sexta-feira, 20 de julho de 2012

Parêntese para o humor

Sidney Silveira

Aprecio a caricatura porque, muitas vezes, ela nos leva mais rapidamente à clara percepção da ridiculez do mundo, ou seja: restitui-nos o senso de realidade. O texto abaixo (momento lúdico no Contra Impugnantes) mostra de que barro são feitos alguns ídolos contemporâneos... O site de onde foi retirado o texto está indicado ao final.



Imagem de um cientista após sete horas tentando decifrar

os cinco primeiros versos de Tempo Rei.



Gilberto Gil completa 70 metáforas incompreensíveis


ESPERANTO – Em cerimônia impenetrável em que todos se confundiram já no “Bom dia”, o intelectual, literato e grande mestre do português indecifrável Candido Mendes entregou a Ordem do Mistério Enigmático, no grau Charada Abstrusa, a Gilberto Gil, “em homenagem estreme e impermista a suas setenta metáforas pulcras”.



Enquanto a platéia folheava freneticamente os três volumes do Dicionário da Língua Portuguesa Caldas Aulete, Candido Mendes seguiu afirmando que, mesmo com toda sua experiência em criar obstáculos à compreensão do idioma, se sentia um humilde aprendiz diante da obra gilbertiana. “Por mais que obrasse, jamais atinei com a razão pela qual no instante que tange o berimbau é volta ao mundo, camará”, disse, sem esconder a admiração. Perguntado sobre quanto tempo levaria para traduzir a obra de Gil para o português, respondeu: “De jangada leva uma eternidade. De saveiro leva uma encarnação. De avião, o tempo de uma saudade”.


Pelo menos cinco psicanalistas lacanianos e dois especialistas em Gilles Deleuze tomaram o microfone para atestar que a elucidação dos ditos do compositor baiano tem sido o maior desafio profissional de suas carreiras. “E olha que tivemos de atravessar o Seminário sobre a Lógica do Fantasma”, disse um lacaniano. “E o conceito de rizoma em Diferença e Repetição”, aduziu um deleuziano, sendo prontamente ovacionado pelo feito. “Nada disso nos preparou para decifrar por que enquanto o tempo não trouxer abacate amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”, concluiu um heideggeriano, que se mostrou nitidamente assustado com o verso. “Durmo todas as noites com receio de acordar num mundo só de tomates".



Gilberto Gil aceitou a comenda, mas declarou que se sentia desmerecedor da honraria. “Afinal, é com pesar e admiração que digo a vocês que não fui capaz de compor o verso 'Quando se tem o álibi de ter nascido ávido e convivido inválido mesmo sem ter havido'. Passado o instante de perplexidade, os jurados concordaram com Gil e chamaram Djavan ao palco. No final do dia, executivos do Google anunciaram o lançamento do Gilberto Gil Tradutor, uma ferramenta que verte os versos do vate baiano para doze idiomas – inclusive o português.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Maquiavel em clave teológica (III)



(continuação deste texto)


Sidney Silveira




3. Necessidade de conhecimentos prévios à ciência política


Antes de prosseguir com o estudo teológico acerca do lugar que, na história da política, cabe a Maquiavel e ao maquiavelismo, abramos um parêntese para fazer algumas considerações a respeito do necessário conjunto de conhecimentos prévios a qualquer tentativa de desenvolver uma teoria política.

O risco de apontar o óbvio justifica-se, dada a quase absoluta ausência de tais conhecimentos em grande parte das teorias políticas desde o Renascimento, as quais no decorrer dos séculos acabaram por resultar nas democracias liberais, filhas da Revolução Francesa e fomentadoras da entropia — moral, política, cultural, etc. — em que jaz o mundo contemporâneo.





Lógica


De acordo com os ensinamentos de Aristóteles e Santo Tomás, tanto melhor é uma definição quanto mais acertadamente responde à seguinte pergunta: quid est? Sucede que, embora várias definições de uma coisa possam ser verdadeiras, sempre haverá a que mais se aproxima de sua essência — em virtude da potência do intelecto para assimilar imaterialmente a forma dos entes e descobrir a unidade na multiplicidade. Assim, definir o homem como animal racional é mais preciso do que defini-lo como bípede implume ou como vertebrado vivente. Tais definições se referem ao ente real (ens reale) ou natural (ens naturalis), mas o problema se complica deveras quando se trata do ente de razão (ens rationis), objeto da análise e da síntese lógicas, ou seja, dos raciocínios.

Dito isso, não nos parece ocioso frisar que a política não é uma coisa real existente extra anima (como gato, pedra, homem, etc.), mas um ente concebido pelo intelecto com fundamento distante na coisa. Ou seja, ela não é algo a que se chegue pela simplex aprehensio, primeira operação do intelecto humano pela qual se tem contato direto com o ente real — assimilado como incomplexo e indiviso. Não, à compreensão da ordem política se chega por meio de juízos e raciocínios (segunda e terceira operações do intelecto), e isto a partir de algumas evidências. Portanto, enquanto conceito mental ela pertence ao universo das chamadas segundas intenções,[1] que são objeto da lógica. Assim, para saber com segurança o que é a política, é preciso usar o método analítico (resolutio) que conduz a coisas mediatas às imediatas,[2]ou seja:



a) que leva as proposições aos princípios de que necessariamente decorrem;

b) que faz os juízos remontar às suas premissas; e

c) que reconduz as premissas aos primeiros princípios universais, que servem de base para todo e qualquer raciocínio, como expõe o tomista brasileiro Sergio de Souza Salles em excelente artigo.


Em resumo, a política pertence propriamente à ordem da intentio secunda, e tanto melhor será possível conhecê-la quanto mais se tenha o domínio dos instrumentos subsidiários da lógica — arte serviçal na acepção da palavra, porém absolutamente necessária ao labor filosófico. Quantos cientistas políticos, embora tivessem bons insigths, puseram tudo a perder simplesmente porque eram péssimos lógicos! Quantas lacunas se observam em teorias políticas não porque o filósofo esteja imbuído de algum tipo de má-fé, mas apenas porque não sabe pensar, ou seja, não consegue ver as proposições à luz dos seus princípios necessários — o que, dado o modo humano de conhecer, só é possível por meio de raciocínios, e, portanto, pelo reto uso da lógica, a “ama-de-leite de todas as ciências”, na expressão do Pe. Calderón no livro Umbrales de la Filosofía.


Advirta-se que não se está dizendo que a lógica resolverá o problema da política, evidentemente. A propósito, houve homéricos exemplos de fracassos por parte de autores que diziam pautar-se na lógica, como Thomas Hobbes: este buscou formular uma teoria política a partir de argumentos de natureza lógico-dedutiva e acabou por criar um monstro tirânico chamado Leviatã. Acontece que Hobbes era mau lógico, péssimo metafísico e uma nulidade como teólogo, razão pela qual como cientista político só poderia erigir um monumento à desgraça, e não pode haver desgraça maior, em política, do que o esfacelamento da noção de bem comum.

A conclusão hobbesiana de que o Estado existe em função do indivíduo, malgrado seja, na prática, a instância que oprime todos os indivíduos, tem saltos lógicos e premissas arbitrárias (como a pressuposição da violência no estado “natural” primevo). Mas mesmo que a sua teoria fosse perfeita do ponto de vista lógico, isto apenas comprovaria que a lógica não tem, nem pode ter, um fim em si mesma — dado o seu caráter instrumental —, tamanha é a absurdidade de alguns postulados de Hobbes.

O que se está apontando é algo de uma constrangedora simplicidade: sendo a lógica uma disciplina diretiva dos atos da razão, ela é absolutamente necessária a todas as ciências, pois não se pode avançar em nenhuma delas sem o domínio da arte de pensar. Se tal verdade vale para a teologia e para a metafísica, ciências de caráter universal, em razão do seu objeto, mais ainda valerá para a política, para cujo crescimento nos estudos se requer o uso virtuoso da ciência do raciocínio que é a lógica, pois, como se apontou acima, a política não é algo passível de ser apreendido como incomplexo ou indiviso, mas uma realidade conceitual a que se chega por juízos e raciocínios. Tinha muita razão Aristóteles ao considerar a política como ciência arquitetônica, o que implica uma sabedoria abarcadora dum notável conjunto de conhecimentos, entre os quais está o domínio da ars logica.

Assim, a arguta observação de João de Santo Tomás segundo a qual o intelecto opera trazendo as coisas para si [3] — assimilação formal da verdade — pressupõe modos distintos de conhecimento da realidade, e, no caso da política, um longo caminho a ser percorrido pela inteligência até as causas mais universais, o que só se pode fazer pelo uso da lógica. Ou seja: o intelecto abstrai a forma dos entes reais e os traz para si depois de ir a eles por meio das suas três primeiras operações: simples apreensão (que, como dissemos, não alcança a política), juízo e raciocínio. Quando isto não acontece da forma devida, acaba-se caindo naquilo que o tomista Juan José Sanguineti chama de “sistematização do erro”[4] — ou seja, uma espécie anômala de ciência do que não é, fato observável em todas as teorias políticas que não possuem base metafísica nem coerência lógica.

Não nos custa lembrar, neste ponto, que a concepção política de Tomás de Aquino é não apenas lógica, em seu sentido mais elevado, mas também parte da reta compreensão da natureza humana e da certeza de que esta se orienta teleologicamente a Deus. Esta visão abrangente e harmônica lhe garante notável coerência e solidez.

Mas não nos desviemos do ponto.



Antropologia


Toda má teoria política se apóia numa antropologia desvirtuada, reducionista e pretensamente “realista”. Esta é uma verdade universal. De Maquiavel a Hobbes (O Príncipe / Leviatã); de Marsílio de Pádua a Montesquieu (Defensor Pacis / O Espírito das Leis); de Locke a Rousseau (Segundo Tratado sobre o Governo Civil / Contrato Social); de Thomas More a Marx (Utopia / Manifesto Comunista); de Dante a Gramsci (De Monarchia / Maquiavel, a Política e o Estado Moderno); etc.

Observa-se, nas teorias de todos esses construtores da modernidade humanista, e do mundo insano que gerou — em seus variados matizes fechados à ordem da graça —, uma noção equívoca de “liberdade”, oriunda de um constrangedor desconhecimento acerca dos aspectos distintivos da natureza humana, alguns deles evidentes. Mas não apenas isto, como se verá a seguir.

Eis alguns exemplos:



Ø Dante – Supervalorização da liberdade, considerada como o supremo bem outorgado por Deus — com menoscabo da inteligência — e aplicação da aporética tese averroísta da unidade do intelecto possível, para justificar, por meio de uma forçosa analogia, a existência de uma chefatura política universal (totalmente laica, diga-se).


Vale também citar o fato de que o grande poeta do Trecento parece crer piamente em mitologias romanas como a travessia do Tibre por Clélia e o combate entre Enéas e Turno (De Monarchia, II, 4).


Ø Gramsci – O homem é impensável fora da história e das transformações operadas pelo trabalho organizado socialmente. Em síntese, o autor dos Cadernos do Cárcere deixa claro em algumas passagens de seus escritos que o homem é uma criação histórica de algumas mentes brilhantes.


Sem comentários.


Ø Marx “A natureza é o corpo inorgânico do homem”; ela “é uma parte do seu corpo com a qual deve manter-se em intercâmbio para viver” (Manuscritos de 1844).


A partir dessa primária e confusa desontologização da natureza humana — pela qual o homem se identifica apenas com a instância material que faz parte de sua essência —, Marx se sente à vontade para dizer que o homem se torna “humano” pelo trabalho; não fosse o trabalho, seria ele como os outros animais da natureza. Ensina o pai do comunismo que, ao produzir o mundo “humanizado” pelo trabalho, o homem produz-se a si mesmo como “humano”.


Eis a concepção de humanidade implicada no materialismo histórico, algo irreal, torpe, sem sentido, absurdo.



Ø Thomas MorePermeia todas as teses de sua Utopia um otimismo antropológico absolutamente irrealista. Os “utopianos” são tolerantes (inclusive com os erros), pluralistas em religião, libertários e igualitaristas em política, administradores honestos, desapegados das coisas materiais — tudo isso além de “viverem segundo a natureza”, o que para More é sinônimo de “viver segundo a razão”.


Nada como conceber um Estado irreal, utópico, para um homem que não existe!



Ø Rousseau – O mítico estado “natural” de felicidade é perfeitamente traduzido no “bom selvagem” de Rousseau. A origem áurea dessa humanidade “natural” é, segundo Jean-Jacques, irrecuperável, devido aos malefícios causados pela civilização. Aqui, as absurdidades das teses centrais raiam o patológico, e seria ocioso enumerá-las. Seja como for, estamos nos antípodas da tese de Hobbes do combate de todos contra todos no estado “natural”. Isto sem que Rousseau arrole um só argumento, uma evidência ou uma premissa razoável para sustentar a tese. Em termos simples: o homem natural de Rousseau nunca existiu, ou se existiu é mais difícil de achar que o elo perdido de Darwin.


Vale ainda mencionar que o autor do Emílio, como todo bom humanista, se prosterna ante o altar da liberdade (acerca da qual suas idéias são extremamente confusas), que, de acordo com ele, deve ser salvaguardada dos abusos do poder político.



Ø Locke – Para o famoso empirista, a idéia significada pela palavra “homem” não é senão uma coleção imperfeita de qualidades sensíveis e de algumas potências difusas. A identidade do homem é ser participação da vida continuada em partículas de matéria constante, numa incessante sucessão vital unida a cada corpo orgânico.


A propósito, como acontece com Rousseau e Hobbes, também em Locke há o recurso a um estado “natural” do homem, como apoio à elaboração de sua teoria política. Em síntese, não obstante diga que o homem é “criatura”, Locke concebe um problemático estado pré-social vivido pela imensa maioria da humanidade, no qual teria havido perfeita igualdade, concórdia e harmonia entre todos.



Ø Montesquieu – O homem, em seu estado “natural” de tempos imemoriais, tinha a faculdade de conhecer, mas não possuía nenhum conhecimento. E mais: como ente físico, ele estaria regido por leis invariáveis idênticas às que regem os demais corpos.


Segundo o autor d’O Espírito das Leis, como ente inteligente o homem viola sem parar as leis de Deus e muda as que ele próprio estabeleceu. E mais: da mesma maneira como acontece em Locke, Montesquieu afirma que, no estado primordial, havia paz e harmonia entre os homens. As guerras teriam começado quando os homens se agruparam em sociedade e perderam o sentimento de debilidade. Evidências arroladas para esta premissa? Nenhuma.


Seja como for, é a partir daí que Montesquieu diz terem surgido as leis positivas humanas.



Ø Marsílio de Pádua – Uma das teses do Defensor Pacis é de que o indivíduo humano está “predeterminado pela natureza” a certos ofícios específicos, e só é capaz de se preocupar com o bem viver temporal proporcionado pela comunidade civil. Marsílio parece ignorar que a potência intelectiva humana — devido à sua capacidade de assimilar imaterialmente a forma dos entes e remontar aos princípios universais — é Capax Dei, e portanto está teleologicamente vertida à transcendência.


Mas não: fechada numa espécie de imanência coletiva, a sociedade é concebida por Marsílio de Pádua a partir das respectivas funções a que os homens estão, por “natureza”, orientados. Neste cenário, a Igreja está inserida na comunidade civil numa relação análoga àquela que a parte mantém com o todo. Assim, pertencendo a uma autoridade meramente humana, ou seja, concebida na imanência da Pólis, o Papa, os bispos e as demais autoridades eclesiásticas seriam simples executores das determinações da comunidade de fiéis que, por sua vez, obedecem ao poder civil. Daí a concluir-se que a Igreja está subordinada ao Estado é um nada.


Ø Hobbes Homo homini lupus. Thomas Hobbes, como acima foi apontado, afirma que no começo da humanidade havia uma guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes). Portanto, o estado primitivo “natural” do homem seria o de permanente intranqüilidade, pois os mais fortes tentavam impor-se pela força, e os mais fracos, pela astúcia e por hábeis alianças. A concepção política de Hobbes se apóia não apenas nesta quimera, mas também na premissa de que a felicidade não consiste na posse de bens, em que o espírito repousa, mas no contínuo processo de passagem de um desejo a outro — no qual a obtenção de um objeto almejado é tão-somente o caminho para um novo desejo (Leviatã, XI). Em suma: contrariando todas as evidências, afirma Hobbes que a vida em sociedade não é uma tendência natural no homem, pois este só se associa para obter lucros e vantagens — e quanto mais um indivíduo as obtêm, mais as está tirando dos demais.


Dada essa ambição desmedida do homem que é o lobo do homem, surge o Estado absoluto hobbesiano — única entidade capaz de conter tais ímpetos de poder, ao concentrar em si mesmo o poder de todos. Tal Estado absolutista se impõe pelo medo que infunde.


Então, o lobo se transforma em cidadão.


Sobre Maquiavel — objeto desta série de textos — falaremos adiante. Por ora ocorre-nos apenas apontar que o falso realismo acertadamente identificado por Olavo de Carvalho nas idéias de Maquiavel está presente em quase todos os teóricos construtores da política ocidental, desde o fim da Idade Média.


Em boa parte dos casos, pelo simples fato de que lhes falta uma antropologia realista. Assim, não sabendo bem o que é o homem, acabam por conceber um Estado orientado para corromper o homem, tiranizá-lo, oprimi-lo, humilhá-lo, ainda que sob o pretexto de defender a sua liberdade.




Teologia e metafísica


Apresentado o quadro acima, torna-se fácil deduzir o seguinte: desgraçadamente, faltou a todos esses cientistas políticos uma mínima base teológica — e, também, metafísica. Se a tivessem, provavelmente não buscariam amparar suas teorias em pressuposições fantasiosas acerca de um suposto estado primitivo, nem dar as costas a evidências cabais atinentes à natureza humana, ora por eles idealizada, ora reduzida a um espectro do que na verdade é.

O homem plasmado a partir do renascimento é uma mal-disfarçada espécie de causa sui, centro do universo e objeto principal da filosofia a partir da virada dos séculos XV para o XVI. Perdido, pois, o liame inextricável que une o homem ao seu Criador — o qual no período escolástico foi brilhantemente defendido pelos principais filósofos e teólogos —, o estudo da política não poderia senão descambar para um cenário em que cada homem busca avidamente sua própria soberania, e isto se refletirá nas principais concepções de Estado a partir de então.


Tanto no plano individual como no coletivo, passa a haver um forte movimento de autonomia em relação ao plano da Divina Providência, pois o homem começa a acreditar ser dono do próprio destino. Funestamente, a perda da base metafísica e teológica, patente em todos os pensadores acima arrolados, gerará uma desarmonia não apenas entre os Estados e os indivíduos, mas dos indivíduos consigo mesmos, pois, retirando Deus do seu horizonte, descentraram-se.


Vale consignar para leitores desavisados que, sendo este um estudo de cunho teológico, pode perfeitamente aplicar-se a um autor que escreveu sobre política, ou melhor: contemplar criticamente as suas teorias e a influência histórica que tiveram, sob a luz de uma ordem superior. Sim, pois sendo a teologia uma ciência especulativa e prática que tem por objeto a Deus, busca não apenas conhecer alguns aspectos da deidade — tendo por base a Sagrada Escritura e por instrumento a teologia amparada pela metafísica —, mas conhecer todas as demais coisas à luz do conhecimento do Ser de Deus, cujos atributos são universais.
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1- Diz Santiago Ramírez que as intenções segundas não são similitudes das coisas existentes fora da alma, mas similitudes das coisas enquanto já assimiladas formalmente intelecto. Noutras palavras, a intentio prima tem como objeto a realidade extramental, ou seja, qualquer ente real (homem, osso, cão, etc.); e a intentio secunda tem como objeto a realidade mental, ou seja, os conceitos, as definições, as divisões, os predicáveis, etc. “Huiusmodi enim intentiones secundae non sunt similitudines rei extra animam, sed similitudines rerum prout sun in intellectu”. Santiago Ramírez, De Analogia, II, Divisio Conceptus, n. 323.

2- “In resolutione, qua mediata ad imediata reduncuntur”. Tomás de Aquino, Anal., I, 1c, n. 9.


3- João de Santo Tomás, Cursus Theologicus, II, q. 22, n.2


4- Juan José Sanguineti, La Filosofía de la Ciencia según Santo Tomás. EUNSA; Navarra: 1977. p.45

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Prova da existência de Deus e Sacra Doctrina


Sidney Silveira
Como no próximo texto da série sobre Maquiavel se abrirá um parêntese para falar sobre a importância do domínio dos instrumentos da lógica, para que qualquer teoria política não naufrague rotundamente — na medida em que a lógica é uma ciência propedêutica para todas as demais —, coloco aqui um link de aula em que se fala da teologia como reitora das demais ciências, pois aproveitaremos a analogia adiante...

Novo blog do Prof. Nougué

Sidney Silveira

Meu nobre amigo Carlos Nougué acaba de criar um novo espaço na internet: o blog Estudos Tomistas, onde serão postados textos seus sobre Santo Tomás de Aquino e tomismo. Lá também serão "linkados" alguns escritos do Contra Impugnantes.
Visita recomendada!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Novo site do Prof. Ricardo da Costa


Sidney Silveira

O Prof. Ricardo da Costa, meu querido irmão, informa que reformulou o seu site — agora com outro padrão e funcionalidades bem diferentes das que existiam no site anterior.

Vale a pena conferir:

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Maquiavel em clave teológica – (II)



Sidney Silveira


(continuação deste texto)


Arroladas as principais características do período medieval, estabeleçamos os traços marcantes da política nos primeiros séculos que serviram de preâmbulo à idade moderna — XIV, XV e começos do XVI —, quando se deu a grande crise que culminou na perda do sentido transnacional de unidade cristã entre os povos europeus. Essa época anterior a Maquiavel trouxe mudanças significativas nas relações entre os poderes material e espiritual e estabeleceu a ambiência prévia sem a qual as teorias maquiavélicas sequer poderiam historicamente surgir.


Gestou-se, paulatinamente, o mundo em que as leis divinas foram aos poucos se tornando uma impossibilidade política. Ou seja, o mundo em que a Pólis começou a se fechar, na forma da lei, ao influxo da lei natural (sucedâneo da lei eterna), justamente a partir da separação entre o poder político e o espiritual custodiado pela Igreja e por seu Magistério — cisão esta defendida por Dante no De Monarchia e, de alguma maneira, posta em prática já por Felipe, o Belo, no começo do século XIV, numa prévia das mudanças de vetor político que estavam por vir no Ocidente. Diga-se, a propósito, que Maquiavel não irá propor exatamente tal separação, e sim que o príncipe simule crer, e aqui está um dos seus golpes de “mestre”: propor a substituição da fé explícita dos governantes cristãos por uma mentira descarada, proclamada com o propósito de controle social e manutenção no poder a qualquer custo.


Neste contexto, convém fazer um esclarecimento profilático, antes de enumerarmos as características históricas do embrionário humanismo político renascentista. É o seguinte: chama-se implícito àquilo que contém em si muitas coisas, como por exemplo o conhecimento dos princípios universais contém em si, implícita e virtualmente, várias conclusões particulares. No caso da fé, se não houvesse a sua manifestação explícita por parte de alguns, e não apenas implícita (ou seja, a continência virtual das conclusões nas premissas), nunca o mundo poderia se converter às leis de Deus ensinadas por Cristo. Pois bem, neste sentido é conveniente que os educadores da fé creiam de forma explícita, pois a recepção da fé pelos homens é semelhante à primeira aceitação, por parte do discípulo, dos ensinamentos do mestre.[1]


Assim, embora os reis cristãos medievais não fossem propriamente teólogos ou educadores da fé, davam com o seu exemplo público de fé e de submissão à Igreja um sinal aos seus súditos de que existe ordenação a um poder de ordem superior, o que era altamente pedagógico e contribuía sobremaneira para a orientação teleológica de todo o conjunto da sociedade a Deus, na medida em que o poder político não era (nem poderia ser) considerado um bem com princípio e fim em si mesmo. “Não terias nenhum poder sobre mim se não te fosse dado do alto” (Jo. XIX, 11).


Mas não percamos o fio da meada. Eis, a seguir, o quadro político dos antecedentes históricos da idade moderna, em linhas gerais, a partir de algumas circunstâncias que serviram de causa material para as mudanças que se seguiram de forma acelerada nesses séculos.


Ø Ida do Papado para Avignon, o que acarretou a notável perda simbólica da universalidade de Roma — epicentro da vida cristã e do Magistério da Igreja, cidade de onde a autoridade do Pontífice se espraiava de Leste a Oeste. Urdida ainda sob os auspícios políticos anti-romanos de Felipe, o Belo, em cujo reinado acontece a primeira grande fratura entre os poderes espiritual e material, a ida do Papado para Avignon tornou a Igreja politicamente refém dos desmandos do rei francês.


Os principais historiadores da Igreja afirmam que, sem o terrível atentado a Bonifácio VIII em Anagni, em 1303, não haveria Avignon, o que nos parece acertadíssimo, na medida em que Avignon é a ratificação formal da tentativa de pôr o poder espiritual a serviço do político, o que só não acontecera antes graças à força extraordinária de Bonifácio VIII. Seja como for, o fato é que Benedito XI, sucessor de Bonifácio VIII, após ceder a pressões de Felipe, o Belo, estabeleceu-se em Perugia, onde o surpreendeu a morte, e naquela cidade italiana houve o conclave que elegeu Bertrand de Got (Clemente V), homem hábil e ávido por riquezas, segundo Villoslada, e que, de acordo com o famoso cronista Villani, se encontrou secretamente com Felipe, o Belo, em maio de 1305, pouco antes de ser eleito Papa, ocasião em que teria sido prometida a vitória a Bertrand (com tráfico de influência política entre os cardeais) sob as seguintes condições:


a) que o novo Papa absolvesse o rei da França e seus asseclas das punições que sobre eles pesavam desde Bonifácio VIII (entre elas a excomunhão);


b) que ele concedesse, por cinco anos, todos os dízimos à França;


c) que fossem restituídas aos excomungados Colonnas todas as suas dignidades cardinalícias;


d) que o Papa de alguma forma condenasse a memória de Bonifácio VIII.


Se a história é ou não verídica,[2] o fato é que, com Clemente V (primeiro Papa a estabelecer-se em Avignon), se inaugura uma época de submissão do poder espiritual ao político — durante um período de cerca de 70 anos que, entre outras calamidades, facilitou grandemente o primeiro grande cisma do Ocidente. Nessa ocasião, a autoridade espiritual e política da Santa Sé diminuiu consideravelmente, prenunciando a ruptura da unidade cristã entre os povos. Diz Villoslada que, quando os Pontífices abandonaram o grande centro espiritual (Roma), o mundo cristão experimentou em seu corpo uma espécie de deslocamento anômalo dos seus mais importantes membros. De um lado, o cabeça visível da Igreja, em Avignon; de outro, os sepulcros de Pedro e Paulo, as basílicas, os grandes monumentos e símbolos da Cristandade, etc.;


Ø Intromissão do poder político na Igreja, a começar com a concessão de Clemente V a Felipe, o Belo, de dar ao rei, durante cinco anos, todos os dízimos das igrejas da França, conforme denunciado pelo cronista Villani. Os exemplos históricos são abundantes.


Ø Exacerbação nacionalista, proveniente da perda do sentido transnacional de unidade cristã, dado o enfraquecimento de Roma. A propósito, serão exatamente os pruridos nacionalistas o grande motor do cisma do Ocidente. Nesse período, o poeta Petrarca é o talentoso retórico que ataca a Igreja (a “Sodoma de Avignon”), com versos satíricos que tinham por objetivo atingir, também, aos franceses. Diz Villoslada que a antítese Roma-Avignon ampliou o antagonismo entre Itália e França;


Ø Absolutismo monárquico, pois, na medida em que o poder político, cada vez mais laico, se vai tornando independente da Igreja, acaba absolutizando-se para justificar-se socialmente.


Ø Tendência laicizante na política. Ao lado das figuras eclesiásticas que até então tinham total predominância, como reitoras da sociedade, surgem as pessoas civis, sobretudo advogados, legisladores, poetas e filósofos humanistas, que proporão cada vez mais uma independência do Estado em relação à Igreja, perdendo-se crescentemente o vínculo que orientava aquele a esta.


Ø Descrédito da escolástica como método científico-filosófico, com o novo apelo à retórica clássica e a um modus de filosofar subjetivo e personalista. Estamos aqui na ante-sala da filosofia moderna, com sua terminologia equívoca, com sua visão reducionista, suas imprecisões terminológicas e sua desmedida ambição de pôr abaixo tudo o que, até então, havia sido construído no amplo edifício teorético da filosofia ocidental;


Ø Perda da ordenação da filosofia à teologia, já proposta claramente por Duns Scot e levada às últimas conseqüências por teólogos e filósofos que seguiram a sua linha.


Estes e outros fatores contribuíram enormemente para a perda da influência doutrinária e moral da Igreja e impulsionaram a secularização da cultura, assim como o individualismo que, séculos depois, culminará na revolta não apenas contra a autoridade da Igreja, mas contra toda e qualquer autoridade constituída. Na vida religiosa, por exemplo, começa-se a estimular uma relação direta do homem com Deus, sem o intermédio dos sacramentos e do Magistério da Igreja, e tal devoção individualista acabará trazendo malefícios até mesmo para a liturgia. Em poucos séculos, essas tendências culminarão na terrível revolução luterana a que historicamente chamamos Reforma.


Também vale mencionar a ruína do feudalismo, na medida em que, na nova configuração política, os antigos senhores feudais, para conseguir o favor de reis arrogantes, senhores absolutos do céu e da terra que se identificam pessoalmente com o Estado, transformam-se em aduladores cortesãos e passam do campo às cidades. A nobreza abandona os castelos e as vastas posses agrárias para participar do crescente comércio que surge nos grandes centros urbanos; daí começam a surgir os ricos mercadores e banqueiros que prepararão os tempos vindouros do capitalismo.


Neste ponto, estamos de acordo com Burckhardt, quando contrapõe o cristianismo da Idade Média ao quase paganismo do Renascimento; as firmes crenças religiosas do período anterior ao ceticismo cada vez mais predominante na idade nova; a teologia escolástica às humanidades clássicas; o sentido de transcendência ao de imanência; o ascetismo e o monaquismo à alegria descompromissada e mundana do humanismo.


(continua).


____________________________


1- Cfme. Santo Tomás, De Veritate, Q. 14, art. 12, resp. “Unde non tenentur omnes explicite credere omnia quae sunt fidei, sed sollum illi qui eruditores fidei instituuntur”.


2- Villoslada diz que a história não é verídica, mas em favor de Villani está o fato de que o Papa concedeu quase todas as imposições de Felipe, o Belo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Para bem escrever na língua portuguesa — curso imperdível com o Prof. Nougué, na Gama Filho


Sidney Silveira

Com muito gosto divulgo o curso que o meu querido amigo Carlos Nougué ministrará a partir de 04 de agosto, na Gama Filho de São Paulo — mas que os interessados poderão fazer à distância, pela internet.


O curso bem poderia chamar-se Iniciação ao Trivium. Mas o nome é o que está abaixo.


“Para bem escrever na língua portuguesa”


Carlos Nougué


A partir do dia 4 de agosto ministrarei pela Universidade Gama Filho (UGF), em São Paulo e à distância, o curso de gramáticaavançada “Para bem escrever na língua portuguesa”, destinado a estudantes e profissionais que trabalham com nosso idioma e queiram aperfeiçoar seus conhecimentos nele.


Com efeito, há duas lacunas na maneira tradicional de ensinar a língua portuguesa a seus próprios falantes: noções mínimas de lógica, por um lado, e estudo do propriamente textual, por outro. O curso, portanto, mostrará em primeiro lugar que a língua portuguesa, como linguagem humana, se ergue sobre fundamentos lógico-sintáticos. Isso, naturalmente, sem desprezar de modo algum o aspecto convencional, que a língua portuguesa também compartilha com as demais. E, em segundo lugar, que nossa língua tem um modo próprio de desdobrar-se em frases, períodos e parágrafos, e que a estes corresponde uma extensão, uma cadência e uma organização interna segundo as diversas espécies de escrita. Trata-se, pois, do estudo e exercício do textual, para o que, naturalmente, tem grande importância a pontuação.


O curso será dado em três fins de semana, das 8h às 18h, na Central de Cursos da UGF. Para mais informações e inscrições, podem acessar o site:



Presencial em São Paulo


http://www.posugf.com.br/cursos/extensao/traducao/2080-lingua-portuguesa-em-nivel-avancado


EAD


http://www.posugf.com.br/cursos/extensao-ead/traducao/2158-lingua-portuguesa-em-nivel-avancado-a-distancia



CONTEÚDO


A linguagem humana


A natureza da linguagem


As funções da linguagem


A dimensão lógica da linguagem


A dimensão psicológica da linguagem


A dimensão convencional da linguagem



Gramática geral e gramática da língua portuguesa

Morfologia: características, funções e uso das classes gramaticais


Sintaxe e funções sintáticas



Estilística


O bem escrever


Tradição e estilo


As múltiplas possibilidades da língua


Colocação dos chamados pronomes átonos


Pontuação


Paralelismo sintático


Coordenação e subordinação


Frase, parágrafo e período


Ritmo, tom e harmonia


O simples e o complexo