quarta-feira, 11 de julho de 2012

Maquiavel em clave teológica – (II)



Sidney Silveira


(continuação deste texto)


Arroladas as principais características do período medieval, estabeleçamos os traços marcantes da política nos primeiros séculos que serviram de preâmbulo à idade moderna — XIV, XV e começos do XVI —, quando se deu a grande crise que culminou na perda do sentido transnacional de unidade cristã entre os povos europeus. Essa época anterior a Maquiavel trouxe mudanças significativas nas relações entre os poderes material e espiritual e estabeleceu a ambiência prévia sem a qual as teorias maquiavélicas sequer poderiam historicamente surgir.


Gestou-se, paulatinamente, o mundo em que as leis divinas foram aos poucos se tornando uma impossibilidade política. Ou seja, o mundo em que a Pólis começou a se fechar, na forma da lei, ao influxo da lei natural (sucedâneo da lei eterna), justamente a partir da separação entre o poder político e o espiritual custodiado pela Igreja e por seu Magistério — cisão esta defendida por Dante no De Monarchia e, de alguma maneira, posta em prática já por Felipe, o Belo, no começo do século XIV, numa prévia das mudanças de vetor político que estavam por vir no Ocidente. Diga-se, a propósito, que Maquiavel não irá propor exatamente tal separação, e sim que o príncipe simule crer, e aqui está um dos seus golpes de “mestre”: propor a substituição da fé explícita dos governantes cristãos por uma mentira descarada, proclamada com o propósito de controle social e manutenção no poder a qualquer custo.


Neste contexto, convém fazer um esclarecimento profilático, antes de enumerarmos as características históricas do embrionário humanismo político renascentista. É o seguinte: chama-se implícito àquilo que contém em si muitas coisas, como por exemplo o conhecimento dos princípios universais contém em si, implícita e virtualmente, várias conclusões particulares. No caso da fé, se não houvesse a sua manifestação explícita por parte de alguns, e não apenas implícita (ou seja, a continência virtual das conclusões nas premissas), nunca o mundo poderia se converter às leis de Deus ensinadas por Cristo. Pois bem, neste sentido é conveniente que os educadores da fé creiam de forma explícita, pois a recepção da fé pelos homens é semelhante à primeira aceitação, por parte do discípulo, dos ensinamentos do mestre.[1]


Assim, embora os reis cristãos medievais não fossem propriamente teólogos ou educadores da fé, davam com o seu exemplo público de fé e de submissão à Igreja um sinal aos seus súditos de que existe ordenação a um poder de ordem superior, o que era altamente pedagógico e contribuía sobremaneira para a orientação teleológica de todo o conjunto da sociedade a Deus, na medida em que o poder político não era (nem poderia ser) considerado um bem com princípio e fim em si mesmo. “Não terias nenhum poder sobre mim se não te fosse dado do alto” (Jo. XIX, 11).


Mas não percamos o fio da meada. Eis, a seguir, o quadro político dos antecedentes históricos da idade moderna, em linhas gerais, a partir de algumas circunstâncias que serviram de causa material para as mudanças que se seguiram de forma acelerada nesses séculos.


Ø Ida do Papado para Avignon, o que acarretou a notável perda simbólica da universalidade de Roma — epicentro da vida cristã e do Magistério da Igreja, cidade de onde a autoridade do Pontífice se espraiava de Leste a Oeste. Urdida ainda sob os auspícios políticos anti-romanos de Felipe, o Belo, em cujo reinado acontece a primeira grande fratura entre os poderes espiritual e material, a ida do Papado para Avignon tornou a Igreja politicamente refém dos desmandos do rei francês.


Os principais historiadores da Igreja afirmam que, sem o terrível atentado a Bonifácio VIII em Anagni, em 1303, não haveria Avignon, o que nos parece acertadíssimo, na medida em que Avignon é a ratificação formal da tentativa de pôr o poder espiritual a serviço do político, o que só não acontecera antes graças à força extraordinária de Bonifácio VIII. Seja como for, o fato é que Benedito XI, sucessor de Bonifácio VIII, após ceder a pressões de Felipe, o Belo, estabeleceu-se em Perugia, onde o surpreendeu a morte, e naquela cidade italiana houve o conclave que elegeu Bertrand de Got (Clemente V), homem hábil e ávido por riquezas, segundo Villoslada, e que, de acordo com o famoso cronista Villani, se encontrou secretamente com Felipe, o Belo, em maio de 1305, pouco antes de ser eleito Papa, ocasião em que teria sido prometida a vitória a Bertrand (com tráfico de influência política entre os cardeais) sob as seguintes condições:


a) que o novo Papa absolvesse o rei da França e seus asseclas das punições que sobre eles pesavam desde Bonifácio VIII (entre elas a excomunhão);


b) que ele concedesse, por cinco anos, todos os dízimos à França;


c) que fossem restituídas aos excomungados Colonnas todas as suas dignidades cardinalícias;


d) que o Papa de alguma forma condenasse a memória de Bonifácio VIII.


Se a história é ou não verídica,[2] o fato é que, com Clemente V (primeiro Papa a estabelecer-se em Avignon), se inaugura uma época de submissão do poder espiritual ao político — durante um período de cerca de 70 anos que, entre outras calamidades, facilitou grandemente o primeiro grande cisma do Ocidente. Nessa ocasião, a autoridade espiritual e política da Santa Sé diminuiu consideravelmente, prenunciando a ruptura da unidade cristã entre os povos. Diz Villoslada que, quando os Pontífices abandonaram o grande centro espiritual (Roma), o mundo cristão experimentou em seu corpo uma espécie de deslocamento anômalo dos seus mais importantes membros. De um lado, o cabeça visível da Igreja, em Avignon; de outro, os sepulcros de Pedro e Paulo, as basílicas, os grandes monumentos e símbolos da Cristandade, etc.;


Ø Intromissão do poder político na Igreja, a começar com a concessão de Clemente V a Felipe, o Belo, de dar ao rei, durante cinco anos, todos os dízimos das igrejas da França, conforme denunciado pelo cronista Villani. Os exemplos históricos são abundantes.


Ø Exacerbação nacionalista, proveniente da perda do sentido transnacional de unidade cristã, dado o enfraquecimento de Roma. A propósito, serão exatamente os pruridos nacionalistas o grande motor do cisma do Ocidente. Nesse período, o poeta Petrarca é o talentoso retórico que ataca a Igreja (a “Sodoma de Avignon”), com versos satíricos que tinham por objetivo atingir, também, aos franceses. Diz Villoslada que a antítese Roma-Avignon ampliou o antagonismo entre Itália e França;


Ø Absolutismo monárquico, pois, na medida em que o poder político, cada vez mais laico, se vai tornando independente da Igreja, acaba absolutizando-se para justificar-se socialmente.


Ø Tendência laicizante na política. Ao lado das figuras eclesiásticas que até então tinham total predominância, como reitoras da sociedade, surgem as pessoas civis, sobretudo advogados, legisladores, poetas e filósofos humanistas, que proporão cada vez mais uma independência do Estado em relação à Igreja, perdendo-se crescentemente o vínculo que orientava aquele a esta.


Ø Descrédito da escolástica como método científico-filosófico, com o novo apelo à retórica clássica e a um modus de filosofar subjetivo e personalista. Estamos aqui na ante-sala da filosofia moderna, com sua terminologia equívoca, com sua visão reducionista, suas imprecisões terminológicas e sua desmedida ambição de pôr abaixo tudo o que, até então, havia sido construído no amplo edifício teorético da filosofia ocidental;


Ø Perda da ordenação da filosofia à teologia, já proposta claramente por Duns Scot e levada às últimas conseqüências por teólogos e filósofos que seguiram a sua linha.


Estes e outros fatores contribuíram enormemente para a perda da influência doutrinária e moral da Igreja e impulsionaram a secularização da cultura, assim como o individualismo que, séculos depois, culminará na revolta não apenas contra a autoridade da Igreja, mas contra toda e qualquer autoridade constituída. Na vida religiosa, por exemplo, começa-se a estimular uma relação direta do homem com Deus, sem o intermédio dos sacramentos e do Magistério da Igreja, e tal devoção individualista acabará trazendo malefícios até mesmo para a liturgia. Em poucos séculos, essas tendências culminarão na terrível revolução luterana a que historicamente chamamos Reforma.


Também vale mencionar a ruína do feudalismo, na medida em que, na nova configuração política, os antigos senhores feudais, para conseguir o favor de reis arrogantes, senhores absolutos do céu e da terra que se identificam pessoalmente com o Estado, transformam-se em aduladores cortesãos e passam do campo às cidades. A nobreza abandona os castelos e as vastas posses agrárias para participar do crescente comércio que surge nos grandes centros urbanos; daí começam a surgir os ricos mercadores e banqueiros que prepararão os tempos vindouros do capitalismo.


Neste ponto, estamos de acordo com Burckhardt, quando contrapõe o cristianismo da Idade Média ao quase paganismo do Renascimento; as firmes crenças religiosas do período anterior ao ceticismo cada vez mais predominante na idade nova; a teologia escolástica às humanidades clássicas; o sentido de transcendência ao de imanência; o ascetismo e o monaquismo à alegria descompromissada e mundana do humanismo.


(continua).


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1- Cfme. Santo Tomás, De Veritate, Q. 14, art. 12, resp. “Unde non tenentur omnes explicite credere omnia quae sunt fidei, sed sollum illi qui eruditores fidei instituuntur”.


2- Villoslada diz que a história não é verídica, mas em favor de Villani está o fato de que o Papa concedeu quase todas as imposições de Felipe, o Belo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Para bem escrever na língua portuguesa — curso imperdível com o Prof. Nougué, na Gama Filho


Sidney Silveira

Com muito gosto divulgo o curso que o meu querido amigo Carlos Nougué ministrará a partir de 04 de agosto, na Gama Filho de São Paulo — mas que os interessados poderão fazer à distância, pela internet.


O curso bem poderia chamar-se Iniciação ao Trivium. Mas o nome é o que está abaixo.


“Para bem escrever na língua portuguesa”


Carlos Nougué


A partir do dia 4 de agosto ministrarei pela Universidade Gama Filho (UGF), em São Paulo e à distância, o curso de gramáticaavançada “Para bem escrever na língua portuguesa”, destinado a estudantes e profissionais que trabalham com nosso idioma e queiram aperfeiçoar seus conhecimentos nele.


Com efeito, há duas lacunas na maneira tradicional de ensinar a língua portuguesa a seus próprios falantes: noções mínimas de lógica, por um lado, e estudo do propriamente textual, por outro. O curso, portanto, mostrará em primeiro lugar que a língua portuguesa, como linguagem humana, se ergue sobre fundamentos lógico-sintáticos. Isso, naturalmente, sem desprezar de modo algum o aspecto convencional, que a língua portuguesa também compartilha com as demais. E, em segundo lugar, que nossa língua tem um modo próprio de desdobrar-se em frases, períodos e parágrafos, e que a estes corresponde uma extensão, uma cadência e uma organização interna segundo as diversas espécies de escrita. Trata-se, pois, do estudo e exercício do textual, para o que, naturalmente, tem grande importância a pontuação.


O curso será dado em três fins de semana, das 8h às 18h, na Central de Cursos da UGF. Para mais informações e inscrições, podem acessar o site:



Presencial em São Paulo


http://www.posugf.com.br/cursos/extensao/traducao/2080-lingua-portuguesa-em-nivel-avancado


EAD


http://www.posugf.com.br/cursos/extensao-ead/traducao/2158-lingua-portuguesa-em-nivel-avancado-a-distancia



CONTEÚDO


A linguagem humana


A natureza da linguagem


As funções da linguagem


A dimensão lógica da linguagem


A dimensão psicológica da linguagem


A dimensão convencional da linguagem



Gramática geral e gramática da língua portuguesa

Morfologia: características, funções e uso das classes gramaticais


Sintaxe e funções sintáticas



Estilística


O bem escrever


Tradição e estilo


As múltiplas possibilidades da língua


Colocação dos chamados pronomes átonos


Pontuação


Paralelismo sintático


Coordenação e subordinação


Frase, parágrafo e período


Ritmo, tom e harmonia


O simples e o complexo

sábado, 7 de julho de 2012

Maquiavel em clave teológica – (I)



“Quatro são as manifestações que delatam o soberbo: crer que os bens que possui procedem dele mesmo; pensar que os dons gratuitamente recebidos de Deus foram merecidos por ele; jactar-se de possuir o que não tem; e — ansioso por brilhar sozinho — desprezar as demais pessoas”.


São Gregório Magno, Moralia, XXXIII



Sidney Silveira




1. Prolegômenos: a soberba e o pecado contra o Espírito Santo


A dinâmica do pecado contra o Espírito Santo, de acordo com Tomás de Aquino, é a seguinte: o homem “liberta-se” da esperança e do temor a Deus e se sente livre de quaisquer constrangimentos para fazer o mal. O latim escolástico — às vezes intraduzível em sua concisão conceptual — usa para designar este dramático estado a expressão removens prohibens. Em síntese: o homem remove os obstáculos espirituais que, até então, o impediam de chegar ao ponto em que a vontade adquire certa conaturalidade com o mal. Deste momento em diante, a alma perde a apetência pelo bem, que se lhe afigura odioso e inútil, e recusa não apenas os remédios naturais para emendar-se, mas também a graça sobrenatural, que poderia sanar a perversão da vontade. Aqui, a revolta contra a ordem estabelecida por Deus chega ao paroxismo. Estas são as premissas teológicas.


De um ponto de vista psicológico, assim como a virtude pressupõe a aquisição de hábitos bons, os quais predispõem a alma a operar excelentemente, o que implica trânsito da potência ao ato e, portanto, um tempo para realizar-se, assim também a malícia humana não é algo que irrompe de forma abrupta.[1] Ela pressupõe um processo gradativo em que os vícios vão fechando as portas da alma, corrompendo os movimentos naturais das potências superiores — inteligência e vontade. Portanto, antes de tornar-se malicioso, o homem geralmente passa pelo letargo do espírito que os medievais chamavam de acídia, pecado capital traduzido numa espécie de ódio à própria excelência. E a acídia, por contraditório que possa parecer, tem íntima relação com a soberba.


Expliquemo-nos.


Comumente se define a soberba como o amor exagerado da própria excelência, o que, em linhas gerais, é acertado. Mas, quando investigamos a fundo, vemos que a excelência amada pelo homem soberbo é falsa, pois provém não apenas de sua incapacidade de aquilatar a miséria da própria condição (de ente finito, contingente, etc.), mas também de deliberar a respeito da hierarquia dos bens que há na realidade.[2] Como pecado supracapital, a soberba alimenta todos os demais — inclusive a acídia, em relação à qual possui anterioridade ontológica.[3] Assim, uma pessoa só é capaz de odiar a própria excelência, decaindo numa funesta tristeza e na recusa dos bens espirituais que a integram, após amá-la tortuosamente com a cupidez da soberba, apegando-se de maneira desordenada a aspectos secundários ou acidentais.[4] Nos temperamentos coléricos ou sangüíneos, a acídia é passageira e, ao ser retroalimentada pela vanglória, refina a maldade; nos fleumáticos, costuma resultar em pusilanimidade, inação, torpor mental.[5]


Em poucas palavras, a negligência em lograr o próprio bem espiritual, característica da acídia, provém da cegueira típica do homem soberbo, que quer dominar e ser louvado por todos sem ter o trabalho de ele mesmo fazer-se virtuoso. A propósito, o soberbo almeja poder e reconhecimento muito além dos seus reais méritos, daí ter ojeriza aos bens espirituais que é chamado a realizar, dada a sua natureza de criatura dotada de inteligência e vontade — e, portanto, capaz de verdade e amor. Pode-se dizer que a sua alma se tornou disléxica, pois na leitura da realidade passou a dar saltos, perdeu a noção das gradações existentes na ordem do ser e, de erro em erro, se fez refém de uma agônica situação: só consegue contemplar os bens inferiores com desprezo, e os superiores com inveja e ódio. Uma pessoa em tal estado delibera mal e acaba por escolher a si mesma como bem “supremo. O seu non serviam é nada menos que uma louca insurreição contra o real.[6]


Vale dizer que a malícia comporta graus simetricamente proporcionais ao crescimento da desesperança, até culminar no desespero que é pecado contra o Espírito Santo — a descrença na misericórdia divina. Neste contexto, convém observar que o máximo desespero coincide com a mais acabada malícia. É o caso de Lúcifer: a maldade em que jaz é concomitante com a certeza que possui de sua condenação, visto ter escolhido com anuência perfeita da vontade não servir a Deus. Em resumo, o seu “não” a Deus foi um ato irrevogável porque levado a cabo com plena ciência, sem o influxo de paixões ou ignorância, não havendo mais esperança alguma para ele nem para os demônios que o seguiram; só desespero. Analogamente ao suicida que, ao apertar o gatilho contra a cabeça, não tem como voltar atrás, Lúcifer escolheu opor-se a Deus sabendo que esta era uma opção definitiva.[7]


O abismo de agonia em que essas criaturas caíram é impossível de descrever com humanas palavras. A sua dor não tem nome, e é eterna. Contudo, podemos compará-la — numa escala infinitesimalmente menor — à do homem malicioso que possui enorme dificuldade de se arrepender, porque faz o mal de caso pensado e, de uma maneira ou de outra, sofre na alma as conseqüências de sua devoção ao vício. Nas palavras do Aquinate, o malicioso obra o mal ex electione, ex industria e ex certa scientia, ou seja: elege-o livremente; põe todo o engenho em sua consecução; e busca conhecer bem os meios para realizá-lo da melhor maneira. O seu sofrimento psicológico se cristaliza num labirinto sem saída, pois neste estado até o prazer tem como ingredientes a inveja e o ódio.


Segundo Santo Tomás, é possível reconhecer o soberbo até por alguns sinais físicos. Por exemplo, costuma ele ter o olhar altivo (extollentia occulorum), o que é signo de sua habitual falta de reverência. Mas não nos enganemos: estamos diante de um artista da dissimulação, alguém que procura esconder os seus reais motivos e intenções, pois a sua glória maior é induzir as demais pessoas a reconhecê-lo como superior, ou seja, sem se sentirem obrigadas a isto. Elas são enredadas pelos estratagemas do soberbo e acabam usando de sua própria inteligência e liberdade para assumir como “verdade” a visão distorcida que o soberbo tem de si mesmo e do mundo.


Em resumo, o soberbo — que habitualmente peca contra o Espírito Santo — alimenta a cegueira espiritual alheia para ser venerado — isto por meio de um sutil sistema de manipulações. E pior: ele não se importa com o fato de que tal veneração seja o maior dos equívocos daqueles que o seguem; ao contrário, o seu prazer satânico é ver no culto que lhe prestam o efetivo resultado das maquinações e ardis concebidos por sua mutilada inteligência.


Adiante veremos que, quando projetados na política, os pecados graves contra a verdade têm efeitos análogos aos que acometem a alma do homem soberbo. E mais: chegados ao ponto em que se transformam no modus político dominante, só um milagre pode mudar o quadro.


É o caso do maquiavelismo, que hoje dá o tom da política tanto nas democracias liberais como nos regimes herdeiros do comunismo.




2. O pecado contra a verdade no plano político


Quando a malícia encarna em intelectuais que se propõem intervir na realidade social, geralmente materializa-se numa rede de idéias e conceitos perversos. Este é o caso arquetípico de Nicolau Maquiavel, artífice de uma concepção política com alcance verdadeiramente diabólico, como foi apontado por estudiosos de sua obra ao longo dos séculos.


Duas centúrias antes de Maquiavel, Dante buscara separar as ordens natural e sobrenatural com o intuito de destruir a influência política da Igreja e instaurar um império secular universal (o seu ódio a Bonifácio VIII, de acordo com a biógrafa Barbara Reynolds, atingiu tal intensidade e obstinação, que hoje seria diagnosticado como monomania)[8]. Mas o autor d'O Príncipe deu um passo além, mostrando-se ótimo discípulo do pater mendacii: transformou as relações entre a ordem material (configurada no Príncipe) e a espiritual (configurada na Igreja e em seus fiéis) em algo canhestro, na medida em que sua teoria concebe a religião com a única utilidade de controle ou coerção social e entroniza a mentira como método político e projeto de manutenção no poder, a qualquer custo.


Há, sem dúvida, um caráter de ineditismo na visão maquiavélica das relações entre os poderes temporal e espiritual, malgrado os atritos que desde sempre houve entre a Igreja e o Estado — que o digam o próprio Bonifácio VIII, assim como Gregório VII, Inocêncio III e muitos outros Papas. Sucede que, pela primeira vez na História, era claramente formulada no escopo de um projeto político a instrumentalização do poder espiritual pelo material. Aqui, não se trata apenas de separar as esferas política e eclesiástica, como fizeram Dante e Thomas More, nem de subordinar a Igreja ao Estado, como propusera Marsílio de Pádua, mas de usar o poder espiritual e colocá-lo a serviço do déspota da vez. Tal projeto partia da pressuposição maquiavélica de que a Igreja romana foi politicamente eficaz para promover a virtu política, mas acabou por tornar-se algo funesto para os reinos.


Em Maquiavel, evidentemente, não há lugar para bom governo, nem mesmo se apelarmos às mais fantasiosas analogias; há lugar, sim, para despotismo, tirania, luta encarniçada pelo poder. Neste sentido, podemos considerá-lo um longínquo ancestral da política liberal erguida sobre o esfacelamento da noção de Summum Bonum e da idéia de bem comum, mas também como precursor de alguns dos maiores tiranos e assassinos do século XX. A propósito, vale neste ponto mencionar a tese de Olavo de Carvalho, no livro Maquiavel ou a confusão demoníaca, de que a personificação histórica relativamente bem-sucedida do projeto de Maquiavel foi Josef Stalin. Mas não apenas o assassino comunista reunira em si fortes traços do projeto maquiavélico; lembra-nos Olavo que Benito Mussolini bebeu diretamente dessa fonte, sendo o projeto de “milícias nacionais” do Duce, por exemplo, francamente maquiavélico.[9]


Como a presente crítica se dá sob um prisma teológico, não nos interessa elucidar as absurdidades e aporias da doutrina de Maquiavel em seu conjunto, algumas delas só resolvíveis se nos colocarmos totalmente fora dos seus postulados — até porque, na obra do autor dos Discorsi, entre a intenção e a realização há becos teoréticos sem saída. Nosso intuito é apenas apontar para o fato de que, em seus principais vetores, Maquiavel representa o ponto decisivo da descida do humanismo político rumo à total inversão dos fins da política enquanto ciência do governo ordenada ao bem comum.


Ou melhor: depois dele, o bem comum se tornará uma pura e simples impossibilidade.



Precondições históricas para as doutrinas maquiavélicas


Convém antes de tudo fazer um sumário de como a política era vista nas épocas anteriores a Maquiavel, para evidenciar o caráter paulatino dessa inversão dos fins da política — a qual culminará, séculos depois de Maquiavel, no liberalismo político e em seu malquisto filho primogênito: o comunismo. Estes últimos se valeram da ambiência perfeita para grassar sem maiores empecilhos, visto que o seu surgimento histórico ocorreu numa época em que já se haviam sedimentado tanto a separação entre os poderes espiritual e temporal como o preconceito antieclesiástico — fortemente disseminado pela obra do autor florentino.


Identifiquemos primeiramente algumas das principais características da política durante a Idade Média, algumas delas tiradas de empréstimo da obra de Ricardo García-Villoslada[10]:



Ø Unidade cristã dos povos sob a autoridade espiritual da Igreja. Em resumo, as nações européias formavam uma comunidade internacional sob a cabeça espiritual e moral do Romano Pontífice. Ao longo de séculos, a Igreja educou as nações sob a luz da fé — com o seu Magistério, com o elevado preço do sangue dos mártires e com o trabalho pertinaz dos santos. Isto implica dizer: ela conseguiu civilizá-las.


Frisa com acerto García-Villoslada que, durante a Idade Média, a solidariedade moral das nações e o serviço que o poder temporal prestava ao espiritual eram reflexos da Civitas Dei concebida por Santo Agostinho. A sociedade medieval não tinha, pois, outro vértice senão Cristo-Rei, e neste contexto é importante frisar que a autoridade de imperadores e príncipes seculares era legitimada a partir de sua fonte espiritual, a Igreja. É claro que houve conflitos de interesses, mas estes eram dirimidos, em última instância, pela autoridade eclesiástica. Quantas vezes reis foram excomungados e os seus súbitos desobrigados pelo Papa de qualquer obediência a eles!



Ø Domínio harmônico do Papado (poder espiritual) e das monarquias (poder temporal) sobre os povos irmanados pela doutrina cristã. Não há, aqui, como não pensar que este foi um momento histórico em que chegou a haver verdadeira fraternidade, e não aquele arremedo inventado na maçônica Revolução Francesa: Papa e imperador eram as duas cabeças que repartiam o governo do mundo. Nas palavras de Villoslada, se tal complementaridade de poderes nem sempre foi perfeita, era sem dúvida alguma uma aspiração que dominava as consciências. A força do bem comum político das nações estava, pois, em apoiar-se numa doutrina suprapolítica de ordem superior — proveniente da Revelação custodiada pela Igreja.


A situação vigente nessa época caracterizava-se pela busca política de fins transpolíticos, na feliz expressão de Jorge Martínez Barrera em seu livro A Política em Aristóteles e Santo Tomás (que tivemos a honra de editar no Brasil). O bem político tinha um instrumental caráter de meio para consecução de fins que o transcendiam.



Ø Decorre do acima assinalado a predominância da Igreja nas instâncias política, cultural e econômica. De novo, Villoslada: “Clérigos são todos os diretores do pensamento europeu. A Igreja é educadora dos indivíduos e das sociedades. (...) Ao fim e ao cabo, a Igreja havia sido a civilizadora dos povos bárbaros; a que salvou a cultura científica do Império Romano; a que vivificou a cultura antiga para que esta não anquilosar, como aconteceu em Bizâncio”. Em resumo, a tão propalada força “política” da Igreja estribava em sua reconhecida supremacia espiritual sobre os povos, indiferenciadamente. Ainda que reis e imperadores se insubordinassem contra os Papas em várias ocasiões, em geral acabavam por lhes obedecer. Apenas a título de exemplo, houve casos de reis que largaram suas rainhas para viver com amantes, mas, após a intervenção da Igreja, pediram perdão publicamente e reataram o matrimônio, entre outras coisas pelo medo de perder suas coroas e cetros. Sabiam eles que a população reconhecia a autoridade espiritual como de ordem superior.


Aqui também houve conflitos, mas sem jamais perder-se o vínculo estreito entre as ordens temporal e espiritual — o qual só irá se romper após o período medieval, com o crescimento do absolutismo monárquico e a perda da influência transnacional da Igreja.


(continua)



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1- Tanto no bem como no mal, geralmente se vai do imperfeito ao perfeito, pois o homem progride no bem e no mal”. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 14, art. 4. Neste ponto da Suma, o Aquinate tem diante de si uma premissa de Aristóteles arrolada no Livro V da Ética a Nicômaco, segundo a qual o homem não se torna injusto repentinamente. Diga-se, porém, que Santo Tomás admite a possibilidade de que alguém possa começar pecando contra o Espírito Santo, por ter um veemente incentivo ao mal (vehemens motivum ad malum) ou padecer de um debilitado afeto pelo bem (debilem affectum hominis ad bonum). Mas adverte o Santo Doutor que, no homem, quase nunca sucede pecar contra o Espírito Santo desde o princípio (I-II, q. 14, art. 4, ad.1). Seja como for, Tomás salienta em diferentes pontos de sua obra que o pecado de malícia pressupõe outros pecados.


2- Tal patologia tornou-se coletiva, em escala internacional. A falta de percepção da hierarquia de bens que há na realidade vem sendo difundida de maneira cirúrgica pelos construtores da nova ordem mundial, e hoje está consignada nas legislações de quase todos os países da aldeia global, sobretudo no Ocidente — gerando contradições insanáveis. No Brasil, por exemplo, um mesmo corpus legislativo pune como crime inafiançável a destruição de ovos de tartaruga e aprova o aborto de fetos humanos. A “consciência ecológica”, epítome caricata da nova moralidade propagada politicamente pela ONU, inverte os pólos dos valores e instaura um caos de que será cada vez mais difícil para as sociedades sair.


3- Embora certas condições físicas possam induzir uma pessoa a cometer pecados espirituais, só podemos dizer que o fazem predispositivamente, pois a causalidade do físico sobre o psíquico é per accidens. É preciso, então, buscar a causa de um vício espiritual em outra deformidade também espiritual, e é neste sentido que se diz que a soberba é princípio de todos os pecados. Mas advirtamos: ela não o é de qualquer pecado, pois, como diz Santo Tomás, pode haver pecados leves anteriores à soberba. Mas, com relação aos vícios capitais (e a acídia é um deles), a preeminência da soberba é total. “Antes da soberba, é possível que se cometam pecados mais leves, por ignorância ou fraqueza. Mas, no que tange aos pecados graves, a soberba é o primeiro, como também é a causa de outros (...)”. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 162, ad 4).


4- Em verdade, o soberbo pouco consegue olhar para si, pois julga insuportável a possibilidade de considerar que não é o maior e o melhor de todos. Fazendo uso de uma metáfora, podemos dizer que ele se contempla num espelho convexo onde os seus próprios bens são vistos de maneira caricata. Por isso, afirma Santo Tomás que a soberba se opõe, ao mesmo tempo, à magnanimidade e à humildade: à humildade por defeito, porque despreza submeter-se a qualquer pessoa ou situação; à magnanimidade por excesso, porque aspira a grandes coisas de forma totalmente desordenada (cfme. Suma Teológica, II-II, q. 162, ad.3).


5- Santo Tomás enumera entre as filhas da acídia a malícia, o rancor, o desespero, o torpor, a pusilanimidade e a divagação da mente (Suma Teológica, II-II, q. 35, art.4).


6- Ocorre que o real, como certa vez escrevera Julián Marías, não é apenas existência; é também resistência, ou seja: a realidade é o que literalmente resiste aos erros e devaneios humanos.


7- No capítulo sobre a pecabilidade dos Anjos, Celestino Pires aponta, no livro Inteligência e Pecado em Santo Tomás, para o fato de que Lúcifer pecou com plena ciência, havendo nele apenas a seguinte ignorância, de cunho metafísico: a inteligência angélica, embora intuitiva, é incapaz de atualizar todos os inteligíveis num só ato (o que significa dizer que o Anjo não pode compreender toda a complexidade do real num instante, pois sua intelecção é sucessiva: tem um antes e um depois). Não lhe é dado, portanto, conhecer todos os aspectos da Divina Providência, razão pela qual ele foi capaz de deliberar mal, julgando possível dominar as demais criaturas sem submeter-se a Deus, o que em verdade só é possível enquanto Deus o permite, mas não o é simpliciter (eis, aqui, o seu maldito erro). Diz Celestino: “De fato o Anjo — no domínio do conhecimento natural — não pode emitir um juízo falso; mas, diferentemente de Deus, que é perfeição infinita, pode não apreender suficientemente a ordem do governo divino”. Celestino Pires, Inteligência e Pecado em Santo Tomás. Angelicum, Rio de Janeiro: 2012, p. 46. Em síntese, Lúcifer deliberou mal, mas em virtude da elevação de sua inteligência ele e os que o seguiram sabiam-se apartados de Deus para sempre, ou seja: agiram com plena noção das dramáticas consequências que adviriam de sua escolha.


8- “Quelli ch’usurpa in terra il loco mio


Il loco mio, il loco mio, che vaca


Nella presenza del Figliuol di Dio


Fat’ha del cimitero mio cloaca


Del sangue e dellapuzza; onde ‘l perverso


Che cadde di qua su, làgiù si placa”




“Este que usurpa em terra o lugar meu


Lugar meu, lugar meu, que vaga


Ante a presença do Filho de Deus,


Fez do meu cemitério sua cloaca


De sangue e de fedor; onde o perverso


Desejo de quem cai ali se aplaca”.



Leiamos agora o comentário de Barbara Reynolds. “Aqui [nesta passagem do Céu], São Pedro dá abertura a todo o desprezo de Dante por Bonifácio VIII, que ganhou o trono papal por astúcia; que na visão de Deus permaneceu desocupado; que por sua avareza e ambição mundana fez do lugar do enterro de São Pedro um esgoto de sangue e sujeira e uma fonte de satisfação para Lúcifer; que caiu do Céu para o Inferno [tudo isso na tortuosa perspectiva política dantesca, digamos nós!!!]. As rimas feias, com suas vogais abertas vaca, cloaca, placa, o agudo e triplo grito frenético, il loco mio, il loco mio, il loco mio, a crua imagem do esgoto, da sujeira, do fedor, não pertencem ao discípulo de Cristo, mas à fala do Inferno”. Cfme. Barbara Reynolds, Dante – o poeta, o pensador político e o homem. Editora Record, 2011, p.522. Pois bem, na continuação dos textos da série sobre Bonifácio VIII, veremos que Dante, em seu obstinado ódio a Bonifácio VIII, coloca neste Papa a culpa da transferência do Papado para Avignon, idéia “comprada” até mesmo por católicos desinformados. Mostraremos a absurdidade desta calúnia.



9- O livro de Olavo de Carvalho tem vários méritos: destrói a idéia de que a análise política feita por Maquiavel seja realista; mostra como a sua interpretação do passado foi pré-moldada pelo projeto de futuro que acalentava; ressalta que a distorcida visão global da História em Maquiavel é a aplicação retroativa de sua própria “teoria”; aponta para o utopismo pseudo-profético do seu falso realismo; e mostra o caráter satânico de sua inversão caricata do cristianismo — isto na hipótese de que Maquiavel tenha realmente compreendido algo da essência do cristianismo. Seja como for, não importa: o mundo de mentiras e falsificações que ele instrumentaliza para os governantes ou aspirantes ao poder revela, em si, a maldade transformada em teoria política, e isto a partir de uma amputada concepção de cristianismo. Escreve Olavo: “Em suma, [para Maquiavel] a religião cristã primitiva tinha o dom de manipular as almas para induzi-las à obediência. O mal do cristianismo decadente não está na perda das virtudes evangélicas, mas na perda da capacidade de ludibriar as multidões. Por mais que a blasfêmia se oculte sob montanhas de disfarces, ela não pode ter escapado ao próprio Maquiavel, que lhe acrescenta o detalhe requintado de atribuir ao próprio Cristo o mérito da arte do engodo, miseravelmente perdido por seus sucessores. É a esse Cristo transfigurado em político maquiavélico que Maquiavel, fingindo louvar o Cristo dos Evangelhos, presta sua devoção”. Olavo de Carvalho, Maquiavel ou a confusão demoníaca. Vide Editorial, 2011, p. 86.


10- Historia de la Iglesia Católica, Tomos II e III.



EM TEMPO: Senti-me muito à vontade para citar elogiosamente — no corpus do texto e sobretudo na nota acima — o livro do Prof. Olavo de Carvalho Maquiavel ou a Confusão Demoníaca. Ou melhor: eu só me sentiria confortável em mencioná-lo se fosse para abordar os seus aspectos positivos, dado o arranca-rabo que tivemos há cerca de um ano. Ademais, a morte súbita andou rondando a minha porta nos últimos meses, devido a problemas de saúde, e nestas horas acabamos por olhar tudo em perspectiva, o bem e o mal que fizemos. E então procuramos nos reconciliar com Deus e os homens: com Deus de forma absoluta, olhando para a nossa própria miséria e apelando à Sua misericórdia; com os homens na medida do possível, e tal medida se reflete entre outras coisas no apaziguamento do coração, com a graça de Deus, e numa visão de nossas próprias ações sob um prisma renovado.
Tenho, sim, divergências de natureza teológica e política com o Prof. Olavo, mas elas não anulam o fato de que o seu pequeno livro — comprado por mim há uma semana e lido numa noite — é o que de mais interessante se escreveu sobre Maquiavel nos últimos tempos, pois, ao esboçar o horizonte de consciência do autor florentino, Olavo a fortiori acaba por expor as chagas de uma alma pervertida e atormentada, para a qual o cristianismo só poderia mesmo ser visto de forma torta, incompleta, deficiente.
Assim, ao escrever sobre Maquiavel (embora com distinto objetivo, qual seja: à luz da fé e fazendo uso de critérios teológicos, inseri-lo num descendente ponto de inflexão da história política através dos séculos, como se verá ao final desta série de textos), não me pareceu honesto deixar de mencionar o livro de Olavo de Carvalho, que possui reais achados e mostra, com clareza, alguns "Maquiavéis" distintos, subjacentes à doutrina dos infernos configurada tanto nos Discorsi como n'O Príncipe.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Apoio ao Instituto Angelicum com doações

Sidney Silveira

Ao final deste mês, será enviado à gráfica o livro As Heresias de Abelardo, de São Bernardo de Claraval, que virá à luz em edição bilíngue — pouco mais de um mês após termos apresentado o excepcional estudo Inteligência e Pecado em Santo Tomás, de Celestino Pires, que continua à venda.

Como o nosso projeto depende do apoio dos leitores e das pessoas que querem ver a filosofia escolástica bem editada e divulgada no Brasil (assim como cursos de tomismo, de história medieval, de metafísica e teologia, etc., sobre os quais daremos notícia em breve), resolvemos divulgar no Contra Impugnantes a recém-aberta conta bancária do Instituto, para quem quiser contribuir financeiramente com o nosso trabalho.

Desde 2005, quando lançamos o primeiro livro da Sétimo Selo (De Natura Boni, de Santo Agostinho, hoje esgotado justamente porque não tive recursos para reimprimi-lo), vínhamos tendo pruridos de fazer algo neste sentido, mas ao longo das últimas semanas houve quem manifestasse o interesse de contribuir monetariamente de alguma forma, ainda que com pequenas quantias. Então cedemos ao apelo — até porque é em vista de um bem maior. Seja como for, reiteramos que a melhor forma de ajudar a este trabalho é adquirindo os livros e fazendo os cursos que, um pouco mais à frente, anunciaremos no blog.

Mas os mecenas ou amigos que vislumbrarem a relevância deste projeto e quiserem efetivamente apoiá-lo também serão muito bem-vindos, a partir de agora.

Os dados bancários são os seguintes:


INSTITUTO ANGELICUM


Caixa Econômica Federal


Agência: 3106


Conta: 751-9


Operação: 003


Pedimos àqueles que caridosamente contribuírem o seguinte — indiquem no depósito tratar-se de DOAÇÃO. E, se quiserem depois se identificar, podem enviar email para contatoangelicum@gmail.com, que agradeceremos pessoalmente. Mas desde já afirmamos: que Deus lhes dê em triplo!


Como se ressaltou anteriormente, em meio a várias contingências pessoais desfavoráveis estou fazendo um grande esforço para não deixar este projeto morrer...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Trecho de palestra no lançamento do livro "Sobre o Mal", de Tomás de Aquino...


Sidney Silveira
...que tivemos a honra de apresentar há seis anos, e que está momentaneamente esgotado. Mas estamos trabalhando não apenas para reimprimi-lo, mas também para traduzir os demais tomos desta obra imensa que é o "De Malo". Além, é claro, de outros projetos aqui já anunciados, de livros de São Bernardo, São Boaventura, Cícero e Agostinho. A propósito, em breve darei notícias da ida do livro "As Heresias de Pedro Abelardo" para a gráfica.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Nelson Rodrigues e Marx





Sidney Silveira


[Tenho várias restrições à obra ficcional de Nelson Rodrigues — romances, peças e novelas —, não obstante o considere um escritor de gênio, cronista de talento ímpar, frasista formidável e criador de tipos pitorescos inesquecíveis. Não é meu objetivo falar sobre essas restrições aqui, mas apenas dizer que Nelson às vezes se saía com tiradas simplesmente sensacionais; uma delas é a que vai abaixo, onde fala do triunfo do idiota, com a ascensão do marxismo.]


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"Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, se limitava a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente, etc. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina".