domingo, 20 de janeiro de 2013

Quarto vídeo no ar

Sidney Silveira
Já está no ar o quarto vídeo referente à Primeira Aula do curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo. A demora em inseri-lo deveu-se a alguns problemas técnicos, que não pudemos sanar de todo. Assim, o áudio está com a qualidade um pouco inferior à dos outros vídeos; pareço o Romário falando, meio sibilante. Mas dá para ouvir muito bem; depois, se preciso, resolveremos este problema.

Em breve, o primeiro vídeo da segunda aula — da qual disponibilizei um trecho noutra postagem do Contra Impugnantes — também estará no ar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pequeno aviso e pedido

Sidney Silveira
Aos amigos que estão fazendo o curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo: o Fórum foi acionado e vocês podem comunicar-se comigo por lá. É melhor do que pelo meu e-mail, pois neste caso há o risco de a mensagem perder-se em meio a outras que nada têm a ver com o curso.

Peço, portanto, que se comuniquem por lá. Responderei às questões no próprio Fórum ou no decorrer de outros vídeos.

Abraço a todos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A alma do liberalismo



Vimos um camelo a dançar.
(Camelum vidimus saltitantem.)

São Jerônimo
Contra Helvídio, XVIII, 226

Sidney Silveira
O liberal militante, em seu vertiginoso afã de liberdade, é como um louco que, valendo-se dos argumentos da mímica circense, pretendesse convencer ao seu psiquiatra de que os cachorros são livres para miar, e os gatos para latir. O fato de que isto jamais se dê na realidade é mero detalhe; um tanto incômodo, decerto, porém sem maior relevância perante a omnímoda liberdade de consciência que o liberal crê existir, a qual o induz a discorrer sobre várias idéias sem jamais remontar aos fundamentos das premissas implicadas.
A comparação acima nos serve para apontar o fato de que o liberalismo, em qualquer de suas correntes — e estamos falando de uma hidra multicéfala — não é propriamente uma teoria, mas o espírito engendrador de mil teorias. Um espírito de negação dos princípios da ordem do ser, que, apelando a uma maliciosa profilaxia, fecha culpavelmente os olhos para o arcabouço metafísico que impugnaria as suas teses religiosas e políticas, assim como parte das econômicas.
É, portanto, a coisa mais comum do mundo ver um liberal fugir às definições essenciais como o diabo foge da cruz. Tanto a precisão conceptual como o raciocinar a partir de princípios universais parecem atentar fragorosamente contra a sua liberdade de consciência. E não se atreva ninguém a insultar um liberal pedindo-lhe que defina — com rigor mínimo — os termos “liberdade” e “consciência”: em alguns casos, ele se defenderá dizendo que não se trata de filosofia, sem perceber que com isto invalida in nuce as próprias teorias; noutros, manterá a opinião mesmo diante das mais avassaladoras objeções. Seja como for, incomoda-o letalmente o fato de que, para pensar com retidão e organicidade, é preciso vencer o problema básico da relação entre nomes, conceitos e coisas. Superar os termos equívocos.
A Torre de Babel é o seu altar-mor, epítome da natureza humana que pretende chegar a Deus orgulhosamente por esforços próprios, sem o auxílio luxuoso da Graça. E por isso se perde na multiplicidade, no caos, numa espécie de dissenso plurânime que, invertendo a ordem dos bens, pretende fazer da liberdade uma meta política, sem imaginar que, como diz o tomista Jorge Martínez Barrera no livro A Política em Aristóteles e Santo Tomás, “a liberdade não pode ser o fim de uma comunidade política moralmente aperfeiçoadora porque tal comunidade só existe quando as ações que a conformam são atos, e não potências”, e a liberdade, no vocabulário técnico da filosofia, é um conceito afim ao de potência: é liberdade de algo e para algo. A liberdade está para a paz social, que é o bem das comunidades humanas, assim um instrumento está para o fim a que se destina.
Fazer da liberdade a finalidade conformadora da política foi o fogo prometéico com que o liberalismo seduziu os homens. Fogo que gerou a babel de teorias políticas, de seitas, de partidos, de teses econômicas, de sociedades secretas, etc., que o liberalismo é pródigo em gerar. Assim, embora em clave distinta da assinalada por Barrera, diz com total acerto Olavo de Carvalho que nenhuma teoria política séria pode tomar como princípios fundantes as idéias de “liberdade” e “propriedade”. Somos compelidos a assinar embaixo.
Eximindo-se, pois, de explicar amiúde termos centrais que servem de pano de fundo para as suas teorias, o liberal militante sente-se livre como um cavalinho de carrossel a saltar sobre quimeras. Neste sentido, o liberalismo (repitamos: em qualquer de suas inúmeras correntes!) é uma peculiar forma mentis cuja loquacidade é proporcional à ambivalência — ou mutivalência — de que se vale. Em tão sombrio contexto, cumpre-nos dizer que a supremacia desse espírito de negação dos princípios que é o liberalismo só foi possível graças ao colapso, no terreno ético-político, da noção cristã de Summum Bonum, como apontou José Guilherme Merquior no livro O Argumento Liberal. Apenas esqueceu-se de dizer Merquior que tal colapso só se consolidou a partir do paleoliberalismo do final do século XVIII e começos do XIX. Em breves palavras: o liberalismo é concausa da perda da noção cristã de Sumo Bem no plano político, e não a sua conseqüência.
Se aristotelicamente explicamos a um liberal que a liberdade (a verdadeira, que radica na vontade e se materializa nas escolhas, e não tem como fonte a consciência individual) acontece apenas em relação aos meios, pois os fins já nos estão dados, ele trinca os dentes. Reiteremos isto com outros termos, a título de procedimento mnemônico: em toda e qualquer natureza, não há liberdade com relação aos fins, e quando estes não se cumprem significa que a natureza se desnaturou: é o caso da figueira estéril do Evangelho, de um olho que não vê, de um pé que não anda, de um homem que habitualmente não diz a verdade. Trata-se de naturezas malogradas, ou seja, que apresentaram defeito nalguma das propriedades emanadas de sua essência.
Os limites da liberdade estão circunscritos, pois, pela forma entitativa, que é princípio de operação. Voltar-se contra as potências inscritas na própria forma é a “prerrogativa” do ente humano à qual o cristianismo chamou de pecado. Em nenhum outro ente natural composto de matéria e forma é possível agir contrariamente à sua própria natureza; no máximo, esta se degrada pelo princípio de corruptibilidade material, que pode chegar ao ponto de destruir a forma, caso por exemplo da morte. O homem é o único ente capaz de degradar a própria forma antes de corromper-se a matéria. Podemos por aí dimensionar que o pecado é uma derrota metafísica, e nela se corrompe a vontade, potência onde reside a liberdade. É claro que o liberal, homem pragmático, não está preocupado com tais sutilezas de ordem teorética. Deixemo-lo contemplar cágados voadores e saborear um pouco mais o fruto proibido.
Conceito afim ao de potência, e não ao de ato, como acima dissemos, a liberdade manifesta-se na escolha amorosa e ordenada do bem. Ou, noutra formulação: o bem — no plano metafísico, assim como no político — é o fim da liberdade, sendo o amor o ato livre da vontade na escolha efetiva do bem. Em suma, o amor é o ato livre por excelência, desprovido de amarras de quaisquer naturezas; porém se trata de um ato sui generis, que, se se realiza fora do fim ao qual tende a potência que o possibilita, a derroga e se anula. O problema do liberal militante é que, em geral, está incapacitado para compreender que não há genuína liberdade sem amor (mesmo mantendo-se a faculdade de escolha, pois liberdade é mais que livre-arbítrio, como veremos), e o amor pressupõe o bem e a verdade. Comunidades de satanistas ou de nazistas, por exemplo, só podem dizer-se “livres” por uma torta analogia, pois são fundadas no erro e no desamor, que matam a liberdade e escravizam o homem.
Em resumidas contas, a liberdade é potência para a felicidade, e só se pode realizar plenamente no ato que a especifica: a posse do bem na deliberação devida da ordem de bens que há na realidade. E a ordem, no plano natural, tem a pessoa humana no ápice; e, no plano sobrenatural — que é a sua razão de ser, pois o natural ordena-se ao sobrenatural como a seu fim próprio —, tem como fim a Deus, criador e mantenedor de todos os bens, fonte perene da felicidade. A propósito, o pecado de Lúcifer, segundo Santo Tomás, foi não deliberar, ao amar-se de maneira desordenada, a respeito do bem sumamente perfeito e amável, que é Deus, e com isto subtraiu-se à ordem e se danou. Tendo sido criado livre, Lúcifer perdeu formalmente a liberdade que Deus lhe outorgara para ser feliz, restando-lhe um arremedo de livre-arbítrio que não lhe permite sequer sair do ódio e da maldade em que jaz. Dotado de poderosíssima inteligência, anuiu ao mal com plena ciência, sofrendo como pena, ipso facto, a perda da liberdade, em seu real sentido metafísico.[1]
Reiteremos o seguinte: não existe liberdade fora do amor (êxtase da potência volitiva) e da verdade (êxtase da potência intelectiva). E frise-se que não tomamos liberdade e livre-arbítrio como conceitos unívocos, pois, como dizia Santo Agostinho, livre-arbítrio é a faculdade de escolha entre isto ou aquilo, entre o bem ou o mal, etc., ao passo que a liberdade — repitamos, agora com o Doutor da Graça — só se pode lograr na escolha consciente e amorosa do bem. Para ficar ainda mais clara a formulação: não somos livres porque escolhemos, mas escolhemos porque somos livres, pois a liberdade é, ontologicamente, anterior às escolhas pelas quais se manifesta; é o horizonte possibilitante delas.
Como a liberdade implica o uso da inteligência, a qual nos faculta mensurar as escolhas a partir da apreciação dos dados, chegamos a outra definição: liberdade é potência para o bem apreendido retamente pela inteligência. Radica na vontade, que tem sobre a inteligência superioridade acidental no operar, pois a vontade move todas as demais potências no ato de escolha, mas inferioridade essencial quanto ao ser, pois a vontade nada seria sem a inteligência. A absurdidade de qualquer posição voluntarista está em que não leva em conta um fator decisivo: a moção primordial da inteligência sobre a vontade se dá com relação à forma intelectiva do bem, e não quanto a este ou àquele bem particular, o qual sequer poderia ser apetecido pela vontade se a inteligência não lhe tivesse subministrado o conceito de bem.
Sem compreender estes e outros princípios, o liberal pode eventualmente transformar-se num economista competente em apresentar fórmulas para aumentar a reprodutibilidade dos bens materiais no seio das sociedades, como foi o caso de Mises. Mas ocorre o seguinte: faltam-lhe critérios objetivos de moralidade, razão pela qual sucumbe, na melhor das hipóteses, ao formalismo das morais categóricas e utilitaristas. Ademais, o mercado é o idolatrado bezerro de ouro do liberal; além dele, da consciência e da liberdade, quase tudo é subjetivo e está no plano individual. É como se o indivíduo fosse, ao modo de Protágoras, a medida de todas as coisas. Infelizmente, o liberalismo não consegue superar as aporias das brumosas definições de “consciência” e “liberdade” que vai perpetrando, em suas incontáveis correntes. Se porventura o liberal ouve que, para Santo Tomás, o limite da propriedade é o bem comum, desmaia de indignação.
Estas são razões por que o liberal habitualmente tenta apagar as pegadas de sua inconsistência basilar, nas perspectivas moral e gnosiológica. Trata-se de um prestidigitador que procura convencer as pessoas de que, para as suas teorias ficarem de pé, não é preciso apelar a princípios metafísicos. Isto ocorre sobretudo quando o liberal é repetidor das teses de seus mestres; neste caso, ele pula sobre os tamancos quando, por exemplo, lhe mostramos que a praxeologia de Mises padece de uma confusão entre eudaimonismo e hedonismo, e mais, que os atos propriamente humanos não podem ter como base a fuga do desconforto, como pensava o economista austríaco. Mas quando este pontifica, na Ação Humana, que a teologia cristã “condenou as funções animais do corpo humano e definiu a alma como algo externo aos fatores biológicos”, digamos, sem matizações, que está perpetrando uma calúnia...
Vale registrar o seguinte: por trás da imensa maioria dos liberalismos — sejam políticos, econômicos ou cristãos — vemos a sombra da moral de John Locke, cujos esforços mais persistentes, como lembra o meu querido amigo tomista Luiz Astorga, centraram-se na tentativa de inverter o conceito clássico de natureza, atomizá-lo, individualizá-lo. A moral lockeana é aquela em que o conteúdo inteligível da lei natural se transforma num vácuo hediondo. Daí que o laicismo, apelidado pelo católico liberal de sã laicidade, e o ecumenismo, na forma do indiferentismo religioso, sejam pressupostos da Carta sobre a Tolerância de Locke grandemente assimilados pelos liberais; pressupostos estes de um mundo em que a lei natural, como espelho da lei eterna, não existe. É absurda.
Ora, sem a noção correta de lei natural a queda no utilitarismo é automática, e pior: num utilitarismo materialista, embora de maneira disfarçada na obra dos liberais mais competentes. Seja como for, não existem propriamente direitos naturais para um liberal de boa cepa, e quando este eventualmente defende a existência da lei natural é com tantos conceitos equívocos que, em verdade, parece falar de outra coisa. Na verdade, o utilitarismo de Locke — que chegara ao ponto de considerar o direito de herança como o laço que une as famílias! — foi passado a seus descendentes liberais com variantes mais ou menos aporéticas.
Tais idéias fizeram escola no liberalismo, que se deblatera contra o Estado mas no fundo não consegue transcendê-lo, malgrado o considere útil na medida em que proteja a propriedade e garanta o atendimento às demandas do mercado. O seu mantra monocórdico é: quanto maior a intervenção estatal, menor a capacidade de prover os bens de que a sociedade precisa. Ocorre que, se a premissa valesse apenas para o âmbito econômico, poderíamos aceitá-la — com as devidas exceções exigidas pelos fundamentos metafísicos da ordem moral —, mas ela é por osmose transpassada ao terreno político, razão pela qual o liberal tende a considerar qualquer intervenção do Estado, mesmo em questões não-monetárias, como ações indevidas e “estatizantes”.
O pior de tudo reservamos para o final: o liberal católico. Após morder com vontade o fruto proibido da falsa liberdade, o pânico deste com relação à história da Igreja tornou-se indisfarçável. A Inquisição, as Cruzadas, os dogmas imutáveis, o Index, a posição dos principais teólogos da Igreja com relação à usura, o fato de ela não se colocar em paridade com as demais religiões ou seitas, os anátemas, a teoria dos dois gládios, tudo isso e muito mais — que o liberal estudou en passant — é concebido em sua mente culpavelmente confusa como se fossem erros transitórios superados pela Igreja aggiornata pós-Concílio Vaticano II. Na melhor das hipóteses, são fatos historicamente explicáveis, mas indefensáveis em si. É como diz o Pe. Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire: para o liberal, a autoridade — mesmo legítima — coage a liberdade.
Assim, para não se ver na dificuldade de compreender em profundidade que o é o carisma do Magistério participado por Cristo ao Corpo Docente da Igreja (Papa e Bispos), o liberal católico simplesmente se põe a matizá-lo, diminuí-lo, adaptá-lo à sua consciência individual. Entre o impositivo Magistério ex cathedra, que excluía da sociedade cristã os hereges, e o dialogado Magistério ex Papamobile, que não raro tangencia várias heresias, prefere este último porque se enxerga nele perfeitamente. Portanto, o seu amor à Igreja fundada por Cristo é fake, pois na verdade embute, de maneira indisfarçável, uma espécie de autoglorificação. Trata-se, como dizia São Pio X na Pascendi, de um infiltrado altamente perigoso. Hoje talvez dissesse São Pio X que os infiltrados são os tradicionais.
Para termos uma pálida idéia de como o liberal católico pode chegar a odiar o Magistério tradicional da Igreja, citemos o caso de Lord Acton, que tentou impedir de todas as formas a proclamação — durante o Concílio Vaticano I — do dogma da infalibilidade papal, mobilizando meio mundo para tanto. Acabou sendo incluído no Index, mas não por isso, e apesar de depois aceitar a contragosto o dogma, sem jamais entendê-lo em suas premissas teológicas. Por trás das posições de Lord Acton estava a tal da liberdade liberal e um conceito de poder deveras questionável. Podemos dizer, sem medo de errar, que se escondia ali um feroz antipapismo, ao modo ockhamista.
A ojeriza à filosofia escolástica, que o liberal conhece de orelhada, diz muito mais do seu estado mental que de qualquer outra coisa. A conclusão se impõe quando constatamos que o seu nível de conhecimentos nesta matéria é primário. Se o liberal católico lesse os Doutores da Igreja e os filósofos cristãos clássicos com a mesma voragem com que lê os pensadores políticos e economistas liberais, seria um teólogo imbatível! Mas ele teve a alma seduzida pelo naturalismo, e, como dizia o Cardeal Billot, passa a aplicá-lo em suas teorias nos âmbitos religioso, moral, político e econômico. O liberal católico não quer ver que o laicismo é uma exigência da liberdade de consciência, na forma dúbia como a concebe.
Poderíamos escrever livros sem fim sobre o caráter deletério do liberalismo para o catolicismo. Mas muitos outros já o fizeram, com maior ou menor competência. Neste contexto, aproveito para recomendar novamente o recém-lançado livro Liberalismo e Catolicismo, do Pe. Augustin Roussel, que enumera alguns pontos importantes — embora não concorde eu com tudo o que ali diz Roussel, numa obra que precisaria de algumas atualizações, dadas as novas conformações do liberalismo católico surgidas nos últimos dez anos. Mas, para quem pretende ter uma idéia dessa contraposição radical, vale a pena a leitura.
Como se deduz do que foi dito acima, numa perspectiva de base metafísica o ato de escolha é a epifania da liberdade, mas, se feito fora da ordem devida, acaba tornando-se o seu aguilhão. Se, portanto, destacamos que o liberalismo é a recusa dos princípios da ordem do ser, agora fica evidente que, encarnado no católico liberal, ele é também uma recusa dos fins.
Ou, diríamos nós em linguagem tomista, é o uso dos meios com vistas a um mau fim.
P.S. Como eu disse anteriormente, este texto foi motivado por um escrito de Joel Pinheiro, colaborador da Dicta&ContraDicta, mas a resposta não se dirige à pessoa dele, pois resume, em linhas muito gerais, o que penso sobre o liberalismo e que inviabiliza qualquer diálogo. Como eu disse, são premissas absolutamente opostas. 
Quanto a eu ter evitado nos últimos tempos entrar em polêmicas no Contra Impugnantes, isto provém do fato de que hoje estou convicto de que, se algum papel este espaço tem, é o de divulgar a filosofia e a teologia de Santo Tomás de Aquino sem matizações modernistas. O mesmo procedimento adotamos em todas as publicações da Sétimo Selo, do Angelicum e, agora, nos livros a ser publicados pela editora É, na coleção  Medievalia, da qual serei o coordenador: mostrar o Doutor Comum da Igreja tal qual é.
Quanto à crise da Igreja pós-conciliar, creio que somente por um milagre extraordinário ela pode resolver-se. Ademais, parto de uma premissa que é lugar teológico em matéria opinável (ou seja, aquela sobre a qual o Magistério não se manifestou): o reinado do Anticristo pressupõe o esfacelamento do poder espiritual da Igreja, que São Paulo chama de "abominação da desolação" ou grande apostasia. E como não se chega a tal estado num salto, a inacreditável situação atual — que o católico liberal se recusa a ver na hediondez de suas causas — parece preparatória para esse reinado maligno.
Esta é apenas uma opinião, uma leitura particular dos "sinais dos tempos". Por ela se deduz que não sou milenarista. 
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1- Por sua vez, os bem-aventurados, ou seja, os que foram glorificados pela visão beatífica da essência divina, não são livres para pecar: estão confirmados no bem indefectivelmente, pois a sua vontade, sede da liberdade, não tem como não anuir ao bem perfeitíssimo e omniabarcante compreendido pela inteligência em seus principais vetores. Como demonstra Santo Tomás valendo-se de sua fina metafísica do ser, os bem-aventurados são ab intrinseco impecáveis e estão confirmados no bem, pois gozam de uma radical impossibilidade de afastar-se de Deus. Desta verdade apenas dissentiram Duns Scot e seus epígonos, assim como os nominalistas, cujo voluntarismo, assim como no caso dos liberais, é irresolvível filosoficamente. Sendo a vontade o apetite do bem na forma intelectiva, um bem sumo a atrairá irresistivelmente, e, ao ser possuído, a fará aderir a ele.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

No país das maravilhas...

Sidney Silveira
Semana passada, leitores do Contra Impugnantes enviaram-me um link no qual se lê um texto de Joel Pinheiro, um liberal católico (pelo que se depreende de suas próprias palavras) que escreve para a Dicta & ContraDicta. O texto contém críticas a algo postado por aqui há quase cinco anos: um quolibet antiliberal.
Tecnicamente desempregado, endividado e ainda em processo de recuperação de duas cirurgias cardíacas — além de envolvido em trabalhos como “frila” para não morrer de fome ou ser despejado —, não responderei materialmente aos pontos trazidos à luz no texto do Sr. Pinheiro, que de maneira cavalheiresca teve o cuidado de perguntar a uma pessoa conhecida como eu estava de saúde, antes de postar as suas críticas. Cuidado pelo qual lhe agradeço.
Mas responderei num texto cujo título será A alma do liberalismo, no qual entre outras coisas espero deixar claro por que — há algum tempo — tenho preferido divulgar a doutrina de Santo Tomás de Aquino a manter querelas com católicos liberais, liberais não-católicos, liberais “econômicos”, ou falar da crise na Igreja. Nele farei referência a uns poucos princípios que tornam as posições liberal e católica tradicional absolutamente irredutíveis uma à outra, pois partem de premissas contraditórias, excludentes entre si. E apontarei que a posição liberal — malgrado a interminável gama de teorias e posturas em que a “escola” está entropicamente arrojada — tem aporéticos pontos de base em comum.
Farei isto sem maiores delongas, ou seja, sem prolongar ao infinito uma discussão de surdos, pois não há diálogo possível onde os topoi são diametralmente opostos ou divergentes na raiz, como dizia Aristóteles. Seria necessária uma espécie de maiêutica prévia para remontar aos princípios e a seus corolários necessários, antes de qualquer tentativa de debate. A propósito, o texto, embora seja uma resposta de caráter geral, não se dirigirá pessoalmente ao Sr. Joel Pinheiro, mas sim a aspectos do liberalismo e à forma mentis de seus adeptos.
Com esta resposta geral (e única), espero pôr fim a qualquer nova tentativa de “diálogo” conosco, disputa conceptual ou coisa que o valha, por parte de católicos liberais — procedimento para o qual hoje não tenho saúde nem tempo de levar adiante. E muito menos vontade, dada a minha absoluta certeza  de que é infrutífero, como fora o diálogo iniciado entre Eva e a serpente.
Aguardem um pouco, por favor, pois estou envolvido com outros afazeres. Mas o texto já está esquadrinhado em minha mente.
P.S. Conforme anunciei recentemente, em breve chegará às livrarias o livro Questões Disputadas sobre a Alma, de Tomás de Aquino, com o selo da editora É, traduzido por Luiz Astorga e prefaciado por Carlos Augusto Casanova, professor hoje radicado no Chile que possui vários estudos interessantes em torno das obras de Aristóteles e Santo Tomás. A obra, em copiosa edição bilíngüe, já saiu do forno: possui quase 500 páginas e cerca de 470 notas explicativas ao texto do Aquinate, que reputo grandemente enriquecedoras da leitura.
A propósito, o tema da alma humana em Santo Tomás continua a trazer contribuições para a psicologia, como ocorre na extraordinária obra do Prof. Martín Echavarría.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Aspectos da acídia e da ira segundo Santo Tomás


Sidney Silveira
Aviso aos que estão fazendo o mini-curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo o seguinte: hoje estou enviando à administração do site a quarta parte da Primeira Aula — da qual o trecho acima é um tira-gosto. Portanto, ela em breve estará disponível.
Mais uma coisa: aos que me relataram ter tido algum problema de acesso — por não receberem a senha ou por qualquer outro motivo —, informo que já repassei os casos ao administrador do site da Associação Cultural Santo Tomás, que gentilmente emprestou a sua área reservada para o curso ser ali realizado.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A felicidade e o mundo


Ao amigo Sérgio Pachá.
"O mundo quer ser enganado; portanto, que o seja".
(Mundus vult decipi; ergo decipiatur.)

Frase atribuída a Petrônio.




Sidney Silveira
Em meio às efemérides desta vida, o estado de espírito a que normalmente chamamos “feliz” é artigo raro. Na maior parte dos casos, como mostra a experiência, não se dão concomitantemente as circunstâncias externas (políticas) e internas (psicológicas e gnosiológicas) sem as quais a felicidade humana se transforma em pura e simples impossibilidade.
Se a felicidade neste mundo é, como a definimos, a posse habitual do bem — para a qual se exige o uso virtuoso das potências superiores da alma, assim como o concurso da instância sensitiva —, e havendo no mundo uma escala de bens que trazem alegria e repleção em diferentes graus, alcançar tal estado requer circunstâncias externas favoráveis e fatores internos predisponentes. Isto porque os bens, sejam sensíveis ou inteligíveis, só podem ser alcançados se as potências da alma que os captam operarem em congruência com os princípios de sua natureza. Um defeito nas papilas gustativas da língua, por exemplo, impede a apreciação dos sabores; um defeito na vontade acarreta escolhas viciosas; e, na inteligência, dificulta a posse da verdade.
Não acalentemos ilusões: para o homem ser feliz é preciso vencer o mundo [1] e vencer a si próprio. Mas é impossível alguém vencer o mundo — no sentido de desprezar as ofertas corruptoras da inteligência e da vontade, às quais a tradição cristã chamou tentações — se antes não procura vencer a si mesmo colocando-se em guarda contra os vícios internos e as más inclinações, pedras de tropeço até para as almas mais bem dispostas. Daí poder dizer-se que a felicidade é para os fortes, e não para os pusilânimes (ainda quando a pusilanimidade esteja oculta pela obstinação e por ambições desmedidas), pois sem o dom da fortaleza o homem é incapaz de dizer “não” aos bens aparentes ou desordenados que o mundo oferece, e não consegue enxergar o que em sua alma precisa ser corrigido, melhorado, superado, lapidado para chegar à maturidade espiritual.
Em boa lógica, de dois contrários, se um é perfeitíssimo, o outro se anula. Assim, não pode haver felicidade perfeita onde há males, pois os males trazem infelicidade em algum grau. Ora, neste mundo é impossível ao homem viver sem ter contato com males externos ou internos: ele perde coisas e pessoas que ama, é premido por paixões muitas vezes cegantes, tem de lidar com situações políticas adversas, sua saúde deteriora, etc. Logo, a felicidade perfeita, neste mundo, é absolutamente impossível. Para ela se dar de maneira efetiva, seria necessário que os bens não se perdessem — a começar pelo bem da vida. Mas por ora não estamos falando da eternidade, a qual está pressuposta no conceito de beatitude ou bem-aventurança, e sim deste vale de lágrimas, de enganos e corrupção. Prossigamos, pois, mas não sem antes consignar que um dos motivos da depressão coletiva nas sociedades atuais é crerem em conceitos quiméricos de felicidade nunc et semper.
A propósito, para se entender como, em lógica, dois contrários podem excluir-se mutuamente, é preciso no mínimo ter passado os olhos na tábua das proposições de Aristóteles, para não falar noutras lógicas, não-aristotélicas. Sem isto não se deu sequer o primeiro passo para ordenar os raciocínios, que são o modo propriamente humano de conhecer. A lógica é serva das demais ciências no sentido de que todas fazem uso dela, e é por meio dessa arte que se extraem corolários a partir de princípios ou evidências. Assim, que gente com vocação para asno opine sobre altas questões — acerca das quais sequer consegue pensar retamente, ou seja, com lógica — é um mal impossível de excluir enquanto não se estiver no céu. Neste mundo é preciso suportar a infelicidade de, vez por outra, discutir com um tipo desses. Não raro, o professor contemporâneo tem a clara sensação de que dá aulas para hunos, visigodos ou “cimérios” da era pré-cataclísmica, e diante de Conan, o Bárbaro, não há lógica que sobreviva e não dá para ser feliz. Que o digam os professores que hoje apanham dos alunos em sala de aula...
Com relação aos fatores externos que podem impedir a felicidade, interessa-nos mencionar a ordem política. Esta pode adquirir uma conformação tal, que se volte contra a natureza intelectivo-volitiva dos cidadãos. É quando as leis se desnaturam enquanto regra e medida dos atos humanos, até se esvaziar de qualquer estatuto ontológico, descambando ora no positivismo, ora no formalismo, ora num falso jusnaturalismo — ou na tirania pura e simples. Muitas pessoas, lesadas pelo espírito individualista liberal, indagarão: que diabos tem a ver a felicidade com a ordem política? A isto respondemos: tudo, pois a felicidade, como posse habitual do bem, pressupõe que esta não esteja impedida pela conjuntura política, daí dizer tão belamente o Papa Leão XIII, num famoso texto, que o primeiro dever do Estado é para com a alma dos cidadãos.
No século XVII, defendia o teólogo tomista Francisco de Araújo, da famosa escola de Salamanca, que as leis são produto da prudência política, virtude sem a qual as sociedades acabam tornando-se caóticas e autofágicas. Assim, em qualquer Estado, as leis são a autoridade por meio da qual se prescrevem coisas convenientes à sua conservação, e se proíbem coisas nocivas ou contrárias a ela. Mas numa terra onde as leis se voltam contra o bem comum, ou seja, contra aquilo que lhes dá unidade e coesão, a vaca vai para o brejo em maior ou menor velocidade. E, perdida a noção de bem comum, a tendência é as leis se multiplicarem e os cidadãos se voltarem uns contra os outros, arrogando-se direitos em progressão geométrica.
Ora, o fim último da lei, a sua razão de ser, é a paz social, ainda que esta seja sempre assintótica e imperfeita, num mundo tão mutável e inconstante. Seja como for, numa sociedade onde se multiplicam as leis, os principais inconvenientes, segundo Araújo — em seu comentário ao tratado da lei na Suma Teológica —, são os seguintes:
Ø  Os cidadãos se tornam incapazes de cumprir todas as leis fundamentais, na medida em que umas leis se voltam contra as outras;
Ø  Uma multidão de leis traz, como conseqüência, a falta de crença dos cidadãos nelas, ou seja: induz-se ao desprezo ou desrespeito às leis;
Ø  Os litígios se multiplicam onde há muitas leis, o que é sinal de um Estado depravado, que estimula e/ou instaura costumes perversos.
Quando, pois, Santo Tomás afirmava, contemplando a Aristóteles, que o fim da lei é melhorar os homens — e por conseguinte, dizemos nós, aproximá-los do estado de felicidade possível neste mundo —, tinha em vista o seguinte: as leis a um só tempo prescrevem o bem e proíbem o mal, tanto para a sociedade como para os indivíduos. E, ao fazê-lo, se tornam regra e medida dos atos humanos. Neste contexto, uma lei que prescrevesse o mal e proibisse o bem seria iníqua, e portanto só poderia ser chamada de “lei” por uma imprópria analogia de atribuição; neste caso, os cidadãos estão desobrigados de cumpri-la. Quando os cátaros, por exemplo, proibiam entre si a procriação (o mais terrível ato, segundo eles) e o matrimônio, assim como prescreviam o suicídio (signo de homens “perfeitos”), estatuíam entre si leis contrárias ao bem comum social. Portanto, se a sua seita crescesse traria o caos, a destruição.
Diga-se que, na prática, também é impossível chegar à perfeição política neste mundo. Portanto, a felicidade não pode ser fruto da ordem política, embora esta deva ter uma configuração tal que não vá contra essa fundamental busca da alma humana por repouso no bem. Em poucas palavras, o bem político é necessário, porém insuficiente, para a felicidade, entre outras coisas porque a política é feita por homens; e nestes, como diziam os grandes teólogos, existe uma lei que é a lenha para o pecado (fomes peccati), tendência ao erro chamada de “mancha do pecado original”. Não é preciso ter fé para observar essa universal tendência; basta olhar o mundo, com as suas mentiras e maldades. A propósito, essa tendência não é absoluta, mas uma doença que se dá num organismo, de per si, bom. Se fosse absoluta seríamos maus por natureza, o que noutro texto podemos provar ser absurdo.
Esta é uma espécie de lei às avessas. Expliquemo-nos: se o vício é algo que, por inclinar ao mal, vai contra a reta razão, parece que não pode ser dito lei. E mais: se é próprio da lei induzir o homem ao cumprimento dos deveres que a sua natureza intelectiva é capaz de compreender, algo que atente contra tal propriedade parece não ser lei. A isto responde Santo Tomás: a fomes peccati tem caráter de lei penal, ou seja: foi a pena infringida por Deus aos homens, por se desviarem do bem. E infringir penas, lembremos, é uma das propriedades essenciais da lei.
Aqui estamos no âmago da teologia moral, a qual tem em vista a lei eterna, pela qual Deus governa o mundo, e a lei divina, promulgada na Sagrada Escritura, seja no Antigo Testamento (lei mosaica, expressão da lei natural), seja no Novo Testamento (lei evangélica, expressão da lei sobrenatural da Graça). É fato ter havido teólogos, como Duns Scot, que negaram o caráter de lei natural à maior parte dos Dez Mandamentos, mas esta é outra discussão...
Para o que nos interessa, fiquemos com a circunstância de que ser feliz neste mundo é superar obstáculos internos e externos, o que requer certo heroísmo, a menos que consideremos a felicidade como a simples adição de momentos de gozo, ao modo hedonista, mas isto nos levaria a aporias irresolvíveis. E reitere-se o seguinte: como não se pode superar materialmente todos os obstáculos, a felicidade por aqui será sempre limitada, contingente, imperfeita.
Apesar disso, se o mundo quer ser enganado — como diz a epígrafe acima —, a melhor forma de enganá-lo é ser feliz, ainda que de forma parcial. Para chegar lá é preciso ser derrotado, sacudido, massacrado por ele, mantendo íntegras, tanto quanto possível, as faculdades físicas e psíquicas. Ocorre ser impossível alcançar tal estado sem se buscar a Deus — bem supremo cuja posse nos dará uma felicidade não habitual, como neste mundo, mas atual, perene.
Algo parecido com o que dizia Boécio sobre a eternidade:
A posse total, perfeita e simultânea da vida interminável (interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio).
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1- “No mundo conhecereis provações, mas tende confiança: eu venci o mundo” (Jo. XVI, 33).

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pequeno erro de postagem...

Sidney Silveira
Ao enumerar os 25 textos mais lidos no Contra Impugnantes em 2012, errei na conferência: simplesmente esqueci-me de inserir o texto Hedonismo totalitário, que nas contas ficou em sexto lugar.

Na hora de postar eu me distraí...