Sidney Silveira
Aula do Prof. Carlos Nougué na qual se aponta o exagero de apontar Platão como um gnóstico, pura e simplesmente.
Espaço destinado a combater a insidiosa e multiforme cultura liberal, que tem entre as suas raízes mais daninhas: uma falaciosa noção de liberdade humana; a idolatria — implícita ou explícita — da consciência individual; a separação entre natureza e moral; a contraposição entre Estado e indivíduo; a dissolução da Religião em categorias morais sem fundamento metafísico; a perda da noção de bem comum político.

Sidney Silveira
[À guisa de mais um tira-gosto desta obra de mestre, que o Instituto Angelicum tem a honra de apresentar ao público brasileiro, numa bem-cuidada edição]
Qual é o papel da inteligência na ação má? Para responder a esta espinhosa questão, o teólogo Celestino Pires apresenta todos os lugares em que Santo Tomás de Aquino abordou-a em sua obra.
Trata-se de um problema que abarca a um só tempo os âmbitos gnosiológico, antropológico, moral e teológico. Gnosiológico porque expõe as notas distintivas do ato de conhecer; antropológico porque diz respeito ao fundamental tópico da liberdade humana; moral porque conduz o leitor aos meandros da questão do mal nas ações das criaturas dotadas de inteligência e vontade; e teológico porque demonstra, numa perspectiva metafísica, a absoluta impecabilidade de Deus, a pecabilidade dos Anjos, a pecabilidade do homem no estado de inocência em que foi criado e, por fim, a do homem já dramaticamente afetado em suas potências anímicas pela Queda original.
Celestino Pires mostra as hesitações de Santo Tomás ao deparar-se com uma premissa que, desde Sócrates, acompanhava o pensamento ocidental: a de que haveria um erro da inteligência prévio a toda ação má resultante de escolhas livres, ou seja, um erro anterior ao exercício da vontade enquanto apetite do bem. Para resolver a questão, o Aquinate precisou ultrapassar a psicologia aristotélica, em cuja fonte bebera desde a juventude, e desenvolveu uma teoria da eleição que poderia aplicar-se à doutrina do Estagirita apenas se considerarmos o homem no estado de natureza decaída. Mas não poderia aplicar-se ao homem no estado de pureza espiritual em que saiu das mãos do Criador.
Para explicar a possibilidade de o homem no estado de inocência pecar, o Aquinate utiliza o tesouro da metafísica do ser por ele elevada a um grau de perfeição teorética difícil de igualar. Questão que pressupõe um problema ainda mais dificultoso: a da possibilidade de Lúcifer pecar, sendo ele um Anjo que, devido à sua natureza espiritual, não poderia cometer erro tão grosseiro de acreditar que poderia ser como Deus. Celestino pinça da obra de Santo Tomás a conclusão genial: Lúcifer quis assemelhar-se a Deus tão-somente no que diz respeito ao governo sobre as demais criaturas. Mas jamais a sua elevada inteligência poderia fazê-lo supor que poderia ser como Deus quanto ao ser.
Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino se insere entre o que de melhor o neotomismo produziu no século XX — o que não é pouco, se considerarmos a imensidão das obras de Gallus Manser, Garrigou-Lagrange, Santiago Ramírez, Joseph Gredt, Édouard Hugon e outros. Obra de escola, sem dúvida, mas que não se limita a reproduzir os textos do mestre medieval, pois Celestino aproveita o caminho trilhado pelo Doutor Comum em questões perante as quais hesitaram Sócrates, Platão e Aristóteles, para mostrar como, no ato do pecado, a desarmonia das tendências humanas propicia à inteligência julgar como bem o que é mal.

“Não há talento que ele não degrade / Não há ciência e saber que ele, à porfia, / Não ache aquém de sua majestade”.
Emílio de Meneses
Ø para Descartes, é evidente que a filosofia estava esperando por sua dúvida metódica pautada em “idéias claras e distintas”, pois ele deixa bem claro que, até então, não as havia;
Ø Hume diz modestamente que o seu trabalho filosófico é análogo ao que Newton fez com a física: uma reviravolta completa, portadora de novas luzes para a filosofia;
Ø Kant, que despertara do “sonho dogmático” lendo Hume, afirma estar realizando nada menos que uma revolução copernicana. De fato a sua obra representara uma revolução, porém no sentido pejorativo, devido à total desarticulação entre a inteligência e a realidade implicada em seu criticismo;
Ø Heidegger “descobre” que, desde os pré-socráticos até ele — obviamente —, toda a história da filosofia esqueceu-se do ser e só abordou o ente (vê-se, aqui, como o autor alemão, que lera Santo Tomás, não o conseguiu compreender);
Ø Husserl afirma que o seu método da redução eidética é inédito e trará novos horizontes para o filosofar;
Ø Xavier Zubiri tenta demolir a noção aristotélica de substância e a teoria tomista da abstração, mas, com a sua inteligencia sentiente — apresentada como novidade gnosiológica ímpar, embora seja uma roupagem nova para uma mescla de teses presentes na filosofia medieval —, engendra aporias sem fim;
Ø Nietzsche, que se autoproclama um profeta cuja obra está muito além do seu tempo, quer não apenas pôr abaixo quase tudo o que foi feito até então, mas ser ele próprio o vértice de uma transvaloração de todos os valores, que prenunciará o homem do porvir;
Ø Freud acredita piamente que a sua psicanálise é o último elo do desenvolvimento pós-moral do homem;
Ø Sartre, afetando um desdém superior em relação a dois milênios de tradição cristã, leva as premissas fenomenológicas de Husserl e Heidegger às últimas conseqüências e estabelece um niilismo demolidor e sem saída. Nada mais.