segunda-feira, 11 de junho de 2012

Platão: um gnóstico?


Sidney Silveira
Aula do Prof. Carlos Nougué na qual se aponta o exagero de apontar Platão como um gnóstico, pura e simplesmente.

domingo, 10 de junho de 2012

A orelha do livro “Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino”



Sidney Silveira


[À guisa de mais um tira-gosto desta obra de mestre, que o Instituto Angelicum tem a honra de apresentar ao público brasileiro, numa bem-cuidada edição]



Qual é o papel da inteligência na ação má? Para responder a esta espinhosa questão, o teólogo Celestino Pires apresenta todos os lugares em que Santo Tomás de Aquino abordou-a em sua obra.


Trata-se de um problema que abarca a um só tempo os âmbitos gnosiológico, antropológico, moral e teológico. Gnosiológico porque expõe as notas distintivas do ato de conhecer; antropológico porque diz respeito ao fundamental tópico da liberdade humana; moral porque conduz o leitor aos meandros da questão do mal nas ações das criaturas dotadas de inteligência e vontade; e teológico porque demonstra, numa perspectiva metafísica, a absoluta impecabilidade de Deus, a pecabilidade dos Anjos, a pecabilidade do homem no estado de inocência em que foi criado e, por fim, a do homem já dramaticamente afetado em suas potências anímicas pela Queda original.


Celestino Pires mostra as hesitações de Santo Tomás ao deparar-se com uma premissa que, desde Sócrates, acompanhava o pensamento ocidental: a de que haveria um erro da inteligência prévio a toda ação má resultante de escolhas livres, ou seja, um erro anterior ao exercício da vontade enquanto apetite do bem. Para resolver a questão, o Aquinate precisou ultrapassar a psicologia aristotélica, em cuja fonte bebera desde a juventude, e desenvolveu uma teoria da eleição que poderia aplicar-se à doutrina do Estagirita apenas se considerarmos o homem no estado de natureza decaída. Mas não poderia aplicar-se ao homem no estado de pureza espiritual em que saiu das mãos do Criador.


Para explicar a possibilidade de o homem no estado de inocência pecar, o Aquinate utiliza o tesouro da metafísica do ser por ele elevada a um grau de perfeição teorética difícil de igualar. Questão que pressupõe um problema ainda mais dificultoso: a da possibilidade de Lúcifer pecar, sendo ele um Anjo que, devido à sua natureza espiritual, não poderia cometer erro tão grosseiro de acreditar que poderia ser como Deus. Celestino pinça da obra de Santo Tomás a conclusão genial: Lúcifer quis assemelhar-se a Deus tão-somente no que diz respeito ao governo sobre as demais criaturas. Mas jamais a sua elevada inteligência poderia fazê-lo supor que poderia ser como Deus quanto ao ser.


Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino se insere entre o que de melhor o neotomismo produziu no século XX — o que não é pouco, se considerarmos a imensidão das obras de Gallus Manser, Garrigou-Lagrange, Santiago Ramírez, Joseph Gredt, Édouard Hugon e outros. Obra de escola, sem dúvida, mas que não se limita a reproduzir os textos do mestre medieval, pois Celestino aproveita o caminho trilhado pelo Doutor Comum em questões perante as quais hesitaram Sócrates, Platão e Aristóteles, para mostrar como, no ato do pecado, a desarmonia das tendências humanas propicia à inteligência julgar como bem o que é mal.

sábado, 9 de junho de 2012

Exemplares do livro do Pe. Canderón esgotados!

Sidney Silveira

Agradecemos a todos os que solicitaram neste sábado o livro Umbrales de la Filosofía, do Pe. Álvaro Calderón. Os exemplares se esgotaram em poucas horas! Os compradores receberão na próxima segunda-feira (11/06) um email com a indicação da conta-corrente para depósito.

Informamos que o email contatoangelicum@gmail.com continuará a receber os pedidos do livro de Celestino Pires, Inteligência e Pecado em Santo Tomás. No decorrer da semana, os que já nos enviaram mensagem solicitando a obra receberão uma resposta indicando uma outra conta-corrente para depósito.

Saudações a todos.

"Los umbrales de la filosofía", do Pe. Calderón




Sidney Silveira

Para o mesmo email contatoangelicum@gmail.com (por meio do qual estamos realizando as vendas de Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino, de Celestino Pires) podem ser enviados os pedidos para aquisição do livro Umbrales de la Filosofía, do Pe. Álvaro Calderón — que será vendido ao valor de R$ 40,00 (incluído o frete), numa promoção para os 12 exemplares que temos conosco. Portanto, apenas os 12 primeiros que nos enviarem mensagem poderão adquirir esta densa obra do Pe. Calderón, verdadeiro tratado de lógica tomista. Presumo que todos esses exemplares estejam vendidos ainda neste sábado!

Aos que estiverem interessados na aquisição desta obra, pedimos que coloquem no assunto do email: Livro do Pe. Calderón.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

David Hume, Charles Darwin e o acaso em Santo Tomás


Sidney Silveira
Trecho de aula em que se citam a gnosiologia de Hume, aspectos do evolucionismo darwinista (com menção à fraude do Homem de Piltdown) e o conceito de acaso segundo Tomás de Aquino.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Informações para compra do livro "Inteligência e Pecado em Santo Tomás"


Sidney Silveira

Inteligência e Pecado em Santo Tomás de Aquino, do teólogo Celestino Pires, é um denso estudo que aborda em profundidade a antropologia e a gnosiologia do Doutor Comum da Igreja. Trata-se de uma obra-prima produzida pelo tomismo na década de 60, em período anterior à tsunami conciliar.

Desta vez, faremos apenas venda direta (além da distribuição por algumas poucas livrarias cariocas), porque um projeto modesto como o nosso não pode submeter-se a um mercado distribuidor funesto, que chega a cobrar dos pequenos editores 60% do valor de capa.

Portanto, os interessados em garantir o seu exemplar devem manifestar seu interesse escrevendo para contatoangelicum@gmail.com e informando nome e endereço completo (incluindo o CEP), para calcularmos o envio do livro, o que será feito pela modalidade PAC dos Correios, a qual garante a entrega. Responderemos em poucos dias, com as informações de depósito em conta.


O valor da obra é R$ 61,00.


Como a tiragem inicial é de 350 exemplares, garanta o seu! E ajude o nosso projeto, que tem a previsão de lançamento do próximo livro — já também pronto: As Heresias de Pedro Abelardo, de São Bernardo de Claraval — assim que as vendas do livro de Celestino garantirem o pagamento dos custos gráficos, de editoração eletrônica, etc.


INFORMAÇÃO RELEVANTE: quem comprar diretamente terá desconto de 10%.

sábado, 2 de junho de 2012

A neurose na filosofia: o reino da auto-exaltação



“Não há talento que ele não degrade / Não há ciência e saber que ele, à porfia, / Não ache aquém de sua majestade”.


Emílio de Meneses



Sidney Silveira

Dizia Adler que o neurótico é vítima da realidade imaginária que elegeu como diretriz ou finalidade de vida. Em síntese, é o sujeito que escolhe um fim fictício para dar sentido à existência e busca satisfazer, simultaneamente, as exigências do mundo real e desse universo por ele inventado, mantendo-se cativo de uma tormentosa ambivalência.

Expliquemo-nos: em seus devaneios de grandeza, o neurótico aspira a coisas superiores, sublimes, mas esconde um radical sentimento de inferioridade que precisa ser — de alguma forma — compensado. Ele então cria um sofisticado sistema de mentiras para si mesmo e para as demais pessoas, por meio do qual manipula as próprias faculdades intelectivas e as coloca a serviço da finalidade quimérica produzida por sua imaginação. Daí afirmar Adler que o neurótico é, ao mesmo tempo, ambicioso e pusilânime: cobiça coisas que lhe dão um sentimento de quase divindade, mas sequer tem coragem de olhar-se no espelho da consciência.

É claro que essa falta de coragem é também dissimulada, pois o neurótico habilmente sufoca a consciência para apresentar as razões de seus ataques contra Deus e o mundo — justificar o perene ultimate fighting em que, inevitavelmente, transforma as suas relações com quaisquer pessoas que ponham em risco a sua fantasiosa auto-imagem. É como um sujeito mirrado, esquálido, que tresloucadamente se visse refletido no espelho como um gladiador invicto. Como se pode deduzir, a eriçada susceptibilidade do neurótico é a exata medida desse desajuste entre realidade e ficção, produto de uma vaidade sem limites que o faz considerar como “rivais” todos os que não contribuam instrumentalmente para a sua exaltação, indesejáveis oponentes a ser esmagados, destruídos a qualquer preço.

Tortuoso idealista, o neurótico é um Quixote cujos moinhos de vento são fruto de uma meta quase inconsciente: mascarar o seu complexo de inferioridade com o aplauso do mundo. Há, portanto, uma cupidez em toda neurose, pois o núcleo do caráter neurótico e todos os movimentos anímicos que dele emanam estão a serviço de uma confortante sensação de superioridade traduzida em sua pletórica auto-afirmação — que normalmente ocorre em detrimento de toda possível e incômoda afirmação das demais pessoas. Estas, na mente doentia do neurótico, não podem de forma alguma empanar o seu brilho, mitigar a sua “luz”. Desgraçadamente, tal sensação de superioridade não é outra coisa senão a atualização do medo atroz que o neurótico tem de olhar para si mesmo.

O riquíssimo universo interior da alma humana, ao qual Santa Teresa de Ávila chamava castelo interior, é dramaticamente empobrecido na pessoa neurótica. Daí ela tornar-se incapaz de estabelecer relações saudáveis, ou seja, relações que não sejam uma constante referência aos seus próprios talentos e feitos, reiterados cabotinamente ad nauseam. Nas palavras de Rufolph Allers, o neurótico padece de uma espécie de conflito metafísico, configurado na rebeldia interior que o transforma em alguém impossibilitado de aquilatar a realidade de forma objetiva. Em suma, ele abole as leis do mundo real por um arbitrário decreto de sua vontade hipertrofiada — vontade excitada pelo voraz anseio de superação de tudo e de todos, o que necessariamente lhe causa conflitos em progressão geométrica. Como se pode ver, por trás da neurose concebida nestes termos, há aquilo que a sã teologia católica sempre chamou de soberba.

É possível entrever, na história do pensamento humano, o neurótico por trás de muitas teorias erigidas sob a égide de uma pueril tentativa de destruição de tudo o que até então foi feito. Em poucas palavras, enfronhado nas coisas do espírito, o neurótico é o hipercrítico que, para exaltar-se, joga a criança fora com a água do banho — ou seja: desconstrói as realizações do passado com o mal-disfarçado propósito de colocar-se como “reinventor da roda”.

Alguns exemplos são bastante significativos:



Ø para Descartes, é evidente que a filosofia estava esperando por sua dúvida metódica pautada em “idéias claras e distintas”, pois ele deixa bem claro que, até então, não as havia;


Ø Hume diz modestamente que o seu trabalho filosófico é análogo ao que Newton fez com a física: uma reviravolta completa, portadora de novas luzes para a filosofia;



Ø Kant, que despertara do “sonho dogmático” lendo Hume, afirma estar realizando nada menos que uma revolução copernicana. De fato a sua obra representara uma revolução, porém no sentido pejorativo, devido à total desarticulação entre a inteligência e a realidade implicada em seu criticismo;



Ø Heidegger “descobre” que, desde os pré-socráticos até ele — obviamente —, toda a história da filosofia esqueceu-se do ser e só abordou o ente (vê-se, aqui, como o autor alemão, que lera Santo Tomás, não o conseguiu compreender);



Ø Husserl afirma que o seu método da redução eidética é inédito e trará novos horizontes para o filosofar;



Ø Xavier Zubiri tenta demolir a noção aristotélica de substância e a teoria tomista da abstração, mas, com a sua inteligencia sentiente — apresentada como novidade gnosiológica ímpar, embora seja uma roupagem nova para uma mescla de teses presentes na filosofia medieval —, engendra aporias sem fim;



Ø Nietzsche, que se autoproclama um profeta cuja obra está muito além do seu tempo, quer não apenas pôr abaixo quase tudo o que foi feito até então, mas ser ele próprio o vértice de uma transvaloração de todos os valores, que prenunciará o homem do porvir;



Ø Freud acredita piamente que a sua psicanálise é o último elo do desenvolvimento pós-moral do homem;



Ø Sartre, afetando um desdém superior em relação a dois milênios de tradição cristã, leva as premissas fenomenológicas de Husserl e Heidegger às últimas conseqüências e estabelece um niilismo demolidor e sem saída. Nada mais.


Pois bem. Olhadas através de uma lupa crítica, as teorias engendradas por esses e outros precursores do mundo contemporâneo padecem de incongruências reveladoras do estado mental que lhes serviu de substrato, no momento em que estabeleciam as suas principais teses. Mas ainda está por ser feito um acurado estudo psicológico que demonstre cabalmente tratar-se de teorias filhas da neurose, ou seja, nascidas de transtornos narcísicos em que o padrão de grandiosidade resulta num corrosivo e infértil afã de novidade.

Teorias que provêm de uma desordem do caráter nascida do mais delirante egocentrismo, e, portanto, incapazes de se elevar à instância noética onde repousa a Verdade — imaterial, una, indivisa, imutável, sem contradições de nenhuma ordem.