quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Política: entre Aristóteles e Santo Tomás de Aquino


Sidney Silveira
Ao remexer hoje alguns arquivos, encontrei esta aula do Prof. Carlos Nougué — integrante de um curso que ambos ministramos há quatro anos e meio, para um público bastante heterogêneo. Nela, partindo de algumas premissas do livro "A Política em Aristóteles e Santo Tomás", de Jorge Martínez Barrera, Nougué demarca algumas diferenças entre estes dois gênios no tema da política. Sei que, em alguns pontos, o seu pensamento evoluiu, mas ainda assim acho que vale a pena postar a aula por aqui.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Em casa



Enfim, queridos amigos, cheguei a casa e iniciarei um período de repouso. Ver a minha biblioteca e o bichano Bécio foi algo verdadeiramente impagável, depois de 22 dias de hospital (7 deles num CTI).

Agora é seguir à risca o que mandarem os médicos, com paciência e disciplina, pois as dores e limitações ainda são consideráveis.

Fiz questão de por estes dias postar  no Facebook o andamento de minha recuperação, pois recebo muitos e-mails e não há como responder a todos. Agora anuncio esta boa notícia no Contra Impugnantes.


Um grande abraço aos que torceram e rezaram junto comigo. Para mim, esta é a hora de dobrar os joelhos e agradecer.

Saudações cordiais,

Sidney Silveira

sábado, 3 de novembro de 2012

"De motu cordis" News

Foto tirada em 25/10/2012, momentos antes da primeira cirurgia 

Após 18 dias de estada no Instituto Nacional de Cardiologia, em Laranjeiras, aqui no Rio de Janeiro, e duas cirurgias (colocação de marca-passo no coração e troca da válvula aórtica), o momento agora é de fazer o programa fisioterápico respiratório que me prescreveram, caminhar pelos corredores do hospital – mesmo ainda com dores nos locais das incisões – e esperar para ver como saio desta. Hoje, por exemplo, tive ganas de estrangular um cidadão pós-operado que possui uma bactéria altamente contagiosa e estava desfilando pelo andar feito um bambi lépido, apertando a mão de todos (detalhe: a tal bactéria passa por contato físico!). O sujeito era para estar numa outra área, mas decidiu que perambular por aí lhe arrancaria do tédio. Enfim, tudo está nas mãos de Deus, mas que deu vontade de voar no pescoço deste irresponsável filho- da-mãe, ah, deu.
Eu já havia postado em minha página do Facebook um agradecimento a todos pelas orações e pela torcida. Faço-o agora por aqui no Contra Impugnantes, que por motivos óbvios permanecerá ainda mais um tempo em recesso.
Um cordial abraço a todos e até breve!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A mulher para Freud e para a Igreja


Sidney Silveira 
Entre as muitas coisas de que a Igreja é acusada está o ter desvalorizado a mulher. Em síntese, teria sido a mulher durante séculos relegada a um plano muitíssimo inferior ao do homem, tolhida em sua liberdade, reprimida em sua sexualidade, obstada em seu acesso à cultura, constrangida a um papel social subalterno, etc. Tratar-se-ia, portanto, de alguém sem voz política, sem prazer, sem lazer, sem vida interior e, para dizer o mínimo, um mero capacho do homem. Alguém com incontáveis deveres massacrantes e secundários, porém quase sem direitos. 

Ignora quem compra de maneira acrítica esta visão que, por exemplo, durante a Idade Média a mulher chegou a ser rainha e senhora do destino de povos inteiros, princesa, administradora de vastas terras, politicamente influente, artesã, poetisa, escritora, educadora, guerreira, mística, Santa. E não apenas no medievo, mas tanto antes como depois, graças ao influxo dos valores evangélicos custodiados pela Igreja, a mulher exerceu papel histórico notável, de extraordinária influência espiritual e política: Isabel de Castela, Santa Joana D’Arc, Santa Rita de Cássia, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santa Brígida da Suécia e incontáveis outras grandes mulheres dão-nos exemplos marcantes da condição feminina durante o longo período da Cristandade católica. 

Diga-se que algumas religiosas do medievo eram extremamente instruídas e rivalizavam em saber com os sábios monges de então, educadores do mundo. Quem não leu o clássico La femme au temps des cathédrales, de Règine Pernoud, é analfabeto na matéria e deveria calar o bico antes de dizer aberrações como, por exemplo, a de que a mulher segundo a Igreja não tinha alma. Naquela e noutras obras mostra a grande historiadora francesa que as mulheres exerciam, até mesmo na vida laica, um poder que deixaria os homens de hoje boquiabertos. E ademais chegaram a ser artistas de grande talento, além de poliglotas. Heloísa, diz-nos Régine Pernoud, ensinava às suas monjas o grego e o hebraico. É dessa época uma boa quantidade de obras literárias escritas por mulheres, como seis conhecidas comédias em prosa rimada atribuídas à abadessa Hrostsvitha. 

O mundo contemporâneo, erigido sob os auspícios de Nietzsche, Freud e Marx – ou seja, niilismo, psicanálise e comunismo – se jacta de ter redescoberto a mulher, revalorizado as suas potencialidades, trazido a ela, enfim, um papel ativo na vida social. Mas se porventura olhamos de perto o que era a mulher na concepção destes ilustríssimos construtores da mentalidade hodierna, caímos literalmente para trás, estupefatos com tamanhas barbaridades. Contentemo-nos neste breve artigo com Freud, e comecemos dizendo que, para o ilustre doutor de Viena, o desenvolvimento psíquico da mulher é torto, muito mais problemático que o do homem, devido ao fato de que a mulher precisa mudar o objeto sexual “natural” inicial, ou seja, a mãe, e trocá-lo pelo pai, gerando com isto o complexo de Édipo invertido.

Lembra-nos Martín Echavarría no excepcional Corrientes de Psicología Contemporánea que, segundo Freud, a mulher não chega a desenvolver uma consciência moral sólida, nem é capaz de fazer uso elevado da razão, motivo pelo qual não teria trazido nenhuma contribuição relevante para a história da humanidade, em particular devido ao influxo da falta do pênis em sua estrutura psicossomática. Em síntese, o motivo pelo qual as mulheres jamais poderiam desenvolver-se completamente como seres humanos estaria no fato de que não possuem o chamado “temor à castração”, embora tragam em seu íntimo uma ontológica e primacial inveja do pênis. 

A certa altura das Novas Conferências sobre a Psicanálise, lê-se em Freud esta famosa passagem: “O fato de que seja preciso atribuir à mulher escasso sentido de justiça tem íntima relação com o predomínio da inveja [do pênis] em sua vida anímica”. Noutra parte diz-nos o Dr. Sigmund que as mulheres, devido ao fato de terem um superego deficitário, possuem interesses sociais débeis e pouca ou nenhuma aptidão para a sublimação. Ora, mais divertido do que tais fantasmáticas considerações com roupagem científica é ler algumas páginas de Jacques Derrida sobre o que ele considera a concepção logofalocêntrica de Freud. Nas vezes em que fiz isto tive a clara sensação de que a minha massa encefálica escapulia por algum libidinoso orifício. 

Outra conhecidíssima idéia freudiana é a de que a mulher, chegando aos 30 anos, nada mais tem a desenvolver. Em palavras simples: as balzaquianas de qualquer época seriam entes quase estéreis, impossíveis de modificar. Nada haveria nelas de reais potencialidades a explorar, razão pela qual a mulher a partir desta idade mal poderia ser psicanalisada, ao passo que o homem aos 30 anos ainda possuiria uma dinâmica psíquica considerável. Em vista disso, com doce ironia nos recorda Martín Echavarría que, para desgraça de Freud, a maior parcela de seus discípulos foi composta de mulheres – sendo a imensa maioria de seus pacientes... mulheres neuróticas![1] 

Destas e de outras passagens da obra de Freud se depreende – isto se unirmos, com a frieza da boa e velha lógica, as principais premissas às conclusões – o seguinte: de acordo com o Dr. Vienense, a mulher possui dignidade muito inferior à do homem, devido a um problema radical absolutamente insanável. Ela é um ente incapaz de assumir qualquer papel de relevância nas sociedades, e, o que ainda é mais dramático, tem a alma mutilada, inapta para perceber a beleza moral ou assimilar os conceitos mais abstratos. 

Para a Igreja, em contrapartida, a mulher se eleva à dignidade de Mãe do próprio Deus, modelo de feminilidade e de fortaleza incomparáveis, que, ao ser imitado com fervor ao longo de séculos, acabou por gerar um sem-número de mulheres notáveis e de grande influência espiritual e política – cujas obras denotam riquíssimo universo psicológico e invulgar capacidade intelectual. 

Freud seria com toda razão barrado no Castelo Interior de Santa Teresa de Ávila, por estar previamente incapacitado para compreendê-lo em seus elevados princípios. E o seria justamente porque nele não existem moradas para quem por vontade própria embotou a alma com conceitos auto-referentes – que vão das vicissitudes de uma sexualidade infantil perversa à formal incapacidade de amor desinteressado, não libidinoso; da impossibilidade de educar o espírito ao fato de que, em sua teoria, o homem é um ente malogrado, no qual a única “felicidade” possível é a tomada de consciência do radical desejo de satisfação que o constitui. 

Desejo que, em suas conhecidas palavras, representa a aspiração do homem a ocupar o lugar do Pai, equivalente simbólico de Deus.

(Escrito no Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio, durante internação pré-cirúrgica) 

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1- Martín Echavarría. Corrientes de Psicología Contemporánea. La Plata: 2011, p. 64.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Internação e cirurgia


Sidney Silveira
Aos amigos e leitores do blog informo que, enfim, fui chamado pelo Hospital de Laranjeiras aqui do Rio para internação e posterior cirurgia cardíaca. Saio de casa neste exato momento.

Agradeço imensamente pelas mensagens de apoio que recebi nos últimos dois meses, assim como pela preces — que me são muito caras.

Que seja feita a vontade de Deus.

Abraço a todos,

Sidney Silveira

sábado, 13 de outubro de 2012

Problemas de ética e escatologia em Platão


Sidney Silveira
Trecho de uma aula magistral do meu querido amigo Carlos Nougué, no curso que há três anos nós dois ministramos no CCBB do Rio. A propósito,  revendo hoje a ementa desse conjunto de palestras me vieram à mente ótimas recordações.

Advertência: ao dizer, no começo deste vídeo, que Sócrates não deixara nenhuma prova da imortalidade da alma, Nougué está, evidentemente, dando por pressuposto que as teses do Fédon são de Platão...

sábado, 6 de outubro de 2012

O boçal engajado e a máquina de devorar consciências


Sidney Silveira


A falta continuada de contato com coisas belas e elevadas mutila a alma. Os dois sintomas mais evidentes de que uma pessoa chegou a tal dramático estado são os seguintes: extasiar-se com tolices e ser indiferente ao sublime. Não raro, são sintomas concomitantes num mesmo sujeito — que se superexcita com ninharias, futilidades ou torpezas, enquanto se mostra apático diante de qualquer beleza de ordem superior. Trata-se de alguém capaz de se entediar mortalmente ouvindo uma sinfonia de Bach ou lendo um parágrafo de Vieira, ao passo que sente arrepios de entusiasmo beatífico ao ouvir uma rima bem feita cantada em ritmo sincopado.

Estamos falando de um arquétipo contemporâneo: o boçal engajado. Pessoa de espírito lânguido, em geral ávida consumidora de produtos culturais alternativos cuja esterilidade artística pode ser medida pela tola pretensão de originalidade. Não se trata, propriamente, de um iletrado ou de alguém oriundo das camadas sociais menos favorecidas. Não: o boçal engajado é homem de classe média, habitué de feiras literárias, freqüentador de bienais de livros, encontros artísticos performáticos e exposições. Tem interesse por leitura, sim, mas sem jamais arriscar-se em autores que ou exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo, ou fujam ao limitado universo estético-político em que se embrenhou.

É, no fundo, uma personalidade timorata que precisa apoiar-se na opinião de grupos ou facções, em meio às quais se sente encorajado a manter o dedo em riste para o mundo, sobretudo como crítico da cultura e da política. As suas convicções são, pois, tanto mais altissonantes quanto mais estejam protegidas pela coletividade a que aderiu apaixonadamente. Palavras gastas como “reacionário” e “careta” ainda são recorrentes nos lábios do boçal engajado — em geral um sujeito simpático a ideologias socialistas e que defende todos os tópicos da agenda globalista contemporânea: aborto, casamento homossexual, ecumenismo, marcha das vadias, aquecimento global, etc. E ai de quem esboçar objeções ao que ele jura de pés juntos serem convicções suas!

Em verdade, o boçal engajado nem de longe imagina ser o produto acabado da sociedade orwelliana em que nos coube viver. É, pois, um autômato a repetir slogans, palavras de ordem e conceitos produzidos pela engenharia social que se apossou da sua consciência, não obstante dando-lhe a febril ilusão de liberdade, capacidade decisória e autonomia espiritual. Neste contexto, malgrado a sua patente curiosidade — medida pela busca constante por se informar até a embriaguez acerca de coisas “interessantes”—, a imersão do boçal engajado em baladas culturais é o fiel retrato de uma candente incapacidade reflexiva, pois o padrão mental em que sucumbe está enquadrado nas bitolas pré-moldadas por certa indústria do entretenimento, voltada a públicos com pretensões vanguardistas e libertárias.

Mentalidade adubada no espírito libertino procedente dos iconoclastismos revolucionários da década de 60, ele considera verdadeiramente geniais autores como Marcuse, Lacan, Deleuze, Sartre, Paulo Freire e diversos outros conformadores das últimas gerações. Mas se porventura o inquirimos com o intuito de aquilatar o seu nível de conhecimento a respeito da obra destas ilustres figuras, constatamos não passar de leituras esparsas de pensamentos ou conceitos isolados, geralmente feitas de segunda ou terceira mão, ou seja: em livros de comentadores que repetem os “dogmas” dos seus ídolos como mantras irredutíveis a qualquer análise um pouco mais criteriosa.

Se o boçal engajado ouve, por exemplo, um lacaniano dizer que o único e verdadeiro amor de uma mãe pelo seu filho acontece quando ela morre no parto, acha isto de uma criatividade sem tamanho. Ou então se vê um sartreano proclamar que a liberdade do homem é construir o seu próprio ser, e que o “Em-si” muitas vezes decai num processo de nadificação em direção ao “Para-si”, cai fulminado de amor místico diante do Ininteligível. Tais frases são edulcoradas numa espécie de psicodélica beberagem, e depois saboreadas, sorvidas, degustadas pelo boçal engajado como um olímpico manjar. A idéia que ele faz da filosofia é, como se pode deduzir, a de doidões fumando ópio e exercitando a inebriante debilidade das suas próprias inteligências.

A irreligião do boçal engajado é um bloco de conceitos auto-referentes, contemporaneamente pinçados dos livros de um Richard Dawkins ou de um Michel Onfray, autores da moda cuja leitura, de sua parte, é tão ou mais superficial do que a que teve a oportunidade de experimentar dos gurus acima mencionados. Portanto, quando ateu, o boçal engajado é o materialista que usa o espírito para perpetrar toda sorte de negações, a ponto de ter o próprio bom senso esmagado pela massa assimétrica de idéias avulsas que, repetidas à exaustão, formam uma imagem inexpugnável em sua mente: a de que a religião é algo irracional. Imaginemos, pois, o que acontece se algum desavisado lhe mostra que uma parcela grandíssima das maiores criações humanas — na filosofia, na música, na arquitetura, na pintura, na escultura, no direito, na poesia, na ciência, etc. — provém do mais profundo espírito religioso...

O fragor de sua inépcia mental tem como invólucro um insano otimismo, sobretudo com relação à reforma política das sociedades a partir das idéias que defende — as quais, de antemão, elevou à condição de verdades universais intocáveis. Assim, com a psique emparedada em tal universo, não é tão raro o boçal engajado subir de degrau na escala da esquizofrenia e se transformar num boçal engajante, ou seja: alguém com discurso violento a arregimentar prosélitos e incautos, não raro apelando ao expediente da detração dos adversários, aos quais são aplicadas as etiquetas que ele julgar apropriadas, conforme as situações se forem apresentando.

Quando apóia campanhas de desarmamento, o boçal engajado se sente um Mahatma Gandhi redivivo a pregar a não-violência, enquanto consome e propagandeia todo tipo de filme, música ou literatura em que a violência beira o infernal, alimentando as potências superiores de sua alma — inteligência e vontade — com imagens prenhes das mais macabras e hediondas possibilidades humanas, que, expostas “artisticamente”, acabam por se difundir nas sociedades. Acontece que, como entronizou a liberdade de expressão como ditame fundamental de sua febril existência, o boçal engajado quebra lanças quando, por exemplo, alguma autoridade sensata proíbe a exibição de películas como A Serbian Film, na qual a mais inocente cena é a do estupro de um bebê que acaba de sair da barriga de sua mãe.

Em síntese, a mente deste opiniático personagem é uma selva impossível de debastar, porque foi alimentada com todo tipo de filosofias da insanidade e de estéticas surreais — em que o belo é uma espécie “antitranscendental” do ser, pois tem pouco ou nada a ver com a realidade das coisas e do espírito. Daí o fato de o boçal engajado não conseguir perceber, por exemplo, que uma sociedade em que nada é censurável está fadada à autodestruição; não será sequer uma “sociedade”, na acepção da palavra, mas o vale-tudo hobbesiano que acaba por deflagrar a luta de todos contra todos. Com a advertência de que, em Hobbes, este é absurdamente o estado “natural” do homem, mas na verdade tipifica o estágio em que a natureza humana se desfez quase por completo, sobrando-lhe apenas a casca de suas reais potências.

O boçal engajado é pan, metro, supra, homo, meta, pluri, hiper-sexual. Noutras palavras: a sua capacidade de protagonizar façanhas eróticas jamais vistas desde a criação do mundo é simetricamente proporcional à sua incapacidade de ordenar a mente. E isto não é uma metáfora, pois a neurociência tem mostrado o quanto a devoção à pornografia e a um erotismo exagerado causam uma pavloviana supermemória — canalizada apenas para dar vazão ao sexo transformado em vício. Resultado: a estimulação mental quase sem descanso ao sexo causa graves deficiências no córtex frontal, área do cérebro ativada quando o homem engendra raciocínios lógicos ou cognições mais complexas, toma decisões importantes, organiza seu discurso, etc.[1] Daí as freqüentes depressões, insatisfações existenciais, dificuldades de concentração, ansiedade e falta de motivação em uma pessoa com o perfil do boçal engajado, que metaforicamente ejacula o cérebro no samsara pornográfico em que jaz.

Haveria muitas outras características a destacar a respeito deste arquetípico homem do nosso tempo, como por exemplo a sua maior propensão a ser manipulado pelas técnicas de propaganda política — tão usuais desde que o mundo se transformou numa sociedade de massas. Mas encerremos este texto apenas observando que o boçal engajado é, fundamentalmente, a subespécie de um boçal muito mais refinado, e por isso superiormente deletério: o boçal liberal. Este último é a indômita e caótica mescla de várias idéias revolucionárias norteadoras dos séculos XX e XXI.

Entre outras coisas, o boçal engajado é irreligioso, como acima apontamos, mas o boçal liberal é o corruptor dos princípios da religião e da civilização, com a promessa de que, se o homem contemporâneo comer dos frutos por ele oferecidos, será livre, autônomo, poderoso. O seu primeiro princípio é retirar Deus das sociedades, na forma da lei, defendendo que os planos material e espiritual são realidades separadas por um abismo infinito. Ora, se o homem pode governar-se autonomamente, por que também não o podem as sociedades? 

Assim pensa este sujeito que, consciente ou inconscientemente, opera a máquina de devorar consciências concebida pelo espírito maligno que — segundo dizem — reside entre o tempo e a eternidade. 

E atende pelo nome de 666.
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1- Recomenda-se, para entender este mecanismo, a leitura do site Your Brain on Porn, onde há uma excelente bibliografia indicada. Nesta mesma linha, sobre o processo de estupidificação a partir das deformações da sexualidade humana, um grande amigo recomenda o livro Sexual Sabotage, de Judith Reisman.