Espaço destinado a combater a insidiosa e multiforme cultura liberal, que tem entre as suas raízes mais daninhas: uma falaciosa noção de liberdade humana; a idolatria — implícita ou explícita — da consciência individual; a separação entre natureza e moral; a contraposição entre Estado e indivíduo; a dissolução da Religião em categorias morais sem fundamento metafísico; a perda da noção de bem comum político.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
"Questões Disputadas Sobre a Alma", de Santo Tomás, vêm à luz em linda edição
Sidney Silveira
Universi, qui te exspectant, non confundentur, Domine.
(Todos os que esperam em vós, Senhor, não serão confundidos).
Salmo XXIV, 3-4.
Ser confundido é próprio de quem não busca a verdade. Esta é uma proposição análoga à do Salmo acima citado, o qual integra a Liturgia do primeiro domingo do Advento. Isto porque quem põe a esperança — virtude teologal — em Deus, verdade em Pessoa, ilumina a inteligência de maneira tal, que não poderá ser enganado nas coisas espirituais, ou seja: nas verdadeiramente importantes. A verdade não é, em nenhum âmbito que a possamos conceber, uma realidade adquirível fortuita ou involuntariamente; ao contrário, é necessário ao homem procurá-la com todas as forças da sua vontade, mas também com a inteligência liberta das amarras psicológicas que possam impedi-la de alcançar o objeto ao qual está naturalmente vertida: as formas inteligíveis.
Pois muito bem. Após a delicada cirurgia por que passei, restaram-me dúvidas quanto à minha saúde, ao meu emprego, à possibilidade de sair do imbroglio financeiro em que me meti, etc. Não tenho, hoje, quase nenhuma certeza quanto ao futuro imediato, razão pela qual o exercício de entrega à Divina Providência tornou-se compulsório. É como se Deus benevolamente estivesse reduzindo o âmbito das minhas escolhas, para que eu não faça tantas bobagens em escala geométrica. Impossível não ter a alma maculada por algum tipo de desalento, numa hora dessas, mesmo pedindo a Deus a dádiva da santa confiança, que, segundo Tomás de Aquino, pode definir-se da seguinte forma: uma esperança fortalecida por inabalável convicção.
Hoje porém tive uma dessas notícias revigorantes, que fazem o espírito respirar, mesmo quando quase tudo são sombras: a obra-prima Questões Disputadas Sobre a Alma está, enfim, no forno, e será apresentada ao grande público brasileiro ainda neste mês, numa edição estupenda, digna da importância de Santo Tomás de Aquino para a história da filosofia e para a Igreja. Com brilhante tradução do meu querido e nobre amigo Luiz Astorga, o livro vem à luz pela editora É com quase 500 páginas (numa edição bilíngüe) e nada menos do que 469 notas; destas, entre as que explicam os conceitos metafísicos e teológicos do Aquinate muitas são de minha lavra, muitas da lavra do próprio Luiz — além das notas remissivas às obras citadas por Santo Tomás no corpus das questões.
Neste primeiro texto de divulgação do livro, não me estenderei sobre os elevados conceitos a que chega o Doutor Angélico ao falar acerca da alma humana. Quero apenas, com enorme emoção, compartilhar com os amigos e leitores do Contra Impugnantes esta alvissareira notícia para os estudiosos da obra do Aquinate em nosso país.
Noutra oportunidade voltarei a falar deste escrito que chega a altitudes conceptuais poucas vezes vistas em toda a história da filosofia. Um escrito para quem, buscando firmemente a verdade, não possui a menor intenção de ser confundido.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
O milagre do ícone da Virgem de Guadalupe
Sidney Silveira
Hoje, no dia de Nossa Senhora de Guadalupe, vale divulgar este vídeo que mostra de forma cabal tratar-se de um verdadeiro milagre, ou seja, algo que escapa a todos os processos causais naturais. Em suma, a produção de algo que está muito além das potências inscritas na forma dos entes implicados no fato em questão.
A continuação do vídeo encontra-se noutros links do Youtube.
A continuação do vídeo encontra-se noutros links do Youtube.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Tira-gosto 2: Humildade, pedra angular da civilização
Sidney Silveira
Eis, aqui, mais um pequeno tira-gosto do curso Ascese e Filosofia à luz do Tomismo. Nele procuro mostrar que a humildade, a par de ser uma virtude individual pela qual o homem se põe em marcha para progredir espiritualmente, é, também, a pedra angular da civilização. Sem humildade, nenhuma das virtudes políticas, religiosas ou filosóficas pode desenvolver-se de forma efetiva. Quanto à continuação desse trecho de aula, só para os inscritos no curso...
Mas desde já dou uma dica: Qual o verdadeiro modelo da humildade? Qual a sociedade em que esse modelo foi levado às últimas conseqüências? E, portanto, qual a sociedade em que os valores civilizacionais alcançaram o seu cume?
Bem, as inscrições para o curso continuam até o próximo dia 20. E as aulas estarão disponíveis, após esta data, neste site.
P.S. Errei de artigo, ao citar de cabeça a questão 161 da II-II da Suma: aquela definição está no artigo 5, e não no 4 (na resposta ao quarto argumento).
P.S. Errei de artigo, ao citar de cabeça a questão 161 da II-II da Suma: aquela definição está no artigo 5, e não no 4 (na resposta ao quarto argumento).
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Tira-gosto do mini-curso "Ascese e Filosofia à luz do Tomismo"
Sidney Silveira
Disponibilizo um trecho da primeira aula, que comecei a gravar hoje (05/12), para que os interessados em se inscrever neste curso tenham uma idéia do tom que a ele imprimiremos.
Informações para a inscrição estão neste link; observações complementares, neste outro.
Reitero o meu agradecimento a todos os interessados em participar deste trabalho de divulgação do pensamento de Santo Tomás de Aquino no Brasil.
Ia eu começar a gravação desta primeira aula em minha sala, tendo ao fundo uma bela biblioteca. Mas o calor infernal do Rio me fez optar por meu quarto, com ar-condicionado. A propósito, irei dividindo cada aula em trechos, pois o meu estado de saúde ainda não me permite falar direto por mais de meia hora seguida; acabo cansando e me dói o peito. Portanto, periga cada aula ter três trechos distintos, que serão disponibilizados todos no mesmo espaço.
Outro ponto: para cada aula, estarão disponíveis textos, bibliografia e links de interesse.
As inscrições se encerram no dia 20/12.
Saudações a todos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Aspectos do Estado platônico
Sidney Silveira
Vasculhando alfarrábios e arquivos no computador, encontrei esta aula do Nougué (inteira!), que imaginava perdida. Nela são arrolados alguns princípios da doutrina política platônica. O que eu tinha, até então, eram pequenos trechos do vídeo desse dia. Partilho-o agora com os leitores e amigos do blog.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Prêmio Jabuti 2012: Rodrigo Gurgel, uma luz no fim do túnel
Sidney Silveira
Dizia o escritor austríaco Hermann Broch que o artista é alguém contrário à totalidade do seu tempo.[1] Ou seja: com a sua arte ele se coloca não apenas contra aspectos adventícios e incidentais da época em que lhe coube viver, mas sim contra os símbolos da mentalidade vigente — cujas mazelas são captadas por ele numa imagem unitária. Trata-se, portanto, de alguém cuja radical inquietude impede de buscar o beneplácito de grupelhos, mendigar reconhecimento, andar à procura de apoio como quem procura emprego. Assemelha-se, pois, o grande artista a são João no Apocalipse, quando, após comer o livro de sabor doce, porém amarga digestão (Ap.X, 9), se torna espiritualmente apto a testemunhar os acontecimentos de uma perspectiva superior. Em suma, o olho do artista foi vazado pelas sombras da eternidade, razão pela qual o aplauso do tempo presente não pode ser o vetor de sua atuação.
No caso da literatura, quando vemos uma geração inteira de escritores acomoditiciamente fazendo de tudo por um lugar ao sol no mercado de livros, procurando imiscuir-se em patotas de jornalistas e literatos para arrumar — por meio de uma camaradagem hipócrita — espaços na mídia, é sinal de que a vaca está no brejo com os sininhos balouçantes e as patas atoladas. Estamos diante de uma gente incapaz de indignar-se, a não ser contra o temível vislumbre do próprio fracasso, e portanto nos antípodas do que dizia Broch do verdadeiro artista. Esta é, em síntese, a situação média da literatura brasileira hoje: escritores de escasso talento, porém grande mobilidade nos meios de divulgação de livros, louvados de forma indigna; crítica refém de um academicismo universitário estéril; e cadernos literários ávidos pelos releases das grandes editoras e voltados mais à divulgação de feiras e eventos do que a qualquer outra coisa.
Diga-se, a propósito, que os prêmios literários são o maior desserviço à literatura que pode haver. Em essência, eles são o fomento a tudo o que é letal para a arte literária: estimulam tolas vaidades, alimentam uma crítica literária “meia boca” e servem mesmo é às cifras das editoras economicamente mais fortes — que se acotovelam para inscrever os seus livros nesses prêmios para, ganhando-os, como comumente ocorre, aumentar as vendas informando aos ávidos consumidores de novidades que esta ou aquela obra recebeu o galardão tal. Mas não nos enganemos: com raríssimas exceções, premiam-se verdadeiras nulidades literárias que mais cedo ou mais tarde irão, com justiça, para o limbo do esquecimento.
A mediocridade brasileira atual é alimentada pela quase absoluta ausência de verdadeira crítica literária; esta oscila entre o bom-mocismo e parâmetros acadêmicos fakes que envergonham uma história feita de protagonistas como José Veríssimo e Sílvio Romero (este último, malgrado os exageros de sua personalidade eriçada), Araripe Júnior, Ronald de Carvalho, Álvaro Lins, Agripino Grieco, Augusto Meyer, Afrânio Coutinho, Otto Maria Carpeaux, José Guilherme Merquior, Lúcia Miguel-Pereira, Brito Broca, Wilson Martins, Antônio Cândido (a quem faço inúmeras restrições quanto ao método e à ideologia, porém reconhecendo-o como estudioso das nossas letras) e outros.
Não há, no panorama atual da crítica, nenhum nome próximo àquilo que Machado de Assis preconizara num famoso texto de 1865, intitulado O ideal do crítico. Na ocasião, o Bruxo do Cosme Velho escrevia algo que cai como uma luva para o tempo presente: a crítica estava “desamparada pelos esclarecidos” e era “exercida pelos incompetentes”.
E escrevia mais o nosso romancista maior:
“Não compreendo o crítico sem consciência. A ciência e a consciência, eis as duas condições principais para quem exerce a crítica. A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir (...) os juízos de sua consciência. Ela deve ser sincera, sob pena de ser nula. (...) O crítico não deve curar de inviolabilidades literárias, nem de cegas adorações”.
Após a famosa admoestação machadiana, a crítica literária brasileira conheceu belos momentos em tempos posteriores, na pena de amantes das letras como os acima citados. Contudo, a partir do final dos 60 — época em que José Guilherme Merquior reclamava da falta de cultura filosófica dos nossos melhores críticos — ela foi declinando até chegar ao atual momento, quando se encontra em situação idêntica à do tempo em que Machado de Assis dava o alerta quanto à necessidade de uma crítica literária forte e honesta, para o bem das nossas letras ficcionais.
Pois muito bem. Após quatro décadas de triste penúria, uma luz no fim do túnel acaba de surgir com o episódio do crítico Rodrigo Gurgel no Prêmio Jabuti 2012. Ele ousou desqualificar — com argumentos plausíveis e realistas — o livro de uma dessas inviolabilidades editoriais blindadas por uma mídia aduladora e de escassa cultura literária: a escritora Ana Maria Machado. Com coragem, honestidade e postura equilibrada, Gurgel deu uma sacudida para lá de necessária no letargo em que jaz a nossa literatura.
Ainda não tive oportunidade de ler sua obra Muita Retórica, Pouca Literatura – De Alencar a Graça Aranha, coisa que espero fazer em breve. Mas o episódio do Prêmio Jabuti mostra que, num cenário ainda desértico, enfim aparece alguém dotado de outra qualidade destacada por Machado de Assis naquele conhecido texto do último quartel do século XIX: independência, pois, nas palavras do autor do Brás Cubas, “a profissão do crítico deve ser uma luta constante contra todas essas dependências pessoais que desautorizam os seus juízos”.
Portanto, parabéns Gurgel! Ao ler o seu trabalho é bem provável que eu seja compelido a retirar a afirmação acima, segundo a qual não existe no atual cenário ninguém que faça jus ao passado da crítica literária no Brasil.
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