana. Entre outras coisas, destacam-se acima duas propriedades do conhecimento:

a) é a posse imaterial dos entes; e
b) é movimento acidental da potência intelectiva.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Com a magnífica obra-prima!

Sidney Silveira

Ontem, finalmente, tive em mãos o livro que acaba de ser lançado em luxuosa e acurada edição bilíngüe pela editora É: as Questões Disputadas Sobre a Alma, de Santo Tomás — com ótimo preço, dada a qualidade da edição: R$ 59,00.

Estou, pois, lambendo a cria e, em breve, postarei por aqui mais alguns textos sobre o tema da alma em Santo Tomás de Aquino.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Pretensões do neoateísmo cientificista (I), etc.

Sidney Silveira
Novidades:

> Postei neste link do Youtube  um vídeo sobre neoateísmo, para os amigos que nos acompanham verem — se tiverem interesse. É o primeiro de uma pequena série.

> Tenho recebido inúmeros e-mails pedindo-me que comente a abdicação do Papa Bento XVI. Aviso: não farei nenhum comentário público sobre este assunto gravíssimo pelo menos até o dia 28 de fevereiro, data prevista para a sua saída. 

> Aos que estão fazendo o curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo, informo: gravei  vídeos novos, mas estou tentando achar em que pendrive foram parar. Esta semana teremos, enfim, novidades.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Hipnose coletiva: seitas cristãs e caos espiritual e político

Santo Ambrósio impede o imperador Teodósio I de entrar na igreja 
     "O esplendor cativa a inteligência, mesmo quando entrevisto pelo véu das nossas debilidades".
Sidney Silveira                            
Despojar-se do senso de ridículo é um dos traços característicos do demagogo. A sua perseverança na fraude tem como precondições psicológicas certos vícios mentais que o embriagam num universo de certezas invencíveis, sem correspondência na realidade. Noutras palavras: para manter indefinidamente as suas mentiras dolosas, o demagogo precisa antes de tudo enganar-se a si mesmo, despersonalizar-se a ponto de a psique naufragar nas mais violentas neuroses. Para os desatentos, este seu destemor de cair no ridículo acaba passando a ilusória imagem de firmeza de ideais, mas é a ponta do iceberg de uma grave situação espiritual cuja cura só poderia vir pela negação dos falsos princípios de sua avidez de poder.
Ao usarmos a palavra “poder”, semanticamente tão gasta, alguém poderia supor que nos referimos ao demagogo político. Não. Em geral, este vende a sua dignidade por ninharias, satisfaz-se com ganhos materiais e, embora tenha a alma avarenta, é menos daninho que o demagogo religioso, profanador de tradições denominado pela Igreja, em épocas passadas, como heresiarca. É particularmente ao heresiarca neoprotestante que aludimos, homem apaixonado pela firme vontade de conformar o mundo às suas próprias idéias. Na prática, ser adorado por zumbis hipnotizados — ou seja: por gente cuja consciência estilhaçou-se a ponto de perder a natural bússola psicológica do senso comum — é o máximo a que chega esse tipo de demagogo. Seu princípio é o mesmo do demônio d’O Paraíso Perdido, de Milton: “É melhor reinar no inferno do que servir no céu”.[1]Ainda que não creia no céu e faça desta vida um inferno.[2]
Encontrável em todas as épocas, o demagogo religioso prefere viver de confrontos e catástrofes a suportar a desilusão ou o insucesso pessoal. Na verdade, ele é o catastrofista profissional que incute nos ouvintes um permanente estado de pânico ou insegurança, sem o qual não poderia apresentar-se como viés para a resolução dos problemas da sociedade, e pior: para os dramas espirituais e morais daqueles a quem serve de modelo. Este é o caso de inúmeros líderes de seitas evangélicas, tataranetos de Lutero e Calvino. Deturpam a Bíblia com os seus “livres exames” — geradores de uma entropia sem fim, comprovada pela multiplicação ao infinito das agremiações “cristãs” — e se valem de interpretações pessoais da Escritura para crescer no mundo.
Alguns deles justificam a sua riqueza pela ação benemérita de hipnotizar os fiéis com técnicas de neurolingüística, e, protegidos constitucionalmente pelo princípio liberal da liberdade de culto, vigente no Ocidente outrora católico, não pararão de crescer em número até o final dos tempos. Sob quaisquer aspectos, equiparar esses grupos à Igreja Católica Apostólica Romana, formadora da cultura ocidental no que teve de melhor e de mais elevado, é piada ou má-fé; se eles hoje tomam a dianteira na defesa de alguns itens da lei natural, dada a defecção da Igreja no plano político, é antes o signo da omissão espiritual daqueles que preferem dialogar a ensinar as verdades em matéria de fé e costumes. É signo também da degeneração na formação filosófica e teológica nos seminários católicos, circunstancialmente incapazes de formar inteligências aptas a responder ao cientificismo contemporâneo, ao ateísmo militante e aos slogans da nova ordem mundial ecumenista e laicista, já assentada em seus princípios.
Na escalada rumo ao sucesso, o líder neoprotestante precisa, antes de tudo, de um núcleo de seguidores, ou seja: de uma camarilha. Ele estabelece periódicas reuniões ritualísticas, que depois ganharão forma semelhante à de um culto; bola uma hierarquia que contemple a ascensão gradual dos iniciados, com prêmios proporcionais aos ganhos de novos adeptos e à manutenção dos antigos; cria celebrações de datas, para congregar as consciências em torno dos objetivos do grupo; busca certificar-se pessoalmente da lealdade dos seus subordinados imediatos; e incute nos fiéis excêntricas esperanças de prosperidade, invertendo o pólo do ensinamento tradicional da Igreja, para o qual a prosperidade, na melhor das hipóteses, sempre foi instrumento, e não um fim a ser buscado. Ou por outra: neste mundo, a prosperidade é mais temível que amável, pelo perigo de tornar-se empecilho à vida cristã. Por este motivo ressaltava Santo Tomás, em seu Contra Impugnantes, o quão honorável é desprezar os bens temporais, “para o espírito livrar-se da solicitude das riquezas”.[3]
É óbvio que não se trata de apologia do pauperismo, no sentido de todos serem vocacionados ao voto de pobreza, pois, como diz Tomás de Aquino no mesmo livro, “a pobreza forçada leva consigo muitos perigos, que estão distantes de quem assume a pobreza voluntária”.[4] Trata-se, isto sim, de grave advertência feita reiteradas vezes pelos Doutores e pelo Magistério: a de que a apetência por abundância produz freqüentemente um distanciamento da justiça. Não por outra razão, pregava Santo Ambrósio a seus alunos e dirigidos espirituais: em si mesmas, as riquezas não prestam serviço algum para uma vida feliz (nullum adminiculum praestant divitiae ad vitam beatam).[5] Duras palavras para o espírito liberal protestante, ou para o católico protestantizado litúrgica e doutrinalmente.
Voltemos ao nosso demagogo. O seu egocentrismo radical o torna incapaz do amor que é a fonte primária de todas as paixões da alma. Tal homem só consegue enamorar-se das próprias idéias e não reconhece nenhuma autoridade exterior; portanto, quando imiscuído nos assuntos atinentes a Deus, sentirá a incoercível necessidade de fundar a sua religião, o que requererá certa capacidade de convencimento. Astuto, compreende logo que não se deve incutir no subconsciente dos seguidores mais de um inimigo por vez, para mantê-los numa tensão sempre presa a um ponto central de combate, sem dissipar a mente à vista de muitos objetivos. Para alcançar este fim, apela a certo virtuosismo retórico, possui frieza calculista, tem noção tática dos movimentos a realizar, conhecimento de algumas técnicas de lavagem cerebral e capacidade de transformar eventos corriqueiros em catástrofes metafísicas. E, é claro, prega em nome de Cristo e vive a citar “a autoridade da Palavra”.
Não tenhamos nós meias palavras: só é possível chamar um líder neoprotestante de “teólogo” por meio de analogias forçosas, a menos que confundamos a elevada ciência teológica — a um só tempo sabedoria especulativa e prática — com bate-bocas entre rufiões que vivem a citar a Bíblia na exata proporção em que são incapazes de raciocinar retamente, assim como de inteligir as verdades mais excelsas da ordem do ser. Ora, o esplendor cativa a inteligência mesmo quando entrevisto pelo véu das nossas debilidades, mas com uma advertência: no caso dos próceres dessas facções evangélicas herdeiras de Lutero, que salpicam no tecido social como catapora, falta não apenas o sentido maior do mistério; falta-lhes acima de tudo a Eucaristia, fonte da vida verdadeiramente cristã, raiz da graça sacramental e, portanto, de luzes divinas para a inteligência e de forças suplementares para a vontade afastar-se dos pecados mais graves.
Muitos católicos formados na mentalidade pós-conciliar põem sua esperança em esforços políticos pan-cristãos para combater a new order, ou seja, que congreguem essas forças evangélicas e a de leigos católicos (já que, para eles, a hierarquia da Igreja serve para tratar de coisas internas e ratificar magisterialmente o sentir comum dos fiéis). Não se importam com o fato de que a existência do inimigo comum de hoje só se tenha tornado possível graças ao esfacelamento do cristianismo — cuja evidência está bem à sua frente, materializada nessas incontáveis agremiações que levam o nome de cristãs, renegam a sucessão apostólica, o Magistério e os dogmas. E pior: cujo crescimento em progressão geométrica depende da tibieza ou da carência de apostolicidade numa Igreja que, nas últimas décadas, cedeu à tentação do ecumenismo e à da “sã” laicidade, assim como a um lânguido mau gosto estético, na música, na arquitetura, na liturgia. A propósito, como as escolhas neste campo dependem do papel que se atribua à política, boa sorte a vocês!
De nossa parte, preferimos ficar acantonados na defesa do Magistério tradicional e na divulgação de filósofos e Doutores da Igreja, de acordo com nossas parcas possibilidades e exíguos meios materiais. Preferimos a derrota pessoal, manifestada pelo desdém de falsos amigos e pelo fracasso financeiro. Preferimos a solidão. Preferimos a incompreensão. Preferimos o ostracismo político e a murmuração dos nossos pares. E se, circunstancialmente, somos levados a defender pontos em comum com líderes evangélicos, tomamos o cuidado de jamais fazer parecer que firmamos com eles qualquer tipo de aliança; trata-se, tão-somente, de ações tópicas e coincidentes numa situação de extrema gravidade, o que não representa união política e muito menos espiritual, mas mero senso de sobrevivência, sempre acompanhado da clara consciência de que o espírito liberal do qual surgiram e que os sustém é a fonte comum da descristianização do Ocidente.
Perdoem-nos os queridos amigos católicos tarados pela unidade e os otimistas linhas-médias, mas em tão grave matéria a história da Igreja nos mostra o seguinte: de concessões em concessões, acaba-se por fazer do mal menor político o pior dos males espirituais — o que impede a regeneração mesma da política. Como dissemos noutra oportunidade, quando o mal triunfa, não se resolvem problemas políticos por meio da política, mas apelando aos princípios civilizacionais sem os quais sequer poderia haver política. Em palavras simples e diretas, resolvem-se pela reinserção das verdades divinas entre as coisas humanas.
Antes de encerrar, façamos uso de uma analogia para explicar isto. De acordo com a escola tomista, a vontade de Deus é incomovível, ou seja, é imutável porque se identifica em absoluto com o Seu Próprio Ser. Por isso, é impossível que seja movida por algo externo — quer dizer: por qualquer criatura. Assim, as nossas orações não têm o condão de mudar a vontade de Deus, visto que esta não se inclina nem metafisicamente se move; quando, pois, uma prece é atendida, é a nossa vontade que se deifica e se une à d’Ele. Conforme destaca lindamente o Pe. Garrigou-Lagrange na obra-prima As Três Idades da Vida Interior, passamos então a querer, no tempo, o que Deus quis desde a eternidade. Assim também, nas épocas de caos espiritual as leis humanas só podem mudar beneficamente a política se se conformarem à Lei eterna. Por isso, acordos políticos fora da fé ou da doutrina não nos interessam; seus efeitos são deletérios. Embora possa haver coincidência na defesa comum da lei natural, aqui e ali.
Por fim, cabe uma advertência importantíssima: não nos referimos aos fiéis evangélicos, a grande maioria dos quais estaria na Igreja se os ventos pós-conciliares não tivessem aberto flancos para a multiplicação das seitas. Entre estes, há gente boníssima, piedosa e que busca sinceramente a Deus, mesmo numa situação de ignorância invencível com relação às verdades de fé, cuja regra próxima é o Magistério da Igreja. Referimo-nos a seus líderes,  inventores de novas religiões cristãs que, na prática, demonstram repugnância voluntária pelo bem espiritual superior. Parecem-nos claramente dirigidas a eles as duras palavras de Cristo, ao ouvir dizer que falaram em Seu nome:
“Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt. VII, 23).
Sejam quem forem estes homens mencionados por Nosso Senhor, não lhes restará outra coisa senão cair numa salmodia blasfematória e sacrílega, da qual será impossível sair. 

Signo perfeito do ódio eterno dos réprobos.
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1- O Paraíso Perdido, Livro I, 260-265.
2- Hitler encarna bem o tipo, e antes que alguém aponte contradição com o fato de afirmarmos não nos referir ao demagogo político, digamos desde logo: o nazismo foi, acima de tudo, um movimento gnóstico que se valeu da política e de circunstâncias históricas para impor-se como religião do misticismo do sangue baseada num prometéico pan-germanismo pagão. 
Alguns de seus principais inspiradores foram:
Ø  Jörg Lanz, grão-mestre da ordem ocultista Ordo Novi Templi, renegado monge cisterciense para quem a idade de ouro da humanidade ressurgiria pela supremacia do sangue ariano. O insano eugenismo de Lanz foi seguido à risca pela SS nazista, assim como vários outros “conselhos” de seu jornal Ostara (colecionado por Hitler), que não vale a pena enumerar;
Ø  o necromante racista Guido Von Lizt, com suas “visões” do passado em que fora iniciado nos ritos de antigas tribos teutônicas. Para Lizt, as runas encerravam um alfabeto de símbolos mágico-esotéricos (usados à exaustão pelo nazismo) e a suástica era o signo da vitória do homem ariano;
Ø  a teósofa telepática Madame Blavatsky, que, em A doutrina secreta, descreve a supremacia da raça ariana e pontifica: ela será única no planeta, em detrimento de todas as demais. A sua doutrina dos “eleitos ocultos” (a Grande Irmandade Branca) teve influência na formação da mentalidade de elites alemãs que, mais tarde, cerrariam fileiras entre os nazistas; e
Ø  Houston Stewart Chamberlain, autor do inacreditável Os Fundamentos do Século XIX, inspirado em alguns “místicos” anti-semitas. Se, para Marx, a chave para a compreensão da história era a luta de classes, para Chamberlain era a ascensão e posterior queda das raças. Para ele, a mente alemã guiaria os povos de sangue ariano à dominação do mundo. Já bem idoso, após encontrar-se com Hitler na casa que fora do compositor Richard Wagner, escreveu Chamberlain com intenções proféticas: Hitler é um grande “criador”; o homem que salvará a situação numa hora de extrema gravidade.
3- Tomás de Aquino, Contra Impugnantes Dei cultum et religionem, c. 6.
4- Tomás de Aquino, Op. cit., c.6.
5- Ambrósio, De Officiis, II, c.4, n. 15.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O link para compra pela internet das "Questões Disputadas sobre a Alma"

Sidney Silveira
A editora É acaba de colocar o link para a compra pela internet da obra "Questões Disputadas Sobre a Alma" — que custará R$ 59,00. Os interessados devem acessar http://www.erealizacoes.com.br/ecom/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=1409, onde podem colocar no carrinho de compras o livro e ter acesso a informações técnicas.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A beleza da mulher e o reino do inteligível

 Psique abre a caixa de Perséfone
“A mulher bela é uma presença que se impõe à inteligência e aos sentidos de maneira visceral".
Sidney Silveira                                                                                
Tal é o esplendor das coisas belas, que deparar com elas inunda as potências superiores da alma humana, com marcantes reflexos também no plano sensitivo: mudança no padrão dos batimentos cardíacos, elevação da pressão sanguínea, benéficas alterações químicas no sistema neurotransmissor, aguçamento da visão, que se compraz na percepção da harmonia, etc. Entre o espírito e a beleza existe certa conaturalidade metafísica, em virtude da manifestação dos aspectos transcendentais do ser (como unidade, integridade, simetria, inteligibilidade e esplendor formal) passíveis de ser identificados em qualquer ente que esteja no pleno ato de sua perfeição ontológica.
O impacto resultante do contato da inteligência com a beleza invade o universo onírico, contagia a imaginação, aguça a memória, potencializa os sentidos, atiça a vontade. Noutras palavras, todas as instâncias do ente humano são afetadas pela visão das coisas belas, quando percebidas como tal, ou seja: trata-se de uma relação que pressupõe pró-atividade do espírito, sem a qual não se sairia da inércia típica dos momentos em que o homem não presencia a beleza, ou então quando esta simplesmente inexiste. Em suma, até para perceber o belo das coisas sensíveis é necessário adentrar o reino do inteligível, ainda que de forma rasa — caso de gente embotada a quem escapam as minúcias e sutilezas que tornam a beleza mais bela.
O êxtase, neste mundo, é uma exceção na vida das pessoas por duas razões principais:
Ø  ou a inteligência humana se debilita por conta de obstáculos psicológicos, gnosiológicos e morais, que a impedem de se maravilhar tanto quanto poderia;
Ø  ou se vê diante de coisas feias e deploráveis, que a narcotizam.
Poderíamos acrescentar a circunstância de o homem se encontrar — na maior parte de sua existência terrena — entre coisas nem bonitas nem repugnantes, mas excluímos esta hipótese pelo seguinte motivo:  em verdade, neste caso trata-se de uma espécie de astigmatismo espiritual que o faz ver o mundo por meio de refrações enganadoras, as quais lhe desfocam a percepção. A beleza está diante dele, preciosa e radiante, mas ele é incapaz de dar testemunho dela, pois, como o personagem acorrentado ao fundo da Caverna de Platão (livro VII da República), vê espectros da realidade e não alcança a instância metafísica em que radica.
Santo Alberto Magno, em seu comentário ao De divinis nominibus — obra do místico neoplatônico Pseudo Dionísio Areopagita —, define a beleza como “esplendor das formas substanciais ou acidentais visto em suas partes materiais que revelam proporção e medida”.[1] O Doctor Universalis não considerava a beleza como um dos transcendentais do ser, talvez por enfatizar como uma de suas características essenciais a “boa disposição entre as partes”. Ora, isto exclui do universo da beleza os anjos, entes sem matéria em sua composição entitativa e, portanto, sem partes, assim como Deus, perfeição simplíssima sem composição de espécie alguma.
Por sua vez, Tomás de Aquino, discípulo de Alberto, enfatizava: Deus, primeiro princípio ativo universal da ordem do ser, é ato supremo e, por conseguinte, maximamente perfeito.[2] Sendo assim, em Deus se encontra a razão de beleza, na medida em que o ser é a precondição fundamental de qualquer beleza, e Deus é o ser perfeitíssimo – do qual pendem as perfeições das criaturas. Todas as belezas são, pois, partícipes da omniperfeição divina, e tão mais belas serão quanto melhor a espelharem.[3] Deus é, para o Aquinate, beleza mensurante, ao passo que as criaturas são belezas mensuradas, pois Ele” é belo em si mesmo e não sob um particular aspecto; (...) é belo sempre e uniformemente, e d’Ele se exclui qualquer defeito quanto à beleza, a começar pela mutabilidade, que é o seu primeiro defeito. (...) Deus é a causa da beleza em todas as criaturas; suas irradiações são “pulcríficas” (ista traditiones sunt pulchrificae)”.[4] Ou seja: Ele embeleza as coisas emprestando-lhes certo fulgor.
Entre os entes compostos de matéria e forma, a beleza da mulher sobeja. Não à toa, “formosura” é a expressão que cabe, com grande precisão semântica, à mulher bela, muito mais do que ao homem ou a qualquer outro ente belo. Tendo a mesma natureza corpóreo-espiritual do homem, a mulher – no tocante ao aspecto material-sensível de que fala Santo Alberto Magno em seu conceito de beleza –, quando é linda, torna-se capaz de causar eventos cataclísmicos. Por ela perdeu-se Tróia; por ela Otelo tornou-se um criminoso; por ela o mitológico deus Eros se apaixonou, e Afrodite, sua mãe enciumada, teve inveja e decidiu vingar-se; induzido por ela caiu o homem em pecado. A mulher bela é uma presença que se impõe aos sentidos e à inteligência de maneira visceral; difícil é não olhá-la, difícil é não ser atingindo, como por uma flecha, pela imagem viva que ela deixa na alma de quem a vê. Difícil é, diante dela, não se reduzir ao silêncio, modo próprio de contemplar a beleza.
Partimos da pressuposição teológica de que o homem, no presente estado de natureza decaída pelo pecado, não está espiritualmente preparado para receber a beleza. E nem para possuí-la, no sentido metafísico do termo. No primeiro caso, despertam-se a inveja e a cobiça e se acendem as paixões; no segundo caso, tende-se à vaidade desmedida e à jactância, que dela decorre. Daí a beleza despertar contendas, ciúmes, desconfianças, mortes e, não raro, solidão. Assim sucedeu com a linda pastora Marcela, no monumental Dom Quixote — moça que, ao ser vista, fazia os homens bendizer a Deus. Nas palavras de Cervantes, a jovem de beleza invulgar “causa mais danos nesta terra do que se por ela entrasse a peste, porque sua afabilidade e formosura atraem os corações dos que com ela convivem, fazendo-os servi-la e amá-la; mas seu desdém e desengano os conduz ao extremo do desespero”.
Por ela suicidou-se o desvairado Crisóstomo, mas, no enterro deste, para defender-se Marcela admoesta aos presentes que a culpavam pelo ato do pobre homem:
— Assim como não tem culpa a víbora pela peçonha que traz, embora mortífera (...), assim tampouco mereço ser repreendida por formosa, porque a formosura, na mulher honesta, é como o fogo distante ou a espada afiada: nem ele queima, nem ela corta a quem não se lhes aproxima. A honra e as virtudes são adornos da alma, sem as quais não deve o corpo parecer formoso, ainda que o seja. E se a honestidade é uma das virtudes (...), por que há de perdê-la quem é amada por formosa, apenas para corresponder à intenção dos que, por capricho e usando de todas as forças e indústrias, deseja que a perca? (...) Se a Crisóstomo matou sua impaciência e arrojado desejo, por que se há de culpar o meu recatado e honesto proceder?
Esta passagem de Cervantes (Dom Quixote, livro I, cap. XIV) nos remete à crise habitualmente suscitada pela beleza neste mundo espectral — tão carente dela nos corações humanos. Em resumidas contas, a beleza física tende a ofuscar a beleza espiritual e fazer-nos enxergar a realidade pelo avesso. Esta é uma das causas da impossibilidade de amarmos perfeitamente nesta vida: sequer conseguimos aquilatar a beleza em seu real valor e profundidade, como inserida numa hierarquia de belezas materiais e espirituais cujo cume é Deus, o Próprio Ser, que, como vimos, é a razão de beleza sem a qual nada poderia ser dito propriamente belo, pois são de empréstimo as belezas deste mundo submetido ao movimento e à corruptibilidade.
A mulher bonita — por ser fulgurante e agradar à vista de maneira às vezes irresistível — parece-nos o ponto de inflexão propício para buscarmos uma razoável analogia para o trânsito da fruição das coisas sensíveis às inteligíveis, ou melhor: da fruição do inteligível no sensível. Não nos referimos, aqui, às precondições para algo ser dito belo, assinaladas no primeiro parágrafo, mas à necessidade de buscar um ponto arquimédico que nos forneça anticorpos para suportar a beleza, compreendê-la como dádiva divina, e não ficar sob o seu jugo. Platão conseguira indicar um caminho no Banquete, onde Eros está para as apetências humanas assim como as realidades matemáticas estão para a vida do espírito. Ali, é evidente a necessidade de ascese interior, para que as coisas sejam amáveis de acordo com a sua importância na escala dos bens que há na realidade.
Mas demos um passo adiante, para consignar o seguinte: para apreciar a beleza sem perder-se por ela, é preciso vestir-se com a armadura da virtude chamada pelos cristãos de castidade. Pureza interior é precondição para o entendimento das belezas exteriores (incluídas aqui as belezas noéticas e as produzidas pela arte), pelo menos se não pretendemos reduzir a beleza a seu aspecto visível radicado na matéria. Neste último caso, acaba-se não apenas por não compreendê-la, mas sobretudo por distorcê-la a ponto de transformá-la numa coisa esquisita, artificial, forçada. Modelos anoréxicas que hoje são estampadas nas capas das revistas — com a boca entreaberta fazendo cara de sagüi excitado — nos dão uma caricata mostra disso.
O sentido maior da castidade foi enfatizado por Santo Tomás ao lembrar-nos o seguinte: se, no homem, a atividade intelectual consiste na abstração das imagens das coisas sensíveis, “quanto mais o intelecto se libere dessas imagens (...), tanto mais se tornará capaz de considerar devidamente os inteligíveis e ordenar os sensíveis”.[5] Em síntese, em si mesma, a beleza está no plano inteligível, mas não como forma arquetípica subsistente, ao modo platônico, e sim como conquista da inteligência na inquirição das coisas — com exceção da beleza de Deus, a qual se identifica em sentido absoluto com o Seu ser imaterial e está muito além da capacidade humana de conhecimento, pois somente um intelecto infinito poderia conhecer o que é de per si infinito.
Neste contexto, diga-se que a alma casta está em vantagem não apenas para apreciar a beleza em sua real dimensão, mas também para possuí-la sem se deixar cair na vaidade ou sucumbir à cobiça desenfreada dos homens, como nos dá exemplo a linda pastora Marcela, no clássico Dom Quixote.
Caluniada pelos que a desejaram, odiada pelos que rejeitou, mas justa, honrada e livre, como um arquétipo da verdadeira beleza.[6]
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1- Alberto Magno, Super Dionysii De divinis nominibus, q. 5
2- Cfme. Suma Teológica, I, q,4, art 1, corpus.
3- Certamente, o ateu há de negar o fato de em Deus dar-se a ratio da beleza, em relação à qual todas as demais belezas são relativas. Mas como o ateísmo é a patologia que tem por fundamento uma negação aporética e contrária ao senso comum, e a sua cura se dá ou por milagre ou pela paciência bíblica de algum sábio e santo homem que explique ao ateu as razões pelas quais não pode haver ruptura no ser — e que todas as coisas da realidade são contingências metafísicas que pressupõem a indefectibilidade de um ser superlativamente perfeito e infinito —, deixemo-lo por ora de lado. Ele não é objeto do presente texto, embora valha a pena lembrar o seguinte: por mutilar culpavelmente a própria inteligência, o ateu é alguém dotado de reduzida capacidade de extasiar-se perante as coisas belas. Ele tenderá a instrumentalizá-las, em vez de fruí-las naquilo que têm de sublime.
4- Tomás de Aquino, In Div. Nom., IV, lectio 5.
5- Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 15, art.3
6- Alguns cervantinos ressaltaram a ambivalência da pastora Marcela, chegando a ver nesta personagem do Quixote uma feminista avant la lettre. Preferimos ficar com aqueles para quem Marcela representa o ideal da beleza que, sendo livre, não se deixa prender pelos laços das paixões e desvarios humanos.