sábado, 22 de setembro de 2012

Importante Comentário de Sto. Tomás a Aristóteles

Tomás de Aquino entre Aristóteles e Platão, com Averróis sob os seus pés.

Sidney Silveira
Trata-se do Comentário ao Livro Sobre a Memória e a Reminiscência, em tradução do filósofo espanhol Juan Cruz Cruz — no blog Estudos Tomistas. Leitura obrigatória para quem queira entender um pouco o que, no tocante a essas duas realidades, o Aquinate assimilou de Aristóteles e o que moldou à sua própria psicologia.

A obra é pequena; sua importância porém é considerável.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Grande máxima de Tácito

 
Sidney Silveira
Alguma semelhança com a nossa atual situação, em que a feérica multiplicação de leis (sob o pretexto de defender os direitos de todos) implica exatamente jogar todos contra todos?
 
A propósito desta máxima extraordinária de Tácito, deixo aqui um pensamento de minha pobre lavra:
 
Em qualquer sociedade, o excesso de leis é a expressão da carência de princípios.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A "Questão Disputada sobre a União Hipostática do Verbo Encarnado", de S. Tomás

Sidney Silveira
O livro do Aquinate — em tradução francesa — foi postado aqui no blog Estudos Tomistas. Como é comum em opúsculos ou questões disputadas sobre temas teológicos, Tomás de Aquino refuta várias heresias...

"A única vocação do idiota é para o sucesso" (homenagem aos idiotas anônimos)

Sidney Silveira
Volta e meia escrevo uns epigramas e aforismos satíricos, para desopilar o fígado (como o do título acima)... Agora, enquanto aguardo para ver o que se fará — em termos médicos — do meu problema de saúde, vou postar volta e meia um desses por aqui, no Contra Imppugnantes.

Quem sabe um dia não os publico, se algum editor doido os quiser aproveitar?

Outros:

"A semelhança entre o sábio e o estúpido é que, às vezes, ambos têm razão".
"Só discuta com um homem inteligente se ele estiver certo; caso contrário, ele o convencerá dos seus próprios erros".

Apotegma de um tomista genial

 "A gramática serve à linguagem, a linguagem serve à lógica, a lógica serve à filosofia e a filosofia serve à arte com que Deus dispôs todas as coisas”.

(Pe. Álvaro Calderón, em Los Umbrales de la Filosofía - Cuatro Introducciones Tomistas)

Vem aí uma "Gramática" de gente grande

 
Sidney Silveira
Conversando por estes dias com o meu querido amigo Carlos Nougué, fiquei inteirado do belo trabalho que ele está fazendo em sua Gramática, inspirada no Peri Hermeneias de Aristóteles e no comentário de Santo Tomás a esta mesma obra do Estagirita — entre outras coisas que deixarei para ele próprio anunciar.
 
A obra deverá ter 600 páginas e está em fase de conclusão. Desde já, posso lhes afirmar que será a primeira gramática aristotélico-tomista do idioma pátrio. A propósito, ela manterá salutar equidistância tanto do gramatiquês como do literatês.
 
Mande brasa, amigo! Aguardo ansiosamente a conclusão do texto.
 
Quando o livro for lançado pela editora da Gama Filho, nós lhe daremos grande publicidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Filosofia, ascese e mística

Ilustração de Gustave Doré


Fiat lux, et facta est lux




Sidney Silveira

Não há filósofo jovem. O que pode acontecer é o pendor filosófico manifestar-se desde a juventude, mas sempre se tratará de uma vocação que leva anos de maturação e estudo para cumprir-se efetivamente. Daí insinuar Platão, com toda sabedoria prática, que não se é filósofo antes dos 50 anos.[1] Entre outras coisas isto se deve ao fato de que, além de passar por várias etapas propedêuticas (para dominar os instrumentos da lógica, da retórica, da dialética, etc.), o aspirante a filósofo precisa saber o que de mais importante se pensou e se produziu a respeito das questões fundamentais — ou seja, ter uma visão crítica de toda a história da filosofia, até ele.


Uma das raríssimas exceções à regra foi Santo Tomás de Aquino, que com menos de 27 anos já tinha em seu currículo obras-primas filosóficas — como os opúsculos De Ente et Essentia e De Principiis Naturae, assim como boa parte de sua Expositio super libros Sententiarum. E, aos 49 anos, quando muitos filósofos estão começando a escrever coisas que realmente valham a pena ler, o Aquinate morria e nos deixava como legado uma sabedoria arquitetônica colossal. Mas não tomemos o extraordinário pelo ordinário: o fato é que o exercício da filosofia em nível de excelência requer formação progressiva ao longo de décadas e disciplina espartana, sem o que certamente muito da vocação filosófica se perde no meio do caminho.


Essa disciplina é uma espécie de ordálio de fogo por meio do qual a alma vai desapegando-se das paixões e se abrindo ao influxo de formas inteligíveis cada vez mais universais, que abarcam em si inúmeros aspectos do real. Noutras palavras: com cada vez menos pensamentos o filósofo vai tornando-se capaz de compreender mais coisas, contemplar a imensa complexidade da realidade com olhar unificador. Assim, após adestrar-se no caminho do múltiplo ao uno, por um procedimento que os escolásticos chamavam de compositio (análise), pelo qual se buscam conhecer as causas pelos efeitos, o filósofo acaba por adquirir uma visão de tudo à luz dos princípios, ou seja, conhecer os efeitos a partir das causas mais universais (síntese = resolutio), logrando uma visão sinóptica da ordem do ser — que parte de Deus, Causa Causarum, e a Ele retorna. Exitus e reditus.


Isto é, propriamente, sabedoria.


É bem verdade que poucos filósofos chegaram a este cume, ou porque se contentaram com pequenos insigths em torno dos quais orbitaram ao longo de toda a sua trajetória intelectual, transformando-se em verdadeiros monomaníacos; ou porque tiveram preguiça para desenvolver as técnicas propedêuticas acima aludidas, tornando-se razoáveis retóricos, maus lógicos e péssimos dialéticos; ou porque sucumbiram às próprias paixões, vícios e interesses políticos; ou porque se contentaram com certo fulgor estético de seus pensamentos, sem jamais lhes extrair o sumo, a species inteligível com correspondência no mundo dos entes reais; ou porque sequer souberam separar os pontos cardeais da filosofia (metafísica, gnosiologia e ciências práticas); etc.


Nestes e noutros casos, ao pular etapas os filósofos jogaram fora o melhor de si, não raro seduzidos pela publicidade fácil e pela avidez de influir na ordem dos acontecimentos. Mas advirta-se bem: não é que os filósofos não devam atuar politicamente, e sim que só o devem fazer se estiverem de fato preparados, e isto na maior parte dos casos históricos, desgraçadamente, não ocorreu. Tal preparação específica passa, principalmente, pela aquisição de virtudes morais, porque sem elas o contato com as coisas políticas — em si baixas, sujas, torpes, mesquinhas — pode infectar letalmente uma inteligência filosófica, desviar sua trajetória, minar suas potencialidades.


Como se pode deduzir, para o filósofo é absoluta a necessidade de passar por um tirocínio moral mais ou menos rigoroso, pois entre a inteligência especulativa — que alcança as verdades — e a prática — que busca o bem agir — existe um secreto liame, o qual infelizmente escapou a muitos homens de talento filosófico. Em síntese, não obstante ser possível para uma pessoa ter virtudes intelectuais sem virtudes morais correspondentes, a contrária não é verdadeira, pelo seguinte: toda virtude moral traz consigo uma virtude intelectual anexa, porque é impossível agir bem sem o conhecimento atual dos primeiros princípios reitores da vida humana, embora tal conhecimento não precise ser, necessariamente, filosófico.


Ninguém se engane também quanto à formal impossibilidade de alguém com desvios de caráter tornar-se filósofo, pois neste caso faltam as predisposições psicológicas necessárias para as virtudes intelectivas e apetitivas tornarem-se aptas ao seu exercício ótimo. Seja como for, vale neste contexto lembrar que nem toda virtude intelectual é filosófica, mas toda virtude verdadeiramente filosófica é intelectual em elevado padrão, pois conduz a inteligência a laborar sem maiores empecilhos com vistas a alcançar o seu objeto terminativo: a verdade, forma imaterial com que a inteligência se assemelha às coisas como elas são.


Pelo fato de a filosofia não ser pura e simplesmente uma técnica, e sim sabedoria na acepção da palavra, os seus praticantes têm real necessidade de ascese, ou seja, de algo semelhante ao que grandes místicos prescreveram ao longo dos séculos, com a diferença de que o místico procura unir-se a Deus num êxtase para cuja consecução precisou esvaziar-se de todos os conteúdos inteligíveis, deixando-se submergir amorosamente n’Aquele que está para além de toda inteligibilidade; ao passo que o filósofo — se o é verdadeiramente — acaba por se unir a Deus por um caminho inverso, no qual de verdade em verdade o esplendor de Deus acaba por manifestar-se à sua inteligência, que então repousa na beatitude desse raio de trevas luminosas, metáfora usada pelo neoplatônico cristão Pseudo Dionísio Aeropagita para referir-se a Deus.


Trata-se de dois caminhos que, se bem feitos, levam o homem a entregar-se totalmente ao mistério, conduzem-no ao mesmo fim: ou esvaziando totalmente a inteligência com vistas a unir-se ao Sumo Inteligível, que é paradoxalmente incognoscível para qualquer criatura (trajetória mística); ou preenchendo a inteligência da maneira correta, a ponto de escalar a ordem das verdades e chegar, por necessidade racional, à Suma Verdade (trajetória filosófico-metafísica). No caso do místico, o não-saber é a supra-ciência adquirida na união amorosa com Deus; no caso do filósofo, o saber é tão somente uma senda maravilhosa na qual a Causa Primeira refulge na ordem criada, e então lhe cabe apenas silenciar a alma e adorar a Deus.


Esta certamente foi a razão por que, após um êxtase, Santo Tomás disse o seguinte a seu secretário e confessor, Reginaldo de Piperno:


“Tudo o que escrevi até hoje é palha”. E jamais retomou a pena.


Em ambos os casos, no entanto, fica a advertência: nem o místico deve supor que apenas por sua ascese pode chegar a unir-se à divindade, pois não bastam esforços humanos no plano natural para alcançar-se o sobrenatural que é Deus — libérrimo para manifestar-Se a quem quiser; nem o filósofo deve supor que as verdades que o levaram a tão alta contemplação lhe bastam, pois, sem o auxílio d'Aquele que é luz supra-essencial infinita, qualquer ciência é vã e a queda é certíssima.


Por fim, se o filósofo não chega sequer a concluir pela absoluta necessidade da existência de Deus, na verdade naufragou de maneira rotunda — e sua subida na contemplação das verdades correspondentes aos graus de ser que há na realidade terá sido interrompida.


__________________________
1- Platão. República, VII, 540a.