quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Tira-gosto do livro “O Êxtase da Intimidade”

Sidney Silveira

Quem já participou do processo de edição de um livro (revisão dos textos, diagramação, capa, etc.), sabe muito bem o trabalho que dá. Mas se o livro é acalentado com todo o carinho e inserido num projeto de divulgação da obra de Santo Tomás de Aquino, como é o caso das obras do Aquinate ou sobre ele que a Sétimo Selo edita, esse trabalho é sempre prazeroso. Assim está sendo com O Êxtase da Intimidade – Ontologia do Amor Humano em Tomás de Aquino, do filósofo espanhol Juan Cruz Cruz, que em nossa edição terá mais de 300 páginas.

Como tira-gosto deste denso trabalho filosófico que virá à luz em breve, transcrevo a seguir um trecho de sua Introdução:

“(...) Se deixarmos de lado os efeitos “negativos” sobre o corpo que proverbialmente foram atribuídos ao êxtase (a imobilidade marmórea dos membros, a insensibilidade dos órgãos perceptivos, a comoção alegre ou temerosa do rosto alucinado, os eflúvios luminosos no rosto e nas mãos, o calor interior, a leveza ou levitação corporal e, em outros casos, o peso dos membros), fixando-nos nos efeitos que produz sobre a alma, que são os mais importantes no nosso caso, havemos de dizer que, segundo a tradição ocidental, o êxtase provoca um aguçamento da faculdade intelectual e da volitiva para penetrar numa realidade mais elevada. Aguça-se a inteligência para chegar, mediante uma simples visão e com evidência cabal, sem necessidade de fatigantes raciocínios, a uma realidade extramental inaudita — passada, presente ou futura — mas verdadeira, adquirindo inclusive idéias antes inexistentes na alma. Oferece-se a própria vontade à nova realidade, que se apresenta iluminada e sustida pela inteligência. (...) Dos efeitos espirituais do êxtase, o mais importante, segundo o Aquinate, é o concernente à vontade, que é transformada no bem que se lhe apresenta. Assim, o êxtase sobrenatural é explicado como um efeito da ação divina que alarga a inteligência e provoca o amor da vontade; de modo que faz parte da contemplação perfeita, ou seja, de um conhecimento essencialmente amoroso. (...) O amor é uma “saída” que o sujeito faz com sua vontade, guiada pela inteligência — núcleos da intimidade —, para o amado, vislumbrado este como bem perfeito, real”.

O obra de Cruz Cruz é densa e permeada de conceitos filosóficos dos mais abstratos, não apenas extraídos da obra do Aquinate, mas da de outros filósofos e também de sua própria lavra; nela acham-se trechos luminosos como este. A análise das causas e dos efeitos do amor na alma é fina, como não poderia deixar de ser em se tratando de alguém que se dedica há anos a estudar a obra deste grande gênio medieval.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Trecho de um prefácio: artigos do Contra Impugnantes serão reunidos em livro

Sidney Silveira

Filosofia de Combate

O tomismo e a dissolução das idéias

no mundo pós-moderno

TOMO I

Prefácio

Embate de idéias e labor filosófico

“Nem Deus pode dar nem o homem pode receber

nada mais excelso do que a verdade”.

Plutarco

A história da filosofia é a história de querelas. Os exemplos são incontáveis e remontam a tempos imemoriais: os filósofos da Natureza, na Grécia Antiga, divergiam acerca do princípio de todas as coisas, altercando entre si nem sempre com a parcimônia que se presume deva ser a reitora das discussões entre os homens de saber; posteriormente, torna-se antológico o embate de Sócrates e do seu discípulo Platão com os sofistas que começavam a ganhar terreno na então recém-criada democracia ateniense; citem-se também as abissais divergências entre duas correntes dos chamados “socráticos menores”, os cínicos e os cirenaicos, no tocante à busca da felicidade; Aristóteles, por sua vez, em diferentes obras põe abaixo uma série de conceitos dos seus predecessores, erigindo novos estatutos epistemológicos para o filosofar; Epicuro, no período helenístico, ateia fogo na luta de idéias com sua filosofia hedonista, que, não sem aporias insanáveis, via no prazer o fim último da vida humana; os estóicos contrapõem tal visão a uma proposta que colocava nos vícios o mal absoluto, chegando ao extremo de condenar toda e qualquer paixão como má em si.

Nas épocas seguintes, movimentos pendulares em torno de alguns temas levaram muitos pensadores importantes a posições contrapostas não raro belicosas, pois se tratava de visões de mundo tendentes a se digladiar — e por uma razão muito simples: levadas às últimas conseqüências, elas propunham modelos civilizacionais (ou mesmo anticivilizacionais) que não poderiam coexistir pacificamente. Com o advento do Cristianismo e sua cosmovisão alimentada pela mensagem evangélica, as disputas filosóficas acirram-se, pois entram em cena as verdades de ordem sobrenatural [1] a ser custiodiadas primeiramente por um conjunto de homens de língua grega — hoje conhecidos como Padres da Igreja — e depois pelo Magistério eclesiástico, cioso em combater as heresias que punham em risco a salvação das almas.

Da Patrística Grega à chamada Alta Idade Média, a filosofia conhece uma espécie de cume na resolução de alguns dos problemas capitais da condição humana, não sem que os amantes da sabedoria, na defesa das suas posições, deixassem de controverter com maior ou menor contundência na busca da verdade filosófica, ou, então, na tomada de posições teológicas que, de uma forma ou de outra, abarcavam um enorme conjunto de questões atinentes à vida política, à pedagogia, à noção de liberdade, de amor, de ciência, etc. Sulcada, pois, por divergências profundas entre homens de escol, a filosofia segue o seu caminho histórico em meio a uma espécie de monumental disputatio dialética, em que os argumentos de uns se contrapõem às objeções de outros, incessantemente.

Como afirma Santo Tomás de Aquino em uma de suas obras, ao se contemplar este cenário olhando amiúde para os principais esforços filosóficos do passado, vê-se que algo de grandioso se fez — à custa dos avanços e retrocessos que sempre servem de base para futuras conquistas. Ora, tal riqueza provém do fato de que a verdade, dada a inesgotabilidade da fonte de que emana (o Próprio Ser), é também ela inexaurível, razão pela qual o Aquinate afirma, no começo do seu Comentário ao Credo, que nenhum filósofo jamais conseguiu esgotar sequer a essência de uma mosca.[2] Isto nos leva a pensar que, por trás de toda verdade descoberta, sempre haverá uma salutar zona de mistério, de algo por saber. [3] Em suma, sendo o conhecimento a posse imaterial dos entes pela inteligência, cada forma inteligível de que o homem se apossa apontará inelutavelmente para novas regiões de inteligibilidade, numa incomensurável espiral de coisas cognoscíveis que reflete a infinitude do Ser divino, do qual os entes participam.[4]

Seria ocioso enumerar ad nauseam todos os combates travados ao longo de séculos sem fim, mas alguns são parte importantíssima da história das idéias filosóficas e merecem ser citados, como o de Agostinho contra os maniqueus, o de Porfírio, discípulo de Plotino, contra os cristãos, as lutas entre hereges e doutores da Igreja, como a que se travou entre Abelardo e São Bernardo de Claraval, [5] assim como as discussões teológicas entre dominicanos e franciscanos, no seio da Igreja, que gerou rusgas até mesmo entre santos: o próprio Tomás de Aquino dá a entender que São Boaventura é um dos “murmurantes” aludidos na densa obra De unitate intellectus, de cariz metafísico, escrita para combater os averroístas — então considerados, e com justíssima razão, como deturpadores da obra de Aristóteles em várias teses que, ultrapassando os umbrais da filosofia, acabavam por colocar em perigo a fé. Estava-se no ápice intelectual do século XIII, tempo de turbulência política e de esplêndida efervescência filosófica e agudeza espiritual.

Após o Renascimento, que, como dizia jocosamente G. K. Chesterton, foi a morte de muitas coisas boas, o embate filosófico ganha novos contornos, bem mais acirrados, entre as posições antagônicas em cena. Agora, de um lado está a Cristandade em lento declínio filosófico e teológico, desde a escolástica tardia — que havia preparado, com grande sofisticação, o giro antropocêntrico da modernidade, a partir de Duns Scot [6] e Guilherme de Ockham —, e de outro a nova visão de mundo de um humanismo que se quer autônomo em relação a Deus e, a fortiori, à religião. Neste cabo-de-guerra civilizacional, acaba por prevalecer o espírito moderno que, alguns séculos depois, engendrará o Estado laico e as democracias liberais paridas na Revolução Francesa. Na perspectiva católica, trata-se de um espírito de retrocesso e apostasia, de uma brutal reação da carne às duras exigências do espírito, como afirma o Pe. Álvaro Calderón, um dos maiores teólogos da atualidade, no livro A Candeia Debaixo do Alqueire. [7]

O fato é que, no largo período histórico que vai de Descartes até o final do século XX, com episódicos lampejos geniais a filosofia vai materializando-se em obras de pensadores que constroem as suas teses atacando tudo o que foi produzido até então. É verdadeiramente impressionante como o novo sestro de erigir destruindo passa a caracterizar o modo do filosofar humanista, refletido num pensar fragmentário e na divisão — muitas vezes problemática — entre os saberes. Não se trata mais de um simples combate entre posições contrapostas, como até então ocorrera, mas de uma tentativa de reconstrução total que implode sem dó nem piedade um tesouro filosófico acumulado ao longo de milênios, não obstante resgatando aqui e ali as teses que parecem dar força ao novo homem forjado pela modernidade, confiante na ciência e no progresso material e cada vez mais fechado à transcendência.

(o restante do prefácio poderá ser lido no livro, que deverá ser apresentado no final deste ano, pois antes há outras obras por editar. Serão artigos do Contra Impugnantes e outros inéditos, reunidos em uma obra que, a contar pelo que já se tem, deverá ultrapassar as 1.200 páginas)

[1] Em vários artigos da presente obra se fará menção ao conceito de “sobrenatural”, tão importante para a teologia de Tomás de Aquino.

[2] “(...) sed cognitio nostra est adeo debilis quod nullus philosophus potuit unquam perfecte investigare naturam unius muscae”. Santo Tomás de Aquino, Expositio in Symbolum Apostolorum, Proêmio.

[3] Nem mesmo na visão beatífica da essência divina, de acordo com Tomás de Aquino, os bem-aventurados lograrão o conhecimento completo, exaustivo, do ser. Isto porque a respeito de Deus, que é o Próprio Ser, nenhum homem pode chegar a conhecer tudo; somente um intelecto infinito em ato poderia conhecer totalmente o Ato Puro infinito do Ser divino — daí concluir-se que só mesmo Deus pode conhecer-Se com perfeição; só Ele pode saber absolutamente tudo, ao passo que o intelecto humano é mera potência para os inteligíveis.

[4] O conceito de participação tem origem platônica e foi aperfeiçoado por Santo Tomás de Aquino, que fez uma original síntese dele com a metafísica aristotélica do ato e da potência. À rica noção de participação recorremos em diferentes artigos que se seguirão.

[5] No calor desta famosa disputa, Bernardo de Claraval escreveu As Heresias de Pedro Abelardo (Hæresum Petri Abælardi), obra em que enumera, uma a uma, as teses de Abelardo contrárias a um grande conjunto de verdades de fé, usando para isto de seu poderoso poder de persuasão, fundado em uma límpida lógica argumentativa e na retórica demolidora de sua pena.

[6] A influência de Duns Scot sobre a filosofia moderna e contemporânea, por exemplo, é imensa — embora pouco conhecida. No artigo da presente coletânea intitulado Duns Scot, o ancestral da modernidade, são elencadas algumas teses deste metafísico do século XIV que, direta ou indiretamente, forjaram muitas filosofias dos séculos que se lhe seguiram.

[7] Obra editada no Brasil pelo Instituto Angelicum, em parceria com o Mosteiro da Santa Cruz, de Friburgo (RJ) e a editora Sétimo Selo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Novidades “Contra Impugnantes”: livros e DVDs à vista





Sidney Silveira
Por estes dias não tenho conseguido responder a emails nem postar novos textos. Entre outras coisas, estou envolvido com a editoração do próximo livro da Sétimo Selo, já em processo de finalização do arquivo:

O Êxtase da Intimidade – a Ontologia do Amor em Tomás de Aquino, do filósofo espanhol Juan Cruz Cruz.

Em breve, os nossos leitores terão notícias do lançamento desta obra.

Outra coisa que me tem tomado tempo é a tardia finalização da apresentação ao Protreptico, de Clemente de Alexandria, que editaremos em uma tradução da professora de grego Rita Codá — obra que a Sétimo Selo lançará em seguida a'O Êxtase da Intimidade; por fim, rouba-me também um tempo a preparação dos dois próximos DVDs da série A Síntese Tomista.

Peço, pois, aos que me têm escrito um pouco de paciência — e incluo entre estes algumas pessoas que, na última semana, fizeram o pedido dos primeiros DVDs da referida série. Em no máximo dois dias começarei a responder às mensagens.

Enquanto isso, posto aqui no blog umas fotos (acima) que pensei estarem perdidas — mas graças a Deus hoje as encontrei numa pasta de arquivos de um notebook: trata-se do lançamento, em 2009, do curso que eu e o Nougué ministramos no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio, cujos trechos de aulas estão em vários links no Youtube.

Saudações a todos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Imagens do triunfo da razão "sub lumine fidei"




Sidney Silveira
Meu irmão acaba de voltar de Paris e me regala com a foto acima do quadro O Triunfo de Santo Tomás, de Benozzo Gozzoli, que está no Louvre. Olhar o quadro assim na parede, com a moldura, emocionou-me, pois estou acostumado apenas a vê-lo na internet. Esse painel ficava na parte traseira da poltrona do Bispo de Pisa — na catedral daquela cidade italiana —, antes de parar no Louvre. Apenas não confundamos, por causa do título, essa imagem com o afresco renascentista intitulado O Triunfo de Santo Tomás sobre os heréticos, de Filippino Lippi (filho de Filippo Lippi, outro grande nome da época), a segunda das pinturas acima. Este último encontra-se na Igreja de Santa Maria sopra Minerva, único templo gótico de Roma, pertencente aos dominicanos. As duas iconografias já ilustraram outros textos do Contra Impugnantes. Há ainda outro afresco intitulado O Triunfo de Santo Tomás, na basílica dominicana de Santa Maria Novella, em Florença (a primeira das três obras acima), na chamada capela espanhola, inserido num contexto de imagens que mostram a Igreja militante e a Igreja triunfante.
Em tempo: No afresco de Lippi, diferentemente do que eu havia afirmado de forma errônea noutra ocasião, as quatro figuras femininas ao lado do Aquinate não são as virtudes cardeais, mas representam a filosofia, a astronomia, a teologia e a gramática.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Nova edição da "Ave Maria Expositio", de Santo Tomás


Sidney Silveira
Gratíssima surpresa tive eu ainda agora ao deparar, numa livraria aqui do Rio, com a nova edição da tradução de Omayr José de Moraes Júnior do Comentário à Ave-Maria, de Santo Tomás. Uma obra-prima do Aquinate que deve ser lida por todos os estudiosos de sua obra. O livro está à venda neste link da editora Musa. Comprei o meu exemplar para dar de presente a uma pessoa muito querida.

Parabéns, Omayr! Se, por razões totalmente alheias à minha vontade, esta sua tradução não saiu pela Sétimo Selo (assim como outra, de um trecho do colossal De Veritate), em verdade isto não quer dizer nada, é palha; o importante é que Santo Tomás ganhe no Brasil o maior número de edições como esta, enriquecidas com boas notas.

O Papa na Roma bombardeada


Sidney Silveira

Em 19 de julho de 1943, a cidade de Roma começou a ser criminosamente bombardeada pelos aliados norte-americanos (causando mais de duas mil mortes, ao final de todos os ataques), malgrado os apelos do Santo Padre para que as forças em litígio poupassem as populações civis e os lugares sagrados. Em vão. Na imagem acima, uma foto do Papa Pio XII (que salvou muito mais judeus do que Oskar Schindler, e não apenas não recebeu crédito nenhum por isto, como passou ignominiosa e injustamente para a história como uma espécie de covarde político) no bairro San Giovanni, na Cidade Eterna — um mês após o bombardeio, clamando aos céus por paz. Colhi-a no site do amigo Allan Lopes.

Neste link, indico um texto interessante do Memorial dos Quatro Santos Coroados sobre Pio XII, e neste outro, um vídeo com imagens do bombardeio — tanto em tomadas aéreas, como de suas conseqüências em terra. Nesse vídeo de ótima qualidade aparece o Papa no momento em que a foto acima foi tirada. Para dimensionar o estrago, vale ainda ver este outro vídeo, desta vez da cidade de Terni — na Úmbria — devastada pelas bombas aliadas em 11 de agosto do mesmo ano.

E para quem acha que no amor e na guerra vale tudo, não custa remeter-nos a um texto do Contra Impugnantes em que se mostrava o pensamento do Aquinate sobre a guerra, em linhas gerais...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A tentação filosófica: “ancilla malorum"

Sidney Silveira

O fim da tentação diabólica, de acordo com Santo Tomás, pode ser vislumbrado numa dupla perspectiva: o fim último, que é simplesmente induzir os homens ao pecado e afastá-los de Deus; e o fim próximo instrumental, que é saber a que vício está mais inclinado um homem, para poder arrastá-lo ao pecado pela sedução (In. II. Sent. d.21.). Numa série de questões do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, o Aquinate demonstra que, na tentação proveniente do demônio ou do mundo, não há absolutamente nenhum pecado da parte de quem é tentado, mas a tentação da carne sempre traz consigo algum pecado — venial —, pois “não é só a carne que deseja, mas o conjunto [psicofísico humano], razão pela qual a tentação da carne [já] é pecado no que é tentado” (non enim sola caro concupiscit, sed conjunctum: et ideo talis tentatio est peccatum in eo qui tentatur). Tal doutrina do Aquinate certamente parecerá dura para a susceptibilidade do catolicismo contemporâneo*.

Não tenhamos porém excesso de escrúpulos, pois o próprio Doutor Comum nos lembra, na mesma questão, que nesta vida o homem não pode livrar-se das tentações da carne ao ponto de não ter nenhuma (homo non possit vitare tentationem carnis ita quod nullam habeat), até porque a tentação da carne implica a apreensão do bem deleitável pelos sentidos externos ou internos, e às vezes deparar com bens desta ordem é inevitável — sobretudo no mundo atual, orbitante em torno de fetiches e taras mil, às escâncaras, o que induz a imaginação a devanear. Convém, pois, neste ponto salientar que uma coisa é a tentação da carne, em sentido próprio (simpliciter), outra muito distinta são os deleites involuntários que ocorrem quando certos bens sensuais** aparecem aos olhos do cristão sem que ele os procure. Neste último caso não há sequer pecado venial, desde que logo ele desvie o olhar para fugir à tentação e não se meter em ocasião de pecado.

Assim, embora a tentação da carne (não confundida com o deleite involuntário) já traga consigo um pecado venial interior, pois implica voluntariedade em algum grau — o que aumenta a desordem da potência sensitiva interna da imaginação e predispõe ao ato exterior pecaminoso —, as tentações que visam às potências superiores da alma são muitíssimo mais deletérias e perigosas, pois se peca muito mais gravemente por soberba do que por paixão, e as tentações a que nos referiremos agora colocam-nos sob o risco de pecar por soberba — aparentando-nos, assim, ao inimigo da nossa salvação. Ora, o pecado de soberba é mais incompatível com a ação da graça do que o pecado da carne, dada a sua imensa gravidade, razão pela qual o soberbo tende a pecar habitualmente contra o Espírito Santo, e, neste caso, a remissibilidade dos seus atos é um verdadeiro milagre, de acordo com alguns dos maiores teólogos que a Igreja já produziu.

Uma dessas tentações mais sérias se dá propriamente com relação ao conhecimento, e, por conseguinte, à potência intelectiva. Chamemo-la de tentação filosófica, à qual tantos estudiosos sucumbiram. Se verificarmos bem a história da filosofia dos últimos 450 anos (mirando algumas teses dos mais famosos pensadores), observaremos até com certa facilidade como inúmeros homens doutos caíram em tentação filosófica, perpetrando verdadeiros absurdos contra a verdade e o senso comum, em geral para ser vistos como ‘originais’ aos olhos do mundo — como fica patente ao frisarem que as suas doutrinas eram novíssimas e punham abaixo o que fora feito até então: Descartes, Locke, Berkeley, Hume, Kant, Hegel, Schopenhauer, Bergson, Nieztsche, Husserl, Heidegger, Sartre, o ex-sacerdote Xavier Zubiri, etc. Algumas teses destes famosos perscrutadores das coisas filosóficas são tão abstrusas, mas tão claramente abstrusas, que não se pode chegar a elas sem algum grau de malícia ou ignorância culpável.

O Monsenhor Octavio Derisi, importante tomista argentino, demoliu muitas dessas teses em dois livros — Filosofía moderna y filosofía tomista e Tratado de existencialismo y tomismo —, mas não é o nosso propósito enumerar as suas refutações aqui, pois já o fizemos em outros textos do Contra Impugnantes. Por ora, importa-nos apenas fazer referência à tentação filosófica na mais grave das matérias em que se pode dar: nas coisas teológicas. Ora, se a matéria em que se dá o pecado é um dos fatores que especificam a sua gravidade, será tão mais grave cair em tentação filosófica quanto mais essa tentação aproxime o homem da possibilidade de dizer mentiras ou erros a respeito das coisas de Deus. É possível, neste caso, chegar até a mentira que Santo Agostinho classificara, no livro De Mendacio, como a mais nefanda de todas: a mentira religiosa — a que gera, ao fim e ao cabo, os heresiarcas inventores de falsas religiões, os cismáticos e os heréticos.

Infelizmente, com o fim do Index e com a revolução proveniente do Vaticano II, a Igreja deixou de se manter vigilante com relação a erros filosóficos — tanto assim que hoje os anátemas praticamente inexistem nesta matéria (e em qualquer outra, aliás). Quando muito, vemos uma recomendação discreta contra alguma leitura daquelas mais claramente loucas, mas a regra é ensinar nos seminários doutrinas gravemente atentatórias à fé, como se a sua assimilação acrítica já não constituísse, em si, um terrível dano para a inteligência dos futuros padres.

Não à-toa muitos sacerdotes hoje se tornam kantianos, hegelianos, bergsonianos, gadamerianos, espinosistas e até mesmo heideggerianos, tentando sintetizar em suas teses acadêmicas doutrinas contraditórias entre si, para tentar salvar algo da fé; mas os que levam as suas idéias às últimas conseqüências acabam abandonando a batina e/ou os votos de suas respectivas ordens. Ou, então, simplesmente passam a querer moldar a fé ao seu modo de vida. Ademais, como escritores ou filósofos são eles realmente incríveis: outro dia reli o texto de um ex-padre sobre Emmanuel Lévinas, e realmente ali não se dizia lé com cré. Ora, que ex-sacerdotes metidos em estudos filosóficos se tornem formalmente heréticos não é novidade, mas algo conseqüente com a sua apostasia***.

Outra coisa: este afastar-se da fé induzido por estudos equivocados ou feitos sem ordem não acontece apenas com futuros padres, mas também com os simples fiéis que estudam filosofia. Muitas vezes eles se alimentam de idéias que mais confundem a mente do que infundem nela algo de bom, e não admira mesmo tornarem-se uma espécie de sincretismo teológico ambulante — fazendo verdadeiros volteios e malabarismos lógicos para dar razões ao non sense.

Aos católicos que estudam filosofia, acima de tudo, o conselho prudencial é de que se enfronhem na obra de Santo Tomás antes de se ‘especializar’ neste ou naquele autor. Isto será um grande antídoto contra teorias engambelantes. Outra norma: se filósofos não-católicos se metem a escrever ou falar sobre as coisas da Igreja, o primeiro movimento com relação a eles deve ser de total desconfiança, é claro. A regra nestes casos é moldarem as coisas santas a seu ecletismo filosófico, e depois de certo ponto o dano será de ordem tal, que consertá-lo será quase um milagre. A filosofia de homens assim jamais poderá ser ancilla theologiae, até porque estão fora da fé — quando muito são "católicos de batismo" —, mas sim ancilla malorum, como se diz no título deste breve texto. Sobre algumas teses por eles perpetradas falaremos noutra oportunidade.

Que Deus nos livre de cair em tal tipo de tentação, cujas conseqüências são dramáticas para a alma.

Amém!

* Cito aqui Santo Tomás ipsis verbis, para não parecer que tirei tal idéia da minha cabeça. De toda forma, vale frisar que concordo inteiramente com ele neste ponto.

** A licitude ou ilicitude do gozo de um bem sensível depende, para Santo Tomás, de três coisas: da regra da reta razão, da lei natural e da lei eterna. Se o deleite proveniente da sensualitas agredir a uma destas três coisas, o gozo será ilícito.

*** O citado Xavier Zubiri, por exemplo, nos deixou textos sofiscadíssismos sobre a Eucaristia. A sua tese é a da “transubstantivação”, que segundo ele ocorre em lugar da transubstanciação definida solenemente pelo Concílio de Trento como Dogma. A propósito, num conhecido texto, lembra-nos Zubiri que São Boaventura e Santo Tomás divergiram neste ponto, e afirma que, para São Boaventura, não há presença de Cristo senão enquanto o pão é ‘alimento’, e não simplesmente no pão real — ou seja, na coisa em sua nua e crua realidade. Então discorre o pensador basco: “São Boaventura acreditava que, se um rato comesse o pão consagrado, não estaria comendo o Corpo de Cristo, pois aquele pão não teria para o roedor a ratio alimenti. Santo Tomás, por sua vez, pensou [pensou?] que a presença de Cristo é uma presença no pão enquanto realidade em e por si mesma. Modestamente, acho que São Boaventura tinha razão”. Ora, pelo amor de Deus, Zubiri!!! Santo Tomás não pensou serem as coisas assim, a menos que pensemos nós que os Dogmas são invencionices dos filósofos e podem mudar com o tempo; o fato é que a posterior definição dogmática do Concílio de Trento não deixa margem a quaisquer dúvidas, em seu Cânon 2:

“Se alguém disser que no sacrossanto sacramento da Eucaristia fica a substância do pão e do vinho juntamente com o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou negar aquela admirável e singular conversão de toda a substância de pão no corpo, e de toda a substância do vinho no sangue, ficando apenas as espécies de pão e de vinho, que a Igreja com suma propriedade (aptissime) chama de 'transubstanciação' — seja excomungado.

Ou seja, dizer que Cristo não está de fato sob as espécies do pão eucarístico real, mas apenas enquanto esse pão possui a ratio alimenti para o espírito, é, para dizer o mínimo, uma heresia formal que excomungaria eo ipso quem a defendesse. Na verdade, o fato é que Zubiri — em razão da influência fenomenologista da qual não conseguiu jamais escapar, ao longo de sua trajetória — rechaça como equívoco o conceito aristotélico de “substância” e acaba metendo os pés pelas mãos. São Boaventura ao menos tinha a favor de sua imprecisão teológica o fato de que, em sua época, o Dogma ainda não estava solenemente definido no tocante ao modus dessa Presença Real de Cristo na Eucaristia, mas esta desculpa não serve para o filósofo basco. No fundo, a tese zubirirana com fumos de originalidade (em matéria grave) parece distantemente inspirada na “consubstanciação” defendida por Scot e também condenada pelo Concílio de Trento. A propósito, para o Doutor Sutil não haveria razões teológicas forçosas para aceitar a transubstanciação ensinada pela Igreja, como nos recorda aqui um scotista. Pelo menos Duns Scot dizia exteriormente ‘amém’ à transubstanciação, pois naquele tempo não se ousava contrariar frontalmente o Magistério.

Em tempo: Aproveito para desejar a todos os leitores deste nosso espaço um Santo Natal, repleto do espírito do Menino Jesus.