quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Maquiavel em clave teológica (V)



(Continuação deste texto)


Sidney Silveira



2. O humanismo político e Maquiavel — precursores da contemporaneidade


A história humana é permeada de ciclos e contraciclos, movimentos pendulares entre pontos extremos, idas e vindas, avanços e retrocessos — ou, como diria Giambattista Vico, corsi e recorsi. No contínuo devir histórico, cada época ou etapa é demarcada por mudanças significativas que reorientam as sociedades e os indivíduos a partir de novos vetores, os quais se espraiam pelos pontos cardeais daquilo a que costumamos chamar civilização: religião, filosofia, política, economia, arte, ciências.


O naufrágio de boa parte das periodizações históricas modernas reside em sua enorme dificuldade de perceber um sentido de unidade subjacente às mudanças — dado o materialismo, maior ou menor, que lhes serve de esteio. Assim, devido ao vício de raiz presente na maioria absoluta das escolas que dominaram o panorama do estudo da história no século XX, é comum observarmos eruditos historiadores apoiar suas teses em fragilíssimas analogias, projetando retoativamente no passado suas próprias idéias preconcebidas ou, o que é pior, os extemporâneos objetivos políticos por meio dos quais pretendem desconstruir a história, como é o caso dos que pretendem fazer do filósofo Raimundo Lúlio o longínquo precursor do ecumenismo hoje defendido acerrimamente pelas autoridades da Igreja. Em geral, eles não conseguem sequer enxergar que toda mudança de mentalidade no decorrer do tempo provém, em síntese, da assunção de novas atitudes perante um conjunto fundamental de problemas perenes que transcendem a todos os períodos históricos.


Tomemos como exemplo a Jacques Le Goff, historiador que costuma transpor para o período medieval valores ou pressupostos completamente estranhos àquela época, como faz em sua famosa biografia São Francisco de Assis ao interpretar o beijo que o notável Santo dera num camponês, de quem se compadecera, como um claro “sinal da consciência de classes”. E mais: afirma o conhecido autor francês nesta coletânea heterogênea de textos, sem apoiar-se em nenhuma documentação primária, que o objetivo de São Francisco era “superar as divisões sociais dando em sua ordem o exemplo da igualdade”. Por aí se vê que Le Goff parece confundir São Francisco de Assis com Barrabás, ou então com Marx.


Como o nosso estudo histórico-político sobre Maquiavel parte das premissas da teologia católica, estabeleçamos um dos seus conceitos basilares: somente à luz da fé — levando em vista os desígnios da Providência Divina — é possível dissolver as aparentes antinomias e contradições de uma mesma época histórica, assim como enxergar as passagens de um período a outro como um movimento, unitário, contínuo, não obstante as marchas e contramarchas acima referidas. Trata-se de algo bem distinto dos corsi e recorsi de Vico, pois o pensador italiano naufragara numa espécie de “secularização da escatologia”, malgrado concebesse a Providência Divina como a fundamental força configuradora da história a conduzir os instintos e propósitos dos homens. O problema é que Vico tentara conciliar o cristianismo com uma filosofia imanentista irredutível a ele, mesclada de elementos gnósticos e de mitologias primitivas. A sua Ciência Nova é uma forçosa metafísica da mente humana, ou, noutras palavras, a história transtemporal do espírito humano à qual a Providência Divina parece limitar-se, idéia que dá margem a várias incongruências teoréticas.


Por sua vez, a orientação teleológica de todo o conjunto da história a uma realidade supra-histórica é capaz dotar de pleno sentido cada um dos ciclos ou épocas. Aliás, foi justamente a perda desse sentido escatológico da história — ou seja, do caminhar humano rumo a um estado de perfeição impossível de consumar-se neste mundo — o que gerou as utopias materialistas, tão pródigas no horizonte político em que os bens materiais e os espirituais se divorciaram. Tal divórcio, a propósito, inaugura a longa marcha anti-espiritualista que parece ter continuidade até o fim dos tempos, quando o mundo clamará pelo Anticristo, ou seja, pelo homem ímpio que fechará a aldeia global a qualquer possível influxo da graça. Nesta perspectiva teológica, é lícito supor que a marca da Besta representa a culminância do humanismo político, ou seja, a completa retirada de Deus das esferas do poder legislativo e executivo, em todas as nações.


Antes de fazermos comparações ou traçarmos paralelos entre períodos históricos aparentemente díspares — como a época presente e o tempo de Maquiavel —, vale apontar para a necessidade da aplicação do instrumento da analogia à ciência histórica, da qual nos valeremos adiante para mostrar o movimento unitário iniciado no fim da Idade Média e que prossegue até os dias atuais.


Dias estes em que o maquiavelismo político é a norma.



2.1 História e analogia


Conforme se indicou anteriormente, a quase completa ausência de conhecimentos a respeito dos meandros da lógica é uma das carências mais facilmente identificáveis em teóricos da política posteriores ao século XIV. Ora, por ser a analogia um instrumento usual em lógica, além de formidável ferramenta presente em todas as ciências — desde a Antiga Grécia até os dias atuais —, não nos custa apontar o modo como dela faz uso a ciência histórica, em virtude de a história possuir um caráter eminentemente hermenêutico e, portanto, apoiar-se em comparações e analogias para alcançar a verdade possível em seu âmbito de investigações.


Neste ponto parece-nos oportuno registrar o seguinte: ao contrário da metafísica, que parte de princípios auto-evidentes e alcança verdades apodíticas de caráter universal, a história aproxima-se da verdade de forma assintótica e precária, a partir de vestígios consignados nos documentos do passado. Em terminologia tomista, podemos muito bem dizer que a dignidade da história como ciência é incomensuravelmente inferior à da metafísica, não apenas no tocante ao diferente grau de certeza que ambas logram, mas também no que tange à universalidade dos objetos formais a que ordenam os seus respectivos estudos. Seja como for, tanto a história como a metafísica necessitam da analogia para alcançar suas verdades.


Lembra-nos José Miguel Gambra, no extraordinário livro La analogía em general – síntesis tomista de Santiago Ramírez, que o vocábulo latino “analogia” traduz o conceito empregado por matemáticos pitagóricos e por Euclides. Ocorre que estes distinguiam entre λόγος, αναλογία e άνάλογον. Por λόγος entendiam eles uma relação de comensurabilidade entre duas quantidades homogêneas. Por sua vez, αναλογία significava um λόγος composto, ou seja, uma relação de comensurabilidade de duas relações do mesmo tipo; assim, se o λόγος exigia apenas dois termos, a αναλογία demandava, pelo menos, quatro. Por fim, άνάλογον se chamava cada uma das quantidades de que consta um λόγος, o qual naqueles primórdios significava “razão”, “cálculo”, “medição”, etc.[1]


A αναλογία foi acertadamente traduzida como proportio por latinos clássicos como, por exemplo, Cícero. Cerca de um milênio depois, como observara Santiago Ramírez, os escolásticos acabaram por misturar os termos e usar a palavra analogia para traduzir tanto o λόγος como a αναλογία dos gregos — o que causou certa confusão terminológica, em virtude da inclusão de dois modos da analogia que passaram a ser tomados por um só: a proportio e a proportionalitas. Daí preferir Ramírez, em seu clássico tardio De analogia, utilizar o conceito consagrado pelo Cardeal Caetano num período posterior ao de Santo Tomás — segundo o qual analogia atributionis substitui aproximativamente o λόγος grego, e analogia proportionalitatis traduz a αναλογία por excelência.[2]


Em sua dinâmica própria, a analogia é uma relação entre nomes, conceitos e coisas. Ademais, como afirma o Pe. Penido em alguns trechos do seu denso Le rôle de l’analogie em théologie dogmatique, as coisas reais significadas na analogia têm a função de indivíduos cuja comparação serve de parâmetro indutivo da própria noção de analogia. Neste contexto, todos os ramos das matemáticas fazem uso da analogia, na medida em que esta lhes dá as proporções que servem de objeto formal para os seus conhecimentos.


Mas o uso da analogia vai muitíssimo além, como aponta José Miguel Gambra.[3]


Vejamos:


Ø Na física, o exemplo clássico é o de Newton, cuja lei se vale de uma analogia, a saber: os corpos se atraem na razão direta de sua massa e na razão inversa ao quadrado de suas distâncias;


Ø Na filologia aparecem freqüentes analogias no estudo da formação das palavras;


Ø A gramática, ao estatuir leis pelas quais os verbos são ditos regulares ou irregulares, utiliza a análise de proporções e semelhanças existentes entre declinações e conjugações verbais;


Ø Na paleontologia houve quem, apoiando-se no estudo da proporção entre os órgãos, reconstituísse a partir de um só osso todo o corpo de um animal jurássico;


Ø Na biologia são incontáveis as analogias entre as funções orgânicas de um mesmo animal, ou entre espécies distintas;


Ø No direito, seja civil ou eclesiástico, encontramos regras analógicas em profusão, como a que diz, por exemplo, o seguinte: “De duas coisas similares há de fazer-se o mesmo juízo”;


Ø Em ciência política, o exemplo de Gambra bebe da fonte do próprio Tomás de Aquino, que ensina em seu Comentário ao Evangelho de Mateus: “Assim como ao perder a saúde o homem tende à morte, assim também ocorre com a paz, que ao se retirar do reino acarreta a ruína”;[4]


Ø Em lógica é famosa a formulação de um princípio baseado na clássica analogia de proporcionalidade: o silogismo dialético está para a opinião assim como o silogismo apodítico está para a ciência;


Ø Em cosmologia há um exemplo de analogia inspirado na física aristotélica, segundo o qual a geração está para a alteração assim como a substância está para a qualidade;


Ø Na ética, afirma Tomás de Aquino algo deveras interessante por meio de uma analogia: “O que para o intelecto é afirmação e negação, para o apetite é perseguição e fuga; e o que para o entendimento é verdadeiro e falso, para o apetite é bom e mau”.[5]


Ø A teologia sagrada, por sua vez, é regida pelo princípio da analogia fidei, segundo a qual os diversos lugares das Escrituras são congruentes entre si e, em seu conjunto, correspondem aos Dogmas da Igreja.


Caracteriza todas estas analogias o fato de se tratar de semelhanças entre coisas diversas ou proporções entre coisas similares. No caso da história, o procedimento analógico é absolutamente usual e observável em todas as sínteses ou periodizações já esboçadas pelo espírito humano, com maior ou menor grau de acerto, com mais ou menos coerência, de maneira mais ou menos defensável, com o uso reto da lógica ou de forma absurda. Em suma, de Agostinho a Vico; de Hegel a Marx; de Joaquim de Fiore a Hobbes; de Burckhardt a Villoslada; de Thomas More a Croce; de Voegelin a Gramsci; de Dante a Marsilio de Pádua — nestes e em todos os autores importantes que se dedicaram ao estudo da história observamos o recurso à analogia, de maneira consciente ou inconsciente.


Ora, por ser a história um frágil tipo de permanência do passado no presente, ela é uma ciência essencialmente interpretativa e, portanto, sempre precisará recorrer a analogias.


Estabelecido este princípio, agora sentimo-nos à vontade para fazer um paralelo entre Maquiavel e o admirável mundo contemporâneo.



3. Mentira religiosa e mentira política


(continua).
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1- José Miguel Gambra, La analogía em general – sínteses tomista de Santiago Ramírez. EUMSA, 2002, p.96.


2- José Miguel Gambra, op. cit., p.97.


3- José Miguel Gambra, op. cit., pp. 100-102.


4- Tomás de Aquino, In Evangelium secundum Matheum, cap. 12, n. 2.


5- Tomás de Aquino, Suma, II-II, q. 20, art.1.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

"Memória e identidade em Santo Tomás": texto do Prof. Martín Echavarría (e agradecimentos)

Sidney Silveira

O blog Estudos Tomistas acaba de postar um texto esplêndido do prof. Martín Echavarría, psicólogo e filósofo que tivemos a honra de trazer ao Brasil ano passado, para o evento "Santo Tomás, médico da alma". O estudo intitula-se Memória e identidade em Tomás de Aquino, e pode ser lido na íntegra neste link.

Em tempo: Reitero o meu agradecimento a Olavo de Carvalho, e por extensão aos que (sendo alunos seus ou não) nos últimos dias prestaram solidariedade para comigo, enviando belas mensagens e/ou contribuindo com doações via PayPal para o Instituto Angelicum e também com uma ajuda pessoal a mim. Faço neste ponto questão de tranqüilizar as pessoas no seguinte sentido: como as coisas na internet às vezes se transformam num rastilho de pólvora (e alguns amigos desavisados se alarmaram um pouco, o que se explica), repito o que disse noutra ocasião, a saber — que o meu problema cardíaco, congênito e crônico, de fato se tornou no último semestre motivo de preocupação e fonte de vários sustos, com idas e vindas a emergências de hospitais aqui do Rio, tudo sendo agravado pelo momento de desemprego e algumas contingências pessoais difíceis, mas estou administrando o problema de saúde com medicamentos e rígido controle da pressão arterial. Farei em breve novos exames para avaliar a situação, e darei boas notícias, se Deus quiser.

Uma vez mais, muito, muitíssimo obrigado a todos os que se mostraram preocupados e solidários! De minha parte, posso assegurar que recebi algumas lições da vida, as quais levarei comigo para sempre. Que Deus nos proteja a todos e nos encaminhe a uma vida de fé e freqüência nos sacramentos, assim como uma atitude de contínua busca pela perfeição espiritual, a qual é medida, como dizia São Francisco de Sales, pelo crescimento no amor a Deus e ao próximo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Agradecimento a Olavo de Carvalho

Sidney Silveira


Um homem sabe se tem ou não amigos quando está doente, endividado, sozinho, sem emprego, derrotado em seus projetos e, em suma, desamparado. Ou melhor: nestas ocasiões ele consegue distinguir os reais amigos dos parasitas morais que, até então, o rodeavam; consegue ver quem o ama de verdade, e quem apenas se aproxima dele por interesses mesquinhos. O resultado não é surpresa para ninguém — na hora do pega pra capar, quase todos desaparecem ou se omitem.


Tive recentemente esta experiência, e agora posso dizer que conheço na prática o que, até então, só conhecia em teoria: a) o meu problema cardíaco congênito se agravou grandemente no primeiro semestre deste ano, e hoje a minha melhora se deve a uma disciplinada terapia medicamentosa, mas ainda convivo com altos e baixos; b) perdi o excelente emprego que, desde o ano de 2000, era meu ganha-pão, embora graças a Deus já esteja trabalhando noutro; c) endividei-me, devido a um conjunto de circunstâncias pessoais, e me atolei na ciranda financeira que impera no Brasil, de juros bancários indecentes; d) fiquei sem plano de saúde e, enquanto não me associo a outro em condições minimamente aceitáveis, estou tendo de pagar por exames médicos proibitivamente caros, sabe Deus como.


Brazil, land of hope and opportunities!


Devido a tudo isso, os projetos de divulgação da filosofia e da teologia de Santo Tomás de Aquino (principalmente a publicação de livros, mas também a realização de palestras, eventos e cursos até então gratuitos), que já vinham perdendo velocidade, quase estagnaram, porque sempre tirei do próprio bolso a grana para tocá-los. Com a criação do site do Instituto Angelicum, hoje em fase de construção, eu e outros professores esperamos iniciar uma série de cursos de filosofia tomista, de história medieval e de idiomas pela internet, e isto trará um alento ao projeto. A propósito, cada vez mais me convenço de que este é o papel que nos cabe: difundir a obra de Santo Tomás de Aquino no Brasil. E ponto. Um serviço prestado para futuras gerações de estudantes de filosofia e teologia, assim como seminaristas.


Não se confunda o que escrevi acima com chororô, pois sei muitíssimo bem que o jogo é jogado e na vida se perde e se ganha. Apenas registro estas coisas motivado pela audição do link enviado por meu irmão, Ricardo da Costa, em que ao final o Prof. Olavo de Carvalho agradece pela crítica positiva que fiz ao seu livro Maquiavel ou a Confusão Demoníaca, no primeiro texto da série que estou escrevendo sobre o maligno Florentino. Olavo fez algo que muitas pessoas (algumas próximas e catolicíssimas) se mostraram incapazes de fazer: referindo-se generosamente à minha doença, agiu efetivamente para, de alguma maneira, minimizar o problema: sugeriu que eu abrisse uma conta do PayPal e a colocasse aqui no blog para receber doações, as quais serviriam tanto para o meu momento atual de dificuldades financeiras e urgências médicas, como também para não pararmos com este trabalho — que inclui a publicação de obras de Santo Tomás, de tomistas e de autores ligados, direta ou indiretamente, à filosofia medieval.


Ora, tendo Olavo tantos fiéis leitores e alunos, sabe muito bem que um conselho como o seu há de gerar ações efetivas por parte de almas generosas e de gente interessada em apoiar o nosso projeto. E ainda que não gere nada, não importa: no plano moral, as ações valem pelo fim a que se ordenam, e não pelos resultados materiais que possam produzir.


Em vista disso agradeço penhoradamente a você, Olavo. E reitero o que disse em um texto anterior: ao escrever uma série de textos sobre Maquiavel, não me pareceu honesto deixar de mencionar um autor brasileiro que recentemente publicou uma relevante obra sobre o tema, com reais achados em vários capítulos, como por exemplo nos que se intitulam "Camadas de sentido" e "Inversão paródica do cristianismo" (obra em relação à qual eu teria uma isolada indagação a lhe fazer, mas noutra oportunidade). Seria, pois, tola picuinha omiti-la ao falar qualquer coisa sobre o autor d'O Príncipe, mas graças a Deus a doença me deu uma nova perspectiva e renovou o meu olhar na consideração das efemérides do mundo como aquilo que exatamente são: palha.


Você, Olavo, foi muito além da obrigação moral e da honestidade intelectual; agiu como samaritano, ou seja, propôs algo efetivo para ajudar uma pessoa que nunca pertenceu ao seu grupo de amigos, ou melhor: alguém com quem brigou áspera e publicamente não faz muito tempo.


Se porventura o meu elogio ao seu livro sobre Maquiavel é insuspeito, a sua generosa atitude para com a minha pessoa é muito mais do que insuspeita; é grandemente meritória e me comoveu de verdade.


Muito, muitíssimo obrigado. Que Deus lhe retribua em triplo, e que Nossa Senhora — Omnipotentia Supplex — rogue a seu divino Filho por você, no sentido de que alcance o perdão dos pecados e a glória da visão beatífica.


Em tempo: Não estou em condições materiais de negar qualquer ajuda (por escrúpulos que, até então, sempre tive) e farei exatamente o que me aconselha Olavo no vídeo acima citado, indicando, a seguir, duas contas-correntes:


Ø uma para os amigos que caridosamente quiserem ajudar-me no plano pessoal, pois as dificuldades são infelizmente reais, mas se Deus quiser momentâneas;


Ø outra para quem tenha interesse específico em apoiar a publicação de livros;


Ø e, por fim, o link do PayPal — que ficará afixado na lateral do Contra Impugnantes, para quem prefira esta forma de apoio.


Nestes dois últimos casos, os recursos serão totalmente direcionados ao trabalho do Instituto, que, como anunciei há algum tempo, está prestes a apresentar a publicação de As Heresias de Pedro Abelardo, de São Bernardo de Claraval (em primorosa tradução do meu querido amigo Carlos Nougué e, num trecho específico, de Renato Romano), pois mesmo na penúria foi possível gerar — em paralelo — algum dinheiro para o projeto não morrer. Lembro, a propósito, que o recém-lançado livro Inteligência e Pecado em Santo Tomás continua à venda.


Eis os dados:


Pessoa física:


CAIXA ECONÔMICA FEDERAL



AG. 3106


C/C: 749-0


OPERAÇÃO. 001


CPF. 002.655.647-27




Pessoa Jurídica:


CAIXA ECONÔMICA FEDERAL




INSTITUTO ANGELICUM


AG. 3106


C/C: 751-9


OPERAÇÃO. 003


CNPJ. 14.990.878/0001-26

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Maquiavel em clave teológica (IV)



(continuação deste texto)


Sidney Silveira


Ao apontar o necessário conjunto de conhecimentos prévios ao estabelecimento de uma teoria política que não oprima o homem, vimos que uma das principais lacunas da ciência política posterior ao medievo está no fato de carecer de uma antropologia realista.


Com tal afirmação, é nosso propósito apenas consignar um fato. Ademais, a anterioridade do problema antropológico em relação ao político é análoga à precedência da metafísica em relação à gnosiologia, evidência esta que nenhum pensador antigo ou medieval jamais ignorou. Platão, por exemplo, escreve a República — na qual o Estado não é outra coisa senão a alma humana em ponto grande — antes de propor a sua teoria das Leis; Aristóteles primeiramente estabelece os fundamentos do bem agir humano, na Ética a Nicômaco, para somente então anunciar a sua Política; Santo Tomás estuda a Ética e a Política de Aristóteles apenas depois do formidável escrutínio que realiza nos comentários ao De Anima, à Física e à Metafísica.


Vale dizer que, mesmo em alguns autores modernos, observamos a obediência a esta ordem de problemas, como aponta o tomista Maxence Hecquard no denso Les fondaments philosophiques de la démocratie moderne.[1] Kant, por exemplo, apesar de esboçar uma gnosiologia sem possuir real base metafísica, escreve a Crítica da Razão Pura (1781) antes da Doutrina do Direito (1797), onde estão configurados os pressupostos de sua teoria do Estado civil; Hegel redige a Fenomenologia do Espírito (1807) antes da Filosofia do Direito (1821), na qual concebe o Estado como um todo em si e para si, onde as vontades individuais estão ordenadas à vontade universal, estatal.


Seria ocioso enumerar mais exemplos, pois neste ponto importa-nos apenas registrar algo que, noutros tempos, seria mera obviedade:


Ø Todo teórico da política, dada a natureza das questões em que está imerso, precisa fazer referência, direta ou indireta, consciente ou inconsciente, à natureza humana, pois não há como propor fórmulas, leis ou regras para o convívio entre os homens sem conceber, de alguma maneira, o que é o homem.


A perda da sólida base antropológica que, na escolástica, teve o seu ápice em Tomás de Aquino provém da mudança de vetor estimulada pela difusão de algumas idéias-chave de Duns Scot, que não apenas estabeleceu uma estrita separação entre teologia e metafísica, mas também foi o primeiro a propor, com aparente rigor filosófico, a tese da vontade como causa sui e como faculdade superior à inteligência. Assim, no cenário lentamente desenhado a partir do século XIV, a teologia começa aos poucos a perder densidade filosófica; a metafísica vai esvaziando-se e abrindo flanco para diversos tipos de idealismo gnosiológico, de fundo nominalista; a antropologia passa a produzir psicologias voluntaristas e perde o norte teleológico que, até então, lhe dava perspectiva.


Estas foram algumas circunstâncias sem as quais o humanismo político jamais poderia deitar raízes no Ocidente. Em síntese, antes que as sociedades começassem a se descristianizar, foi necessário quebrar-se o núcleo doutrinário que alimentava a mentalidade religiosa predominante na Idade Média, não obstante os atritos que sempre houve entre os poderes espiritual e temporal — análogos, no plano político, à luta titânica do homem ferido pelo pecado original para manter-se em estado de graça.


Uma luta repleta de altos e baixos, retrocessos e recomeços, e que não cessará até o Juízo Final.






Cosmovisão católica x política no mundo pós-cristão


No ambiente mental contemporâneo, moldado por dois séculos de mistificação liberal, com todas as suas funestas conseqüências, as energias foram galvanizadas para fins diametralmente contrários ao bem comum político, cuja noção tornou-se anacrônica. Na trágica entropia global, de que as sociedades pós-modernas já desde algum tempo não têm como encontrar saída — a menos que negassem in totum os princípios que as conformam —, Maquiavel ocupa lugar de honra, como pedra angular de um mundo sem honra.


Mas não adiantemos o passo, pois há questões prévias a elucidar antes de mostrar como o maquiavelismo se tornou a satânica sombra a pairar sobre todas as bandeiras políticas desde os albores do Renascimento, encontrando terreno particularmente fértil para germinar nas democracias liberais — plutocráticas e demagógicas —, mais até do que nos regimes totalitários, embora também a estes o seu imoralismo se amoldasse perfeitamente. Em verdade, a conaturalidade entre maquiavelismo e democratismo se explica pelo fato de que a democracia moderna tende à demagogia como a seu fim próximo, ou seja: sua materia prima é a mentira política, por meio da qual, exatamente como n’OPríncipe de Maquiavel, homens sem escrúpulo procuram fazer de tudo para manter-se no poder a qualquer custo.




1. Reflexos da esperança judaico-cristã na política


Comecemos este ponto destacando que, em seus primórdios, o povo judeu foi — a um só tempo — o povo da promessa e da esperança.


Israel nasceu de uma promessa, ou, noutras palavras: foi a promessa divina o que constituiu os judeus como povo e fez deles uma espécie de encarnação da esperança, tanto na terra prometida, Canaã, quanto no Messias anunciado pelos profetas. Em síntese, os judeus assumiram a sua identidade e se tornaram unidade religiosa, social e política ao lhes ter sido assinalada por Deus uma finalidade específica, na qual punham a mais fervorosa esperança. É a isto que São Paulo faz alusão ao escrever que somente pela esperança de Israel está preso por correntes (At. XXVIII, 20).


Como não poderia deixar de ser, a esperança dos judeus anteriores a Cristo possuía todas as quatro características da esperança enquanto paixão humana [2] apontadas por Santo Tomás na Suma Teológica:


Ø que seja de um bem (pois ninguém espera o mal);


Ø que este bem seja possível (pois ninguém espera o impossível);


Ø que seja futuro (pois ninguém espera o presente); e


Ø que seja relativamente árduo (pois ninguém espera o que já está à mão).[3]


E mais, tinha ela fins infra-terrenos: a vinda do Messias (que, na concepção de escribas e fariseus, autoridades espirituais no tempo de Jesus, teria missão apenas temporal) e a terra prometida, acima mencionadas. Ocorre que, com o advento de Cristo, a esperança nas promessas de Deus passa por verdadeira purificação espiritual, pois, malgrado mantenha todas as características de uma paixão humana, se transforma em virtude teologal, ou seja, ganha um suplemento de força espiritual, gratis dada, infundida por Deus após Pentecostes. Além disso, o seu objeto passa a ser supra-terreno: a Pátria Celeste, reino da perfeita bem-aventurança, em relação à qual não há pátria ou nação no mundo que se compare.


Por sua vez, a esperança dos judeus que renegaram ao Messias e, segundo a teologia católica tradicional, a de todos os que sucederam àquela geração — e continuam a não aceitar o Messias —, não alcança essa virtù proveniente do Alto, e pior: corrompe-se até mesmo como paixão humana, degenerando em obstinação e cegueira espiritual, cujo terrível símbolo é a maldição que eles próprios chamaram para si no exato momento em que jogavam o poder político (representado por Pilatos) contra o poder celeste (configurado em Cristo): “Que o Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos” (Mt. XXVII, 24-25). Em resumo, para a doutrina bimilenar da Igreja, expressada em séculos sem fim de Encíclicas, Bulas, Decretais, Concílios, etc. [4] — Magistério sobre o qual não é nosso propósito estender-nos, neste ponto do artigo —, os judeus não convertidos posteriores a Cristo são infiéis. A propósito, frisa Santo Tomás que a infidelidade dos pagãos que não receberam o Evangelho é menos grave que a dos judeus, e esta, por sua vez, é menos grave que a dos hereges.[5]


Após Cristo, o fato é que muda totalmente o vetor da esperança nas promessas divinas, e isto traz enormes conseqüências para a maneira de conceber a política — pois, pela primeira vez na história, é proposto aos indivíduos e às sociedades, com meridiana clareza, um fim absolutamente universal, por meio da graça de que a lei evangélica é portadora.[6] É certo que, para alcançar tal fim, os homens precisam aceitar a Cristo e recorrer aos remédios espirituais preceituados no Evangelho e acessíveis pelos sacramentos instituídos para ser ministrados na Igreja por Ele fundada. E mais: com o intuito de que tais remédios estivessem à disposição de todos até a consumação dos séculos, quis Nosso Senhor que o precioso depósito da fé fosse devidamente guardado pela Igreja, dotando-a de um indefectível carisma magisterial para ensinar as verdades reveladas (eumtes ergo docete omnes gentes, Mt. XVIII, 19).


Em resumo, o cristão não espera por Canaã, a terra prometida, mas pela Pátria Celeste — e isto pregando a Cristo crucificado, o que é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (Cor. I, 1, 23). Isto implica o seguinte: na perspectiva cristã, a política se dignifica ou se degrada na exata medida em que reflete os bens evangélicos ou a eles se opõe; neste último caso, resta aos cristãos a perseguição, o degredo, a humilhação pública e — nos casos em que apraz a Deus — o martírio. “Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt. V, 11). Assim, os cristãos, enquanto tais, jamais poderão fazer pactos com um poder político que seja alheio ou contrário à ordem da graça.


Como se pode deduzir, nesta concepção a política deixa de ser algo com um fim em si, como a concebiam Platão e Aristóteles, cada qual a seu modo, e passa a assumir caráter instrumental de meio para a consecução de bens universais de ordem superior. Passa-se então a buscar politicamente fins transpolíticos, o que não implica separação entre os poderes material ou espiritual, mas ordem daqueles a estes — isto tanto na Canaã judaica de tempos anteriores a Cristo, em que as leis humanas deveriam ter estreita conexão com os 10 Mandamentos, como nas cidades cristãs, peregrinas em direção à Pátria Celeste, fazendo-se a ressalva de que, com o advento da lei do Evangelho, apenas os preceitos da lei mosaica atinentes à lei natural se conservam.


É verdade, como diz o Pe. Álvaro Calderón na obra-prima A Candeia Debaixo do Alqueire, que no seio da própria Cristandade surgiu, ainda no século XIV, a idéia de que se deve dar aos Césares a natureza, e à Igreja a graça. Esta foi a proposta de Dante no De Monarchia — que, com a difusão dos escritos de Vitoria e Suárez, alguns séculos depois, viria a se tornar doutrina “comum” entre pensadores católicos precursores do liberalismo teológico alcunhado por São Pio X de modernismo.


Seja como for, note-se que o caminhar das idéias políticas no Ocidente, ao longo da vagarosa decadência do cristianismo iniciada no final da Idade Média, está inextricavelmente associado a premissas de caráter teológico. Algumas delas defendidas por cristãos que se voltaram diretamente contra o Magistério da Igreja.




2. O humanismo político e Maquiavel — precursores da contemporaneidade


(continua)


__________________________
1- Maxence Hecquard. Les fondaments philosophiques de la démocratie moderne. Paris: 2007. François-Xavier de Guilbert, p. 64.

2- Ou seja: da paixão enquanto movimento do apetite sensitivo pela imaginação de um bem ou de um mal.


3- IIª-IIª, q. 17, art. 1, resp.


4- Para não correr o risco de nos estender por demais, citando inúmeros Concílios (Ecumênicos ou não), fazemos a seguir referência a uma parte do Magistério ordinário da Igreja que, desde a Idade Média, menciona explicitamente a infidelidade dos judeus, ou a dá por pressuposta. Todos estes documentos são encontráveis no Bularium Romanum:


Honório III: Sicut judaeis non debet esse licentia 7 de novembro de 1217; Ad nostram noveritis audientiam, 29 de abril, 1221;


Gregório IX: Sufficere debuerat perfidiae judaeorum perfídia, 5 de março de 1233;


Inocêncio IV: Impia judaeorum perfídia, 9 de maio de 1244;


Clemente IV: Turbato corde 26 de julho de 1267;


Gregório X: Turbato corde, 1º de março de 1274;


Nicolau III: Vineam Sorec, 4 de agosto de 1278;


Nicolau IV: Turbato corde, 5 de setembro de 1288;


João XXII: Ex Parte Vestra, 12 de agosto de 1317; Cum sit absurdum, 19 de junho de 1320;


Urbano V: Sicuti judaeis non debet, 7 de junho de 1365;


Martim V: Sedes apostólica, 3 de junho de 1425;


Eugênio IV: Dudum ad nostram audientiam, 4 de agosto de 1442;


Calixto III: Si ad reprimendos, 28 de maio de 1456;


Paulo III: Cupientes judaeos 21 de março de 1542; Illius, qui pro dominici, 19 de fevereiro de 1543;


Júlio III: Pastoris aeterni vices, 31 de agosto de 1554;


Paulo IV: Cum nimis absurdum e Dudum postquam, 23 de março de 1556;


Pio IV: Cum inter ceteras, 26 de janeiro de 1562; Dudum e felicis recordationis, 27 de fevereiro de 1562;


São Pio V: Romanus Pontifex 19 de abril de 1566; Sacrosanctae catholicae ecclesiae, 29 de novembro de 1566; Cum nos nuper, 19 de janeiro de 1567; Hebraeorum gens, 26 de fevereiro de 1569;


Gregório XIII: Vices Ejus nos, 1º de setembro de 1577; Antiqua judaeorum improbitas, 1º de julho de 1581; Sancta Mater Ecclesiae, 1º de setembro de 1584;


Sixto V: Christiana pietas, 22 de outubro de 1586;


Clemente VIII: Cum saepe accidere, 28 de fevereiro de 1592; Caeca et obdurata, 25 de fevereiro de 1593; Cum Haebraeorum malitia, 28 de fevereiro de 1593;


Paulo V: Apostolicae servitutis, 31 de julho de 1610; Exponi nobis nuper fecistis, 7 de agosto de 1610;


Urbano VIII: Sedes apostólica, 22 de abril de 1625; Injuncti nobis 20 de agosto de 1626; Cum sicut acceptimus, 18 de outubro de 1635; Cum allias piae, 17 de março de 1636;


Alexandre VII: Verbi aeterni, 1º de dezembro de 1657; Ad ea per quae,15 de novembro de 1658; Ad apostolicae dignitatis, 23 de maio de 1662; Illius, qui illuminat, 6 de março de 1663;


Alexandre VIII: Animarum saluti, 30 de março de 1690; Inocêncio XII: Ad radicitus submovendum, 31 de agosto de 1692;


Clemente XI: Propagandae per universum, 11 de março de 1704; Essendoci stato rappresentato, 21 de janeiro de 1705; Salvatoris nostri vices, 2 de janeiro de 1712;


Inocêncio XIII: Ex injuncto nobis, 18 de janeiro de 1724;


Bento XIII: Nuper, pro parte dilectorum, 8 de janeiro de 1726; Emanavit nuper, 14 de fevereiro de 1727; Alias emanarunt, 21 de março de 1729;


Bento XIV: Postremomens, 28 de fevereiro de 1747; Apostolici Ministerii munus, 16 de setembro de 1747; Singulari Nobis consoldtioni, 9 de fevereiro de 1749; Elapso proxime Anno, 20 de fevereiro de 1751; A quo primum, 14 de junho de 1751; Probe te meminisse, 15 de dezembro de 1751; Beatus Andreas, 22 de fevereiro de 1755.


5- Suma Teológica, IIª-IIª, q. 10, art. 6, resp.


6- Cfme. Suma Teológica, Iª-IIª, q. 106, art. 3.